Fé ao volante

          Sempre que vejo um carro cheio de
amuletos, fitas, frases e adesivos protetores contra acidentes, eu me lembro de
seu Divino, homem de muita fé. Ele deve ter sido um dos piores motoristas que
já passaram pela Terra. Nunca entendi como conseguiu a carteira de habilitação. Morria de medo
de estrada e de trânsito. Assustava-se com cada veículo que o ultrapassava: fugia,
apavorado, para o acostamento, houvesse ou não acostamento. Dirigia a vinte por
hora, o rosto colado ao volante. Derrubava a mureta da garagem duas vezes por
semana. De vez em quando, caía dentro do mata-burro à entrada de sua fazenda. Um
perigo, o seu Divino. Para ele e para os outros.
          Um dia resolveu, por precaução,
escrever nas portas de sua velha Rural Willys uma quadrinha com rima bem rica, especialmente
encomendada ao sacristão, para atrair as bênçãos celestiais:
           “O Pai na frente,
          A Mãe na guia,
          Livrai-nos de acidente,
          Jesus, José e Virgem Maria”.
          Virou chacota: de tão barbeiro, precisava
da proteção da Sagrada Família inteira. Nem bem começou a desfilar o carro
bento, bateu num barranco, capotou e caiu dentro de um córrego. Ao ser
resgatado, disse que estava dando água para a tropa de cem
cavalos do motor.
          Passado o susto, ficou ressabiado: por
que os céus não o haviam protegido? Depois de muito pensar, descobriu a razão:
não era lá muito devoto da Virgem Maria. Preferia outra santa, que considerava
mais milagrosa. Para cortejá-la, raspou das portas o nome da Virgem e pintou
ele mesmo, em garranchos, o da eleita:
          “O Pai na frente,
          A Mãe na guia,
          Livrai-nos de acidente,
          Jesus, José e Nossa Senhora Aparecida”.
          De nada adiantou lhe dizer que, além
de perder a rima, havia trocado seis por meia dúzia. A mudança tampouco deu
certo. Seu Divino continuou trombando e batendo, dia sim, dia não. Depois de quase
destruir a Rural Willys numa focinhada de frente contra um caminhão, encostou-a
na garagem, para o bem geral e alívio da família. Fé é fé, mas, ao volante,
quem funciona mesmo é o motorista. Afinal, santo nunca tirou carteira de
habilitação.

           
         Palavras-chave: motorista, barbeiro, acidente, carteira de habilitação, Rural Willys.
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