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CIÊNCIA É FICÇÃO?

 

Aristóteles foi um gênio, até hoje venerado. Com razão. Sua lógica irrepreensível se mostrou tão convincente que fez até a cabeça de Deus. Provou que um ser perfeito jamais criaria o Universo com a Terra fora do centro, tampouco a órbita dos planetas escaparia ao círculo, figura geométrica ideal. A bela argumentação, o Sol girando em torno da Terra, desembocaria nos mil anos conhecidos como Idade das Trevas. Note-se que o heliocentrismo circulou mais ou menos à época de Aristóteles, proposto por Aristarco de Samos, mas não conseguiu vencer a lógica irrepreensível aristotélica.

Diante do triunfalismo científico destes dias, decorrente por exemplo da espetacular quase comprovação das ondas gravitacionais, é blasfemo criticar a ciência e seu método. Como um dia foi blasfema a crítica ao geocentrismo. Não vamos mais queimar na fogueira a ousadia de nadar contra a corrente, mas reputações serão colocadas em xeque. Lembro-me do filósofo Thomas Kuhn que, ao questionar aspectos do método científico, quase foi linchado pelo dito “establishment”. Mandaram-no opinar sobre assuntos de que entendesse. Até parece que físicos ou biólogos não devam falar de filosofia – ou que não falem. Ou que a discussão intelectual deva submeter-se a reservas de mercado.

A ciência não é uma ficção, mas cientistas podem fazer ficção – e das boas. Com ar douto e professoral. A objetividade carrega um pouco de seus autores. Somos todos ficcionistas. O uso da imaginação leva a descobertas. Ou a ficção científica. Atravessar buracos negros para chegar a pontos distantes do universo por exemplo. Ou supor que há 10, 20 ou 30 dimensões além das quatro conhecidas. Ou que a nosso lado, sem que consigamos ver, existe um mundo paralelo. Daqui a pouco um pastor vai dizer que o paraíso fica lá. A explicação junta a fome com a vontade de ganhar dinheiro.

Murray Gell-Mann, por muitos considerado o maior gênio vivo da ciência, autor da teoria dos quarks, desdenhava qualquer tipo de discussão periférica e preferia dedicar-se à pesquisa objetiva. Pesquisa objetiva? Ele deve ter sua razão, já que criou toda uma série de partículas subatômicas, hoje comprovadas. No entanto, o questionamento do fazer e da produção científica precisa ser mantido e incentivado. Afinal, Aristóteles também foi um gênio, e ideias geniais de cientistas podem não passar de mera ficção. E nem sempre há um garoto pronto para gritar que o rei está nu.

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Crônicas de nuestra Latinoamérica

        Como
falam mal de Vargas Llosa. Não apenas de sua premiada literatura, sobretudo de
suas posições políticas. Dizem que ele é elitista, antirrevolucionário,
anticastrista, antichavista, conservador ao extremo. Já disseram que, se tivesse sido eleito presidente do Peru, ele
teria substituído as armas nacionais pela suástica. Na raiz do problema, está
sua decepção com o regime cubano, após a perseguição promovida por Fidel Castro
a intelectuais e à liberdade de criação e expressão. De defensor da revolução,
ele passou a crítico. Então começaram as porretadas. Haja porrete.
          Nada melhor que beber direto na fonte
para a gente tirar as próprias conclusões. Você pode fazer isso, com pouco esforço, se ler as
crônicas de Mario Vargas Llosa. No livro Sabres
e
Utopias, da Editora Objetiva,
ele expõe suas visões sobre a América Latina. E o faz com o peito aberto.
Critica a direita e a esquerda, põe o dedo na ferida de problemas que resistem
aos séculos, mostra como caudilhos se valem da mudança para, lampedusamente,
manter tudo do jeito que está.
         Em textos escritos desde a década de
1960 até 2009, acompanha os acontecimentos políticos do
continente, bem como sua própria evolução intelectual. Assim, elogia o esforço
educacional e cultural em Cuba, antes do rompimento com Fidel, critica Pinochet
bem como diversos movimentos revolucionários, aponta erros da gestão de Lula,
faz o elogio da democracia brasileira e de outros países latinos, analisa a
obra de diversos autores, como o nosso Euclides da Cunha.

          Tudo
isso e muito mais. Depois de ler Sabres
e Utopias, você conhecerá a visão de
um grande escritor sobre nosso continente. Poderá concordar ou discordar, mas
seguramente ganhará uma bela reflexão e descobrirá motivos que levaram Vargas
Llosa a levar o Nobel de Literatura. Ele mereceu. É um gênio da literatura contemporânea. 

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