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O REI DOS MÚSCULOS

Miro é brigão. Briga, ele afirma, é desafio para homem de verdade. Macho. Arruma encrenca em qualquer lugar. Se não arruma, provoca. Nas festas, atiça quem encontra pela frente, sobretudo os fracotes. Distribui esbarrões, derruba a bebida alheia de propósito, sem cerimônia vocifera: “Por que a boneca está me encarando? Tá me achando bonito?”. Se o ofendido não reage, Miro insiste: “Você não é de nada, não?”. Se, ainda assim, não recebe troco, dá o primeiro tapa. No rosto, de leve, para aquecer o sangue do adversário.

Adora sexta e sábado. Bailes em toda a cidade, ocasiões perfeitas para se medir com outros valentões. Uma noitada feliz traz de lembrança, pelo menos, duas lutas. Mesmo que tome uns socos, o resultado é sempre positivo: bate mais do que leva. O que reforça sua crença na invencibilidade. Julga-se o maior brigador do país. O mais forte também. Seu corpanzil lembra uma grande saca de batatas sustentada por dois cabos de vassoura. Exibe-o com orgulho. Até na chuva anda sem camiseta.

Gasta três horas por dia na academia, de segunda a sexta. Duas malhando pesado, uma se admirando no espelho. Miro mira-se e admira-se. Entre um e outro exercício, entra em êxtase com ele mesmo, de frente, de lado, de trás, contraindo os bíceps, levantando os peitorais, medindo o perímetro das pernas, morto de amores pelos próprios músculos. Dizem que se beija quando ninguém o observa, porém há controvérsias. Apenas piscaria o olho, namorando-se em poses sensuais. Confirmado, mesmo, existe apenas seu choro quando o Rodrigo Dentadura, brigão que perdeu os incisivos num sábado de pouca sorte, o ultrapassou no perímetro dos braços.

Reagiu aumentando as doses de testosterona, que compra no mercado negro. Um médico, aluno da academia, o alertou que provavelmente ficará estéril, mantida a superdosagem. Esterilidade sem retorno. Miro não se importou. Vive para o dia de hoje. Crê que jamais confiará numa mulher para ter amor ou filhos. Acha-as todas infiéis. E difíceis de suportar.

De repente, aconteceu. Brigou com um desconhecido, fracote, magro e alto, deu-se mal. E como. De saída, tomou uma voadora que lhe arrancou alguns dentes. Ao cair, duas costelas não resistiram ao impacto dos chutes. Quando os seguranças apareceram, o vencedor saiu de cena. Comemorou a vitória sozinho.

Miro não se corrigiu. Quer vingança. Com as próteses dentárias no lugar, agora diz que faz parte da vida perder de vez em quando. Uma vez em mil, tudo bem. Para evitar que a estatística piore, incrementou a carga de exercícios, a superalimentação, os hormônios. Passou a frequentar duas academias. Uma de manhã, outra à noite. Seis horas de malhação no total, quer dizer, quatro. As duas horas de autocontemplação são sagradas. Nesse período, ele se ama. É o único amor que conhece.

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BYE BYE, BRASIL

 

Na época da ditadura, muita gente deixou o Brasil em busca de ares mais respiráveis. Um deles, que conheci nos Estados Unidos, rasgou o passaporte depois que conseguiu o green card, de tanta raiva de ser brasileiro. Jurou que nunca mais pisaria aqui. Não sei se cumpriu a promessa.

No ano que passou, a revoada de brasileiros rumo ao exterior voltou. Em tempos democráticos, a maioria bateu asas por falta de emprego, por medo de ser assaltado e por nojo da corrupção. Alguns me disseram que só verão os parentes e amigos lá fora. Aqui, jamais. O bye bye, Brasil foi definitivo.

É claro que era gente com boa formação acadêmica. Sobretudo jovem. Todo o mundo busca a felicidade, do pobre que tudo investe num coyote que o leve através da fronteira México-Estados Unidos ao doutor que consegue um trabalho mais bem remunerado numa universidade australiana.

Aliás, para o país, perder um doutor é terrível. Doutores, em geral, usam em sua formação a universidade pública. Custam muito para a nação. Os estrangeiros recebem de graça uma mão de obra rara e cara. Quem não a quer? Seria uma solução bloquear a saída dos mais competentes e obrigá-los a aceitar o subemprego ou o desemprego? Ou as pessoas, em tempos de crise, não buscarão sempre o melhor caminho para sobreviver? Eu mesmo não estaria aqui, caso meu avô não largasse a Itália cheia de problemas e viesse fazer a América.

Diante da revoada, alguns países querem pegar os melhores pássaros antes que entrem no alçapão alheio. O Canadá, por exemplo, já marcou uma rodada de exame de currículos de brasileiros em nossas capitais para importar médicos, enfermeiros, engenheiros, terapeutas, técnicos em TI. Os selecionados viajarão com garantia de emprego, segurança e de um governo menos corrupto. Vale repetir: os canadenses receberão de graça a mão de obra que nossos cofres suaram para formar. Perderemos gente qualificada que fará falta para a população.

Sim, estamos em crise. O que não podemos é tentar barrar a tempestade com um discurso de negação. Sim, o problema é grave. Sem mão de obra qualificada, nossa recuperação será mais longa e difícil. Medidas devem ser tomadas para diminuir o êxodo. Proposta de trabalho é a primeira sedução, a mais eficiente. Mas que governo tomará essa iniciativa? Com que dinheiro? Por outro lado, a saída continuará sendo o aeroporto?

Diante do desemprego, da insegurança e da corrupção, boas cabeças continuarão a deixar-nos. O bye bye, Brasil se repete. Sangria desatada. Só podemos lamentar.

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