O PEIDO FATAL

 

Imagine-se à beira da piscina, num hotel em Ipanema, à beira-mar, numa tarde de muito sol. Deitado na espreguiçadeira, você acompanha as hóspedes que circulam dentro e fora d’água. A seu lado, duas delas se bronzeiam com fios dentais. Seus filhos e netos se retiraram para ver os atores famosos do filme que estão rodando nos jardins da frente. Os netos estão felizes. Afinal, é Dia das Crianças. Momentos assim removem o estresse do dia a dia, relaxam o corpo. Bem, relaxaram demais o meu.

Todos produzimos gases durante a digestão. Uns mais, outros menos. A rainha da Inglaterra – ou seu marido, não sei ao certo – parece pertencer ao primeiro time. Para tirar a dúvida, confira a cara do príncipe Harry que estava atrás do casal real, na sacada do palácio de Buckingham, após um jato odoroso. A reação principesca diz tudo. As fotos só não esclarecem se houve muito barulho.

De volta ao Rio, senti o efeito da digestão de uma portentosa feijoada. Um bólido de ar cruzou meus intestinos. A custo, segurei-o, um centímetro antes de ganhar o céu aberto. O danado logo arrebanhou companheiros, cada qual mais libertário que o outro, revoltados com a prisão. Cutucaram-me com força e com sutileza, fingindo ser pacíficos.

Após uma longa luta, rendi-me ao assédio. Liberei o mais insistente. Saiu em silêncio, febril. Em segundos, contaminou a área a meu redor e seguiu em frente, desinibido. Entendidos em guerra química recomendariam o uso imediato de máscara contra gases venenosos.

As mulheres nas laterais olharam para mim, desconfiadas. Encarei-as, devolvendo a desconfiança, recolheram-se. Um zunzunzum de desconforto e curiosidade circulou pela piscina. Encolhi-me, inocente.

Nisso, uma de minhas netas voltou. Veio correndo, com o entusiasmo dos seis anos, gritando:

– Vovô, vovô, eu vi fazer um filme!

Assim que chegou a meu lado, ela deu duas profundas fungadas, fez cara de desagrado e fuzilou:

– Hum, vovô, você peidou! Conheço este cheiro. Agora você não respeita mais nem o Dia das Crianças!

As gargalhadas me pareceram ensurdecedoras. Fui a diversão de muita gente naquela tarde. Mesmo no dia seguinte, alguém sempre me sorria, acusador: “Foi ele!”. Netos são um perigo. Que o diga a rainha da Inglaterra. Eu também.

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