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A PIPI, O PARAÍSO E OS BILIONÁRIOS DA FORBES

 

 

Fundei a PIPI – Primeira Igreja da Prosperidade Infinita – inspirado por um pedreiro que criou sua própria igreja, “porque igreja está dando muito mais dinheiro que pedreiro”. Nunca vi tanta sinceridade e pragmatismo num futuro pastor. Assumiu o objetivo numa boa, sem esconder nada. Também fiquei com inveja de quatro pastores brasileiros que a Forbes listou entre os 1200 bilionários (em dólares!) do mundo. A revista também foi pragmática. No ramo de negócio, escreveu, sem despistar: religião.

Na minha PIPI, seguindo a lógica do mercado, a retribuição não tem limite. Quem doa mais, aqui e agora, leva mais do lado de lá, depois. Por exemplo, quem entrega apenas o dízimo ganha férias em Cancún ou Paris, depois de morto evidentemente. Quem oferece o trízimo (agora há seitas que exigem 13% do salário do fiel) curte um mês nos resorts do nordeste brasileiro, que continuam mais caros que viagens ao exterior, apesar do dólar nas alturas. Ao maior doador (exijo dele alguns milhões em minha conta) está reservada, no paraíso, uma tarde inteira na cadeira do Grande Chefe, a contemplar de cima toda a grandeza do infinito. Alguém promete mais do que a PIPI? Ninguém!

O outro mundo tem uma grande vantagem para as igrejas, como a PIPI: não possui Procon. Sem fiscalização, ninguém jamais reclamou ou reclamará se o produto comprado aqui foi entregue lá, a contento. Muita gente de cá já descobriu essa falha de comunicação básica e perene, e partiu para o vale-tudo. Oferece absurdos. Não vou perder essa guerra. Assim, nada se compara às vantagens da minha PIPI. Ela promete até sexo farto, seguro e gratuito entre os eleitos. Há bilhões de almas disponíveis para todos, oriundas de todos os séculos, nenhuma com Aids e atribulações afins, problemas exclusivamente terrenos. Diversão segura para todos.

Os banquetes da PIPI no além serão literalmente paradisíacos. Haverá 666 pratos (belo número, hein?) no almoço e no jantar, preparados no fogo eterno do andar inferior por todos aqueles que rejeitarem ou criticarem a PIPI.

Se você quiser aderir à PIPI, não perca tempo. Traga sua declaração de renda para eu medir seu potencial de doação. Viro o Leão com sonegação. Faça os depósitos em qualquer banco. Também aceito cartão de crédito. Divido em até cinco vezes. Juros módicos.

Como a esperança é a última que morre, morro de esperança de conseguir minha prosperidade infinita. Aqui na Terra, é óbvio, junto com a turma da Forbes. Às suas custas, caro seguidor da PIPI. Agradeço de antemão. Você é um anjo.

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A MÚMIA PARALÍTICA

Até hoje ignoro a grafia correta do lugar: Sakara, Sakkhara, Saquara ou apenas Sacara? Fica à beira do
deserto da Líbia, no Egito, a uns cinco quilômetros do Nilo. Lembra dezenas de casamatas arrasadas por bombas. O inimigo, na verdade, se chama tempo. Em quase cinco mil anos, a ação das intempéries e do ser humano pôs abaixo essas construções, as pirâmides mais antigas conhecidas. São tumbas em degraus, para levar os primeiros faraós até a eternidade. Pelo menos, deveriam levar.

Dizem que os astecas e os maias as copiaram com a ajuda de discos voadores, da Atlântida ou de força antigravitacional. Prefiro manter o tiquinho de lucidez que me resta e ficar de fora da polêmica. A precaução preserva a sanidade. Graças a esse expediente, safei-me de dois fantasmas em Sacara januvia weight loss.
Quem quiser conhecer as ruínas de Sakara deve pagar o ingresso, que dá direito à visita e ao guia que conta a história de cada monumento e de seu faraônico ocupante. Melhor dizendo, ex-ocupante, pois os ladrões não pouparam nem os cadáveres. Por séculos, na falta de Viagra, o pó de múmia fez o milagre. Coitados dos faraós. Em vez de subir aos céus, subiram outras coisas.

À entrada de uma pirâmide, o guia, alegando cansaço, pediu-me para continuar sozinho pelo túnel que sumia terra abaixo. Grandes surpresas me aguardavam, avisou. As pinturas nas paredes me distraíram, fiquei entusiasmado, dobrei os corredores à esquerda e à direita, a claridade diminuiu, apagou. De repente, surgiram dois homens mal-encarados com lanternas iluminando o rosto. Gente ou fantasmaAlegaram ser guarda-pirâmides e exigiram vinte dólares para me autorizar a permanência. Mostrei-lhes o ingresso, com direito a visitar toda Sacara. Em resposta, Cosme e Damião abriram a camisa e expuseram dois punhais na cintura.

Dourados, curvos, com cabo de madrepérola. Fiquei paralisado, mumificado. Múmia paralítica.Passado o impacto, achei os dois argumentos de aço muito convincentes. Baratos até. Enfiei a mão no bolso, tirei uma nota, entreguei-a para os guardas. O sorriso de um emendou-se ao do outro, fizeram salamaleques, conduziram-me pela tumba, explicaram os afrescos, decifraram os hieróglifos, duas damas de tão gentis. Nada entendi, tampouco queria. Minha curiosidade que se danasse. Pensava apenas em sair da clausura o mais rápido possível.

Meia hora mais tarde, enxerguei a luz do dia. Um alívio. Cosme e Damião agradeceram minha generosidade, renovaram as mesuras e evaporaram em direção à escuridão do túmulo.

Ao narrar o acontecido para o guia, ele desconfiou do relato. Ninguém, exceto eu, entrara lá dentro. Será que eu tinha cara, além de paralítica, de múmia idiota? Pois é. Em Sakkhara, os fantasmas gostam mesmo é de dinheiro vivo. Ou dinheiro dos vivos, tanto faz.

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O ASSALTANTE DE QUASE 15 ANOS

     Meu nome é Washington. Vou fazer quinze anos. Vivo
de arrombar carro pra levar o som. Ataco sempre com um amigo. A gente põe o
joelho no vidro do passageiro, perto da maçaneta, puxa pra fora a parte de cima
da porta com as mãos ou um pé de cabra. É moleza. Porta de carro parece angu,
dobra na hora. Quando surge a fresta, enfio o braço lá dentro, destravo, abro, e
aí começa a correria. Tenho de tirar o som o mais rápido possível. Então
arrebento o console sem dó. Não posso demorar mais de um minuto e meio, senão
me ferro. O dono fica bravo duas vezes: tem de comprar porta nova e som novo.
     Acho o serviço legal. Adrenalina pura. Cada carro é
um desafio diferente, a gente fica viciado, quer aumentar o risco, começa a
acreditar que é o melhor da praça, aí se estrepa. Então bom mesmo é pegar a
mercadoria bem depressa, arrebentando tudo, e sumir. A parte ruim é o preço que
eles pagam. Na loja, um som chique vale oitocentos, até mil. O receptador não
dá mais que cinquenta. É sacanagem, mas tenho de aceitar, senão vou vender pra
quem? De vez em quando, aparece um rico que foi roubado e quer repor. Aí eu
faturo até cem pratas.
      No sábado, me dei mal. Eu e o Ratinho estávamos
começando um serviço, apareceu a frestinha na porta, enfiei a mão pra destravar,
aí apareceu um sujeito passeando com um cachorro policial, o covarde do Ratinho
se mandou, sem a força dele a porta voltou pra trás e eu fiquei preso pelo
cotovelo. Tentei de todo jeito me livrar, não consegui. A pressão no braço
começou a prender o sangue, fiquei com medo, então não teve jeito: comecei a
gritar socorro. Surgiu gente em tudo que é janela dos prédios no quarteirão.
      Um minutinho depois, eu estava rodeado por umas
vinte pessoas. Uma velha berrava: “Esse bandido é o Washington, que me roubou
faz cinco meses. Até hoje tiro dinheiro da aposentadoria pra pagar o som que
você levou, viu, seu bandido? Esse aí, gente, não tem mais jeito, só bala
resolve”. Um gordo respondeu: “Matar um garoto por causa de um aparelho de som?
Em que mundo estamos, minha senhora? Pra isso existe a lei”.
      Aí chegou o dono do carro, e o tempo esquentou de
vez. Quando viu a porta retorcida, ele quis me dar porrada. Uma mulher gritou:
“Se encostar a mão nesse menino, eu te denuncio. Ele é uma vítima dessa
sociedade cruel, desses nossos governos corruptos, da falta de emprego. Aposto
que ele rouba pra matar a fome!”. Senti uma pontada de importância. A dona
quase apanhou por minha causa. Claro que eu não disse pra ela que eu queria
mesmo é um tênis Nike, superlegal, que vi na televisão. Tão legal que eu tinha
de ter. Tinha de ter. Precisava pegar só uns sons pra comprar.
       A patrulhinha da polícia me salvou. O sargento
desceu e foi logo dizendo: “Pô, Washington, você de novo?”. Ele fez que me
levava pra casa, mas, como não tenho casa, me soltou três ruas pra cima,
avisando: “Toma jeito, menino, senão ainda te enchem de bala”.

        Fiquei sabendo que apagaram o Ratinho com onze furos
no fim de semana. Ele deu bandeira. Eu sempre achei que não tinha medo da morte,
porque minha vida não vale nada, mas agora sei que tenho medo sim. Não quero
acabar igual o Ratinho, mas não consigo parar de roubar, preciso da grana e da
adrenalina. Só de pensar, eu sinto um frio na barriga. O pior é que eu não sei
como sair dessa. 
Pouco tempo depois que publiquei esta crônica, em 1998, Washington foi encontrado morto. Também tinha 11 perfurações de balas. Acabara de completar 15 anos. Hoje estaria com 33.
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Sou mentiroso profissional

         Como todo escritor, sou mentiroso.
Dever de ofício. Quanto maior nossa competência para mentir, maior sucesso
gozamos entre os leitores. A mentira bem engendrada faz nossos personagens mais
reais, mais palpáveis, mais críveis, mais humanos. 
      Romancistas e contistas são
mais que fingidores, vamos além, inventamos vidas e mundos, trazemos alegrias e
tristezas, juntamos e separamos pessoas, matamos a rodo, criamos e resolvemos
problemas no papel. No papel, nada mais. Daí nossa alcunha: ficcionistas. Não
podemos acreditar em nossas fantasias. Muitos autores incorreram nesse erro e
se deram mal. Hemingway, por exemplo, achava que tudo se resumia à escrita e,
sem escrever, a vida não valia a pena. Deu no que deu. Tiro de espingarda na
cabeça. Cano duplo.
          Leitores também confundem ficção com
realidade, o que é, aliás, muito comum. Já me abordaram na rua para perguntar
se sou realmente como alguns personagens que criei, justamente os mais
polêmicos. Fizeram coisas mais terríveis com outros autores. Por exemplo,
influenciados por um livro chamado Os
Sofrimentos do Jovem Werther, do alemão Goethe, muitos jovens
cometeram suicídio no século 18. Goethe mentiu com tanta competência que
transmitiu para muita gente o desespero do amor não correspondido, provocando mortes em série.
          O costume dos autores afirmarem que
são mentirosos é antigo. Fernando Sabino escreveu uma bela crônica sobre isso,
na qual se confessou mentiroso compulsivo desde pequeno, daí a decisão de
derramar nas palavras sua obsessão e ainda ganhar um dinheirinho.

          Agora, cá entre nós, quem não mente de
vez em quando? De escritor, de mentiroso e de louco todo mundo tem um pouco. Ou
você é a exceção que faz a regra? Pense nisso e tenha um bom dia. Com toda
sinceridade.
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A literatura e a desonestidade como escada social

        O
filme Meia Noite em Paris, de Woody
Allen, e os escândalos de corrupção em Brasília me remeteram a um livro que
fala dos excessos dos anos 1920,
a ruidosa década de grande prosperidade que desembocou
no caos de 1929. O livro se chama O
Grande Gatsby
. Foi escrito por Francis Scott Fitzgerald, um norte-americano
pobre fascinado pelo mundo dos milionários. Fitzgerald e Zelda, sua mulher,
aparecem no filme de Woody Allen em meio a festas extravagantes, esbanjando
dinheiro, querendo ser ricos a qualquer custo. Os políticos de Brasília também
aparecem em meio a festas extravagantes, esbanjando dinheiro público, querendo
ser ricos a qualquer custo, sobretudo às nossas custas.
          O
Grande Gatsby
trata desses personagens do alpinismo social levado às
últimas consequências. Jay Gatz, que se transformaria no grande Gatsby, é um
rapaz pobre apaixonado por Daisy, moça rica. A fim de conquistar a amada,
Gatsby trata de se enriquecer por meios ilícitos. Depois de ajuntar muito
dinheiro, para ostentar posses e atrair Daisy, Gatsby promove festas
extravagantes, nas quais esbanja fortunas. Quase conquista Daisy. Fitzgerald
atrapalha o amor, provocando um morticínio digno dos grandes folhetins.
          O romance é considerado um dos
melhores da literatura norte-americana do século 20, com o que não concordo,
mas sem dúvida merece ser lido. Não apenas pelo mérito literário, também pelo
retrato de uma época de prosperidade que parecia eterna e acabou em tragédia,
tragédia que também atingiu a vida particular do escritor Scott Fitzgerald,
morto prematuramente aos quarenta e quatro anos. Morreu pobre como nasceu.

          Grandes
festas, grandes arroubos, grandes roubos, grandes Gatsby. A história se repete
no Brasil de hoje. Dinheiro continua a mola do mundo. Há pouco, quase trouxe
outra grande depressão, como a de 1929. Vamos pagar a conta do desmando alheio
por um bom tempo. Lá fora e aqui dentro do país.

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