ONDE FICA O FIM DO MUNDO?

Fazia dois dias que eu estava em Leh, principal cidade do Ladakh, na Caxemira Oriental, perto da divisa da Índia com a China e o Paquistão. O dono de uma loja me indagou, atônito:

– O que você veio fazer no fim do mundo?

Não soube o que falar. Isso lá é pergunta que um nativo faça a um recém-chegado? De fato, Leh parece ser o fim do mundo. Com seu frio, aridez, poeira e ar rarefeito de quatro mil metros de altitude, provocava-me cansaço e desânimo. Sem falar na constante ameaça de bombardeios e no blecaute às seis da tarde. Longe de tudo, eu não tinha para onde fugir.

Lembrei-me de uma amiga da Alemanha que, num tranquilo posto de gasolina de Minas Gerais, minha terra, confidenciou: “Aqui parece o fim do mundo”. A recíproca foi verdadeira. Senti o mesmo em Wittgenstein, terra dela, num outono gelado, retido num lugarejo sem saída. A grande atividade durante dias foi colher cogumelos no bosque. Fins do mundo são, portanto, relativos. Até sob outros aspectos. Sempre ouço que estamos vivendo o fim do mundo. Nosso tempo, entretanto, se assemelha aos demais. Abriga, inclusive, falsas intuições, falsas previsões e falsas cassandras. Tudo porque, igual mesmo, o de sempre, somos nós, os seres humanos.

A viagem para Leh começara em meio a muita confusão em Nova Délhi, onde não se respeitava a fila do checkin e cada assento no avião era disputado a tapa. Nunca vi tanta gente importante junta, a quem os funcionários da companhia aérea davam a preferência de embarque, seduzidos pelo dinheiro que corria à solta em cima do balcão. As imagens de Saigon sitiada pelos vietcongues me ocorreram.

Enfrentei várias revistas na mala e no corpo, custamos a decolar. A maioria dos passageiros desceu nas cidades intermediárias, sobretudo no Punjab, de modo que poucos heróis alcançaram o fim do mundo, isto é, da linha.

Herói é a palavra correta. Conversando com o engenheiro de vôo, ele me revelou com orgulho que apenas seis pilotos em toda a Terra tinham competência para aterrissar o Boeing em Leh, tal a dificuldade do aeroporto: pista curta, encravada entre picos nevados, precipícios nas laterais e, para complicar mais, um monastério budista na cabeceira. Corrigiu-se: eram apenas cinco pilotos, pois o sexto se espatifara uma semana antes, na hora do pouso. Com um sorriso amarelo, senti-me um bravo por encarar tal loucura. Até que ponto o engenheiro estava brincando?

Voltei ao assento, esqueci a questão. A paisagem do Karakoram, uma das cadeias do Himalaia, me arrebatou. Paga a viagem até Leh – e deixa troco. Sim, vale a pena. Sobrevoamos quilômetros e quilômetros de picos nevados, agudos como se feitos ontem à noite, encostas íngremes, passos profundos, geleiras, canyons, vales, morenas. O paliteiro, de tão alto, quase espetava a fuselagem. Naquela vastidão branca, nunca se acharia um avião, mesmo um Jumbo, que tivesse a insensatez de cair. A beleza rude, até agressiva, pela insignificância que reduziu a mim e à máquina que me transportava, misturou fascínio e temor. Depois de me acostumar com a grandiosidade, percebi a graça do conjunto: o Karakoram é uma bandeja de suspiros saindo do forno. Suspiros de pedra e gelo.

De repente, um ponto ainda mais proeminente. É o K2, avisou o piloto, o segundo pico mais alto do planeta e o mais difícil de escalar. Com arrepios adicionais, dei-me conta de que estava longe de casa, perto de fato do fim do mundo. Relaxei. Encarei a vastidão com outros olhos. O fim do mundo é lindo.

 

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