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DEITADOS EM BERÇO ESPLÊNDIDO

O espetáculo proporcionado pelos deputados no 17 de abril não deveria ter assustado tanta gente. Afinal, eles são a nossa cara, nosso DNA, nossas digitais. Usamos Deus para tudo, agarramo-nos a patriotadas de dia e de noite, sempre agradecemos ao papai, à mamãe ou à titia por terem cuidado da gente na infância, somos contra a corrupção. Estamos imersos até o pescoço na exaltação da resposta singela, na ilusão do populismo, na crença da desinformação alheia, na cultura do fácil. Fugimos da complexidade como o diabo da cruz. Ao fazermos isso, abrimos espaço para a imbecilidade. Imbecilidade que escancarou sua face cruel no domingo 17 de abril.

A realidade nunca foi simples e fica mais complexa à medida que o tempo avança. Sua compreensão carece de reflexão, muita reflexão – e reflexão em geral exige dedicação. Para produzirmos na indústria ou no intelecto, necessitamos de conhecimento – que requer aprendizagem. Aprendizagem que demanda esforço. Um exemplo: por mais que ainda se tente vender, no Brasil, a escola como local de diversão, as dificuldades com a matemática, as ciências ou o português desmentem, numa tacada, a crendice de que sala de aula é recreio. Andar e falar também impõem dificuldades ao cérebro. Que tal doravante limitarmos os bebês a engatinhar e balbuciar? Que tal, para diminuir o desgaste mental dos alunos, exigirmos que apenas desenhem sua assinatura? Na matemática, bastaria somar dois mais dois?

A cultura do fácil gera a tacanhice. Ela nos obriga a adiar problemas há muito carecendo de solução, das chacinas às reformas de leis obsoletas, das balas perdidas ao comércio de drogas, da má distribuição de renda à falta de serviços públicos razoáveis, do abuso dos impostos à corrupção em todos os níveis de governo. Um dos efeitos mais perversos dessa atitude é o pouco valor que temos dado à vida humana no Brasil. Os cadáveres da pobreza, da negligência, da violência urbana, da ausência do Estado e da impunidade chegam às nossas casas com a regularidade de A Voz do Brasil, aliás viraram a marca de um Brasil sem voz. A cultura do fácil prefere adiar o problema em vez de enfrentá-lo. A mediocridade vive de sofismas e tautologias.

O desenvolvimento de uma ideia, projeto ou nação implica a consideração de muitas variáveis e, com frequência, admite mais de uma solução. Qual a mais benéfica? Qual a mais duradoura? Qual produz menos efeitos colaterais? Corremos o risco até de errar na análise, porém precisamos encarar a complexidade. Isso não aconteceu no 17 de abril, tampouco acontece no Brasil. O que se viu foi uma enxurrada de idiotices com a nossa cara. Para evitá-las, no governo e entre nós, eleitores, o primeiro passo é o abandono da cultura do fácil.

Eis o difícil.

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O REI DA PICARETAGEM

Sempre que vejo falsos religiosos pregando nas tevês com a maior cara de pau, penso nos 300 e tantos picaretas do Congresso Nacional que um conhecido político certa vez afirmou existirem no Senado e na Câmara. Uns e outros são farinha do mesmo saco. Uns e outros me remetem a Tartufo, um dos mais famosos personagens de Molière, o maior dramaturgo francês.

Tartufo é, também, o nome da peça que ele protagoniza, das mais encenadas do teatro. Tartufo é fingido, hipócrita, mentiroso, corrupto, chantageador, desleal, falso religioso, interessado apenas em tirar dinheiro daqueles a quem faz as mais devotas pregações.

A peça estreou em 1664, portanto há 351 anos, e continua atualíssima. Provocou violenta reação do clero da época, ficando proibida por alguns anos. Quem a visse ou encenasse foi ameaçado de excomunhão pelo arcebispo de Paris.

Leia Tartufo para ver como a canalhice não muda através dos séculos. Depois, ligue a tevê, escute atentamente os canais religiosos com apelo financeiro, analise as técnicas de persuasão utilizadas, em seguida compare os debates no Congresso com a verdadeira atuação, nos bastidores, de deputados e senadores. O resultado é puro teatro, o teatro de Molière, a falsidade de Tartufo até a exaustão. Uma tartufada sem fim.

Acontece que Tartufo, no final da peça, é desmascarado. No Brasil, isso ainda está longe de acontecer. Nossos Tartufos continuam depositários da moralidade. A cada dia que passa, Molière estremece no túmulo por nós.

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