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O FRALDULENTO

Sou fraldulento. Nada a ver com fraude, nem com o Congresso Nacional, mas com fralda infantil. Sou muito lento ao trocá-las, além de jamais conseguir a maneira correta: fica frouxa, não sei qual é a parte da frente ou a de trás, costumo grudar o esparadrapo na pele da pequena vítima. Tem mais: detesto a tarefa. Não apenas pelo cheiro e pela consistência da coisa que as fraldas retêm, sobretudo pela moleza do corpo dos bebês, que sempre me parecem a ponto de desconjuntar-se, quebrar a espinha, escorregar das mãos, cair no chão. Sim, sou fraldulento.

Imagine, então, minha destreza depois de mais de trinta anos sem praticar, isto é, desde que meus filhos cresceram. Tornei-me mais fraldulento que qualquer membro do nosso Congresso. Imagine, agora, eu numa noite, sozinho na casa de minha neta Teresa, de apenas sete meses. Torci para que a baixinha não fizesse nem xixi. Porém, lá pelas tantas, ouvi um choro mais esganiçado. Meu coração disparou: será que aconteceu o pior?

Bem devagarinho, a examinei. Testemunhei uma cena de horror. Tive vontade de fugir. A meleca era tanta que saía até pela nuca. Nunca imaginei que tal quantidade coubesse num ser humano tão pequeno. O pior é que minha neta esticou os braços para mim, mais em pedido de socorro que de carinho. E agora?

Minha reação, pura defesa, foi sorrir e imaginar que nada tinha visto. Suportaria o choro por uma hora, até que minha filha voltasse e removesse o espetáculo dantesco. Suja estava a Teresa, suja continuaria um pouco mais. A consciência não me permitiu abandonar a neta. E se ficasse assada, sofrendo, tadinha? Peguei-a e a fui descascando, camada por camada de pano, até chegar à origem de tudo.

Quando deparei o estado geral da coitadinha, lambuzada da nuca aos pés, concluí: não havia salvação para a pobre garota. A única solução seria o descarte. Humanamente impossível limpar tamanha sujeira. Olhei para a lixeira, mas o anjo da guarda da Teresa foi mais forte. Deu-me um puxão de orelha e ordenou:

– Vamos, Luís, ao trabalho!

– Uai, por que você não vai?

– A obrigação é sua, vovô.

E lá fui eu trocar a fralda. Avô também tem de participar. Quer queira, quer não.

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