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Entre a razão e a emoção, com qual você fica?

      O que nasceu antes, a razão ou a emoção? Se você respondeu a emoção, acertou. A emoção precede a razão. Quanto mais desenvolvemos as emoções, melhor raciocinamos. Muita gente sabe isso por instinto, mas faltava comprovar cientificamente. A comprovação foi feita por neurocientistas nos Estados Unidos, na Europa e aqui no Brasil.
    Agora, faço uma provocação: o que é a literatura senão pílulas concentradas de emoção? Dessa simples pergunta, conclui-se que quem lê bastante ficção raciocina melhor. Isso de fato acontece. Outro estudo sobre o cérebro explicou o motivo. Nossa mente não distingue bem a diferença entre a realidade e a fantasia escrita nos livros. Para o cérebro, são quase a mesma coisa o enredo de um romance e um episódio que estivéssemos de fato vivendo. Resultado: aprendemos muito com a fantasia, o que nos ajuda a raciocinar melhor.
     Como se essas vantagens já não bastassem, a leitura ainda lubrifica as estradas de neurônios que produzem os pensamentos, transformando-as em verdadeiras autopistas de grande velocidade. Tanto é verdade que, num estudo recente, constatou-se que os analfabetos e os pouco letrados não ganham o benefício da agilidade dos impulsos neuroniais.
      Uma pena que isso aconteça. Como se vê, o analfabetismo é duplamente cruel com as pessoas, social e mentalmente. Resumindo a questão: se você quer maior rapidez de pensamento busque o entretenimento. O entretenimento da leitura. Ninguém sai o mesmo de um bom livro.
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Aterrissagem no meio do Himalaia

Estava a caminho de Leh, capital do Ladakh, na Índia, fronteira com Paquistão, China e Tibete. Zona conturbada. Bombas, ataques terroristas, brigas entre hinduístas e muçulmanos, ameaças atômicas entre Índia e Paquistão, milhares de refugiados tibetanos. No caminho, a bordo de um Boeing 737, a paisagem do Korakoram, uma das cadeias do Himalaia, me arrebatou. A beleza paga a viagem
até Leh – e deixa troco. Sobrevoei quilômetros e quilômetros de picos
nevados, agudos como se feitos ontem à noite, encostas íngremes, passos
profundos, geleiras, canyons, vales,
morenas. O paliteiro, de tão alto, quase espetava a fuselagem. Naquela vastidão
branca, nunca se acharia um avião que tivesse a insensatez de
cair. A beleza rude, até agressiva, pela insignificância que reduziu a mim e à
máquina que me transportava, misturou fascínio e temor. Depois de me acostumar
com a grandiosidade, percebi a graça do conjunto: o Korakoram é uma bandeja de
suspiros saindo do forno. Suspiros de pedra e gelo.
De repente, um ponto ainda mais
proeminente. É o K2, avisou o piloto, o segundo pico mais alto do planeta e o
mais difícil de escalar. Com arrepios adicionais, dei-me conta de que estava
longe de casa, perto do fim do mundo. Relaxei-me. O fim do mundo é
lindo.
O frio na barriga triplicou quando
enxerguei a pista de Leh, situada a 4000 metros de altitude e cercada por precipícios. Julguei impossível aterrissar um 737 na extensão de
um campo de futebol. E, no final da pista, um monastério budista fazia as vezes de um gol. Nada disso. A
construção estava mais para um goleiro que, em guarda sobre um morro, se
dispunha a cercar tudo que viesse do céu ou da terra.
O piloto manobrou entre os cumes e,
viciado em fortes emoções, literalmente deixou a aeronave despencar. Quando eu
jurava que bateria no solo com a ponta da fuselagem, o Boeing ergueu o nariz.
Tocou o asfalto já com os freios travados, porém com o dobro da velocidade
aconselhável, assim me pareceu, impressionado pela rapidez com que rolávamos.
Eu só pensava no danado do monastério cada vez mais perto e no susto dos monges
budistas que, após o estrondo, encontrariam dentro de casa um bando de corpos
irreconhecíveis.
O avião começou a tremer. Tremeram as
cadeiras, como que arrancadas do suporte, tremeu o teto, tremeu o chão. As
mesinhas dos assentos desprenderam-se, os bagageiros abriram-se, objetos caíram,
um japonês levou uma garrafada na testa, a dor liberou seu pavor num grito
agudo. Na cozinha, pratos espatifaram-se. O carrinho de bebidas se soltou,
avançou sobre os passageiros. Duas aeromoças com os cintos afivelados se
entreolharam, trocaram expressões de pânico. A mais despachada esticou a perna,
calçou as rodinhas com o sapato, resolveu o problema.

Do lado de fora, chegava o urro
ensurdecedor de metal contra metal, qual disco de freio de carro completamente
desgastado. As turbinas assobiavam de tanto soprar o ar com fúria. Os flaps, eu os via a ponto de saltarem
fora da asa. É o fim do mundo para mim, concluí. Vou virar churrasco.
No segundo anterior à tragédia,
veio o cavalo de pau. O 737 rodopiou, cantou pneu, rangeu e, milagre!, ficou
quietinho voltado para o terminal, resfolegante, pálido com a enorme descarga
de adrenalina. O japonês com galo nascendo na testa bateu palmas. Todos a bordo
o acompanharam. Aterrissar em Leh é emoção garantida. Beleza também.
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