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Encontro com o demo e o puma na Patagônia

Sozinho no Sul do Chile, em pleno
inverno patagônico, eu voltava do vulcão Antillanca rumo a Puyehué, quando o
entardecer me pegou no final da caminhada de vinte quilômetros. Silêncio e paz
a meu redor. Nem passarinho fazia barulho. Poucos quilômetros depois de Aguas
Calientes, avistei um cavaleiro. Fiquei contente. Uma alma viva! O homem, de
grande estatura, montava um descomunal cavalo preto. Vestia calça, camisa,
jaleco, luvas e capa que cobria as ancas do animal, tudo preto. Até o chapéu de
Zorro era preto. O olhar fixava um ponto no infinito, duro como bridão,
contundente como espora. Trotava com galhardia, tão ereto que parecia amarrado
a uma estaca de ferro sobre o arreio. Cumprimentei-o com um buenas tardes, foi lacônico comigo:
– Buenas – e implantou um meteórico sorriso
na face pálida.
A rápida abertura da boca permitiu-me
entrever os dentes metálicos, cor prateada. Nem um pingo de esmalte. Sorriso de
aço. Senti arrepios. Quem usaria e abusaria de tanta esquisitice no corpo? E se
fosse um bandido? De mim não sobraria nem um mindinho para contar meu sumiço. Além
disso, a estranha figura bem poderia passar pelo demo: modelo perfeito,
personificação do tinhoso em muitos relatos. Pobre cavaleiro… Tratava-se
provavelmente de um fazendeiro retornando ao lar no fim do dia, e minha cabeça
o associava ao nem-sei-o-quê.
Minutos depois, enquanto examinava os espetaculares
mergulhos de rochas e depósitos de cinza vulcânica expostos nos cortes da
estrada, testemunhos de violento passado geológico que continua no presente, enxerguei um puma a cinquenta metros de distância. Animal imponente, onça acinzentada
pelo lusco-fusco, assustador. Farejamo-nos em reconhecimento mútuo, exalei o
pavor, estudou-me com interesse. Petrificado, tentei despistar a bambeira nas
pernas, a fraqueza que atrai o ataque do felino. Espichei o corpo, ergui os
braços, pus a mão na cintura, só faltei ameaçá-lo: “Qualé, gatinho, vai encarar?”.
Haviam-me alertado para a presença do bicho na área, matador sagaz. Ainda devia
estar digerindo a criança que comera na véspera. De barriga cheia, olhou-me
outra vez, atravessou a rodovia e sumiu, sem me dar a mínima. E eu dei no pé. Corri
até que, com o coração na mão, cheguei a Puyehué. Ir tão longe para acabar no
estômago de puma, onde se viu?
Na manhã seguinte, voltei ao vulcão Antillanca.
De carro.

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