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AGRESSÃO E CURA

 

Quem bate e depois sopra não comete agressão? Quem machuca, quase mata e depois cura não comete crime?

Essas perguntas andam me incomodando. Explico o motivo. Estive em Buenos Aires, e os argentinos me deram de presente a pior gripe da vida. Febre, dor, desânimo, sensação de fim do mundo, tudo junto. Pior que dengue ou zika. Parece que fortificaram o vírus antes de o inocularem em meu corpo.

Acontece que, quando contraio essas gripes deprimentes, meu remédio infalível vem da Argentina. Ele se chama Jorge Luis Borges. Assim que retomo o grande autor portenho, meu espírito se fortalece, o corpo se revigora, viajo na poderosa imaginação e cultura de Borges, embarco em seus labirintos e espelhos, quando dou por mim já não me lembro de doença, de vírus, estou em estado de graça.

Nesta semana, rendido à gripe, folheei as Obras Completas de Borges, mergulhei nas Ficções, na História Universal da Infâmia, no Aleph, nas Inquisições. Horas depois, o milagre. Recuperei o ânimo, encantado uma vez mais com o Bruxo. Minha cabeça voltou a funcionar, o mal-estar cedeu.

Em agradecimento, voltei mentalmente a Buenos Aires, à rua Tucumán, entre Esmeralda e Suipacha, onde Borges nasceu em 1899. Depois entrei no centenário Café Tortoni para curtir o rococó e as discussões intelectuais. Numa de suas mesas, me encontrei certa vez com Borges, encontro imaginário ocorrido na verdade com um sósia e velho amigo dele. Me lembro de que foi lá no Tortoni que comecei a espirrar e a sentir calafrios. Teria eu respirado alguns vírus antigos, muito resistentes, deixados lá dentro, décadas atrás, pelo próprio Borges? Pois é. Fica a dúvida. Bate e sopra. Quase mata e depois salva. Como resolver o dilema?

Importa é que o remédio funcionou. Sempre funciona. Por que você não o experimenta na próxima gripe ou mesmo sem ela? Não tem contra-indicação e não lhe provocará questões éticas sobre culpa, doença e crime. Aqui entre nós: por conta dos efeitos literários benfazejos de Borges, eu até já perdoei os argentinos pelos vírus que me legaram. Perdoo de antemão. Sempre. Uma cabeça em deleite vale muito mais que um corpo com alguns bilhões de vírus a mais.

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A DOR DOS ARGENTINOS E DOS SERTANEJOS

Agora que o papa é hermano e os argentinos são notícia por causa das eleições presidenciais, pergunto-me qual livro melhor representaria o querido país vizinho. Minha escolha coincide com a de muita gente, inclusive a de Jorge Luis Borges, genial autor cujas obras mereceriam a honraria.

Assim, fico com o livro Martín Fierro, escrito por José Hernández na década de 1870. Faz, portanto, quase um século e meio que Martín Fierro encanta nossos hermanos. Ele aborda as lutas, golpes, perseguições, dores, amores, aventuras e desventuras do habitante das grandes pradarias dos nossos vizinhos, o gaúcho. Sim, é gauchesca a obra mais característica dos hermanos, com direito a todos os ingredientes do gênero, da honra desmedida ao machismo e à dor de cotovelo.

Trata-se de um longo poema, quase 1200 sextetos entremeados de composições mais longas, com rimas bem sonoras, bem ricas, na linguagem típica do gaúcho que era malquisto e malvisto pela aristocracia do país, mas que possuía um espírito cheio de orgulho e força, com uma filosofia marcada pela vicissitude.

José Hernández conhecia bem seu personagem, pois viveu próximo a ele desde a infância, a ponto de confundirem-se criador e criatura. Mergulhar em Martín Fierro é voltar no tempo, é pressentir as letras que fariam sucesso com o tango décadas depois.

Martín Fierro recupera um modo de vida que hoje em dia faz sucesso entre os fãs dos rodeios de Barretos, em São Paulo. Aliás, os sextetos de Martín Fierro facilmente se transformariam em música sertaneja, porém com qualidade muito superior àquela que a gente ouve. Infinitamente superior, diga-se de passagem.

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A SEDUÇÃO DO DESERTO

 

Acabo de chegar do Norte da Argentina, região pouco frequentada pelos brasileiros. Nada frequentada, melhor dizendo. Talvez porque seja a parte mais pobre do país. “Nosso Terceiro Mundo”, definiu um hermano, orgulhoso de ter nascido bem longe, em Buenos Aires. Nós, brasileiros, raciocinamos da mesma maneira. Possuímos verdadeiro horror pelo que não possua algum glamour e reconhecimento internacional. Preferimos o falso requinte de uma Disneylândia a uma cultura original que não se apegou ao fake e ao marketing. “Quando viajo, não quero ver pobreza”, me confessa um amigo. “Pobreza basta a daqui”. A gente perde muita beleza com essa mentalidade.

Para chegar ao Norte da Argentina, saí de Córdoba rumo a Salta, quase mil quilômetros de boas estradas numa só reta, com passagem pelos Vales Calchaquies, região de bons vinhos e estranhas formações rochosas. Depois, segui em direção à Bolívia, país que exerce forte influência na região, não apenas pela cultura, como pela etnia indígena aimará, dominante nos Andes, a cordilheira que atravessa a parte ocidental da América do Sul. Mais de 8000 km de extensão. Os picos mais altos das Américas.

Ao chegar à Quebrada de Humahuaca, na província de Jujuy, o deserto tomou conta da paisagem. Secura, calor, cáctus, areia, poeira. Montanhas nuas multicoloridas. Uma delas, o Hornocal, dizem ter mais de 20 estratos empilhados, cada um de uma cor. Contei seis, que se repetem em ondulações, produzindo uma das mais belas paisagens que se possa imaginar: quilômetros de encostas, a 4300 metros de altitude, onde o vermelho, o rosa, o verde, o branco, o cinza e o amarelo aparecem lado a lado, em faixas horizontais que os movimentos da Terra puseram quase na vertical. São como ondas congeladas de um passado violento, mais tarde polido pelo gelo e pela água. Ali perto, em Purmamarca, o espetáculo se repete, ainda mais vermelho, num cânion que leva justamente o nome de Colorado. Em Tilcara, as geleiras extintas deixaram seu rastro de montanhas de pedra e areia onde o tempo esculpiu castelos, covas e pináculos que lembram o chapéu de uma bruxa. Aí também os índios pucará construíram uma cidade de pedra. Abandonada há séculos, as ruínas foram restauradas e dão uma boa ideia da difícil sobrevivência no deserto. No entanto, se isso serve de consolo, o pôr do sol em toda a Quebrada de Humahuaca vale a viagem. Vale a viagem e deixa troco de saudade. O colorido dos morros, picos e formações rochosas assume tonalidades que lembram o planeta Marte. Bem aqui na Terra.

O Norte da Argentina pode não ser conhecido dos brasileiros, pode não ter fama, pode não ter glamour internacional, mas possui a Terra em seu estado puro, em sua geologia exposta, em suas entranhas revoltas, em suas imensas possibilidades de beleza. Tem ainda a cultura ancestral aimará e pucará. A ONU reconheceu esses valores. Transformou recentemente a Quebrada de Humahuaca em Patrimônio Natural e Cultural da Humanidade. Com muito merecimento, diga-se. Para comprovar, basta ir lá, ver e se encantar. E trazer na memória, bem vivos, exemplos de como nosso planeta tem sido genioso ao longo das eras.

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A rodada de pôquer que evitou uma guerra

Eu passava as férias num hotel em
Puyehué, no Sul do Chile, na divisa com a Argentina. Tempo de ditaduras na América Latina. Tempo
de tortura, disputa e arrogância. Num fim de tarde, a situação degringolou. De
um lado e outro, os generais ameaçaram invadir e aniquilar os vizinhos. Ocupado
com passeios com a família, eu ignorava que havia uma guerra iminente entre o
Chile e a Argentina. Ao descobrir, estremeci, temendo virar picadinho, junto
com os filhos. O gerente do hotel, para me tranquilizar e afastar qualquer
possibilidade de perigo, convidou-me para um jogo de pôquer secreto, numa
cabana perdida nas encostas dos Andes. Só descobriria quem eram os dois outros parceiros
na hora do jogo. Ressabiado, aceitei.
O gerente e eu viajamos numa estrada de
terra, quase atolando a cada dez metros. Após uma hora no meio da floresta, uma subida sem fim, chegamos à cabana. Nem bem nos assentamos ao redor de uma
mesa feita com tronco de pinheiro, entra Carlos. Apresenta-se: é o comandante
das forças armadas chilenas na região. Traz várias garrafas de Old Parr e Coca-Cola. Diz que o uísque fora confiscado de contrabandistas de fronteira e
deveria ter sido enviado para Pinochet, mas, ele não entendia como, várias
caixas tinham ficado para trás, e precisávamos consumi-las antes que perdessem
a validade. Além disso, detestava Pinochet. Rindo muito, pediu minha ajuda para
esvaziar a primeira garrafa. Imbuído de nobre espírito de latinidad, concordei. Carlos apreciava a bebida misturada ao
refrigerante, meio a meio, um desperdício. A pecaminosa combinação tinha nome: chipe,
ou algo parecido.
Ao final da terceira dose, escuto
roncos de tanque de guerra. Começo da invasão? Delírio etílico? Nada disso. Num
blindado leve, chega o misterioso companheiro que faltava. Pois não é que o
dito cujo era justamente o comandante das forças argentinas? Os dois homens
que, de acordo com os jornais e a boataria, deveriam trocar tiros e bombas no
dia seguinte, passariam a noite jogando pôquer e bebendo uísque juntos. Tornaram-se
amigos depois de apresentados por Fernando, o gerente do hotel, em sua festa de
aniversário. A amizade, entretanto, não podia se tornar pública, senão lhes
comprometeria a carreira nas forças armadas, ainda mais diante do clima de tensão existente entre
Santiago e Buenos Aires. Daí tanto segredo, daí a preferência por estranhos,
sobretudo estrangeiros, para completar o quarteto de blefadores.
Jogamos até a madrugada, enquanto nos divertíamos com piadas e casos de nossos três países. Levantamos os copos a cada gargalhada.
Juanito, o militar argentino, morreu de rir quando lhe contei que seus
compatriotas, para suicidar, pulam do alto de seus egos. 
Ajudados pela mediação escocesa, reviramos
nossa latinidad, nosso caldo cultural
com idênticos temperos, nossas raízes comuns, nossos mesmos tiques, nossas
visões sobre a vida que, no fundo, coincidiam.
A guerra entre o Chile e a Argentina
jamais aconteceu. Perdeu o ímpeto, pois os dois protagonistas se uniam numa
mesa de pôquer, regada a uísque confiscado.
Para mim a Rodada de Puyehué teve gosto
especial: ganhei dos três.          

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