Arquivo da tag: arte

POESIA NÃO MORDE

 

Você não gosta de poesia? Crê que a poesia de hoje é difícil de entender, tem preguiça de percorrer os labirintos de um poema atual? Ué, sabe que eu também fico às vezes nessa sinuca de bico, sem saber que rumo tomar? A culpa não é da poesia, sempre necessária e reveladora, mas dos modismos e achismos e idiotismos adotados por alguns poetas. O resultado costuma ser, de fato, um aranzel, um desencontro de palavras, uma verborragia desprovida de sentido. E de talento.

Desconfio de que, com frequência, nem o próprio poeta saiba o que tenha dito, se é que tinha algo a dizer. A poesia é a arte do inútil, assim já a definiram. Ou a arte de dizer o indizível. Portanto precisa de arte. Arte está em sua raiz. Um poeta certa vez me confessou que desejava apenas fazer ruído com seus versos. Sim, ruído, nada mais. Compôs um zunido sem fim, sem palavras. Se esse era o objetivo, por que não gravou a barulheira do centro da cidade às seis da tarde? Teria em mãos uma epopeia. De graça.

Alguns desses embusteiros recebem louvações da mídia, que tenta nos forçar a concluir que os incensados são o ideal da arte, o suprassumo das musas, o modelo do futuro. Se saiu na mídia, é bom. Será? Somos enganados e ainda ficamos com a tristeza de desgostar de poesia, não é mesmo?

Vamos separar as coisas. Quem faz poesia assim é uma minoria. Existem grandes poetas, novos e antigos, revolucionários e conservadores, para todos os gostos, desde os que fazem grandes voos verbais aos gênios que sintetizam enciclopédias em meia dúzia de palavras. Esses não passarão feito passarinho.

Enquanto romancista, invejo a capacidade dos poetas de dizer tanto em tão pouco. Eles me tocam fundo, revelam passagens secretas entre nossos abismos interiores, tiram o peso do corpo e da alma, abrem avenidas para o pensamento, questionam ideias, expõem conflitos, revolvem nossas entranhas, oferecem momentos de graça, vislumbram o paraíso. O mundo é feito de poesia. O bom poeta sabe disso e a garimpa onde menos esperamos. Arranca-a da pedra, do caminho, do asfalto, da vida. O resultado é puro deleite, puro fascínio, pura poesia. Poesia não morde. Às vezes dói. Mas sempre encanta.

Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail

A ARTE ENTRE CERVANTES E SHAKESPEARE

 

Admiro a arte, todo tipo de arte, da escultura à pintura, da música à dança. Frequentei espetáculos, exposições e museus em diversos países. Escrevi dois romances que acompanham os movimentos de composições, uma de Bach, outra de Albinoni. Em outro romance, contei como é gostoso comer um quadro de Pollock.

No entanto, somos seres feitos de palavras. A palavra moldou nosso cérebro, literalmente. Ela lubrifica nossos neurônios, com ela nos comunicamos a maior parte do tempo, sobretudo através dela transmitimos nossa experiência, nossa história, nossos acertos e erros. A palavra criou-nos, e a literatura é a quintessência da palavra. Somos, em suma, fruto da literatura. Disseram, inclusive, que Shakespeare inventou o humano, feito digno dos grandes heróis míticos. O Velho Bardo desacorrentou Prometeu.

Preocupa-me a importância cada vez menor que temos dado à literatura no Brasil. Ficamos menores, cada vez mais pobres intelectualmente, mais tacanhos. Cada vez mais, cultuamos a mediocridade. A cultura da mediocridade leva à mediocridade da cultura.

Sim, claro, existem investimentos do Estado em livros, há campanhas de leitura, porém são atividades pontuais, efêmeras. No Brasil de hoje, a cultura não dura. O país se guia pela mídia e pelos grandes mecenas, e a mídia e os grandes mecenas relegaram a literatura a plano secundário, como se pudéssemos prescindir das palavras, como se computadores e televisão vivessem sem palavras, como se ideias surgissem sem palavras, como se o futuro brotasse sem palavras, como se a reflexão sobre o ser humano acontecesse sem a literatura.          Até os jornais e revistas atiram nos próprios pés quando diminuem o espaço dado aos livros, ajudando a cassar o gosto pela leitura.

Diego Velázquez talvez tenha sido o mais genial pintor espanhol. Passo horas a admirar sua obra-prima, o quadro As Meninas, cuja beleza, humor e complexidade me encantam. No entanto, um contemporâneo dele, Miguel de Cervantes, escreveu Dom Quixote. Há quatrocentos anos, quem nos diz mais a respeito de seu tempo, de nós mesmos, de nossa dimensão, de nossa transitoriedade e permanência, de nossa fantasia, de nossa humanidade? Quem? Velázquez ou Cervantes?

Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail

UM SER, DOIS CÉREBROS?

 

 

Aqui estão dois ícones de nossa cultura: a equação de Einstein ” E=mc2 ” e a frase de Shakespeare “Ser ou não ser, eis a questão”.

Qual o mais importante? Existe incompatibilidade entre a arte e a ciência, entre Einstein e  Shakespeare? Uma exclusão necessária e definitiva afasta a Mona Lisa da mecânica quântica? Equações e versos falam de mundos díspares?

De vez em quando, como agora, a velha cisão entre a ciência e a arte volta à tona. Partidários de uma ou outra corrente tentam demonstrar a incompatibilidade entre elas, sua dissociação intrínseca, seus antagonismos, como se artistas e cientistas pertencessem a espécies distintas. Estes, às vezes, desdenham a literatura, enquanto os escritores desancam quem engendrou e construiu a bomba de Hiroshima.

De um lado, o hermetismo de estudos literários deflagra críticas contundentes, respingando sobre a escrita em geral. Um físico famoso, prêmio Nobel, pilheria: “a ciência torna inteligível aquilo que não se sabia; a literatura faz o contrário”. Por sua vez, Walt Whitman, num poema inspirado, despreza os astrônomos e deixa-se perder no sereno da noite, maravilhado ante o silêncio das estrelas.

O êxtase e o espanto diante do universo e da vida não são privilégio de ninguém. As fotos de uma galáxia distante podem oferecer o mesmo arrebatamento de um texto de Machado de Assis. Por que qualificar os arrebatamentos, separando-os, tornando-os excludentes?

Ciência e arte, como qualquer outra atividade, tentam entender nosso mundo, procuram capturar os múltiplos aspectos da dimensão humana. Durante a busca, a criação trilha processos parecidos. Inspiração, raciocínio, emoção, luta contra as dificuldades, cansaço, frustração fazem parte do cardápio comum. Poetas e físicos temem uma folha de papel em branco, à espera de um verso ou de uma equação.

Eis a verdadeira luta, o bom combate. Se o verso e a equação terão valor é uma questão secundária. O valor será, em última instância, estabelecido pela sociedade, e juízos variam com o tempo. Importa, isso sim, criar.

Ainda bem que o gosto por literatura ou por ciência continua, na maioria das pessoas, movido pela curiosidade inata, pelo lúdico, pela extensão do conhecimento sobre si mesmo e sobre o universo, pela captura da emoção e do prazer. Niels Bohr e Guimarães Rosa, cada um à sua maneira, eram sábios.

Não existe incompatibilidade entre a arte e a ciência. Os excessos de uma ou outra são acidentes de percurso, comuns a qualquer atividade. Os êxitos, idem. Afinal, ambas são produtos do gênio humano. E também do gene humano.

Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail

MODISMO NUNCA SAI DE MODA

Toda época possui paradigmas, ideias, conceitos e costumes julgados definitivos, tão óbvios para as pessoas que seriam evidentes por si mesmos. Examinados de perto, muitos desses truísmos não passam de modismo, isto é, culto a inverdades, balelas ou fábulas, não importa se na ciência, religião, arte, filosofia, dieta, beleza ou etiqueta. O tempo, inimigo de tudo, até do vinho que fatalmente se deteriora, combate-os sem trégua, apesar de alguns demonstrarem extraordinária longevidade. Mais ano, menos ano, contudo, chega o momento em que a venerada certeza, repetida através de gerações, se desmancha, e o futuro encara-a entre a complacência e o riso, enquanto desenvolve os próprios pseudotruísmos.

Exemplos? Apesar de hoje louvarmos a alopatia, por séculos a teoria do flogístico ou a dos humores prevaleceu no tratamento das doenças e, segundo relatos antigos, funcionou a contento. Júpiter, herdeiro de Zeus, mereceu altares, sacrifícios e orações mundo afora no auge de Roma, com idêntica taxa de eficiência dos deuses atuais. Quantos o adoram atualmente? Quem ainda acredita que a natureza seja feita de ar, fogo, terra e água como elementos constitutivos, sem menção aos átomos? Da relação de premiados com o Nobel de Literatura, dezenas de autores sucumbiram ao assédio das décadas. De nada lhes valeu a consagração máxima. Gordura em excesso, sinal de riqueza e saúde na Europa pós-colombiana, foi exibida com orgulho por reis e rainhas durante séculos. Quem, hoje em dia, acha bonita a obesidade? O Sol já girou ao redor da Terra com a força do dogma. Graças à ajuda dos papas, o geocentrismo imperou por mais de mil anos, queimou opositores na fogueira, obrigou Galileu a se desdizer, mas um dia virou pó. Muito da cosmologia moderna, com seus big bangs, inflações, universos paralelos, multiversos, buracos disso e daquilo, teorias de cordas e multidimensões merecerá, em breve, riso e esquecimento. Como todo ser humano, cientistas também acreditam nas próprias fantasias.

Com o tempo, quase tudo passa, desgasta-se ou mostra-se falso. Lord Keynes, o influente economista inglês, achava graça dessa constatação, pois, a longo prazo, todos estaremos mortos: o que importa para um cadáver? Humor à parte, o tempo não demonstra afeição alguma pelas coisas, corretamente concluiu Lucrécio, há mais de dois milênios, sem saber que prenunciava a Segunda Lei da Termodinâmica, pilar da ciência moderna. Mais cedo ou mais tarde, os modismos acabam na vala comum das épocas, enterrados ao lado de milhares de outras certezas efêmeras. Então partiremos para a invenção de novos modismos, tachando-os de definitivos. A gente nunca se emenda. Faz parte da vida.

Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail

A ETERNIDADE, O POETA E O QUASAR

     A mente humana há muito se ocupa com a eternidade:
se existe, o que significa, qual o caminho até ela. As eternidades são muitas,
algumas bastante breves. Para diversos insetos, como as efeméridas que se
tornam adultas no quarto minguante, a Lua cheia talvez seja o exemplo acabado
do tempo infinito, pois morrerão antes do crescente. E para nós, o que é a
eternidade? Uma espera aborrecida de uma hora no ponto de ônibus no meio da
chuva, os dias que não passam entre um e outro encontro de amantes, um século,
um milhão de anos?
      O título desta crônica não esconde uma mensagem cifrada.
Li Po (701-762) é um grande poeta chinês da dinastia T’ang que conseguiu,
através da justaposição inspirada de ideogramas, a ambiguidade de vários poemas sobrepostos em cada um deles, todos merecedores de permanência na memória comum da
humanidade. Hoje, doze séculos após sua morte, ainda podemos captar seu estado
de espírito em meio à natureza que tanto amou, na vizinhança da montanha
Tai-t’ien:
“À margem do riacho, não escuto os sinos do
meio-dia.
Bambus selvagens retalham o firmamento.
Cascatas dependuram-se no abismo verde.
Ninguém sabe por onde você anda.
Triste, busco apoio no tronco de um pinheiro”.
     Seria Li Po eterno?
     OQ 172 designa um dos mais distantes objetos
celestes já detectados, um quasar nos confins do Universo, pertinho do Big Bang
onde tudo nasceu. Sua luz partiu quando não existiam seres humanos, tampouco a
Terra ou o Sol. A longa viagem avermelhou os fótons, enfraqueceu-os, tornou-os
quase imperceptíveis. Eles testemunham, entretanto, uma experiência que ainda
não compreendemos direito, a do espaço e do tempo condensados numa partícula
ínfima que, à semelhança de um poema de Li Po, fomenta múltiplas
interpretações. O quasar talvez não mais exista há bilhões de anos, porém só
agora tomamos conhecimento de sua longínqua presença. É como descobrir ainda
bebê um velho que já morreu.
      OQ 172 seria um símbolo do eterno?
      A eternidade não mora apenas na poesia ou na física,
mas em tudo que nos encanta. A aventura humana, apesar de curta em termos
cosmológicos, está cheia de exemplos. E a vida se torna mais prazerosa à medida
que penetramos nos meandros dessa aventura. Cada pessoa que nos precedeu legou
sua eternidade, e nossas próprias experiências construirão outras. Por que não
viver com gosto, o nosso e o alheio?
      Em outro poema, Li Po acompanha um amigo que se
afasta num barco:
“A sombra de sua vela solitária desvanece no vazio
Agora resta apenas o Grande Rio a caminho do céu”.
     
      Este Grande Rio talvez não consigamos entender durante
a vida, porém Li Po e OQ 172 são trechos dignos de percorrer, nos quais a arte
e a ciência – filhas gêmeas do gênio humano – nos ciceroneiam através de mundos
novos e, ao mesmo tempo, antigos. Melhor dizendo, mundos eternos. 
Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail

A arte das artes

       Admiro
a arte, todo tipo de arte, da escultura à pintura, da música à dança.
Frequentei espetáculos, exposições e museus em muitos países. Escrevi dois
romances que acompanham os movimentos de composições de Bach e Albinoni. Em
outro, falei do prazer de comer um quadro de Pollock. No entanto, somos seres
feitos de palavras. A palavra moldou nosso cérebro, ela lubrifica nossos
neurônios, com ela nos comunicamos a maior parte do tempo, sobretudo através
dela transmitimos nossa experiência, nossa história, nossos acertos e erros. A
palavra criou-nos, e a literatura é a quintessência da palavra. Somos, em suma,
fruto da literatura.
          Preocupa-me a importância cada vez
menor que temos dado à literatura no Brasil. Ficamos cada vez mais pobres intelectualmente,
mais tacanhos. Cada vez mais, cultuamos a mediocridade. A cultura da
mediocridade leva à mediocridade da cultura. Sim, claro, existem investimentos
do Estado em livros, há campanhas de leitura, porém são atividades pontuais,
efêmeras. O Brasil hoje se guia pela mídia e pelos grandes mecenas, e a mídia e
os grandes mecenas relegaram a literatura a plano secundário, como se
pudéssemos prescindir das palavras, como se computadores e televisão vivessem
sem palavras, como se ideias surgissem sem palavras, como se o futuro brotasse sem palavras, como se a reflexão sobre o
ser humano acontecesse sem a literatura.
          Até os jornais e revistas atiram nos
próprios pés quando diminuem o espaço dado aos livros, ajudando a cassar o gosto
pela leitura. Diego Velázquez talvez tenha sido o mais genial pintor espanhol.
Passo horas a admirar sua obra-prima, o quadro As Meninas, cuja beleza, humor e complexidade me encantam. No
entanto, um contemporâneo dele, Miguel de Cervantes, escreveu Dom Quixote. Quem nos diz mais a
respeito de seu tempo, de nós mesmos, de nossa dimensão, de nossa
transitoriedade e permanência, de nossa fantasia, de nossa humanidade? Quem?
Velázquez ou Cervantes?

Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail

Literatura não é ciência

        A
teoria da literatura explora o modo de ser da obra literária, isto é, suas
propriedades, sua diversidade, o processo de criação e recepção, as
congruências e diferenças estruturais e históricas da literatura. Complicado?
Eu acho que sim. Complicadíssimo.
          Fica ainda mais complicado quando se
adicionam as várias correntes formadas a partir desses conceitos (como os
positivistas, neopositivistas, estruturalistas, historicistas, semióticos,
estéticos, hermenêuticos, intertextuais, indeterminados etc etc), cada corrente com
seu ponto de vista, cada uma disposta a bombardear as oponentes. A confusão
aumenta quando outros tentam transformar o estudo da literatura em ciência, ou
seja, tentam amarrar a literatura a regras, princípios e uniformidades que não
lhe são próprios.
          Escrever é um gesto caótico, em que o
escritor muitas vezes não sabe aonde quer chegar, tampouco, na chegada, sabe se
atingiu o objetivo. Como disseram os poetas, os versos são inúteis, uma
inutilidade que transforma e seduz. O melhor a fazer é curtir a leitura, cada
qual à sua maneira, pois há tantas maneiras de se perceber o texto tantos são
os leitores. A literatura precedeu a ciência do caos.
          Outros alegarão, entretanto, que minha
ideia faz parte de uma teoria desenvolvida no século 20, teoria que visa
classificar os textos dentro de parâmetros que desembocaram na ciência da
literatura. Confuso? Confusíssimo. Quando escrevo ou leio, não penso em teoria,
em ciência. Penso
na arte. No prazer. Na estética. No personagem. No enredo. Nas figuras de
linguagem e na linguagem em si.
Na sabedoria do autor. Na sonoridade. Na melhor palavra. Na
imensa alegria de mergulhar em mundos que parecem, mas não são, ou são, mas não
parecem ser. Nada disso precisa de ciência, apenas de sensibilidade.
Sensibilidade para capturar a ficção da realidade. O mundo é a ficção de cada
um. Escritores simplesmente falam da sua fantasia.    

Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail