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MODISMO NUNCA SAI DE MODA

Toda época possui paradigmas, ideias, conceitos e costumes julgados definitivos, tão óbvios para as pessoas que seriam evidentes por si mesmos. Examinados de perto, muitos desses truísmos não passam de modismo, isto é, culto a inverdades, balelas ou fábulas, não importa se na ciência, religião, arte, filosofia, dieta, beleza ou etiqueta. O tempo, inimigo de tudo, até do vinho que fatalmente se deteriora, combate-os sem trégua, apesar de alguns demonstrarem extraordinária longevidade. Mais ano, menos ano, contudo, chega o momento em que a venerada certeza, repetida através de gerações, se desmancha, e o futuro encara-a entre a complacência e o riso, enquanto desenvolve os próprios pseudotruísmos.

Exemplos? Apesar de hoje louvarmos a alopatia, por séculos a teoria do flogístico ou a dos humores prevaleceu no tratamento das doenças e, segundo relatos antigos, funcionou a contento. Júpiter, herdeiro de Zeus, mereceu altares, sacrifícios e orações mundo afora no auge de Roma, com idêntica taxa de eficiência dos deuses atuais. Quantos o adoram atualmente? Quem ainda acredita que a natureza seja feita de ar, fogo, terra e água como elementos constitutivos, sem menção aos átomos? Da relação de premiados com o Nobel de Literatura, dezenas de autores sucumbiram ao assédio das décadas. De nada lhes valeu a consagração máxima. Gordura em excesso, sinal de riqueza e saúde na Europa pós-colombiana, foi exibida com orgulho por reis e rainhas durante séculos. Quem, hoje em dia, acha bonita a obesidade? O Sol já girou ao redor da Terra com a força do dogma. Graças à ajuda dos papas, o geocentrismo imperou por mais de mil anos, queimou opositores na fogueira, obrigou Galileu a se desdizer, mas um dia virou pó. Muito da cosmologia moderna, com seus big bangs, inflações, universos paralelos, multiversos, buracos disso e daquilo, teorias de cordas e multidimensões merecerá, em breve, riso e esquecimento. Como todo ser humano, cientistas também acreditam nas próprias fantasias.

Com o tempo, quase tudo passa, desgasta-se ou mostra-se falso. Lord Keynes, o influente economista inglês, achava graça dessa constatação, pois, a longo prazo, todos estaremos mortos: o que importa para um cadáver? Humor à parte, o tempo não demonstra afeição alguma pelas coisas, corretamente concluiu Lucrécio, há mais de dois milênios, sem saber que prenunciava a Segunda Lei da Termodinâmica, pilar da ciência moderna. Mais cedo ou mais tarde, os modismos acabam na vala comum das épocas, enterrados ao lado de milhares de outras certezas efêmeras. Então partiremos para a invenção de novos modismos, tachando-os de definitivos. A gente nunca se emenda. Faz parte da vida.

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A CIÊNCIA ERRA?

       O século 20 começou com certezas absolutas – e
combateu-as a ponto de questionar a existência da própria realidade. Graças aos
físicos, o mundo ficou de pernas para o ar. A reviravolta começou com Einstein
e a relativização do espaço e do tempo. Qual rolo compressor, suas ideias vêm
influenciando a ciência e a cultura. “Relativizai-vos ou perecei”, ameaça a esfinge
da modernidade, segura da inexistência de um Édipo para enfrentá-la.
     No início do século 20, a Via Láctea significava
o limite do cosmo. Hoje, as imagens do telescópio Hubble revelaram duzentos
bilhões de galáxias. A Terra havia perdido a primazia do centro de tudo, o Sol
não se aguentou no trono por muito tempo, a Via Láctea, menos ainda. E nós, os
seres humanos? De queda em queda, de donos do paraíso terminamos alijados para
um cantinho insignificante do infinito. Resumindo, os físicos nos degradaram, isto é,
degredaram, do absoluto para o nada. Viramos pó. Infinito em pó.
     A insignificância humana contaminou vários
pesquisadores que decretaram o fim das próprias atividades. Depois da
guilhotinada na história feita por Fukuyama, uma idiotice, a ciência também subiu ao cadafalso.
Seus carrascos são ganhadores do Nobel e frequentam a mídia com a desenvoltura
de atores de Hollywood. Gente famosa como Stephen Hawking, Steven Weinberg,
Richard Dawkins e Francis Crick afirma, às claras ou nas entrelinhas, que o
conhecimento está completo em suas linhas mestras. Resta para as gerações
futuras o trabalho de botânicos, ou seja, a busca paciente de espécies de
informação para enquadrá-las nos grandes reinos, filos e classes hoje
definidos. Doravante a ciência vegetará. Adeus, grandes avanços. Adeus,
revoluções.      
     Arroubos à parte, essa visão pessimista – e
triunfalista ao mesmo tempo – tem fundamento? Na verdade, não. O argumento de
que, nas últimas décadas, nada básico se acrescentou à física ou à biologia não
exclui, em princípio, a abertura de novos reinos ou filos na taxonomia da
natureza.
     A morte súbita da ciência, decretada à revelia,
desprovida de elementos para avaliação é, portanto, mero palpite – e palpite
não falta entre os cientistas, de resto seres mortais e sujeitos a erros. Em
alguns congressos, eles divagam mais que amigos em mesa de bar depois da décima
dose. Costumam discutir sexo de anjo com candura bizantina. No Japão,
pesquisaram durante anos a influência das nadadeiras do tubarão na geração de
maremotos.
     Do debate em questão fica, se tanto, o benefício da
dúvida. A mecânica quântica, que maneja a incerteza com perícia, bem poderia
dar-nos uma resposta sobre o próprio fim, aliás, incerto como o início de tudo.
Como a resposta não existe, retomo o degredo humano para um cantinho sem
atrativos do Universo, imposto pelos cosmólogos. De relativização em
relativização, de probabilidade em probabilidade, viramos nada. Há algo mais
absoluto que o nada?
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Receita milenar para virar herói

        A verdade é uma só, e os sábios falam dela sob vários nomes. Esta frase
está nos Vedas, livros sagrados hindus.
Tomemos, por exemplo, a trajetória dos heróis. Ela se repete em todos os
continentes, sob os mais diversos nomes, desde a antiguidade: Gilgamesh,
Moisés, Shiva, Rei Arthur, Joana D’Arc, Hércules, Jesus, Tiradentes. Esses heróis, depois de sofrer provações, trouxeram sabedoria ou renovação para
sua gente. Aliás, entre as biografias de Jesus e Hércules existe mais que
coincidência: ambos eram mortais e deuses, filhos de um todo-poderoso com uma
terrena, passaram por sofrimentos atrozes, salvaram o mundo, sentiram-se
abandonados pelo pai, depois da morte subiram aos céus. Até suas últimas frases
teriam sido, em algumas tradições, as mesmíssimas, apenas separadas por muitos
séculos.
          Quem quiser saber um pouco
mais sobre o caminho comum aos heróis de todos os tempos não pode deixar de ler
o livro A Jornada do Herói, baseado
na vida e na obra do grande mitólogo norte-americano Joseph Campbell. Campbell
afirma que uma nação sem mitos não é uma nação, apenas um amontoado de pessoas
disparatadas. Estamos bem no Brasil. Mito sobra por aqui.
          O mito é o mistério do
mundo, condicionado à cosmologia de cada época. Por isso, Campbell não via
qualquer conflito entre a ciência e a religião, pois a religião é balizada pelo
conhecimento existente na data de sua fundação. Não se pode comparar o
conhecimento de hoje com aquele de dois mil anos atrás. A defasagem é evidente.
O mito, então e hoje, busca o mistério, a mesma busca do herói que, ao se
lançar nela, nos revela um pouco mais acerca do mundo e de nós mesmos.
          A receita para ser herói
é simples, segundo Campbell: “Siga a sua bem-aventurança, vá aonde há um
profundo sentido do seu ser, vá aonde seu corpo e alma querem ir”. Ao tomar
essa trilha, escute sua voz interior, e as portas se abrirão.
Ouvimos essa mesma história todos os dias,
repetida por empresários, artistas, políticos, atletas e cientistas que se
esforçaram, tiveram sucesso e nos legaram coisas novas. Isso prova a
permanência do mito. Através dos séculos, a jornada do herói não muda.   
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