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O INVENTOR DO SONETO

Quem é considerado o pai do soneto, essa forma tão popular de poema com dois quartetos e dois tercetos? Por coincidência, ele também é o pai do alpinismo, o arriscado e maravilhoso esporte de escalar montanhas. Vivia nas alturas. Também por coincidência, ele teria cunhado a expressão Idade das Trevas, até hoje usada para designar a Idade Média. Por fim, é considerado o pai do Humanismo.  Quem foi este homem com tantas facetas?

Seu nome é Francesco Petrarca, um italiano de Arezzo que ficou famoso por seu Cancioneiro, coleção de trezentos e sessenta e seis poemas dedicados a Laura de Noves, bela mulher casada por quem Petrarca se apaixonou dentro de uma igreja numa sexta-feira da Paixão. Amor nascido já crucificado.

Sem poder amar Laura, Petrarca inventou o soneto e despejou neles a paixão reprimida. Conseguiu, metaforicamente, o cume da arte em alguns sonetos, quase sempre ardentes declarações de amor. Mesmo hoje, eles sintetizam a loucura do sentimento que move e perpetua o mundo.

Reproduzo abaixo um desses sonetos, dos meus preferidos. Ah, ia me esquecendo de dizer. Petrarca viveu entre 1304 e 1374, portanto o poema a seguir tem aproximadamente setecentos anos. Sete séculos de paixão ardente. Trata-se do soneto 134, traduzido por Sergio Duarte:

 

Não tenho paz, nem como fazer guerra,

Espero e temo, gelo e ardor me faço,

Alço-me ao céu mesmo jazendo em terra,

Nada possuo e o mundo inteiro abraço.

 

Minha prisão nem se abre nem se cerra,

E quem não me faz seu não solta o laço,

Amor me poupa e em seus grilhões me encerra,

não me quer vivo e nem me ajuda o passo.

 

Vejo sem olhos, sem ter língua grito,

Suplico auxílio e quero perecer,

A mim odeio, alguém amando embora.

 

Mágoas me nutrem, rio estando aflito,

Tanto viver me dói quanto morrer:

Por vossa causa assim estou, Senhora.

 

Você já passou por essa profusão de sentimentos? Nunca é tarde para uma paixão. Se durar pouco, não importa. Que seja infinita enquanto dure.

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A MENTE QUE TUDO PODE

      O médico me garante que a maioria de nossos males
tem origem psicossomática. Talvez a totalidade, ele acrescenta. Do alto de sua
longa experiência, garante que pessoas felizes não ficam de cama. Para
comprovar a tese, relaciona tipos de personalidade com as doenças: os muito
exigentes ficam hipertensos, os nervosos contraem dermatoses, os obsessivos
desenvolvem câncer, os estressados sofrem acidentes cardiovasculares. A mente
tudo pode. Mente?
      O médico não está sozinho. Muita gente acredita que
a mecânica newtoniana – a ação e a reação – se aplica à saúde humana com a
mesma precisão que às maçãs em queda livre. Li um artigo sobre os males que
acometeram pessoas famosas a partir da análise de suas cabeças, do tipo fulano
morreu assim porque era assado (assados morreram muitos, porque ousaram
pensar). Até parece que nossos miolos são imutáveis e possuem uma
característica única, sem direito à tristeza, estresse, euforia, obsessão ou felicidade
de vez em quando.
      As listas de causa e efeito fazem as previsões de
doenças a posteriori. Nunca antes dos sintomas. Que mal contrairá o
desempregado que teme voltar para casa à noite e comunicar à família que nem
biscate conseguiu? Como será hospitalizado o executivo que adora desafio e
viciou em estresse? Posto de outra forma, por que uma senhora sem problemas
familiares e financeiros, simpática, segura da vida eterna, contraiu um câncer
que a matou com dores terríveis? Por que alguns bebês vêm ao mundo com
leucemia? Por que indivíduos assumidamente infelizes chegam aos noventa anos infelizmente (para eles) bem de saúde? A satisfação, o amor e o sucesso vacinam contra
o vibrião do cólera? Orgasmos múltiplos evitam a AIDS?
      Enquanto o psicotudo se alastra, outros médicos
destrinçam o genoma e descobrem relações cada vez mais convincentes entre a
herança genética e o futuro da pessoa. Ou desvendam as reações químicas que os
parasitas usam para penetrar nas células. Ou fazem cirurgias nos fetos.
      A mente humana é poderosa, porém não pode tudo. Como
disse Montaigne há séculos, ela cria milhares de deuses, mas não faz um rato. Com todo o
arsenal de hoje, consegue mudar os roedores a partir do código genético
existente. Criar mesmo, do nada, neca. Nem inteligência artificial. O mundo é
bem maior do que a nossa imaginação.
       Olho para o doutor com desconfiança, ele insiste que
as gripes surgem através da queda imunológica devida ao estresse dos dias atuais.
Pergunto-lhe por que os vírus não padecem do mesmo mal – ou por que derrotam as
mentes psicologicamente equilibradas, bem tranquilas.

       E mudo de médico.     
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