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BYE BYE, BRASIL

 

Na época da ditadura, muita gente deixou o Brasil em busca de ares mais respiráveis. Um deles, que conheci nos Estados Unidos, rasgou o passaporte depois que conseguiu o green card, de tanta raiva de ser brasileiro. Jurou que nunca mais pisaria aqui. Não sei se cumpriu a promessa.

No ano que passou, a revoada de brasileiros rumo ao exterior voltou. Em tempos democráticos, a maioria bateu asas por falta de emprego, por medo de ser assaltado e por nojo da corrupção. Alguns me disseram que só verão os parentes e amigos lá fora. Aqui, jamais. O bye bye, Brasil foi definitivo.

É claro que era gente com boa formação acadêmica. Sobretudo jovem. Todo o mundo busca a felicidade, do pobre que tudo investe num coyote que o leve através da fronteira México-Estados Unidos ao doutor que consegue um trabalho mais bem remunerado numa universidade australiana.

Aliás, para o país, perder um doutor é terrível. Doutores, em geral, usam em sua formação a universidade pública. Custam muito para a nação. Os estrangeiros recebem de graça uma mão de obra rara e cara. Quem não a quer? Seria uma solução bloquear a saída dos mais competentes e obrigá-los a aceitar o subemprego ou o desemprego? Ou as pessoas, em tempos de crise, não buscarão sempre o melhor caminho para sobreviver? Eu mesmo não estaria aqui, caso meu avô não largasse a Itália cheia de problemas e viesse fazer a América.

Diante da revoada, alguns países querem pegar os melhores pássaros antes que entrem no alçapão alheio. O Canadá, por exemplo, já marcou uma rodada de exame de currículos de brasileiros em nossas capitais para importar médicos, enfermeiros, engenheiros, terapeutas, técnicos em TI. Os selecionados viajarão com garantia de emprego, segurança e de um governo menos corrupto. Vale repetir: os canadenses receberão de graça a mão de obra que nossos cofres suaram para formar. Perderemos gente qualificada que fará falta para a população.

Sim, estamos em crise. O que não podemos é tentar barrar a tempestade com um discurso de negação. Sim, o problema é grave. Sem mão de obra qualificada, nossa recuperação será mais longa e difícil. Medidas devem ser tomadas para diminuir o êxodo. Proposta de trabalho é a primeira sedução, a mais eficiente. Mas que governo tomará essa iniciativa? Com que dinheiro? Por outro lado, a saída continuará sendo o aeroporto?

Diante do desemprego, da insegurança e da corrupção, boas cabeças continuarão a deixar-nos. O bye bye, Brasil se repete. Sangria desatada. Só podemos lamentar.

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