MANIA DE ESCRITOR

 

 

Compro muitas esferográficas, cada vez mais. Mesma marca, mesmo modelo, mesma cor azul. Adquiro, em geral, uma dúzia por dia; uma grosa, quando fico muito tenso. Sempre estou tenso. Num sábado de desespero, trouxe para casa mil e duzentas. Receio que sumam do mercado. Já ameaçaram, três décadas atrás, uma quase tragédia para mim, que vivo de escrever e não suporto computador. Como passar sem elas? Jamais me adaptei a outro tipo de caneta. Tentei, é verdade, não deu certo: a inspiração desapareceu, não produzi uma linha, o pavor se instalou. Daí o apego. Devo-lhes o ofício.

Esferográficas são depósitos de ficção. Dentro das cargas há contos, poemas, novelas e romances, uns grudados nos outros, compactos, prontos. Basta um pouco de sensibilidade para enxergá-los. Cargas e obras se confundem.

Libero as histórias ao derramar sobre o papel o torvelinho de letras. A tarefa demanda paciência. É um quebra-cabeça onde peças de diferentes jogos se misturaram, o início de um ligado ao final ou ao meio de outro, com um detalhe assustador: ignoro as imagens que devo montar. Quando me perco, contemplo a tinta durante horas, busco o fio da meada lá dentro da caneta, até desemaranhar o novelo, frase por frase, vírgula por vírgula.

A coleção cresceu, absorveu meu espaço. Não posso comer, lotou a cozinha. Tampouco dormir, ocupou o quarto. A sala se reduziu ao túnel pelo qual engatinho, espremido entre milhares de caixas.

Não me vanglorio do maior estoque de ficção do mundo. Pelo contrário, temo-o. Cargas oprimem. Não suporto tanto peso.

Compro cada vez mais.

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5 comentários sobre “MANIA DE ESCRITOR

  1. Luís,

    Aqui é o Paulo, do Trombone do Mayr. Gostei de vc ter dado uma olhada no meu blog. Achei esse texto da Bic muito bom. Vc acredita que eu tenho duas bics que usei até o final. Nunca se vê uma bic dessas com menos de meia carga. Lógico que já usei centenas ao longo da vida. Sobre escrever com computador, talvez vc goste desse meu texto http://www.trombonedomayr.com.br/2008/01/03/carta-para-mino-carta-e-sua-olivetti/. E não é que a fera respondeu!!!. Quiser dar uma olhada http://www.trombonedomayr.com.br/2008/01/29/mino-carta-responde-sobre-sua-olivetti/. Vamos continuar trocando correspondência!!! Abraços

    1. Revendo este seu comentário, caro Paulo, vejo quão rápido passa o tempo e quão obsoletos (embora saudosos) certos objetos se tornam. Minha Olivetti eu a vi hoje no sótão, empoeirada, imprestável. O computador triunfou.

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