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UM SER, DOIS CÉREBROS?

 

 

Aqui estão dois ícones de nossa cultura: a equação de Einstein ” E=mc2 ” e a frase de Shakespeare “Ser ou não ser, eis a questão”.

Qual o mais importante? Existe incompatibilidade entre a arte e a ciência, entre Einstein e  Shakespeare? Uma exclusão necessária e definitiva afasta a Mona Lisa da mecânica quântica? Equações e versos falam de mundos díspares?

De vez em quando, como agora, a velha cisão entre a ciência e a arte volta à tona. Partidários de uma ou outra corrente tentam demonstrar a incompatibilidade entre elas, sua dissociação intrínseca, seus antagonismos, como se artistas e cientistas pertencessem a espécies distintas. Estes, às vezes, desdenham a literatura, enquanto os escritores desancam quem engendrou e construiu a bomba de Hiroshima.

De um lado, o hermetismo de estudos literários deflagra críticas contundentes, respingando sobre a escrita em geral. Um físico famoso, prêmio Nobel, pilheria: “a ciência torna inteligível aquilo que não se sabia; a literatura faz o contrário”. Por sua vez, Walt Whitman, num poema inspirado, despreza os astrônomos e deixa-se perder no sereno da noite, maravilhado ante o silêncio das estrelas.

O êxtase e o espanto diante do universo e da vida não são privilégio de ninguém. As fotos de uma galáxia distante podem oferecer o mesmo arrebatamento de um texto de Machado de Assis. Por que qualificar os arrebatamentos, separando-os, tornando-os excludentes?

Ciência e arte, como qualquer outra atividade, tentam entender nosso mundo, procuram capturar os múltiplos aspectos da dimensão humana. Durante a busca, a criação trilha processos parecidos. Inspiração, raciocínio, emoção, luta contra as dificuldades, cansaço, frustração fazem parte do cardápio comum. Poetas e físicos temem uma folha de papel em branco, à espera de um verso ou de uma equação.

Eis a verdadeira luta, o bom combate. Se o verso e a equação terão valor é uma questão secundária. O valor será, em última instância, estabelecido pela sociedade, e juízos variam com o tempo. Importa, isso sim, criar.

Ainda bem que o gosto por literatura ou por ciência continua, na maioria das pessoas, movido pela curiosidade inata, pelo lúdico, pela extensão do conhecimento sobre si mesmo e sobre o universo, pela captura da emoção e do prazer. Niels Bohr e Guimarães Rosa, cada um à sua maneira, eram sábios.

Não existe incompatibilidade entre a arte e a ciência. Os excessos de uma ou outra são acidentes de percurso, comuns a qualquer atividade. Os êxitos, idem. Afinal, ambas são produtos do gênio humano. E também do gene humano.

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A CIÊNCIA ERRA?

       O século 20 começou com certezas absolutas – e
combateu-as a ponto de questionar a existência da própria realidade. Graças aos
físicos, o mundo ficou de pernas para o ar. A reviravolta começou com Einstein
e a relativização do espaço e do tempo. Qual rolo compressor, suas ideias vêm
influenciando a ciência e a cultura. “Relativizai-vos ou perecei”, ameaça a esfinge
da modernidade, segura da inexistência de um Édipo para enfrentá-la.
     No início do século 20, a Via Láctea significava
o limite do cosmo. Hoje, as imagens do telescópio Hubble revelaram duzentos
bilhões de galáxias. A Terra havia perdido a primazia do centro de tudo, o Sol
não se aguentou no trono por muito tempo, a Via Láctea, menos ainda. E nós, os
seres humanos? De queda em queda, de donos do paraíso terminamos alijados para
um cantinho insignificante do infinito. Resumindo, os físicos nos degradaram, isto é,
degredaram, do absoluto para o nada. Viramos pó. Infinito em pó.
     A insignificância humana contaminou vários
pesquisadores que decretaram o fim das próprias atividades. Depois da
guilhotinada na história feita por Fukuyama, uma idiotice, a ciência também subiu ao cadafalso.
Seus carrascos são ganhadores do Nobel e frequentam a mídia com a desenvoltura
de atores de Hollywood. Gente famosa como Stephen Hawking, Steven Weinberg,
Richard Dawkins e Francis Crick afirma, às claras ou nas entrelinhas, que o
conhecimento está completo em suas linhas mestras. Resta para as gerações
futuras o trabalho de botânicos, ou seja, a busca paciente de espécies de
informação para enquadrá-las nos grandes reinos, filos e classes hoje
definidos. Doravante a ciência vegetará. Adeus, grandes avanços. Adeus,
revoluções.      
     Arroubos à parte, essa visão pessimista – e
triunfalista ao mesmo tempo – tem fundamento? Na verdade, não. O argumento de
que, nas últimas décadas, nada básico se acrescentou à física ou à biologia não
exclui, em princípio, a abertura de novos reinos ou filos na taxonomia da
natureza.
     A morte súbita da ciência, decretada à revelia,
desprovida de elementos para avaliação é, portanto, mero palpite – e palpite
não falta entre os cientistas, de resto seres mortais e sujeitos a erros. Em
alguns congressos, eles divagam mais que amigos em mesa de bar depois da décima
dose. Costumam discutir sexo de anjo com candura bizantina. No Japão,
pesquisaram durante anos a influência das nadadeiras do tubarão na geração de
maremotos.
     Do debate em questão fica, se tanto, o benefício da
dúvida. A mecânica quântica, que maneja a incerteza com perícia, bem poderia
dar-nos uma resposta sobre o próprio fim, aliás, incerto como o início de tudo.
Como a resposta não existe, retomo o degredo humano para um cantinho sem
atrativos do Universo, imposto pelos cosmólogos. De relativização em
relativização, de probabilidade em probabilidade, viramos nada. Há algo mais
absoluto que o nada?
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