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CULTURA PRA QUÊ?

   Sonhei que estava no ano
de 2030, caminhando pelas ruas de Hong Kong. Em todos os quarteirões,
alardeadas por propaganda no rádio, televisão e em painéis luminosos, havia
lojas de três cadeias mundiais de refeições rápidas: o FrangoFarÔ, que
servia um delicioso frango com farofa, acondicionado em caixinhas de sapato
assinadas pela grife Ronaldo Fraga; o TchêÔ, rede mais sofisticada com o famoso churrasco gaúcho
desprovido de setenta por cento das gorduras; e o MineiroÔ,
campeoníssimo universal de vendas, um irresistível sanduíche de linguiça com
pão de queijo acompanhado de guaraná.
   Pedi este último numa
lanchonete, o atendente identificou meu sotaque brasileiro, indagou-me a
pronúncia correta de “mineiro”. Com muito esforço, parou de dizer “minelo”.
   Sentei-me numa das mesas,
decoradas com fotografias de Ouro Preto e, enquanto apreciava um chorinho no
som ambiente, o freguês à esquerda confessou que aderira ao fã clube do carro
Tongadamironga, o melhor do mundo depois que o equiparam com o motor Pai de Santo,
recomendado até pelos grandes terreiros da Bahia. Após muitas loas à beleza e
ao arrojo do veículo, elogiou a genialidade do brasileiro, um povo que soube
aliar os prazeres da vida ao trabalho criativo, gerando uma civilização
vibrante, digna de ser imitada pelos chineses.
   No momento seguinte, em
Manhattan, lia no New York Times
um artigo sobre a pouca originalidade da arte norte-americana quando comparada
à efervescência existente no Brasil, o polo mais inventivo no planeta. O autor
também exaltava o autêntico interesse dos brasileiros pelos próprios artistas,
sinal de que sua cultura ia de vento em popa, enquanto a norte-americana
despencava para a periferia a que fazia jus, exaurida depois de sobreviver à
custa de muita autopromoção na mídia. Por fim, vaticinou: havia um novo
Renascimento em curso, dessa vez com sabor tropical.
   No Louvre, participei de
uma rodada de capoeira com congado para comemorar a vitória da cachaça como
bebida  patrimônio da humanidade. A nota
destoante veio do mestre de cerimônias parisiense que, após depreciar o uísque
escocês, procurou resgatar o orgulho nacional com elogios rasgados aos vinhos
franceses. Para
encerrar a festa, o grupo de travestis Bois
de Boulogne entoou, para delírio dos europeus, a infalível Aquarela do Brasil. Todos caíram
no samba, tentando imitar nossa ginga, evidentemente sem sucesso. 
   Não pude voltar para
casa. Os voos estavam lotados por muitos anos, graças aos turistas atraídos
pela nossa cultura e pela boa fama do país. Eu morreria antes de embarcar, sem
ouvir o sabiá da palmeira. O sonho virou pesadelo.
                     Em desespero, acordei com o coração saindo pelos
olhos. Ao lado da cama, vi um Big Mac ensebado e um copo de Coca-Cola com uma
camada de água por cima, oriunda do gelo derretido. Diante do quadro, aturdido
pelas fantasias loucas, o desespero aumentou, porém uma luz brilhou nos miolos.
Se me haviam convencido de que Big Mac e Coca-Cola eram comida e bebida, por
que duvidaria de meu sonho?
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Três pesquisadores que experimentaram quase todas as drogas

         Você já ouviu falar do oliliuqui? E do peyote? E da ayhuasca ou yagé? E da folha divina da imortalidade?
Pois todos esses nomes se referem a plantas alucinógenas usadas pelos índios
da América Latina para entrar em contato com seu universo interior ou com seus
deuses. Para pesquisá-las, três gerações de botânicos da Universidade de
Harvard percorreram nosso continente, enfrentaram todo tipo de perigo e doença.
Descobriram como essas drogas atuam. Para retratá-las com precisão, eles
experimentaram quase todas e relataram os efeitos sobre seus corpos e mentes.
Um barato que, às vezes, saiu caro.
          Essa
aventura louca, que põe Indiana Jones no chinelo, aparece no livro El Rio, de Wade Davis, etnobotânico e
documentarista canadense. El Rio, ou One River no original, infelizmente não
foi traduzido para o português, mas merece. É ótima leitura. Além de resgatar
as aventuras de Richard Schultes, Tim Plowman e do próprio Wade Davis nas
selvas, também realiza amplo levantamento da cultura e da história de países
latinos e de tribos indígenas. Por exemplo, ao mergulhar no ciclo da borracha,
descreve o apogeu de Manaus, quando os perdulários milionários da cidade, para
ter seus lençóis bem branquinhos, mandavam lavá-los na Europa. Lembra como as
sementes de nossa seringueira foram contrabandeadas para a Ásia e como os
norte-americanos fazem biopirataria usando o nome da ciência. Conta como tribos
inteiras foram chacinadas pelos europeus, sobretudo espanhóis. Ao todo, quase 30 milhões de pessoas.
          Mostra,
ainda, outro tipo de extermínio, perpetrado por religiosos que, em nome da
salvação, dizimaram muitos povos e suas culturas. Revela que dois presidentes
dos Estados Unidos, vários artistas e Freud se tornaram consumidores de coca. O
papa Leão XIII até condecorou o inventor de uma bebida, o Vinho Mariani, feito
com a planta. Aliás, a coca é, até hoje, importada legalmente nos Estados
Unidos pela Stepan Chemical Company, empresa que repassa um de seus extratos
para a Coca-Cola, originalmente um remédio vendido em farmácia como vinho
francês de coca. O que mudou?

          Tudo
isso e muito mais você encontra em
El Rio ou One River, de Wade Davis. Livro
delicioso, apaixonado, apaixonante, imperdível. Se tiver oportunidade de lê-lo,
faça-o. Você não sairá ileso das águas desse rio.   
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