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A porta geométrica da alma

        As
seis conferências que Italo Calvino faria em Harvard em 1985, por sinal nunca
apresentadas, devido à sua morte, deram origem ao pequeno livro chamado Seis Propostas para o Próximo Milênio.
Calvino abordou as seis qualidades que considerava
essenciais à boa literatura: leveza, rapidez, exatidão, visibilidade,
multiplicidade e consistência. Não chegou a escrever sobre a consistência,
acometido de letal hemorragia.
          Uma dessas qualidades me chama a
atenção: a multiplicidade. Num mundo em que buracos negros, big bangs,
genomas, retrovírus, neurônios, operações de swap e hedge, ipos e paradigmas frequentam nossas
casas com a assiduidade da internet e da telenovela, a literatura não pode
deixar de refletir sobre esses temas.
        A literatura retrata o tempo em que é
produzida. Para melhor fixar sua época, o escritor precisa mergulhar até o
pescoço nas crenças, crendices e fatos que o rodeiam, necessita absorver o máximo
possível do espírito e da ciência em voga, deve processar tudo e tentar
transmitir a outras gerações sua visão de mundo. Carece, portanto, tornar-se
especialista em generalidade, ser um generalista assumido.
         Nosso século é único, diversificado,
complexo, em rápida evolução. Embora enquanto seres humanos continuemos os
mesmos, com as mesmas buscas e necessidades básicas de todas as gerações
anteriores, o tempo foge, urge, ruge e avança. Como diz Calvino, o conhecimento
nasce do embate entre a exatidão e a irracionalidade, entre a matemática e o
caos. Exatidão, irracionalidade, matemática e caos são temas que só com
multiplicidade o escritor consegue vislumbrar. A multiplicidade é a porta
geométrica da alma. 

Palavras-chave: Calvino, Italo Calvino, Seis propostas para o próximo milênio, multiplicidade, literatura, big bang, swap, conhecimento, irracionalidade

 

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