Arquivo da tag: ciência

UM SER, DOIS CÉREBROS?

 

 

Aqui estão dois ícones de nossa cultura: a equação de Einstein ” E=mc2 ” e a frase de Shakespeare “Ser ou não ser, eis a questão”.

Qual o mais importante? Existe incompatibilidade entre a arte e a ciência, entre Einstein e  Shakespeare? Uma exclusão necessária e definitiva afasta a Mona Lisa da mecânica quântica? Equações e versos falam de mundos díspares?

De vez em quando, como agora, a velha cisão entre a ciência e a arte volta à tona. Partidários de uma ou outra corrente tentam demonstrar a incompatibilidade entre elas, sua dissociação intrínseca, seus antagonismos, como se artistas e cientistas pertencessem a espécies distintas. Estes, às vezes, desdenham a literatura, enquanto os escritores desancam quem engendrou e construiu a bomba de Hiroshima.

De um lado, o hermetismo de estudos literários deflagra críticas contundentes, respingando sobre a escrita em geral. Um físico famoso, prêmio Nobel, pilheria: “a ciência torna inteligível aquilo que não se sabia; a literatura faz o contrário”. Por sua vez, Walt Whitman, num poema inspirado, despreza os astrônomos e deixa-se perder no sereno da noite, maravilhado ante o silêncio das estrelas.

O êxtase e o espanto diante do universo e da vida não são privilégio de ninguém. As fotos de uma galáxia distante podem oferecer o mesmo arrebatamento de um texto de Machado de Assis. Por que qualificar os arrebatamentos, separando-os, tornando-os excludentes?

Ciência e arte, como qualquer outra atividade, tentam entender nosso mundo, procuram capturar os múltiplos aspectos da dimensão humana. Durante a busca, a criação trilha processos parecidos. Inspiração, raciocínio, emoção, luta contra as dificuldades, cansaço, frustração fazem parte do cardápio comum. Poetas e físicos temem uma folha de papel em branco, à espera de um verso ou de uma equação.

Eis a verdadeira luta, o bom combate. Se o verso e a equação terão valor é uma questão secundária. O valor será, em última instância, estabelecido pela sociedade, e juízos variam com o tempo. Importa, isso sim, criar.

Ainda bem que o gosto por literatura ou por ciência continua, na maioria das pessoas, movido pela curiosidade inata, pelo lúdico, pela extensão do conhecimento sobre si mesmo e sobre o universo, pela captura da emoção e do prazer. Niels Bohr e Guimarães Rosa, cada um à sua maneira, eram sábios.

Não existe incompatibilidade entre a arte e a ciência. Os excessos de uma ou outra são acidentes de percurso, comuns a qualquer atividade. Os êxitos, idem. Afinal, ambas são produtos do gênio humano. E também do gene humano.

Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail

A CIÊNCIA DA INSIGNIFICÂNCIA

Até o século 20, o ser humano era a figura central do Universo, orgulhoso por ignorância, arrogante por herança mítica, grande por pequenez. Julgávamo-nos razão bastante para a existência de tudo que nos cerca, críamos mesmo que podíamos usar e abusar do planeta, talhado sob medida divina para nossas necessidades, fonte eterna de água, comida e materiais. A lenda sucumbiu à realidade. De queda em queda ao longo das últimas décadas, assumimos condição periférica, desprovidos de privilégios, sem pai nem mãe, sujeitos a limitações cada vez mais iminentes. Ante a imensidão desvelada, viramos nada.

Quem nos pulverizou de tal maneira? Os principais responsáveis foram os físicos. Eles forjaram nossa nulidade. Moldaram nosso pensamento, destruíram a objetividade absoluta com a introdução do observador, assombraram-nos com novas interpretações da realidade, trouxeram medo com a fissão e a fusão atômicas. Mais que quaisquer outros profissionais, ampliaram as fronteiras do que conhecemos ou julgamos conhecer. Mergulharam no infinitamente pequeno, diluíram a matéria em flutuações adimensionais, inquiriram o infinitamente grande, construíram uma ponte quântica entre os extremos, descobriram a expansão do Universo, postularam começo e fim para os átomos, descreveram dezenas de fenômenos e partículas que teriam ocorrido durante o primeiro nanossegundo cosmológico, sucumbiram ante a matéria e a energia escura que tudo envolvem e ainda não se revelam. O Big Bang, hipótese de trabalho com várias lacunas, frequenta nossa mesa tanto quanto um espaguete ao molho de tomate.

Os físicos também nos legaram a palavra do século: relatividade. Embora herdada do pai dos cientistas modernos, Galileu Galilei, a relatividade nos arrebatou após o trabalho de Einstein. Não conheço outra com tamanha influência, nem em Darwin, autor da teoria da evolução, nem em Freud, grande divulgador de neologismos. Da antropologia à arte, da política à filosofia, mesmo no humor, tudo ficou relativo. Einstein, passado um século desde a Relatividade Geral, ainda nos arranca admiração e espanto. Graças à singeleza de suas equações, a física perdeu o hermetismo e ocupou o espaço das ideias. Ganhamos novo paradigma.

Diante de tamanha abertura para o Cosmo, o grande e o pequeno Cosmo, ganhamos alguma sabedoria, mas perdemos o orgulho de senhores do Universo. Embora continuemos os mesmos, com nossas carências de ar, água, comida, amor e curiosidade, paradoxalmente nossa mente cresceu enquanto perdíamos o status de senhores da criação. Hoje nos encantamos com nossa insignificância diante de um Universo que ultrapassa a imaginação. O importante é que o encantamento persiste.

Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail

A FICÇÃO MOLDA A REALIDADE?

Não custa repetir: a leitura muda o cérebro, tanto no funcionamento quanto na estrutura física. É o que dizem os neurocientistas. Quando lemos muito, sobretudo obras de ficção (romance, novela, conto, poesia), percebemos melhor o mundo a nosso redor, melhor nos adaptamos aos desafios, melhor nos saímos com o sexo. Até no sexo, quem diria. É fato: bons leitores e boas leitoras arrumam parceir(a)os com maior facilidade. Tem mais: o cérebro dos que leem muito também custa mais para envelhecer.
Sim, a leitura de romances, contos e novelas é um tipo de seguro de vida, quase uma garantia de que provavelmente chegaremos à velhice com boa saúde mental. Dois estudos recentes feitos nos Estados Unidos comprovaram, uma vez mais, esses benefícios.
O primeiro estudo, executado na Universidade Tufts, em Boston, demonstrou que a leitura desenvolve melhores circuitos cerebrais, isto é, constrói um tipo de via expressa no cérebro por onde os impulsos elétricos circulam com maior velocidade que nas pessoas que não leem. Em outras palavras, quem lê raciocina mais rápido.
A outra pesquisa, feita na Universidade de Stanford, na Califórnia, constatou que, nos leitores assíduos, os neurônios, sobretudo os do hemisfério esquerdo do cérebro, custam muito mais para envelhecer. Esse benefício não acontece com pessoas analfabetas ou pouco chegadas aos livros, diz o resultado final. Uma pena.
Resumindo a questão: além de raciocinar mais rápido, quem lê raciocina por muito mais tempo e com melhor qualidade. Como costumo dizer, leitura é uma questão de saúde pública. Só falta descobrirmos o óbvio.

 

Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail

NATURE X NURTURE

 

 

Até que ponto o ser humano é dominado pelos genes ou pela cultura? Não consigo me livrar da questão, bem sintetizada, na língua inglesa, através da expressão nature x nurture. O assunto, campo minado, já foi debatido centenas de vezes em todas as mídias, contendores levantaram paixões e provas, princípios de toda a ordem foram brandidos, contra e a favor de cada corrente, ouviram-se ameaças semelhantes às que cercaram o sequenciamento de nosso genoma, por medo alguns varreram o imbróglio para debaixo do tapete. A dúvida permanece.

Minha aposta tem sido algo como sessenta por cento genética e quarenta por cento cultura. No entanto, descobertas da biologia parecem desmentir-me. Segundo alguns pesquisadores, cada vez mais ruidosos, na prática somos cem por cento resultado daquelas minúsculas cadeias de moléculas, com quilômetros de extensão, que se espremem dentro dos cromossomos.

Cadeia é uma boa palavra. Estaríamos presos aos genes. Não apenas a cor dos olhos, os cinco dedos do pé, o instinto de sobrevivência e o de reprodução, o diabetes, o câncer, a obesidade, o ataque cardíaco, mas também o egoísmo, a violência, a inteligência, a lei do mais forte, a preferência por certas comidas, o insucesso no amor resultariam de programação ancestral da qual ninguém escapa. Até a religiosidade. Há vários anos, neuropesquisadores sugeriram que Deus era fruto do lobo temporal do cérebro, ou melhor, a fé proviria da excitação de estruturas no interior da cabeça. Se devidamente estimuladas, essas regiões transformariam céticos em profetas apocalípticos que recebem mensagens diretamente do céu e mandam-nos arrepender dos pecados, pois o fim está próximo. Segundo os neuropsicólogos, muitos religiosos, oráculos, visionários e psicógrafos ao longo da história teriam sido doentes mentais sem diagnóstico. Inventou-se até uma especialidade para lidar com as consequências dessa descoberta: neuroteólogo. Teria a genética feito a luz?

Cultura ou genética? Ambas. Não sobreviveremos sem a identidade humana construída desde as cavernas, tampouco sem instinto, sem razão, sem inteligência, sem as mãos, sem sentimento, sem emoção, sem arte, sem respeito mútuo. Se hoje passamos de sete bilhões e não corremos o risco de extinção, nosso sucesso também se deve à cultura. Para melhor, ela se entranhou no dia a dia, tornou-se parte de nosso comportamento. Virou crucial fator evolutivo, meio lamarckista, é verdade, pois só com a prática continuada cria raízes profundas.

Otimista, antevejo a hora em que ela substituirá alguns imperativos genéticos, com frequência cruéis, antes caros à nossa sobrevivência Look At This. Romântico, acredito no futuro em que, libertos de velhas superstições, nossos sonhos de liberdade, fraternidade e igualdade se concretizarão. Realista, espero contarmos, para sempre, com a sagacidade do genoma.  Quanto tempo levará a fusão naturenurture? Trinta mil anos, prazo que demoramos para desenvolver nossa humanidade, é uma boa aposta. Quem viver verá.

Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail

Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail

MODISMO NUNCA SAI DE MODA

Toda época possui paradigmas, ideias, conceitos e costumes julgados definitivos, tão óbvios para as pessoas que seriam evidentes por si mesmos. Examinados de perto, muitos desses truísmos não passam de modismo, isto é, culto a inverdades, balelas ou fábulas, não importa se na ciência, religião, arte, filosofia, dieta, beleza ou etiqueta. O tempo, inimigo de tudo, até do vinho que fatalmente se deteriora, combate-os sem trégua, apesar de alguns demonstrarem extraordinária longevidade. Mais ano, menos ano, contudo, chega o momento em que a venerada certeza, repetida através de gerações, se desmancha, e o futuro encara-a entre a complacência e o riso, enquanto desenvolve os próprios pseudotruísmos.

Exemplos? Apesar de hoje louvarmos a alopatia, por séculos a teoria do flogístico ou a dos humores prevaleceu no tratamento das doenças e, segundo relatos antigos, funcionou a contento. Júpiter, herdeiro de Zeus, mereceu altares, sacrifícios e orações mundo afora no auge de Roma, com idêntica taxa de eficiência dos deuses atuais. Quantos o adoram atualmente? Quem ainda acredita que a natureza seja feita de ar, fogo, terra e água como elementos constitutivos, sem menção aos átomos? Da relação de premiados com o Nobel de Literatura, dezenas de autores sucumbiram ao assédio das décadas. De nada lhes valeu a consagração máxima. Gordura em excesso, sinal de riqueza e saúde na Europa pós-colombiana, foi exibida com orgulho por reis e rainhas durante séculos. Quem, hoje em dia, acha bonita a obesidade? O Sol já girou ao redor da Terra com a força do dogma. Graças à ajuda dos papas, o geocentrismo imperou por mais de mil anos, queimou opositores na fogueira, obrigou Galileu a se desdizer, mas um dia virou pó. Muito da cosmologia moderna, com seus big bangs, inflações, universos paralelos, multiversos, buracos disso e daquilo, teorias de cordas e multidimensões merecerá, em breve, riso e esquecimento. Como todo ser humano, cientistas também acreditam nas próprias fantasias.

Com o tempo, quase tudo passa, desgasta-se ou mostra-se falso. Lord Keynes, o influente economista inglês, achava graça dessa constatação, pois, a longo prazo, todos estaremos mortos: o que importa para um cadáver? Humor à parte, o tempo não demonstra afeição alguma pelas coisas, corretamente concluiu Lucrécio, há mais de dois milênios, sem saber que prenunciava a Segunda Lei da Termodinâmica, pilar da ciência moderna. Mais cedo ou mais tarde, os modismos acabam na vala comum das épocas, enterrados ao lado de milhares de outras certezas efêmeras. Então partiremos para a invenção de novos modismos, tachando-os de definitivos. A gente nunca se emenda. Faz parte da vida.

Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail

A ETERNIDADE, O POETA E O QUASAR

     A mente humana há muito se ocupa com a eternidade:
se existe, o que significa, qual o caminho até ela. As eternidades são muitas,
algumas bastante breves. Para diversos insetos, como as efeméridas que se
tornam adultas no quarto minguante, a Lua cheia talvez seja o exemplo acabado
do tempo infinito, pois morrerão antes do crescente. E para nós, o que é a
eternidade? Uma espera aborrecida de uma hora no ponto de ônibus no meio da
chuva, os dias que não passam entre um e outro encontro de amantes, um século,
um milhão de anos?
      O título desta crônica não esconde uma mensagem cifrada.
Li Po (701-762) é um grande poeta chinês da dinastia T’ang que conseguiu,
através da justaposição inspirada de ideogramas, a ambiguidade de vários poemas sobrepostos em cada um deles, todos merecedores de permanência na memória comum da
humanidade. Hoje, doze séculos após sua morte, ainda podemos captar seu estado
de espírito em meio à natureza que tanto amou, na vizinhança da montanha
Tai-t’ien:
“À margem do riacho, não escuto os sinos do
meio-dia.
Bambus selvagens retalham o firmamento.
Cascatas dependuram-se no abismo verde.
Ninguém sabe por onde você anda.
Triste, busco apoio no tronco de um pinheiro”.
     Seria Li Po eterno?
     OQ 172 designa um dos mais distantes objetos
celestes já detectados, um quasar nos confins do Universo, pertinho do Big Bang
onde tudo nasceu. Sua luz partiu quando não existiam seres humanos, tampouco a
Terra ou o Sol. A longa viagem avermelhou os fótons, enfraqueceu-os, tornou-os
quase imperceptíveis. Eles testemunham, entretanto, uma experiência que ainda
não compreendemos direito, a do espaço e do tempo condensados numa partícula
ínfima que, à semelhança de um poema de Li Po, fomenta múltiplas
interpretações. O quasar talvez não mais exista há bilhões de anos, porém só
agora tomamos conhecimento de sua longínqua presença. É como descobrir ainda
bebê um velho que já morreu.
      OQ 172 seria um símbolo do eterno?
      A eternidade não mora apenas na poesia ou na física,
mas em tudo que nos encanta. A aventura humana, apesar de curta em termos
cosmológicos, está cheia de exemplos. E a vida se torna mais prazerosa à medida
que penetramos nos meandros dessa aventura. Cada pessoa que nos precedeu legou
sua eternidade, e nossas próprias experiências construirão outras. Por que não
viver com gosto, o nosso e o alheio?
      Em outro poema, Li Po acompanha um amigo que se
afasta num barco:
“A sombra de sua vela solitária desvanece no vazio
Agora resta apenas o Grande Rio a caminho do céu”.
     
      Este Grande Rio talvez não consigamos entender durante
a vida, porém Li Po e OQ 172 são trechos dignos de percorrer, nos quais a arte
e a ciência – filhas gêmeas do gênio humano – nos ciceroneiam através de mundos
novos e, ao mesmo tempo, antigos. Melhor dizendo, mundos eternos. 
Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail

A ARTE DA BUSCA

 

 

        Os indianos desenvolveram a idéia, comum a vários
povos, de que o verdadeiro mundo é o dos sonhos. A vigília não passaria de uma
ilusão – ou maya. Entre os japoneses,
os mortos continuam tão presentes que têm até um altar em casa. No dia a dia,
marcamos as horas com precisão atômica, embora alguns teóricos neguem a
existência do tempo. Na física quântica, duas partículas virtuais, separadas
por milhões de anos-luz, reagem instantaneamente ao estímulo aplicado a apenas
uma delas. Partícula virtual, aliás, é um fantasma que surge do nada, desde que
o equilíbrio energético se mantenha. Em medicina, placebos bem recomendados
costumam funcionar melhor que os remédios adequados. Milhões de pessoas
acreditam que seu destino esteja nos astros, nos búzios, num pé de coelho, numa
reza, numa relíquia de santo, numa promessa difícil ou em três batidas na
madeira.
        Disso tudo surge a velha pergunta: o que é a realidade? Percebemos você e eu a mesma
coisa? O mongol da estepe, o sherpa do Himalaia, o ianomâmi da Amazônia e o
corretor de ações em Wall
Street enxergam o mesmo mundo? O asceta e o cientista vivem
em planetas diferentes? Quem possui o melhor ponto de vista? Antes disso, o que
significa “melhor”?
        A compreensão do que acontece ao nosso redor
constitui uma busca antiga, talvez infrutífera, balizada pela questão: nós
descobrimos ou inventamos a realidade?
        A ciência, que se julga objetiva, acata muita
subjetividade, desde a admissão de novidades por parte do establishment até o intransponível problema da limitação dos
sentidos e do cérebro. Às vezes, parecemos criar a realidade de acordo com a
nossa fisiologia ou anatomia. Vivemos num estado simultâneo de sim e não,
palpável e onírico, como no dilema quântico do gato de Schrödinger, em que o
felino pode estar vivo e morto, só resolvido quando um observador examina o
animal de perto. Mas o que é o observador, senão a presença da subjetividade?
         A Teoria da Relatividade ganhou esse nome também
porque se faz relativa ao observador. Entretanto, existem discrepância
profundas entre ela e a física quântica, a ponto de se cogitar que uma das duas contenha
falsas premissas. Ou ambas. Quando leio a respeito das seis, onze ou vinte e
seis dimensões que comporiam o Universo, lembro-me do sistema ptolemaico e suas
epicicloides que tentavam remendar uma concepção falida.
        Por outro lado, não podemos contar com forças
sobrenaturais. Há séculos terminou a era da magia. Amuletos, poções milagrosas,
palavras secretas e passes não alteram o curso dos eventos, assim como abençoar
carteiras de trabalho não traz o desempregado de volta ao serviço. Tampouco
dedicar-se a dogmas, dízimos e rituais garante saúde, dinheiro e
felicidade.   
       A dúvida quanto à natureza da realidade tem enorme
vantagem. Enquanto procuramos soluções, abrimos portas – e a vida se torna mais
ampla, complexa, colorida, saborosa. Descoberta ou invenção, a busca da
realidade é a suprema arte do ser humano.
Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail

A INCOMPATIBILIDADE ENTRE A ARTE E A CIÊNCIA

          Não
vejo qualquer conflito entre a arte e a ciência, duas ferramentas para
interpretar o mundo. Ambas se originam em nosso cérebro, sempre ocupado a construir
modelos para tudo, das galáxias a complôs para depor presidentes. O
artista enxerga o mundo de maneira diferente do cientista, porém um e outro
avançam nossa compreensão da realidade, realidade que foge entre
nossos dedos e logo será reinterpretada ou reinventada. Equações da física saem de moda com a mesma frequência que estilos literários. Somos volúveis como nuvens.
          Trafegar com desenvoltura entre a arte
e a ciência é, para mim, um modo de aumentar a curtição da vida. Dobra-se a curtição, no mínimo. Às vezes, o resultado é maior que a soma das partes. Por isso,
prezo muito os autores com sensibilidade e, ao mesmo tempo, curiosidade
científica. Por exemplo, Italo Calvino. Ele se empolga tanto com o espaço cósmico
quanto com a neve que cai com suavidade nos Alpes. Uma prova é seu livro de
ensaios Seis Propostas para o Próximo
Milênio
, escrito pouco antes de sua morte, em 1985.
          Seis
Propostas para o Próximo Milênio
talvez seja a obra mais criativa que
deixou. Um legado da alma. Uma herança da razão. Uma obra do cérebro. Um parto das mesmas células que nos fazem astrofísico ou escritor. Nele Calvino mostra como a leveza, a rapidez, a
exatidão, a visibilidade e a multiplicidade podem aumentar nossa percepção.
Graças a essas cinco qualidades, seu texto se aproxima da precisão científica, sem perder a sensibilidade artística. 
         Calvino funde no livro os dois
hemisférios do cérebro, cada qual a interpretar a realidade sob uma ótica
diferente, jamais incompatível. Ambos, no entanto, dispostos a nos proporcionar uma ideia mais abrangente da vida. Sobretudo de sua graça e de sua beleza. A graça e a beleza que, hoje em dia, tentamos encobrir.   
Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail

O QUE É A REALIDADE?

     O que é a
realidade? A pergunta intriga os seres humanos há milênios. A mesma realidade é
percebida por todos? O que eu vejo é aquilo que você vê? Houve quem afirmasse
que o real é aquilo que vislumbramos no sonho, e este momento que agora vivemos
é, na verdade, uma ilusão. Outros disseram que tudo é ilusão, é maya. Na raiz
da filosofia ocidental, o pensamento de Platão conjetura a existência de uma
realidade além do aqui, onde reside a perfeição, onde está o ideal.

     No século 20, a física quântica,
ao se defrontar com o problema da realidade, concluiu que ela depende de quem a
vê, isto é, depende do observador. Ora, a ciência não precisava de tanta
elucubração, de tantas equações para chegar a esta conclusão. Os escritores
sabem, desde sempre, que a realidade depende de quem a observa. Por isso,
narram sob diversos pontos de vista. Cada autor, cada personagem possui sua
realidade. Cada história cria uma realidade. A literatura, como um todo, é uma
expansão da realidade. Estranhamente, ela não passa de uma ficção. 
Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail

Três pesquisadores que experimentaram quase todas as drogas

         Você já ouviu falar do oliliuqui? E do peyote? E da ayhuasca ou yagé? E da folha divina da imortalidade?
Pois todos esses nomes se referem a plantas alucinógenas usadas pelos índios
da América Latina para entrar em contato com seu universo interior ou com seus
deuses. Para pesquisá-las, três gerações de botânicos da Universidade de
Harvard percorreram nosso continente, enfrentaram todo tipo de perigo e doença.
Descobriram como essas drogas atuam. Para retratá-las com precisão, eles
experimentaram quase todas e relataram os efeitos sobre seus corpos e mentes.
Um barato que, às vezes, saiu caro.
          Essa
aventura louca, que põe Indiana Jones no chinelo, aparece no livro El Rio, de Wade Davis, etnobotânico e
documentarista canadense. El Rio, ou One River no original, infelizmente não
foi traduzido para o português, mas merece. É ótima leitura. Além de resgatar
as aventuras de Richard Schultes, Tim Plowman e do próprio Wade Davis nas
selvas, também realiza amplo levantamento da cultura e da história de países
latinos e de tribos indígenas. Por exemplo, ao mergulhar no ciclo da borracha,
descreve o apogeu de Manaus, quando os perdulários milionários da cidade, para
ter seus lençóis bem branquinhos, mandavam lavá-los na Europa. Lembra como as
sementes de nossa seringueira foram contrabandeadas para a Ásia e como os
norte-americanos fazem biopirataria usando o nome da ciência. Conta como tribos
inteiras foram chacinadas pelos europeus, sobretudo espanhóis. Ao todo, quase 30 milhões de pessoas.
          Mostra,
ainda, outro tipo de extermínio, perpetrado por religiosos que, em nome da
salvação, dizimaram muitos povos e suas culturas. Revela que dois presidentes
dos Estados Unidos, vários artistas e Freud se tornaram consumidores de coca. O
papa Leão XIII até condecorou o inventor de uma bebida, o Vinho Mariani, feito
com a planta. Aliás, a coca é, até hoje, importada legalmente nos Estados
Unidos pela Stepan Chemical Company, empresa que repassa um de seus extratos
para a Coca-Cola, originalmente um remédio vendido em farmácia como vinho
francês de coca. O que mudou?

          Tudo
isso e muito mais você encontra em
El Rio ou One River, de Wade Davis. Livro
delicioso, apaixonado, apaixonante, imperdível. Se tiver oportunidade de lê-lo,
faça-o. Você não sairá ileso das águas desse rio.   
Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail

Literatura não é ciência

        A
teoria da literatura explora o modo de ser da obra literária, isto é, suas
propriedades, sua diversidade, o processo de criação e recepção, as
congruências e diferenças estruturais e históricas da literatura. Complicado?
Eu acho que sim. Complicadíssimo.
          Fica ainda mais complicado quando se
adicionam as várias correntes formadas a partir desses conceitos (como os
positivistas, neopositivistas, estruturalistas, historicistas, semióticos,
estéticos, hermenêuticos, intertextuais, indeterminados etc etc), cada corrente com
seu ponto de vista, cada uma disposta a bombardear as oponentes. A confusão
aumenta quando outros tentam transformar o estudo da literatura em ciência, ou
seja, tentam amarrar a literatura a regras, princípios e uniformidades que não
lhe são próprios.
          Escrever é um gesto caótico, em que o
escritor muitas vezes não sabe aonde quer chegar, tampouco, na chegada, sabe se
atingiu o objetivo. Como disseram os poetas, os versos são inúteis, uma
inutilidade que transforma e seduz. O melhor a fazer é curtir a leitura, cada
qual à sua maneira, pois há tantas maneiras de se perceber o texto tantos são
os leitores. A literatura precedeu a ciência do caos.
          Outros alegarão, entretanto, que minha
ideia faz parte de uma teoria desenvolvida no século 20, teoria que visa
classificar os textos dentro de parâmetros que desembocaram na ciência da
literatura. Confuso? Confusíssimo. Quando escrevo ou leio, não penso em teoria,
em ciência. Penso
na arte. No prazer. Na estética. No personagem. No enredo. Nas figuras de
linguagem e na linguagem em si.
Na sabedoria do autor. Na sonoridade. Na melhor palavra. Na
imensa alegria de mergulhar em mundos que parecem, mas não são, ou são, mas não
parecem ser. Nada disso precisa de ciência, apenas de sensibilidade.
Sensibilidade para capturar a ficção da realidade. O mundo é a ficção de cada
um. Escritores simplesmente falam da sua fantasia.    

Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail

Receita milenar para virar herói

        A verdade é uma só, e os sábios falam dela sob vários nomes. Esta frase
está nos Vedas, livros sagrados hindus.
Tomemos, por exemplo, a trajetória dos heróis. Ela se repete em todos os
continentes, sob os mais diversos nomes, desde a antiguidade: Gilgamesh,
Moisés, Shiva, Rei Arthur, Joana D’Arc, Hércules, Jesus, Tiradentes. Esses heróis, depois de sofrer provações, trouxeram sabedoria ou renovação para
sua gente. Aliás, entre as biografias de Jesus e Hércules existe mais que
coincidência: ambos eram mortais e deuses, filhos de um todo-poderoso com uma
terrena, passaram por sofrimentos atrozes, salvaram o mundo, sentiram-se
abandonados pelo pai, depois da morte subiram aos céus. Até suas últimas frases
teriam sido, em algumas tradições, as mesmíssimas, apenas separadas por muitos
séculos.
          Quem quiser saber um pouco
mais sobre o caminho comum aos heróis de todos os tempos não pode deixar de ler
o livro A Jornada do Herói, baseado
na vida e na obra do grande mitólogo norte-americano Joseph Campbell. Campbell
afirma que uma nação sem mitos não é uma nação, apenas um amontoado de pessoas
disparatadas. Estamos bem no Brasil. Mito sobra por aqui.
          O mito é o mistério do
mundo, condicionado à cosmologia de cada época. Por isso, Campbell não via
qualquer conflito entre a ciência e a religião, pois a religião é balizada pelo
conhecimento existente na data de sua fundação. Não se pode comparar o
conhecimento de hoje com aquele de dois mil anos atrás. A defasagem é evidente.
O mito, então e hoje, busca o mistério, a mesma busca do herói que, ao se
lançar nela, nos revela um pouco mais acerca do mundo e de nós mesmos.
          A receita para ser herói
é simples, segundo Campbell: “Siga a sua bem-aventurança, vá aonde há um
profundo sentido do seu ser, vá aonde seu corpo e alma querem ir”. Ao tomar
essa trilha, escute sua voz interior, e as portas se abrirão.
Ouvimos essa mesma história todos os dias,
repetida por empresários, artistas, políticos, atletas e cientistas que se
esforçaram, tiveram sucesso e nos legaram coisas novas. Isso prova a
permanência do mito. Através dos séculos, a jornada do herói não muda.   
Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail