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MEU DIA DE PORCO IMPERIALISTA

Há muitos anos, quando a China ainda não era a potência que sustenta e derruba a economia do mundo, tampouco o capitalismo selvagem campeava por lá, visitei uma de suas comunas agrícolas, na qual centenas de camponeses tentavam tirar do solo, além do próprio sustento, algumas sacas extras de arroz e painço para enviar às cidades. Iam muito bem, ganhando seu dinheirinho, fazendo pequenas poupanças, graças à recém-instalada política de privatização da terra: toda a produção que excedesse as quotas impostas pelo governo poderia ficar para os lavradores.

Minha guia e intérprete, uma senhora que, grudada em meu pé, só me deixava ver aquilo que lhe interessava, descrevia o processo de abertura econômica com a eloquência de quem acabava de descobrir a pólvora, aliás, uma invenção chinesa. Apresentou-me às mulheres dos camponeses. Elas, à tarde, em grupo, cantando hinos revolucionários, confeccionavam roupas e bordados que, exportados, renderiam lucros para a cooperativa local. Sem desconfiar, testemunhei o embrião do capitalismo chinês que tomou conta do mundo.

Alice, a guia, contou-lhes, conforme me disse mais tarde, que eu era sul-americano. Creio que a palavra americano provocou a ira de uma chinesa de óculos enormes, bem grossos, cabelos lisos e escorridos como os da Maga Patalógica, postura doutoral de professora catedrática, um metro e meio de bravura. Berrou para mim, com dificuldade na pronúncia dos erres:

– Impelialist pig! Impelialist pig! Impelialist pig!

Eu, porco imperialista? Ou, para ela, qualquer americano, do norte ou do sul, se encaixava no figurino? Ou o título caberia a qualquer visitante? Gritou até que a guia, irritadíssima, esbravejou de volta e, mal sucedida em encerrar a cantilena, avançou sobre a pequenina camponesa, amordaçando-a com a mão, depois o braço. A um pequeno vacilo, ouvi de novo:

– Impelialist pig! Impelia…

No momento seguinte, as duas chinesas rolaram no chão. Não me contive, comecei a rir. Engalfinharam-se, estapearam-se, unharam-se. Jamais alguém tomou tanto minhas dores, com tanto empenho.

– Impelia…

As demais mulheres entraram no deixa-disso, algumas, em solidariedade à companheira, deram cutucões e puxaram os cabelos daquela que me acompanhava. Finda a manifestação contra a minha presença, recuperada a respiração, escutei o pedido de desculpas formais:

– Em nome de todos os povos da China, em nome da solidariedade que une os povos do Brasil e da China, peço desculpas por esse gesto de pouca civilidade. Por favor, transmita a todos os brasileiros e sul-americanos nossas mais profundas desculpas.

Pois é. Estou transmitindo as desculpas agora… A cada vez que me lembro do caso, morro de rir de tanta formalidade e gentileza comigo, enquanto o regime, poucos dias antes, havia trucidado milhares de pessoas na Praça da Paz Celestial. Contrastes humanos.

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