O PERFUME DE VIVER

Cientistas afirmam que os odores nos agarram com maior força e por mais tempo, pois as narinas ficam perto do centro olfativo no cérebro. Não sei se o motivo é esse, mas alguns cheiros deles nos remetem a situações vividas décadas antes e, ao percebê-los, recuperamos toda a intensidade do momento. Em outras palavras, odores são máquinas do tempo. Devolvem-nos instantaneamente ao passado.

Por exemplo, em dezembro, não escapo das magnólias de BH. Este ano não tem sido exceção. Quando as flores apareceram, após a primeira chuva, seu perfume invadiu o bairro Funcionários e a Savassi. Ao andar por lá, voltei à adolescência. Num clique, minha memória foi destampada. Relembrei as provas de fim de ano; o sanduíche de pernil da Padaria Savassi; as sessões do Cine Pathé em que, aos 13 anos, o porteiro me deixava assistir ao filme proibido até os 18, desde que eu entrasse depois de iniciada a sessão e saísse antes do término, por receio do Juizado de Menores; as caminhadas pelas ruas, sem medo de assalto; as conversas com os amigos, que, como eu, não sabiam o que era a vida – desconfio, ainda continuamos em plena dúvida. Alguém realmente sabe o que é a vida, sem fórmulas pré-concebidas e idiotas?

Foi debaixo de uma magnólia florida que, depois de acreditar que uma colega do curso de inglês, com quem andava de mãos dadas, aceitaria um beijo, levei uma despedida cruel:

– Quem que você está achando que eu sou, menino?

Menino! A palavra doeu mais que o fora. Apagou meu orgulho adulto de 15 anos.

Como se vê, o perfume das magnólias, sem que as pessoas desconfiem, marca a memória de muita gente. Hoje, ele se intromete em namoros, paqueras, exames do Enem, conversas entre colegas, cervejas na Rua Pernambuco ou na feirinha da Tomé de Souza, no saboroso pastel de carne da Rua Paraíba, no WhatsApp que trouxe uma boa notícia no shopping, no livro surpreendente que você descobriu numa das livrarias da Fernandes Tourinho, na caminhada até a Praça da Liberdade. De repente, no futuro, sem que se explique como, a lembrança volta nas moléculas do ar de dezembro.

As magnólias não sabem por que exalam o perfume, assim como muita gente continua sem entender o motivo da vida. Haveria mesmo uma razão – ou nosso perfume é simplesmente viver? Embora os tempos mudem, as magnólias e algumas velhas questões permanecem. Dezembro sempre as traz de volta.

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5 comentários sobre “O PERFUME DE VIVER

  1. Luís, você acaba de responder a uma pergunta que venho me fazendo há tempos e que nada tem de existencial: que árvore seria essa q

    Luís, você acaba de responder a uma pergunta que venho fazendo a mim mesma: que árvores são essas que desde a minha infância vêm enfeitando Belo Horizonte? Morava então no coração da Savassi, numa rua Paraíba tão tranquila que brincávamos de apostar qual seria a cor do próximo carro a passar por ali, coisa que levava um bom tempo a acontecer… Felizmente, sei agora que elas atendem pelo sonoro e delicado nome de magnólias. E posso também associar sua imagem a um tempo feliz, em que outros perfumes davam todo o sentido à vida – o cheiro de jasmins e manacás que floresciam nos incontáveis jardins da cidade.

  2. Sim! Como os cheiros nos “transportam” no tempo! O cheiro do sabonete do banheiro da minha pré-escola era algo maravilhoso! O que não daria para senti-lo novamente. Tempos atrás, recuperei um aroma similar e “visitei” aquela escola com seu pátio imenso novamente. O cheiro do shampoo Seda lanolina da adolescência… o cheiro dos livros de Monteiro Lobato que eu lia, emprestados da biblioteca escolar… o cheiro de arruda com que minha avó benzia os rebentos de mães pobres que, na impossibilidade de pagarem médico, recorriam à benzedeira… o cheiro de cuca na cozinha da vizinha alemã… o cheiro da erva-doce do chazinho da minha filha quando nasceu… Tudo isso é maravilhoso!

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