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ADRENALINA NO TOPO DO MUNDO

Estava a caminho de Leh, capital do Ladakh, na Índia, fronteira com Paquistão, China e Tibete. Zona conturbada. Bombas, ataques terroristas, brigas entre hinduístas e muçulmanos, ameaças atômicas entre Índia e Paquistão, milhares de refugiados tibetanos. No caminho, a bordo de um Boeing 737, a paisagem do Karakoram, uma das cadeias do Himalaia, me arrebatou. A beleza das montanhas paga a viagem até Leh – e deixa troco. Sobrevoei quilômetros e quilômetros de picos nevados, agudos como se feitos ontem à noite, encostas íngremes, passos profundos, geleiras, canyons, vales, morenas. O paliteiro, de tão alto, quase espetava a fuselagem. Naquela vastidão branca, nunca se acharia um avião que tivesse a insensatez de cair. A beleza rude, até agressiva, pela insignificância que reduziu a mim e à máquina que me transportava, misturou fascínio e temor. Depois de me acostumar com a grandiosidade, percebi a graça do conjunto: o Karakoram é uma bandeja de suspiros saindo do forno. Suspiros de pedra e gelo.

De repente, um ponto ainda mais proeminente. É o K2, avisou o piloto, o segundo pico mais alto do planeta e o mais difícil de escalar. Com arrepios adicionais, dei-me conta de que estava perto do fim do mundo. Relaxei-me. O fim do mundo é lindo.

O frio na barriga triplicou quando enxerguei a pista de Leh, situada a 4000 metros de altitude e cercada por precipícios. Julguei impossível aterrissar um 737 na extensão de um campo de futebol. E, no final da pista, um monastério budista fazia as vezes de um gol. Nada disso. A construção estava mais para um goleiro que, em guarda sobre um morro, se dispunha a cercar tudo que viesse do céu ou da terra.

O piloto manobrou entre os cumes e, viciado em fortes emoções, literalmente deixou a aeronave despencar. Quando eu jurava que bateria no solo com a ponta da fuselagem, o Boeing ergueu o nariz. Tocou o asfalto já com os freios travados, porém com o dobro da velocidade aconselhável, assim me pareceu, impressionado pela rapidez com que rolávamos. Eu só pensava no danado do monastério cada vez mais perto e no susto dos monges budistas que, após o estrondo, encontrariam dentro de casa um bando de corpos irreconhecíveis.

O avião começou a tremer. Tremeram as cadeiras, como que arrancadas do suporte, tremeu o teto, tremeu o chão. As mesinhas dos assentos desprenderam-se, os bagageiros abriram-se, objetos caíram, um japonês levou uma garrafada na testa. Na cozinha, pratos espatifaram-se. O carrinho de bebidas se soltou, avançou sobre os passageiros. Duas aeromoças com os cintos afivelados se entreolharam, trocaram expressões de pânico.

No segundo anterior à tragédia, veio o cavalo de pau. O 737 rodopiou, cantou pneu, rangeu e, milagre!, ficou quietinho, virado para o terminal, pálido com a enorme descarga de adrenalina. O japonês com galo nascendo na testa bateu palmas. Todos a bordo o acompanharam. Aterrissar em Leh é emoção garantida. Mas haja coração.

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Boeing em queda livre

O avião canadense decolou de Seoul, na
Coreia do Sul, para Vancouver, no Canadá, às cinco da tarde. Quase trezentas
pessoas a bordo. Minha mulher e eu ocupávamos a penúltima fileira, à frente de
um simpático casal de portugueses. Quando íamos jantar, o piloto ordenou que
aeromoças e passageiros se assentassem e afivelassem os cintos. Havia forte turbulência
pela frente.
          O que se seguiu não foi turbulência,
mas um rodeio de peão em cima de touro bravo. O Boeing 777 despencou sobre um colchão
de ar duro, sofreu um baque, subiu, caiu, adernou à direita, estremeceu, subiu
de novo. Então veio a queda livre. Sem fim. Depois de bater no fundo, pela
janela vi o avião literalmente bater as asas para voar. Elas quase se dobravam
e tocavam uma na outra. Moviam-se quais as de um pássaro ferido, prestes a entregar
os pontos. Maleiros se abriram, objetos tombaram, garrafas caíram, vidros se
espatifaram. Nesse momento, aconteceu o primeiro grito de pavor.
          Dizem que o pânico contagia. Sim, é
verdade. Em questão de segundos, o avião inteiro berrava, uivava, gania,
clamava aos céus. Parecíamos viver os últimos momentos. Olhei para minha mulher.
Ela cruzara as mãos e, cabisbaixa, as apoiara entre as pernas. Brinquei, para
espantar o medo:
          – Puxa, meu bem, nunca imaginei que
iríamos morrer no meio do Pacífico…
          Seu olhar me queimou mais que fogueira
da Inquisição.
          Durante outro mergulho sem fim, o
português no banco de trás se rendeu ao terror:
          – Mariiiia, desta vez fomos!
          Não, não fomos. Novo baque, nova sobrevida,
nova queda:
          – Mariiiiiiiiaaa, desta vez vaaaamos!
Adeus, Mariiia!
          – Adeus, Manoel, amor meu!
          Olhei para o lado. Um garoto coreano rolava
seu carrinho Matchbox sobre os assentos, alheio à balbúrdia, alheio ao medo, alheio
até à mãe, que se descabelava.
          De repente, tudo acabou. Melhor
dizendo, acabou a turbulência. Sobrevivemos. Vi o céu – o belo céu deste mundo
em fim de tarde.

          Não consegui jantar. Meu assento
ficava junto aos banheiros, a fila era enorme, e várias pessoas exalavam o mau
cheiro de quem não se segurara. Havia manchas nos traseiros. Ninguém se sentiu
constrangido. O preço era baixo para tanto alívio.            
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