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Um bruxo bom para a cabeça

Quem não se sente meio sem inspiração
de vez em quando, com os neurônios em recesso, o cérebro desligado? Sempre que
termino de escrever um livro, caio nesse processo, sofro com a entressafra,
acho que a fonte secou e nunca mais escreverei. Minha receita para sair do
parafuso é ler. Leio muito. De tudo. Sobretudo releio autores favoritos.
Para turbinar a cabeça, ninguém
melhor que Jorge Luis Borges. O bruxo argentino possui imaginação para dar e
emprestar. Seu excesso de criatividade me excita, besunta as sinapses e
restabelece o fluxo das ideias. Mergulho fundo nele, busco entendê-lo
no momento da criação, encanto-me com os meandros de sua mente. Viajo na
biblioteca sem fim de Babel, nos caminhos que se bifurcam em Almotásin, no
Aleph que tudo contém, devoro as histórias da infâmia, admiro a erudição,
pesquiso quais citações são verdadeiras ou inventadas, descubro nuances das
quais não desconfiava, passeio até pelo fervor de Buenos Aires, renovo a
impressão de que Borges, brilhante demais, conciso demais, tinha preguiça para
escrever histórias longas, um romance por exemplo.
Aliás, essa impressão me foi
confirmada por dois de seus amigos na capital argentina, onde certa vez, anos
depois da morte de Borges, conheci um sósia seu, um senhor tão parecido que
quase lhe pedi autógrafo. Admirador tem cada idiossincrasia…

Nesses dias em que começo a sair da
entressafra, uma vez mais fico em débito com o bruxo portenho. Bela
maneira de me curar ou, quem sabe, me adoecer de novo para a escrita. Ah se
todo remédio fosse assim tão perfeito e gostoso. Pois passo a receita a todos. Se
funcionar, passem adiante. Boa leitura não tem contraindicação. Nem fim. Como
diria Borges, é um eterno retorno. 
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