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PACTO COM CAIM

José Saramago, único ganhador do Prêmio Nobel de Literatura da língua portuguesa, faleceu em 2010. Para muitos, ele deve estar ardendo no fogo do inferno. Ateu convicto, comunista de carteirinha, criticou duramente a Igreja, chamou o papa Bento XVI de cínico, afirmou que a Bíblia é um manual de maus costumes, recebeu ameaças eclesiásticas e governamentais, quase foi banido de Portugal, autoexilou-se em Lanzarote, na Espanha. Teólogos tacharam-no de ingênuo, desonesto, mal informado, intérprete unilateral da Bíblia e, dias após sua morte, o Vaticano denominou-o populista extremista e ideólogo antirreligioso. Sugeriu-se que suas obras não deveriam ser lidas pelos verdadeiros cristãos.

Em seu derradeiro romance, Caim, o escritor voltou o olhar iconoclasta contra Deus e o condenou, depois de analisar vários episódios bíblicos em que julgou deploráveis as atitudes do criador, geradoras de exclusão, assassinato, misoginia, guerra, perseguição e intolerância. Usou Caim como porta-voz. Transformou-o em consciência crítica dos gestos divinos que não trava a língua quando se encontra com Deus. Por exemplo, afirma que matou Abel porque não podia matar o próprio criador. Este admite certa dose de culpa no episódio e, em segredo, celebra um pacto com Caim que, para pagar pela morte do irmão, errará mundo afora.

Esse vagar sem eira nem beira pelo tempo e pelo espaço bíblico constitui a estrutura da obra. Como se vê, Caim é um livro controverso a partir da concepção, quase tanto quanto O Evangelho segundo Jesus Cristo, publicado em 1991. A bem da verdade, literariamente Caim não é das melhores lavras do escritor, mas com certeza das mais explosivas, tão explosiva que uma amiga me confessou ter receio de, ao lê-la, cometer pecado mortal. Creio que muita gente sentiu e sente medo do romance. Quer ler, porém não acha coragem.

Eu não teria esse tipo de preocupação. Afinal, se somos feitos à imagem e semelhança de Deus, nossa curiosidade e questionamento foram herdadas. O que é a onisciência senão a curiosidade levada ao paroxismo? O que são os mandamentos senão questionamentos à nossa própria natureza?

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O assassinato de uma casa e de seus habitantes

       Pode
uma casa ter vida, crescer e morrer como uma pessoa? Se você ler o romance Crônica da Casa Assassinada, do escritor
mineiro Lúcio Cardoso, a resposta é sim. Sim, pode. E com que maestria a casa
morre, acompanhando a decadência de seus moradores, uma família do interior
mineiro, os Meneses. Numa mistura de surrealismo, densidade de texto e
introspecção psicológica, trabalhadas em linguagem que muitas vezes beira a
poesia, Lúcio Cardoso joga-nos dentro de uma fazenda que guarda segredos
terríveis entre os parentes e os agregados que a habitam, lado a lado, nos
quartos ao longo de um corredor espremido entre a sala e a cozinha.
          Incesto, morbidez, adultério, pesadelo
e violência entrecruzam-se de maneira velada, sutil, expressos em diários,
cartas e confissões, a partir da chegada da desconhecida Nina, mulher bonita,
manipuladora e extravagante que deixa o Rio de Janeiro para casar-se com um dos
Meneses, atraída e traída pela aparente riqueza da família. Nina desperta
paixão e inveja nos outros moradores. A tensão aumenta. Um aparente incesto
acontece. Relatos de testemunhas adicionam lenha à fogueira. O embate entre os
personagens gera reações que vão da febre amorosa ao ódio, da indiferença à
mentira.
      Haja criatividade para manter
o texto num nível tão elevado, belo e angustiante. A casa é um complexo caso
psicanalítico, sem saída, cujo destino se superpõe ao de Nina, carcomida pelo
câncer e suas metástases.

          O romance foi publicado em 1959. Faz,
portanto, cinquenta e seis anos que a obra encanta. Continua magnífica a Crônica da Casa Assassinada. Um
assassinato que nem Freud junto com Sherlock Holmes desvendariam.      
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