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Dilema do Brasil: inventar ou imitar?

Ao final da tarde de vinte e dois de
setembro de 1786, na cidade italiana de Vicenza, reuniram-se cerca de
quinhentas pessoas para discutir o que havia trazido
maior proveito às belas artes, a invenção ou a imitação. Os defensores da
imitação venceram, pois, segundo uma testemunha ocular dos debates, “não
afirmaram senão o que a malta pensa, ou é capaz de pensar”. 
De repente, flagrei-me a pensar: o que
é melhor para o Brasil, inventar ou imitar? Na cultura, submetemo-nos com frequência
ao que vem de fora, copiando muita coisa supérflua e de mau gosto. Quem quiser
exemplos folheie as revistas e os jornais, ou veja a televisão. Até parece que a
inauguração de uma pracinha em
Nova York e o aniversário de um ator em Hollywood são efemérides
brasileiras, tamanho o espaço que ocupam. Isso é indigência cultural. Nessa toada, no dia em que a
cadelinha da Casa Branca ficar doente, teremos vigília, velas, promessas e
milhares de brasileiros cantando música cáuntri
 em prol da saúde canina. 
          O antigo
dilema, entra governo, sai governo, toma conta de Brasília: devemos importar ou
desenvolver tecnologia própria? Repisam-se os argumentos costumeiros: não se
deve reinventar a pólvora; é mais barato comprar know-how lá fora; nascemos, pela extensão climática e territorial, com
vocação para a agricultura; devemos deixar esse negócio de tecnologia para os
norte-americanos, chineses e japoneses, anos-luz à nossa frente. Existem, é claro, os
paladinos da autonomia, defenestrados pela eterna alegação: não temos dinheiro
– e tecnologia. E as decisões ficam para depois.
Em conseqüência, o fosso se alarga, e
sucumbimos ao subdesenvolvimento. Quando nada, possuímos setores de ponta que
pouco devem aos estrangeiros. Uma maneira de incentivá-los seria consumar o
casamento entre a universidade e a indústria. Em outras palavras, transformar a
pesquisa em patentes. Os
chineses oferecem um caminho adicional. Copiam para exportar, de olho no
exemplo anterior dos japoneses. Com o dinheiro arrecadado, desenvolvem as
próprias novidades. Com tanta cara de pau, acertaram na escolha.
Inventar ou imitar? A questão continua
aberta, porém Vicenza ainda pode lançar mais luz sobre ela. Em 1786, a cidade estava
decadente após o auge no século 16, quando a ousadia de criadores como Palladio
revolucionou sua arquitetura e a transformou em referência na Europa. Teria a
ausência de ímpeto e força motivado o resultado do debate?
Por falar em ímpeto e força, a
testemunha ocular citada foi Goethe. Em viagem pela Itália, ficou seduzido pela
cultura peninsular, a ponto de escrever duas obras ditas italianas, Ifigênia e Torquato Tasso, sem
contudo perder a identidade de autor. A história de Fausto tampouco é original. Alguém entretanto a separa de Goethe?
Seu gênio fez da imitação uma invenção, criando uma obra-prima.

          A
moeda, quando lançada, pode dar cara ou coroa. É preciso fazer a escolha, com
toda a informação disponível. Se inventarmos apostar na parada da moeda em pé,
aí sim teremos um problema. O Brasil ainda não sabe disso.

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Uma voz da África

      Você já
ouvir falar no escritor Akinwande Oluwole Soyinka? Não? Pois não se envergonhe.
Pouca gente, no Brasil, sabe quem ele é. Mais conhecido por Wole Soyinka, tem oitenta
anos, aparência de setenta, e foi o primeiro africano a ganhar o Prêmio Nobel
de Literatura, graças a uma obra que “numa perspectiva cultural bastante ampla,
com toques de poesia, aborda o drama da existência”.
          Nigeriano, nascido numa família iorubá
influente, Soyinka estudou na Inglaterra e, além de escrever romances, poemas e
peças de teatro, tornou-se ativista político e lutou contra as ditaduras
nigerianas e o apartheid
sul-africano. Como escrever é perigoso, Soyinka foi preso. A prisão lhe deu
munição para escrever mais ainda.
          Em suas obras, Soyinka contrasta a
sensibilidade dos poemas com a complexidade dos romances, comparados aos de
Faulkner e Joyce. Seu trabalho traduzido mais divulgado “É Melhor Partires de Madrugada”, coleção de memórias, só é encontrado
em Portugal. Infelizmente
as editoras brasileiras lançaram aqui apenas uma de suas obras: a peça teatral “O leão e a joia”, publicada pela Geração
Editorial.
          Para lhe oferecer um gostinho da
poesia de Soyinka, traduzi parte de seu poema “Dedicatória”. Aqui está:
          Umedece
teus lábios com sal,
          que não seja o de tuas lágrimas.
          Esta chuva-água é presente dos deuses
          — bebe sua pureza, frutifica na hora certa.
          Leva, pois, os frutos à boca,
          corre para devolver o milagre de teu nascimento.
          Cria marés humanas como as ondas,
          imprime tua lembrança nas areias que ainda guardarão
fósseis.

          Todo
escritor gostaria que suas palavras virassem fósseis. Fósseis são pedras,
resistem ao tempo, dialogam com a eternidade. É o caso de Wole Soyinka.

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Elogio da masturbação

Mark Twain, o famoso autor
norte-americano de As Aventuras de Huckleberry Finn, livro liberado para todas as
idades, considerado por Ernest Hemingway e William Faulkner a obra fundadora da
literatura nos Estados Unidos, possui um lado menos conhecido, aquele do
ativista político, do crítico da religião, do grande humorista.
          Quando abordou esses assuntos, sua
obra foi banida, censurada, rejeitada, só publicada postumamente. Em plena
ascensão do imperialismo ianque, Mark Twain era anti-imperialista ferrenho e
criticou as guerras de conquista norte-americanas, sobretudo a invasão das
Filipinas, onde seus compatriotas assassinaram, a sangue frio, de uma vezada,
seiscentos filipinos muçulmanos. Resultado: a obra crítica só saiu em 1924,
quatorze anos depois da morte do escritor.
          Twain era antirreligioso, adversário
contundente do cristianismo. Afirmou que, no sangue arrancado de inocentes
pelos cristãos, todas as frotas do mundo navegariam com grande conforto.
Resultado: essa acidez corrosiva só chegou ao público em 1972.
          Até seu humor cáustico ficou escondido
por décadas. Um de seus discursos, proferido num clube de escritores e artistas
em Paris, em 1879, aos quarenta e seis anos de idade, só apareceu em 1943, em
edição de apenas cinquenta exemplares. Cinquenta exemplares, não mais. 
              Que
perigoso discurso era esse? Trata-se do engraçadíssimo Algumas reflexões sobre a ciência do onanismo. O autor desentoca, com
candente ironia, possíveis masturbadores ao longo da história, ligando seus
momentos mais criativos ao chamado vício solitário. De Homero a Darwin, não
poupa ninguém. Diz que o costume eliminou mais crianças que qualquer outro meio
conhecido.

          Por
esse bom humor, o discurso ficou banido durante sessenta e quatro anos. Ainda
bem que a internet permite que, hoje, todos leiamos as Reflexões sobre a ciência do onanismo. Mas, por
favor, não o faça sozinho, trancado no banheiro. Divida com os amigos,
recomende, ponha em circulação, anuncie, toque a corneta. Rir faz bem à saúde. 

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Poesia morde?

       Você
não gosta de poesia, acha a poesia de hoje difícil de entender, tem preguiça de
percorrer os labirintos de um poema atual? Uai, sabe que eu também fico às
vezes nessa sinuca de bico? A culpa não é da poesia, sempre necessária e
reveladora, mas dos modismos adotados por alguns poetas. O resultado costuma
ser, de fato, uma confusão, um desencontro de palavras, uma verborragia
desprovida de sentido.
          Desconfio de que, com frequência, nem
o próprio poeta saiba o que tenha dito, se é que tivesse algo a dizer. Um deles
me confessou que desejava apenas fazer ruído. Sim, ruído. Se esse era o
objetivo, por que não gravou a barulheira no centro da cidade às seis da tarde?
O interessante é que alguns desses gajos recebem louvações da mídia, que tenta
nos forçar a concluir que são o ideal da arte, o suprassumo das musas, o modelo
do futuro. Somos enganados e ficamos com a tristeza de desgostar de poesia, não
é mesmo?
          Vamos separar as coisas. Quem faz
poesia assim é uma minoria. Existem grandes poetas, novos e antigos, para todos
os gostos, desde os que fazem grandes voos verbais aos gênios que sintetizam
enciclopédias em meia dúzia de palavras. Esses não passarão feito passarinho.

          Enquanto
romancista, invejo a capacidade de dizer tanto em tão pouco. Os poetas me tocam
bem fundo, revelam passagens escondidas entre nossos abismos interiores, tiram
o peso do corpo e da alma, abrem avenidas para o pensamento, questionam ideias,
expõem conflitos, revolvem nossas entranhas, oferecem momentos de graça e vislumbram
o paraíso. O mundo é feito de poesia. O bom poeta sabe disso e a garimpa onde
menos esperamos. Arranca-a da pedra, do caminho, do asfalto. O resultado é puro
deleite, puro encantamento, pura poesia. Poesia não morde. Afaga.

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Sou mentiroso profissional

         Como todo escritor, sou mentiroso.
Dever de ofício. Quanto maior nossa competência para mentir, maior sucesso
gozamos entre os leitores. A mentira bem engendrada faz nossos personagens mais
reais, mais palpáveis, mais críveis, mais humanos. 
      Romancistas e contistas são
mais que fingidores, vamos além, inventamos vidas e mundos, trazemos alegrias e
tristezas, juntamos e separamos pessoas, matamos a rodo, criamos e resolvemos
problemas no papel. No papel, nada mais. Daí nossa alcunha: ficcionistas. Não
podemos acreditar em nossas fantasias. Muitos autores incorreram nesse erro e
se deram mal. Hemingway, por exemplo, achava que tudo se resumia à escrita e,
sem escrever, a vida não valia a pena. Deu no que deu. Tiro de espingarda na
cabeça. Cano duplo.
          Leitores também confundem ficção com
realidade, o que é, aliás, muito comum. Já me abordaram na rua para perguntar
se sou realmente como alguns personagens que criei, justamente os mais
polêmicos. Fizeram coisas mais terríveis com outros autores. Por exemplo,
influenciados por um livro chamado Os
Sofrimentos do Jovem Werther, do alemão Goethe, muitos jovens
cometeram suicídio no século 18. Goethe mentiu com tanta competência que
transmitiu para muita gente o desespero do amor não correspondido, provocando mortes em série.
          O costume dos autores afirmarem que
são mentirosos é antigo. Fernando Sabino escreveu uma bela crônica sobre isso,
na qual se confessou mentiroso compulsivo desde pequeno, daí a decisão de
derramar nas palavras sua obsessão e ainda ganhar um dinheirinho.

          Agora, cá entre nós, quem não mente de
vez em quando? De escritor, de mentiroso e de louco todo mundo tem um pouco. Ou
você é a exceção que faz a regra? Pense nisso e tenha um bom dia. Com toda
sinceridade.
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A derrota que se transformou em vitória

Ao
conceder a Ernest Hemingway o Nobel de Literatura de 1954, o Comitê do prêmio
citou nominalmente o menor dos livros do escritor. Trata-se de uma obra tão
pequena que é usada para avaliar a rapidez de leitura nos cursos de leitura
dinâmica, onde os alunos avançados devoram suas noventa páginas em meros dez
minutos.
          Que livro é esse? Trata-se do polêmico
O Velho e o Mar, a epopeica captura
de um marlim com mais de cinco metros pelo cubano Santiago, nas águas do Golfo
do México. Após quase três meses sem pescar nada, Santiago se vê, sozinho, às
voltas com o fabuloso marlim que custa a dominar, para em seguida ser assaltado
por tubarões que lhe descarnam a presa, até deixar pouco mais que a espinha
dorsal do peixe. Essa espinha dorsal traria a Santiago a consagração em seu
pequeno vilarejo e, enquanto história, renderia a Hemingway extraordinária
popularidade mundo afora. Uma curiosidade: para não terminar sem peixe como
Santiago, o escritor mantinha em seu barco uma submetralhadora para afastar os
tubarões.
          Muitos críticos acharam a novela
pobre, sem rumo, assinalaram que o autor resvalava na religiosidade barata, no
monumentoso, até no plágio ou releitura de outra novela norte-americana, Moby Dick.
Outros, ao contrário, por sinal a maioria, viram em O Velho e o Mar, o toque da genialidade, a obra
que culminaria a carreira de Hemingway, inclusive garantindo-lhe o Nobel. Eu me
coloco entre os admiradores.
          O livro possui momentos de grande
inventividade, narrada no estilo simples, à primeira vista sem grandes
recursos, característico do autor de Por
Quem Os Sinos Dobram. Para tirar a teima, por que você
não avança através dessas noventa páginas de O Velho e o Mar e tira a própria
opinião? Aposto dez por um que vai gostar.

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Dois paraísos no Canadá

Ponha num só
lugar os seguintes ingredientes: rios cristalinos, lagos cor turquesa ou brancos
de gelo, céu azul, montanhas nevadas, florestas bem preservadas, dezenas de
cachoeiras, algumas azuis, geleiras quilométricas, canyons escavados pelas eras
glaciais e pelas chuvas, bandos de pássaros e bichos, alguns dos mais antigos e
estranhos fósseis do planeta, ar sempre fresco com odor de pinheiro, paisagens
deslumbrantes.
Misture bem esses ingredientes,
descubra todas as formas para combinar e recombinar tanta variedade e formosura.
Pronto. Você chegou ao Oeste do Canadá, aos Parques Nacionais de Banff e de Jasper, isto é, você está num dos mais
deslumbrantes cenários da
Terra. Aproveite. Aqui se respira a natureza em estado puro, sem aditivos. Caminhar
pela região revigora a mente e o corpo. Pode ser por um dia, três, uma semana,
duas. Há trekkings para todos os gostos.
          Se você for do tipo que gosta de estrada
e conforto, Banff e Jasper também o encantarão, pois podem ser vistos em todo o
seu esplendor da janela do carro ou do hotel. Estão ligados por duas bonitas rodovias,
a Canadá 1 A
e a 93, que passam por Lake Louise (famoso pela cor turquesa), enquanto
margeiam as águas límpidas dos rios Bow e
Athabasca. Duzentos e sessenta quilômetros boquiabertos separam os dois
parques que, pela paisagem deslumbrante e pela riqueza da flora e fauna, se
tornaram Patrimônios Naturais da
Humanidade pela UNESCO
. Título merecido.
          Banff,
criado em 1885, é o terceiro mais antigo parque nacional do mundo, tem mais
de 1.600 quilômetros de trilhas, quase 3.000
locais para acampar e mais de quatro milhões de pessoas o visitam a cada ano.
Gente do mundo inteiro o procura, sobretudo para longas caminhadas. Aliás, estas
tiram o fôlego. Não só nas trilhas, às vezes difíceis, como na deslumbrante
paisagem. A mente vive epifanias.
          Jasper,
maior parque das Montanhas Rochosas, data de 1907, possui grande
variedade de animais silvestres e recebe mais de dois milhões de turistas por
ano.  
          Bons hotéis, bed&breakfasts,
restaurantes e serviços, a preços razoáveis, atendem aos visitantes de ambos os
parques. Se preferir, acampe. A baixíssimo custo, com conforto e segurança.

          Há
lugares onde a natureza caprichou mais ao fazer o mundo. Banff e Jasper estão
entre eles. São dois pedaços do paraíso transferidos para a Terra. Dão saudade
pelo resto da vida.

                                                                                                   Para Gabi.

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O leitor também é autor

        Dizem
que todo escritor tem suas manias. É verdade, temos sim. Falo por mim e pelos
colegas. Uns gostam de determinados temas, outros detestam certas palavras e
expressões, uns têm ojeriza a adjetivos, outros abominam somente os advérbios
terminados em mente, há os que fogem dos ditados populares, a maioria odeia
crítica.
          O leitor também é escritor, pois
recria cada obra que lê. Posto de outra forma, aquilo que um autor escreve não
é necessariamente o que o leitor capta. Dez leitores terão dez diferentes interpretações
do texto. Assim, em cada romance, conto ou poema, coexistem muitos autores.
Talvez por isso o leitor também tenha suas manias. Conheço gente que escolhe
livro pela grossura, tanto pela falta quanto pelo excesso. Uma amiga só adquire
romances com mais de quinhentas páginas, um parente meu se amarra apenas em
volumes com menos de cem páginas. Há quem, por princípio, ame a autoajuda, quem
rejeite ensaios ou sonetos, quem prefira histórias com muito diálogo, quem leia
o livro de trás para a frente, quem somente o folheie, quem nunca passe da
orelha, quem adore diários. Nos Estados Unidos, onde há estatística para tudo,
descobriu-se que um terço das obras compradas nunca foi ou será aberta, pois
servem apenas de enfeite, para mostrar. Quem diria.
          Um amigo meu considera cada livro um
ser vivo, com personalidade própria, até voz. Imagino sua casa à noite. De
repente, escapam gritos pavorosos da estante, mas ele nem liga, pois sabe que
vêm da Divina Comédia, provavelmente
do círculo infernal. Imagine, se a moda pega, a bagunça que as bibliotecas vão
virar. Imagine um livro sobre a Segunda Guerra Mundial tomando vida. Tiroteio e
bombardeio dia e noite. O que seria de nossa sanidade? Nunca mais dormiríamos.

          Pois
é, leitor também tem suas manias, tão variadas quanto as dos escritores. A
ficção permite que a gente se aproprie da obra alheia e a transforme em coisa
nossa, com nosso tempero. Isso é ótimo. Com nossa marca, nossa idiossincrasia,
a leitura fica ainda mais prazerosa. De preferência, sem tiroteio.
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Uma mentira com mais de 700 anos?

       As Viagens de Marco Polo tem marcado milhões de pessoas por
mais de setecentos anos. Na infância, viajei no livro por todo o Oriente. Com o
veneziano, nasceu minha atração pela China, país que eu viria a conhecer e
sobre o qual também escreveria um livro. Marco Polo revelou detalhes da longa
Rota da Seda, como a riqueza das cidades, o poder do imperador mongol Kublai
Khan na recém-construída Beijing, a vastidão de seu império, o avanço da
cultura chinesa que já usava o papel como moeda no século 13, a vastidão e os perigos
dos desertos e das montanhas, os muitos reinos existentes entre a Europa e a
China, os costumes, os povos, os animais exóticos.
          Seu gosto pela descrição minuciosa
enriqueceu o relato, transformado em bestseller
manuscrito, pois a imprensa ainda não existia no Ocidente. Foram tantas as
novidades reveladas, que poucos acreditaram nelas, e a obra ficou conhecida
como Il Milione, isto é, Um Milhão
de Mentiras. Historiadores ainda discutem se Marco Polo de fato
trabalhou para Kublai Khan, pois não existem referências à sua presença na
corte chinesa, tampouco ele cita a Grande Muralha ou hábitos locais arraigados,
como beber chá. O veneziano criou um império com a imaginação?
          No entanto, por estar lá ou por ouvir
de quem esteve, ele capturou o encanto e o espanto do Oriente. E o fez tão bem,
que suas descrições serviram de base para mapas do século 14, além de seduzir
todas as gerações desde que suas viagens vieram a público, ao redor de 1300.

          Foram de verdade ou de mentira? Não
importa. As Viagens de Marco Polo continua
sedutor. Como dizem os italianos, se non
è vero, è bene trovato
. Bene trovato por sete séculos. Parece
mentira.
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Sexo é poder

       Existe muito modismo no campo material, mas no das ideias a
tolice campeia. Entre a divagação e a práxis, entre a tevê e o blog, entre o aqui e o além, entre o céu
e o inferno, entre o hedonismo e o estoicismo, há lugar para todo tipo de
asneira e quimera, defendidas por argumentos à primeira vista racionais. Por
mais estapafúrdia que seja a pregação, ela sempre consegue seguidores, da
limpeza étnica ao suicídio coletivo de uma seita em nome de uma nave espacial
escondida atrás do rabo de um cometa. O suicídio coletivo aconteceu há alguns
anos, a limpeza étnica ocorre ainda hoje.
       Sandice, que não é privilégio de nosso tempo, quando investe
contra a natureza humana, costuma buscar o respaldo divino para consolidar-se.
Por exemplo, nos primeiros séculos da era cristã, o ascetismo era modismo,
incensado como o melhor caminho para chegar a Deus. A carne significava a
perdição: a mulher como um todo e o homem, da cintura para baixo, eram criações
demoníacas. São Paulo julgou o celibato superior ao casamento. Dois influentes
pensadores da época, Agostinho e Jerônimo, pregaram contra o ato sexual,
tachando-o de repugnante e sujo. Na mesma linha de repúdio, Tertuliano
considerou-o vergonhoso; Arnóbio, nojento e degradante; Ambrósio, podre. A
condenação sobreviveu através dos séculos, provocando desde a autocastração de
Orígenes até, durante a Era Vitoriana, o conselho de alguns médicos aos maridos
ingleses para procurarem prostitutas, porque o orgasmo pago seria menos
envolvente – menos pecaminoso, portanto – do que com as próprias esposas.
Aliás, Freud, vitoriano de formação, debruçou-se com exagero sobre o sexo
varrido para debaixo do tapete, reflexo de seu tempo. Libertou-se de totens e
tabus, mas criou outros.
       Resultado do modismo da abstinência sexual: culpa para
milhões de pessoas. Todo psicanalista deveria acender, a cada dia, uma vela
para santo Agostinho e outra para são Jerônimo, agradecendo-lhes os clientes
dilacerados pelo confronto entre um instinto desenvolvido pela natureza durante
milhões de anos e uma filosofia incensada por meia dúzia de homens há meros
vinte séculos. O celibato, abstinência levada ao paroxismo, é contra a vida. Se
generalizado, mais louco que o suicídio de uma seita inteira em nome de um
cometa, mataria toda a espécie. Outro paradoxo: ainda o defendem no século 21.
Da boca para fora e da porta das igrejas para dentro. Controlar o ato sexual
alheio dá poder. Muito poder.

       Ideias são produto de nossa mente, sujeitas, portanto, a
modismos, do esbanjamento à virgindade – há quem, no outro extremo, julgue a
pobreza e o tantrismo os grandes caminhos para a realização terrena. O ser
humano, apesar das cambiantes concepções de mundo que adota, tem sido o mesmo
em qualquer época. Basicamente, sobrevive e procria – em resumo, sobrevive para
procriar. Para facilitar a tarefa, criou as civilizações e as culturas. Ao
observá-las à distância, constatam-se as investidas contra as pessoas, as
crendices apregoadas, as milenares superstições que perduram, as hipóteses de
trabalho tornadas verdades, os delírios entronizados nas mídias, a falta de
senso crítico. Por mais cruéis e insustentáveis que sejam alguns pontos de
vista, jamais nos livraremos deles. Ainda bem. Isso se chama convívio,
tolerância. A diversidade faz a beleza do mundo – um mundo cheio de graça, por
sinal. Oxalá a graça do mundo não seja modismo.
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A arte de caçar lobisomem

          Você procura um livro com humor
requintado, que o faça chorar de rir, contenha belas imagens e ofereça deliciosos
achados linguísticos, porém sustente a fluidez que o leve, num susto, da
primeira à última página? Você busca um personagem de carne e osso, que a gente
acredita ser real, um personagem que gerou muitos filhos em nossa literatura,
televisão e cinema? Pois então leia o romance O Coronel e o Lobisomem, de José Cândido de Carvalho, e deleite-se.
Este autor escreveu pouco, mas, caramba, com que competência. O Coronel e o Lobisomem, por si só,
ultrapassa em criatividade muitas extensas bibliografias.
          A obra aborda a vida, as aventuras e
desventuras, neste e no outro mundo, do coronel Ponciano de Azeredo Furtado,
coronel por trabalho de valentia e senhor de pasto por direito de herança, dono
de um sabiá-laranjeira que valia mais que as pratas e os ouros do maior sultão
das Arábias. Do alto de seus dois metros de altura, orgulhoso dos feitos e do
nome, ele metia medo em suas terras e nas cidades vizinhas, graças ao porte
físico e ao vozeirão. Usava e abusava dessas vantagens, era bondoso à sua
maneira, mas tinha o miolo mole. Deixava-se arrastar por um rabo de saia e
vangloriava-se das tantas virgens que deflorou ou das maldades que praticou.
Além disso, gostava de matar onça-pintada.

          Ponciano
era politicamente incorreto, tanto no comportamento, como no linguajar e no
tratamento dado às pessoas. Hoje, poucos escritores se atreveriam a pôr, na
boca e nos pensamentos de um personagem, palavras tão abusadas, para não cair
nas garras dos censores de plantão e de sua falsa moralidade. Pois o que faz o
coronel mais autêntico, mais marcante, mais carne e osso, é justamente a falta
de travas na língua, o jeito desengonçado de expor as ideias esdrúxulas, de
dividir sua experiência de vida e sua rusticidade. Ponciano encarna o poder
decadente da aristocracia rural brasileira e luta para manter as aparências.
Ele sai das páginas de O Coronel e o
Lobisomem
com a força que o lobisomem marca a imaginação de tanta gente. E
marca nossa memória com garras de onça selvagem. Ou de lobisomem, tanto faz. É
ler e gostar. 

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Literatura pra quê?

      Por
que você lê? Lê porque quer se divertir, se entreter, passar o tempo? Talvez
buscar a beleza do texto, fruir a criatividade, estimular seu senso estético?
Você lê para adquirir informação, aumentar o conhecimento? Deseja, quem sabe,
trocar umas horas de seu dia pela sabedoria que um escritor levou a vida
inteira para adquirir? Ou é dos que gostam de viagens no tempo e no espaço, de
grandes fantasias, de enredos que percorrem o mundo inteiro, epopeias que
atravessam gerações, envolvendo a história de continentes e mares? Ou pertence
à tribo dos fãs do horror, dos vampiros, dos magos, dos que mudam a realidade
com o toque do poder sobrenatural? Talvez prefira contos, histórias curtas que
nos pegam pelo pé e pela cabeça, com finais muitas vezes surpreendentes? Ou
você adora poemas, esses voos da alma sintetizados, com frequência, num verso
genial que a gente nunca esquece?
          Não importa a sua preferência, há
sempre um livro que vai acertar em cheio no seu gosto, vai seduzi-lo, vai
encantá-lo. Você pode comprar, pedir emprestado a um amigo, retirar na
biblioteca, baixar no tablet ou no celular. O livro sempre está perto de você,
para lhe acrescentar alguma coisa. Tudo que exige é um pouco de tempo e de
atenção. Ele é o requinte maior que o ser humano desenvolveu, o fruto maior do
cérebro. Abraça o universo, traz nossa alma, sentimento, desejo, sonho.

          O livro
somos nós do jeito que viemos ao mundo, nus, deliciosamente humanos,
fragilmente mortais em todos os séculos, mas capazes de saborearmos um
pouquinho da eternidade. A eternidade fugaz de um livro diante dos olhos.  

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A literatura e a desonestidade como escada social

        O
filme Meia Noite em Paris, de Woody
Allen, e os escândalos de corrupção em Brasília me remeteram a um livro que
fala dos excessos dos anos 1920,
a ruidosa década de grande prosperidade que desembocou
no caos de 1929. O livro se chama O
Grande Gatsby
. Foi escrito por Francis Scott Fitzgerald, um norte-americano
pobre fascinado pelo mundo dos milionários. Fitzgerald e Zelda, sua mulher,
aparecem no filme de Woody Allen em meio a festas extravagantes, esbanjando
dinheiro, querendo ser ricos a qualquer custo. Os políticos de Brasília também
aparecem em meio a festas extravagantes, esbanjando dinheiro público, querendo
ser ricos a qualquer custo, sobretudo às nossas custas.
          O
Grande Gatsby
trata desses personagens do alpinismo social levado às
últimas consequências. Jay Gatz, que se transformaria no grande Gatsby, é um
rapaz pobre apaixonado por Daisy, moça rica. A fim de conquistar a amada,
Gatsby trata de se enriquecer por meios ilícitos. Depois de ajuntar muito
dinheiro, para ostentar posses e atrair Daisy, Gatsby promove festas
extravagantes, nas quais esbanja fortunas. Quase conquista Daisy. Fitzgerald
atrapalha o amor, provocando um morticínio digno dos grandes folhetins.
          O romance é considerado um dos
melhores da literatura norte-americana do século 20, com o que não concordo,
mas sem dúvida merece ser lido. Não apenas pelo mérito literário, também pelo
retrato de uma época de prosperidade que parecia eterna e acabou em tragédia,
tragédia que também atingiu a vida particular do escritor Scott Fitzgerald,
morto prematuramente aos quarenta e quatro anos. Morreu pobre como nasceu.

          Grandes
festas, grandes arroubos, grandes roubos, grandes Gatsby. A história se repete
no Brasil de hoje. Dinheiro continua a mola do mundo. Há pouco, quase trouxe
outra grande depressão, como a de 1929. Vamos pagar a conta do desmando alheio
por um bom tempo. Lá fora e aqui dentro do país.

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Shakespeare era gay?

      Ser
ou não ser, eis a questão: Shakespeare era gay? Esta pergunta frequenta as
rodas acadêmicas e, de vez em quando, a mídia. Há quem o tire do armário em
definitivo, quem diga que ele, casado e pai de três filhos, sequer passou perto
de armários, há quem jure que o dramaturgo entrava e saía, com desenvoltura, de
lá de dentro. Tem Shakespeare para todo o mundo. Do jeito que gostais, diria o
Velho Bardo, com ironia. A suspeita tem várias origens. A maior aparece nos Sonetos. Dos cento e cinquenta e quatro
que conhecemos, mais da metade fala de amores do poeta por um jovem. Amor tão
profundo quanto o de Romeu e Julieta.
          O Soneto
75, por exemplo, abre com a
declaração de que o tal jovem é, para o autor e seus pensamentos, como a comida
para a vida. Nada mais explícito, certo? Não necessariamente. O fato de Chico
Buarque ter feito músicas como se fosse mulher, declarando amor aos homens, não
significa que tenha mudado sua opção sexual. Isso também vale para Shakespeare.
Ele simplesmente se teria passado por um adulto envolvido com outro homem.
          No entanto, dizem os partidários de
Shakespeare gay que o Soneto 20, no verso em que o tal jovem se torna
senhor e senhora da paixão do poeta, o compromete sem volta.

          Muito
ainda se escreverá sobre o assunto, porém jamais saberemos a verdade. Como
também diria o dramaturgo, o que importa? A incerteza move o mundo. A
ambiguidade move a literatura. Shakespeare, genial também como poeta e
manipulador da ambiguidade, trouxe a dúvida para sua vida. É um motivo a mais
para lermos seus belos sonetos.

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A rodada de pôquer que evitou uma guerra

Eu passava as férias num hotel em
Puyehué, no Sul do Chile, na divisa com a Argentina. Tempo de ditaduras na América Latina. Tempo
de tortura, disputa e arrogância. Num fim de tarde, a situação degringolou. De
um lado e outro, os generais ameaçaram invadir e aniquilar os vizinhos. Ocupado
com passeios com a família, eu ignorava que havia uma guerra iminente entre o
Chile e a Argentina. Ao descobrir, estremeci, temendo virar picadinho, junto
com os filhos. O gerente do hotel, para me tranquilizar e afastar qualquer
possibilidade de perigo, convidou-me para um jogo de pôquer secreto, numa
cabana perdida nas encostas dos Andes. Só descobriria quem eram os dois outros parceiros
na hora do jogo. Ressabiado, aceitei.
O gerente e eu viajamos numa estrada de
terra, quase atolando a cada dez metros. Após uma hora no meio da floresta, uma subida sem fim, chegamos à cabana. Nem bem nos assentamos ao redor de uma
mesa feita com tronco de pinheiro, entra Carlos. Apresenta-se: é o comandante
das forças armadas chilenas na região. Traz várias garrafas de Old Parr e Coca-Cola. Diz que o uísque fora confiscado de contrabandistas de fronteira e
deveria ter sido enviado para Pinochet, mas, ele não entendia como, várias
caixas tinham ficado para trás, e precisávamos consumi-las antes que perdessem
a validade. Além disso, detestava Pinochet. Rindo muito, pediu minha ajuda para
esvaziar a primeira garrafa. Imbuído de nobre espírito de latinidad, concordei. Carlos apreciava a bebida misturada ao
refrigerante, meio a meio, um desperdício. A pecaminosa combinação tinha nome: chipe,
ou algo parecido.
Ao final da terceira dose, escuto
roncos de tanque de guerra. Começo da invasão? Delírio etílico? Nada disso. Num
blindado leve, chega o misterioso companheiro que faltava. Pois não é que o
dito cujo era justamente o comandante das forças argentinas? Os dois homens
que, de acordo com os jornais e a boataria, deveriam trocar tiros e bombas no
dia seguinte, passariam a noite jogando pôquer e bebendo uísque juntos. Tornaram-se
amigos depois de apresentados por Fernando, o gerente do hotel, em sua festa de
aniversário. A amizade, entretanto, não podia se tornar pública, senão lhes
comprometeria a carreira nas forças armadas, ainda mais diante do clima de tensão existente entre
Santiago e Buenos Aires. Daí tanto segredo, daí a preferência por estranhos,
sobretudo estrangeiros, para completar o quarteto de blefadores.
Jogamos até a madrugada, enquanto nos divertíamos com piadas e casos de nossos três países. Levantamos os copos a cada gargalhada.
Juanito, o militar argentino, morreu de rir quando lhe contei que seus
compatriotas, para suicidar, pulam do alto de seus egos. 
Ajudados pela mediação escocesa, reviramos
nossa latinidad, nosso caldo cultural
com idênticos temperos, nossas raízes comuns, nossos mesmos tiques, nossas
visões sobre a vida que, no fundo, coincidiam.
A guerra entre o Chile e a Argentina
jamais aconteceu. Perdeu o ímpeto, pois os dois protagonistas se uniam numa
mesa de pôquer, regada a uísque confiscado.
Para mim a Rodada de Puyehué teve gosto
especial: ganhei dos três.          

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Viagens – modo de usar

Viagens nos ensinam a humildade. Com
sutileza, despertam o tempo, o outro, o próprio viajante. Quanto mais longe
vamos, mais nos desapegamos de orgulhos, pompas e idiossincrasias. Quanto mais
pessoas conhecemos, mais nos conhecemos. Quanto mais lugares visitamos, mais
admiramos o planeta, sua força, sua fragilidade, seu equilíbrio, seu tamanho.
Aqui surge um paradoxo: crescemos quando nos apequenamos ante os continentes,
ante a multiplicidade de costumes, riquezas, mitos e realidades, ante a
vastidão das montanhas, planícies e mares, ante a pluralidade de raças e
credos, ante a relatividade dos juízos. Viagens contrapõem a dimensão da Terra
e a do ser humano. Provam que somos meras frações de um universo infinito. Ora,
frações do infinito são o próprio infinito. Daí, talvez, nosso crescimento.

O mundo é maior que nossa aldeia,
obviedade de que com frequência não nos damos conta. No entanto, o vilarejo
mais distante tem segredos para revelar. Por outro lado, também portamos
sabedorias. Resultado: ao encarar a diversidade, nossos preconceitos, sobretudo
os que não admitimos possuir, afloram e provam-se ridículos. Aqueles arroubos
tão arraigados pelos êxitos, origens, posses e realizações tornam-se patéticos
diante do legado alheio, muitas vezes anônimo, no entanto arrebatador. Nos
encontros da diferença, apagamos a tola impressão de que nosso tempo é o único,
o mais brilhante, herdeiro de nenhum outro, erguido a partir de nossas
conquistas. A boa viagem confunde, questiona, excita, acerta, faz pensar. É a maneira
mais eficaz para descobrir nossa espécie e a nós mesmos em nossa total nudez.
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Encontro com o demo e o puma na Patagônia

Sozinho no Sul do Chile, em pleno
inverno patagônico, eu voltava do vulcão Antillanca rumo a Puyehué, quando o
entardecer me pegou no final da caminhada de vinte quilômetros. Silêncio e paz
a meu redor. Nem passarinho fazia barulho. Poucos quilômetros depois de Aguas
Calientes, avistei um cavaleiro. Fiquei contente. Uma alma viva! O homem, de
grande estatura, montava um descomunal cavalo preto. Vestia calça, camisa,
jaleco, luvas e capa que cobria as ancas do animal, tudo preto. Até o chapéu de
Zorro era preto. O olhar fixava um ponto no infinito, duro como bridão,
contundente como espora. Trotava com galhardia, tão ereto que parecia amarrado
a uma estaca de ferro sobre o arreio. Cumprimentei-o com um buenas tardes, foi lacônico comigo:
– Buenas – e implantou um meteórico sorriso
na face pálida.
A rápida abertura da boca permitiu-me
entrever os dentes metálicos, cor prateada. Nem um pingo de esmalte. Sorriso de
aço. Senti arrepios. Quem usaria e abusaria de tanta esquisitice no corpo? E se
fosse um bandido? De mim não sobraria nem um mindinho para contar meu sumiço. Além
disso, a estranha figura bem poderia passar pelo demo: modelo perfeito,
personificação do tinhoso em muitos relatos. Pobre cavaleiro… Tratava-se
provavelmente de um fazendeiro retornando ao lar no fim do dia, e minha cabeça
o associava ao nem-sei-o-quê.
Minutos depois, enquanto examinava os espetaculares
mergulhos de rochas e depósitos de cinza vulcânica expostos nos cortes da
estrada, testemunhos de violento passado geológico que continua no presente, enxerguei um puma a cinquenta metros de distância. Animal imponente, onça acinzentada
pelo lusco-fusco, assustador. Farejamo-nos em reconhecimento mútuo, exalei o
pavor, estudou-me com interesse. Petrificado, tentei despistar a bambeira nas
pernas, a fraqueza que atrai o ataque do felino. Espichei o corpo, ergui os
braços, pus a mão na cintura, só faltei ameaçá-lo: “Qualé, gatinho, vai encarar?”.
Haviam-me alertado para a presença do bicho na área, matador sagaz. Ainda devia
estar digerindo a criança que comera na véspera. De barriga cheia, olhou-me
outra vez, atravessou a rodovia e sumiu, sem me dar a mínima. E eu dei no pé. Corri
até que, com o coração na mão, cheguei a Puyehué. Ir tão longe para acabar no
estômago de puma, onde se viu?
Na manhã seguinte, voltei ao vulcão Antillanca.
De carro.

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Uma espécie em extinção

      Muitos
escritores odeiam os críticos literários, que consideram chupins do trabalho
alheio. Dizem que quem não tem competência para escrever vira crítico. Discordo
desses colegas. Críticos literários, profissionais em extinção no Brasil,
quase sempre ligados ao meio acadêmico, ampliam nossas possibilidades de leitura,
mostram virtudes e defeitos de um livro, comparam-no a outros, às vezes
enveredam pela vida do autor e descobrem fatos relevantes para a análise,
facilitam a escolha do leitor que não tem tempo para acompanhar lançamentos ou
reedições.
          O crítico reflete seu tempo e sua
cultura, daí a multiplicidade de pontos de vista sobre uma mesma obra. Por
exemplo, houve quem recebesse Grande
Sertão: Veredas
com reservas. Há quem ainda faça restrições à literatura
atual – ou quem tenha tachado de geniais trabalhos que sucumbiram ao peso dos
anos. Pecados veniais, contudo.
          Apesar de serem poucos os remanescentes
no Brasil, pela diversidade de formação os críticos duelam entre si, cada qual
na defesa de seu feudo intelectual. Atacam-se às vezes com acidez, exibindo
armas como dogmatismo, estruturalismo, estilo, fenomenologia, impressionismo.
Alguns se valem de uma erudição estéril, outros, de sua verve catilinária. Alguns
defendem enredos na grande tradição europeia, outros valorizam mais os
transgressores. Uns são enxutos, outros abusam da verborreia.

          Sim,
muitos escritores os desprezam, mas os críticos são, porém, imprescindíveis. Com seu conhecimento e intuição acertam mais do que erram.
Diante de um mercado inundado por muito lixo, modismo e oportunismo, ajudam-nos
a economizar tempo e dinheiro. Quase sempre nos garantem uma boa leitura. Uma pena que estejam a um passo da extinção. 

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Autoajuda para quem quer viver muito

      De
vez em quando eu me flagro com preconceito literário. Por exemplo, rejeito
escritores que nunca li. Típico “não li e não gostei”. Descubro que alguém fez
minha cabeça, portanto fui induzido, manipulado. Para tirar a teima, saio em
busca do autor preterido, vasculho seus livros, chego à minha própria
conclusão.
          A iniciativa me rendeu gratas
surpresas. Quanta gente boa eu renegava por cisma, por ignorância, por ouvir
dizer. Um desses autores era Marco Túlio Cícero, escritor, advogado, orador,
político e filósofo da Roma antiga, que nasceu mais de cem anos antes de
Cristo. Pois eu achava que Cícero fosse apenas uma aula de latinório
descartável, paixão de beletrista, expoente de conhecimento ultrapassado. Pois
me enganei. O homem é bom, bom mesmo. Continua atual. Escreve com clareza,
concisão e verve, reflete sobre questões relevantes como a amizade e a velhice,
domina a sabedoria de seu tempo (até do nosso), tem uma língua ferina, catilinária, quando
decide criticar.
       Tomemos, por exemplo, seu livro Saber Envelhecer. Quem nunca ficará
velho? Quem nunca se indagará a respeito da morte? Quem abraçou os prazeres da
vida nunca se verá obrigado a renunciar a vários deles? A outra opção para quem não deseja envelhecer não é muito prazenteira.

          Cícero,
sozinho, vale por uma centena de livros de autoajuda. Aliás, muitos autores de
autoajuda bebem em Cícero e não lhe dão o devido crédito. Reciclam, com grande
perda de conteúdo, o que o mestre romano escreveu há tantos séculos.
Aproveitam-se da desinformação e do preconceito contra o antigo. Miram pessoas
que acham que o mundo nasceu ontem. Contra o preconceito, nada como o contato
direto. Beba direto na fonte, tire suas próprias conclusões. Como fez Cícero,
seja seu próprio juiz. E colha bem o seu dia.

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Aterrissagem no meio do Himalaia

Estava a caminho de Leh, capital do Ladakh, na Índia, fronteira com Paquistão, China e Tibete. Zona conturbada. Bombas, ataques terroristas, brigas entre hinduístas e muçulmanos, ameaças atômicas entre Índia e Paquistão, milhares de refugiados tibetanos. No caminho, a bordo de um Boeing 737, a paisagem do Korakoram, uma das cadeias do Himalaia, me arrebatou. A beleza paga a viagem
até Leh – e deixa troco. Sobrevoei quilômetros e quilômetros de picos
nevados, agudos como se feitos ontem à noite, encostas íngremes, passos
profundos, geleiras, canyons, vales,
morenas. O paliteiro, de tão alto, quase espetava a fuselagem. Naquela vastidão
branca, nunca se acharia um avião que tivesse a insensatez de
cair. A beleza rude, até agressiva, pela insignificância que reduziu a mim e à
máquina que me transportava, misturou fascínio e temor. Depois de me acostumar
com a grandiosidade, percebi a graça do conjunto: o Korakoram é uma bandeja de
suspiros saindo do forno. Suspiros de pedra e gelo.
De repente, um ponto ainda mais
proeminente. É o K2, avisou o piloto, o segundo pico mais alto do planeta e o
mais difícil de escalar. Com arrepios adicionais, dei-me conta de que estava
longe de casa, perto do fim do mundo. Relaxei-me. O fim do mundo é
lindo.
O frio na barriga triplicou quando
enxerguei a pista de Leh, situada a 4000 metros de altitude e cercada por precipícios. Julguei impossível aterrissar um 737 na extensão de
um campo de futebol. E, no final da pista, um monastério budista fazia as vezes de um gol. Nada disso. A
construção estava mais para um goleiro que, em guarda sobre um morro, se
dispunha a cercar tudo que viesse do céu ou da terra.
O piloto manobrou entre os cumes e,
viciado em fortes emoções, literalmente deixou a aeronave despencar. Quando eu
jurava que bateria no solo com a ponta da fuselagem, o Boeing ergueu o nariz.
Tocou o asfalto já com os freios travados, porém com o dobro da velocidade
aconselhável, assim me pareceu, impressionado pela rapidez com que rolávamos.
Eu só pensava no danado do monastério cada vez mais perto e no susto dos monges
budistas que, após o estrondo, encontrariam dentro de casa um bando de corpos
irreconhecíveis.
O avião começou a tremer. Tremeram as
cadeiras, como que arrancadas do suporte, tremeu o teto, tremeu o chão. As
mesinhas dos assentos desprenderam-se, os bagageiros abriram-se, objetos caíram,
um japonês levou uma garrafada na testa, a dor liberou seu pavor num grito
agudo. Na cozinha, pratos espatifaram-se. O carrinho de bebidas se soltou,
avançou sobre os passageiros. Duas aeromoças com os cintos afivelados se
entreolharam, trocaram expressões de pânico. A mais despachada esticou a perna,
calçou as rodinhas com o sapato, resolveu o problema.

Do lado de fora, chegava o urro
ensurdecedor de metal contra metal, qual disco de freio de carro completamente
desgastado. As turbinas assobiavam de tanto soprar o ar com fúria. Os flaps, eu os via a ponto de saltarem
fora da asa. É o fim do mundo para mim, concluí. Vou virar churrasco.
No segundo anterior à tragédia,
veio o cavalo de pau. O 737 rodopiou, cantou pneu, rangeu e, milagre!, ficou
quietinho voltado para o terminal, resfolegante, pálido com a enorme descarga
de adrenalina. O japonês com galo nascendo na testa bateu palmas. Todos a bordo
o acompanharam. Aterrissar em Leh é emoção garantida. Beleza também.
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Três pesquisadores que experimentaram quase todas as drogas

         Você já ouviu falar do oliliuqui? E do peyote? E da ayhuasca ou yagé? E da folha divina da imortalidade?
Pois todos esses nomes se referem a plantas alucinógenas usadas pelos índios
da América Latina para entrar em contato com seu universo interior ou com seus
deuses. Para pesquisá-las, três gerações de botânicos da Universidade de
Harvard percorreram nosso continente, enfrentaram todo tipo de perigo e doença.
Descobriram como essas drogas atuam. Para retratá-las com precisão, eles
experimentaram quase todas e relataram os efeitos sobre seus corpos e mentes.
Um barato que, às vezes, saiu caro.
          Essa
aventura louca, que põe Indiana Jones no chinelo, aparece no livro El Rio, de Wade Davis, etnobotânico e
documentarista canadense. El Rio, ou One River no original, infelizmente não
foi traduzido para o português, mas merece. É ótima leitura. Além de resgatar
as aventuras de Richard Schultes, Tim Plowman e do próprio Wade Davis nas
selvas, também realiza amplo levantamento da cultura e da história de países
latinos e de tribos indígenas. Por exemplo, ao mergulhar no ciclo da borracha,
descreve o apogeu de Manaus, quando os perdulários milionários da cidade, para
ter seus lençóis bem branquinhos, mandavam lavá-los na Europa. Lembra como as
sementes de nossa seringueira foram contrabandeadas para a Ásia e como os
norte-americanos fazem biopirataria usando o nome da ciência. Conta como tribos
inteiras foram chacinadas pelos europeus, sobretudo espanhóis. Ao todo, quase 30 milhões de pessoas.
          Mostra,
ainda, outro tipo de extermínio, perpetrado por religiosos que, em nome da
salvação, dizimaram muitos povos e suas culturas. Revela que dois presidentes
dos Estados Unidos, vários artistas e Freud se tornaram consumidores de coca. O
papa Leão XIII até condecorou o inventor de uma bebida, o Vinho Mariani, feito
com a planta. Aliás, a coca é, até hoje, importada legalmente nos Estados
Unidos pela Stepan Chemical Company, empresa que repassa um de seus extratos
para a Coca-Cola, originalmente um remédio vendido em farmácia como vinho
francês de coca. O que mudou?

          Tudo
isso e muito mais você encontra em
El Rio ou One River, de Wade Davis. Livro
delicioso, apaixonado, apaixonante, imperdível. Se tiver oportunidade de lê-lo,
faça-o. Você não sairá ileso das águas desse rio.   
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Os amantes de Verona

 Em 1596, a juventude inglesa chorava o infortúnio de Romeu Montecchio e Giulietta Capuleto, o casal apaixonado de
Verona que sucumbiu a intrigas familiares e acabou cometendo suicídio.
Christopher, um adolescente de Stratford-on-Avon, inconformado com o desfecho,
decidiu reescrever a história, evitando a tragédia: os amantes se salvariam e seriam felizes
para sempre.
Ao mergulhar na escrita, criou
uma Julieta tão bela que não resistiu a seus encantos e se apaixonou pela criatura.
Desejou-a durante meses, mais próxima a cada palavra, mais palpável a cada
parágrafo, mais sua a cada capítulo. Em intensidade cada vez maior, percebeu-lhe
o aveludado do rosto, enquanto a acariciava na pele do papel. Ao luar, sentiu o
perfume de seu hálito de mel nos versos que compunha. Na cama, desnudou-a com o
carinho que a tinta conferiu ao corpo imaginado. Autor e personagem se
mesclaram até que a fronteira entre eles ruiu. Enlouquecido, Christopher
resolveu conquistar em definitivo a veronense. Abandonou Stratford e
desapareceu dentro da obra.
Uma pessoa descobriu seu paradeiro.
William, amigo e confidente, leu as páginas já escritas, ligou o fato à ficção
e entendeu o sumiço. Para comprovar, acrescentou algumas frases ao texto em
andamento e pediu notícias. A resposta brotou nas linhas seguintes, saindo do
vazio, letra a letra.
Christopher cumprimentou William pela
perspicácia, exigiu segredo a respeito do plano, contou suas andanças por
Verona, revelou que já mantinha contato com a jovem Capuleto, na realidade muito
mais bela do que supunha. Ela correspondia à corte, embora desconfiasse que talvez
tentasse usá-lo para provocar ciúme em Romeu. Desse dia em diante, sucederam-se
quatro capítulos sobre a evolução da conquista. 
De repente, a reviravolta. Christopher,
no meio da narrativa, enviou uma mensagem de desespero:
“Tire-me daqui, William. Eles vão me matar.”
Enquanto as palavras secavam, William
não soube o que fazer. A folha retorceu, cresceu para os lados, ocupou o piso e, das letras, materializou-se um corpo com dois punhais cravados
às costas. William, num tardio gesto de ajuda a Christopher, removeu as lâminas
ensanguentadas. Ao arrancá-las, notou as iniciais gravadas em cada cabo: no
mais trabalhado, coberto com cristal rosa, GC; no outro, com uma esmeralda bem
corada, RM.
William assumiu o lugar do morto e
continuou a escrever a história. Em vingança pelo amigo, quando os amantes
de Verona pareciam a um passo do sucesso, não os poupou do encontro com o
destino.
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O assassinato de uma casa e de seus habitantes

       Pode
uma casa ter vida, crescer e morrer como uma pessoa? Se você ler o romance Crônica da Casa Assassinada, do escritor
mineiro Lúcio Cardoso, a resposta é sim. Sim, pode. E com que maestria a casa
morre, acompanhando a decadência de seus moradores, uma família do interior
mineiro, os Meneses. Numa mistura de surrealismo, densidade de texto e
introspecção psicológica, trabalhadas em linguagem que muitas vezes beira a
poesia, Lúcio Cardoso joga-nos dentro de uma fazenda que guarda segredos
terríveis entre os parentes e os agregados que a habitam, lado a lado, nos
quartos ao longo de um corredor espremido entre a sala e a cozinha.
          Incesto, morbidez, adultério, pesadelo
e violência entrecruzam-se de maneira velada, sutil, expressos em diários,
cartas e confissões, a partir da chegada da desconhecida Nina, mulher bonita,
manipuladora e extravagante que deixa o Rio de Janeiro para casar-se com um dos
Meneses, atraída e traída pela aparente riqueza da família. Nina desperta
paixão e inveja nos outros moradores. A tensão aumenta. Um aparente incesto
acontece. Relatos de testemunhas adicionam lenha à fogueira. O embate entre os
personagens gera reações que vão da febre amorosa ao ódio, da indiferença à
mentira.
      Haja criatividade para manter
o texto num nível tão elevado, belo e angustiante. A casa é um complexo caso
psicanalítico, sem saída, cujo destino se superpõe ao de Nina, carcomida pelo
câncer e suas metástases.

          O romance foi publicado em 1959. Faz,
portanto, cinquenta e seis anos que a obra encanta. Continua magnífica a Crônica da Casa Assassinada. Um
assassinato que nem Freud junto com Sherlock Holmes desvendariam.      
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Brasas que nunca apagam

           Dizem
que a vingança é um prato que se come frio. No entanto, esperar quarenta e um
anos para fazer essa refeição não seria um prazo longo demais? Não é o que pensa o
septuagenário general Henrik em relação a seu melhor amigo, Konrad. A amizade
entre eles durante a juventude, quando frequentaram juntos a academia militar,
tinha sido tão próxima que tangenciava o erotismo. Eram como gêmeos no útero
materno. Depois de formados, trabalharam no quartel em Viena, até que Henrik
conheceu Kriztina e se casou com ela. Durante uma caçada, o recém-casado, pelos
sons e posição do amigo na mata, descobre que Konrad esteve para matá-lo. Horas
depois, Konrad desaparece no mundo. Por quê?
          Ao montar as peças do quebra-cabeças,
o general reconstrói os movimentos da esposa e do amigo, chega à conclusão
fatal, refugia-se numa ala de seu castelo, nunca mais fala com Kriztina e
aguarda o retorno de Konrad, que considera inevitável. Quarenta e um anos
depois, quando há muito Kriztina tinha morrido, Konrad de fato volta. Henrik,
que viveu para esse reencontro, está pronto para a vingança. Amor, amizade,
honra, culpa, pudor, inflexibilidade ética e raciocínio lógico permeiam o
desfecho.
          Se você deseja saber o que acontece
aos dois amigos, precisa ler As Brasas,
a fascinante novela do húngaro Sándor Márai. Guarde este nome, As Brasas, livro com menos de cento e
setenta páginas no qual Sándor Márai esbanja talento na descrição de perfis
psicológicos, costumes, cultura e ambientação durante os estertores do Império
Austro-húngaro. A tessitura de mestre prende-nos a atenção, com revelações e
surpresas página a página, em doses homeopáticas. A beleza da linguagem é
mantida na tradução de Rosa Freire d’Aguiar.
          As
Brasas
queimam mesmo depois de virarem um quadro na parede.
             

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Desafio radical na neve – uma aventura

         Imagine
uma cordilheira dentro de outra. Imagine dezenas de picos nevados com mais de
cinco ou seis mil metros de altitude, reunidos num perímetro de 165 quilômetros.
Essa cordilheira existe. Fica no meio dos Andes peruanos e se chama Huayhuash. Atravessá-la
é um desafio radical. Num único dia, saí de uma densa mata de quenuales a três
mil e quinhentos metros de altitude, cheguei à neve a cinco mil e dormi a
quatro mil na puna andina. Encontrei por lá gente de trinta países, nenhum
brasileiro.
          Huayhuash é uma aventura que marca não
apenas pela beleza, também pela diversidade de clima, relevo, plantas e
animais, pelos lagos cristalinos, pelo estrondo das avalanchas, pelo silêncio
da noite, pela pureza do ar, pelo vento que arrasta e congela. Nem pense em ir,
se você gosta de conforto. Barraca é o único hotel.
          Aliás, Huaywash tem o som, em inglês,
de “why wash” ou “por que se lavar?”. Ao percorrer suas trilhas, o que demora
doze dias, é difícil tomar banho. Os riachos que descem das geleiras não
convidam para mergulhos. O risco de morrer de frio é real. Na única fonte termal
que encontrei, ao pé de um vulcão, tive a companhia de uma nevasca que me
roubou a coragem de sair do poço quentinho. Sempre que o céu se abria, montanhas
com nomes sonoros e estranhos brilharam ao sol, brancas de doer: Yerupajá,
Jirishanca, Ninashanca e Siula. O Siula, aliás, foi palco da façanha relatada
no livro “Tocando o vazio”, prova da enorme capacidade de resistência do ser
humano.

          Huaywash,
de tão remota e selvagem, foi esconderijo do Sendero Luminoso, o famoso grupo
guerrilheiro peruano. Sendero Luminoso, ou Caminho Luminoso, seria um nome
apropriado para a cordilheira. Ali se veem todas as possíveis nuanças de luz,
sobretudo aquela que, lá no alto, onde o ar rarefeito embevece o cérebro,
parece brotar de dentro da gente e iluminar o presente, o passado e o futuro,
revelando a imensa curtição de estar neste mundo. À luz de Huayhuash, a vida
pulsa através de todos os tempos num único momento. Um eterno momento.

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Um mago de outros mundos

        Já
participei de seminários, palestras e congressos sobre Guimarães Rosa no
Brasil, Inglaterra e Alemanha. A maioria dos trabalhos abordava Grande Sertão: Veredas,
obra-prima do autor. O que faz Grande
Sertão: Veredas tão estudado, tão sedutor, apesar de nunca ter caído no
gosto popular?
          O romance é uma soma de tramas,
invenções, reinterpretações e símbolos. Tramas, invenções, reinterpretações e
símbolos linguísticos, geográficos, mitológicos, filosóficos, literários. Tudo
bem combinado com talento, audácia e originalidade. Mistura de real e
sobrenatural, de minúcias do sertão e lendas medievais, de linguagem cabocla e
neologismos enraizados em diversas línguas, de honra masculina e
homossexualidade, de vivência e psicanálise, de sutileza e violência, de amor e
pecado, de deus com o diabo. Grande Sertão oferece uma orgia para os
sentidos. Deste e de outros mundos.
          É difícil penetrar em seus meandros,
emaranhados, veredas. Uma vez dentro do mundo rosiano, o prazer é intenso. A
saga dos jagunços Riobaldo e Diadorim transcende o sertão e se faz humanidade.
Minas Gerais vira um universo único, nascido no ventre de Rosa, morto com ele.
Nós, leitores, ao final do livro, sentimos a epifania da arte, o intelecto
transformador e o transformado, o êxtase da literatura.
          Sim, vale a pena desbravar o Grande Sertão. Há magia nele, há um mago por trás de suas páginas. Se
Machado de Assis é o Bruxo do Cosme Velho, com carinho, merecimento e admiração
Guimarães Rosa é o Bruxo de Cordisburgo. Bruxo dos bons, ao mesmo tempo mago e
magia. Com direito a um caldeirão onde cabem línguas, filósofos, escritores,
vidas e vivências que o mago devorou.

         
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Literatura não é ciência

        A
teoria da literatura explora o modo de ser da obra literária, isto é, suas
propriedades, sua diversidade, o processo de criação e recepção, as
congruências e diferenças estruturais e históricas da literatura. Complicado?
Eu acho que sim. Complicadíssimo.
          Fica ainda mais complicado quando se
adicionam as várias correntes formadas a partir desses conceitos (como os
positivistas, neopositivistas, estruturalistas, historicistas, semióticos,
estéticos, hermenêuticos, intertextuais, indeterminados etc etc), cada corrente com
seu ponto de vista, cada uma disposta a bombardear as oponentes. A confusão
aumenta quando outros tentam transformar o estudo da literatura em ciência, ou
seja, tentam amarrar a literatura a regras, princípios e uniformidades que não
lhe são próprios.
          Escrever é um gesto caótico, em que o
escritor muitas vezes não sabe aonde quer chegar, tampouco, na chegada, sabe se
atingiu o objetivo. Como disseram os poetas, os versos são inúteis, uma
inutilidade que transforma e seduz. O melhor a fazer é curtir a leitura, cada
qual à sua maneira, pois há tantas maneiras de se perceber o texto tantos são
os leitores. A literatura precedeu a ciência do caos.
          Outros alegarão, entretanto, que minha
ideia faz parte de uma teoria desenvolvida no século 20, teoria que visa
classificar os textos dentro de parâmetros que desembocaram na ciência da
literatura. Confuso? Confusíssimo. Quando escrevo ou leio, não penso em teoria,
em ciência. Penso
na arte. No prazer. Na estética. No personagem. No enredo. Nas figuras de
linguagem e na linguagem em si.
Na sabedoria do autor. Na sonoridade. Na melhor palavra. Na
imensa alegria de mergulhar em mundos que parecem, mas não são, ou são, mas não
parecem ser. Nada disso precisa de ciência, apenas de sensibilidade.
Sensibilidade para capturar a ficção da realidade. O mundo é a ficção de cada
um. Escritores simplesmente falam da sua fantasia.    

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Um bruxo bom para a cabeça

Quem não se sente meio sem inspiração
de vez em quando, com os neurônios em recesso, o cérebro desligado? Sempre que
termino de escrever um livro, caio nesse processo, sofro com a entressafra,
acho que a fonte secou e nunca mais escreverei. Minha receita para sair do
parafuso é ler. Leio muito. De tudo. Sobretudo releio autores favoritos.
Para turbinar a cabeça, ninguém
melhor que Jorge Luis Borges. O bruxo argentino possui imaginação para dar e
emprestar. Seu excesso de criatividade me excita, besunta as sinapses e
restabelece o fluxo das ideias. Mergulho fundo nele, busco entendê-lo
no momento da criação, encanto-me com os meandros de sua mente. Viajo na
biblioteca sem fim de Babel, nos caminhos que se bifurcam em Almotásin, no
Aleph que tudo contém, devoro as histórias da infâmia, admiro a erudição,
pesquiso quais citações são verdadeiras ou inventadas, descubro nuances das
quais não desconfiava, passeio até pelo fervor de Buenos Aires, renovo a
impressão de que Borges, brilhante demais, conciso demais, tinha preguiça para
escrever histórias longas, um romance por exemplo.
Aliás, essa impressão me foi
confirmada por dois de seus amigos na capital argentina, onde certa vez, anos
depois da morte de Borges, conheci um sósia seu, um senhor tão parecido que
quase lhe pedi autógrafo. Admirador tem cada idiossincrasia…

Nesses dias em que começo a sair da
entressafra, uma vez mais fico em débito com o bruxo portenho. Bela
maneira de me curar ou, quem sabe, me adoecer de novo para a escrita. Ah se
todo remédio fosse assim tão perfeito e gostoso. Pois passo a receita a todos. Se
funcionar, passem adiante. Boa leitura não tem contraindicação. Nem fim. Como
diria Borges, é um eterno retorno. 
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Receita milenar para virar herói

        A verdade é uma só, e os sábios falam dela sob vários nomes. Esta frase
está nos Vedas, livros sagrados hindus.
Tomemos, por exemplo, a trajetória dos heróis. Ela se repete em todos os
continentes, sob os mais diversos nomes, desde a antiguidade: Gilgamesh,
Moisés, Shiva, Rei Arthur, Joana D’Arc, Hércules, Jesus, Tiradentes. Esses heróis, depois de sofrer provações, trouxeram sabedoria ou renovação para
sua gente. Aliás, entre as biografias de Jesus e Hércules existe mais que
coincidência: ambos eram mortais e deuses, filhos de um todo-poderoso com uma
terrena, passaram por sofrimentos atrozes, salvaram o mundo, sentiram-se
abandonados pelo pai, depois da morte subiram aos céus. Até suas últimas frases
teriam sido, em algumas tradições, as mesmíssimas, apenas separadas por muitos
séculos.
          Quem quiser saber um pouco
mais sobre o caminho comum aos heróis de todos os tempos não pode deixar de ler
o livro A Jornada do Herói, baseado
na vida e na obra do grande mitólogo norte-americano Joseph Campbell. Campbell
afirma que uma nação sem mitos não é uma nação, apenas um amontoado de pessoas
disparatadas. Estamos bem no Brasil. Mito sobra por aqui.
          O mito é o mistério do
mundo, condicionado à cosmologia de cada época. Por isso, Campbell não via
qualquer conflito entre a ciência e a religião, pois a religião é balizada pelo
conhecimento existente na data de sua fundação. Não se pode comparar o
conhecimento de hoje com aquele de dois mil anos atrás. A defasagem é evidente.
O mito, então e hoje, busca o mistério, a mesma busca do herói que, ao se
lançar nela, nos revela um pouco mais acerca do mundo e de nós mesmos.
          A receita para ser herói
é simples, segundo Campbell: “Siga a sua bem-aventurança, vá aonde há um
profundo sentido do seu ser, vá aonde seu corpo e alma querem ir”. Ao tomar
essa trilha, escute sua voz interior, e as portas se abrirão.
Ouvimos essa mesma história todos os dias,
repetida por empresários, artistas, políticos, atletas e cientistas que se
esforçaram, tiveram sucesso e nos legaram coisas novas. Isso prova a
permanência do mito. Através dos séculos, a jornada do herói não muda.   
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O dia em que escalei o letreiro de Hollywood

     Toda sociedade possui seus ritos de passagem, escancarados ou não. Quando reprimidos, os jovens os revigoram, pelo prazer de se testar, de se afirmar perante o grupo, de dizer ao mundo que chegaram à idade adulta. Darwin explica isso melhor que Freud.
     Em Los Angeles, há muitos anos, o supremo teste de coragem para um adolescente era escalar o letreiro de Hollywood, aquela marca na montanha que identifica a capital do cinema. Chegar ao topo de qualquer das nove letras garantia a admiração dos menos corajosos e o orgulho do escalador. A cidade guardava, como alerta, os nomes dos rapazes que, ao longo das gerações, despencaram e morreram ou ficaram aleijados.
     Havia algumas dicas importantes para os aventureiros. Como o letreiro era um símbolo da cidade, ele ficava sob guarda. No sábado à tarde ou no domingo de manhã, porém, os seguranças costumavam abandonar o serviço, já que ninguém é de ferro. Tampouco se podia acreditar nos enormes cartazes que ameaçavam processar com a severidade da lei quem ultrapassasse a cerca que delimitava o monumento. A cerca, aliás, tantos eram seus fios de arame farpado, também intimidava. Por último, precisava-se de uma corda, pois a escada de marinheiro que conduzia ao topo começava a uns dois metros do chão.
     Parti para a aventura com um colega de escola num sábado à tarde. Demos sorte. Como previsto, no meio do deserto que circunda a montanha, o segurança se sentiu seguro o bastante para sumir do serviço. Ultrapassada a cerca, a corda facilitou o início da escalada. Depois, grudados aos degraus da escada, fomos subindo rumo à glória. Bem rápido, para evitar sermos flagrados.
     Quase no fim da letra H, levei um escorregão ao trocar o pé e por pouco não caí. Altura de um prédio de seis andares, talvez sete. Segurei-me pelos braços, sem encontrar apoio para os pés. Embranqueci. Gelei. Tremi da cabeça ao mindinho. Fiquei com medo de prosseguir. Meu amigo me incentivou a continuar. Igual bicho-preguiça, fui em frente.
     Ao alcançar o topo, veio a decepção. A vista era horrorosa. Hollywood não passava de um amontoado de galpões de cinema no meio do deserto, uma ou outra palmeira a destoar da monotonia da planície. Ainda sob efeito da descarga de adrenalina, perguntei-me por que assumira tanto risco.
     De repente, ouvi o grito de vitória de meu amigo. Então me dei conta de que conseguira.Conseguira. Isso era o que importava. Também gritei. Escalar o H de Hollywood, por mais arriscado que fosse, por mais sem graça que pudesse ser a vista, tinha um valor simbólico. Um valor que não tem preço.

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Tablets, foblets, goblets, goblins, gadgets e gente afobets

         Raramente um neologismo nos pegou com a força do tablet, essa varinha de condão que, com dois toques, coloca o
mundo na palma de nossa mão. Tablet tornou-se arroz com feijão, graças a uma
campanha de lançamento bem feita. Todas as mídias noticiaram a histeria
consumista, alardeou-se até a escravidão em que os operários chineses seriam
mantidos, para atender à surpreendente demanda. Ninguém questionou a exploração
humana, todos queriam a geringonça, o novo gadget. O fenômeno se repete, ano
após ano, a cada lançamento, a cada novo modelo que pouco muda.
        O Brasil aderiu ao modismo de
corpo e alma. O governo ameaça, volta e meia, colocar o tablet na mochila de
cada aluno da escola pública. Passa da hora. Os marqueteiros juram que, se você
não comprar um, você vira ET. Por conta de seus gadgets, Steve Jobs perdeu
todos os pecados e morreu santo e herói ecumênico. Enquanto isso, novas
gerações de tablets chegam ao mercado, novas empresas os comercializam, novos
nomes são inventados, surgem os foblets, muitos não vingam, todos se tornam
goblets (Santo Graal para recolher dinheiro), as pessoas se sentem goblins
quando não possuem o modelo mais atualizado.
          Já
vi esse oba-oba antes. Muitas vezes. Aconteceu com tvs, vídeos, filmadoras,
pcs, celulares, laptops etc. Desatento e induzido, comprei na afobação vários
gadgets, completas inutilidades. Tenho pilhas de lixo eletrônico. Quanto ao
tablet, todos possuirão um. Ele resolve problemas, inclusive o de carregar muitos
livros numa viagem. Ainda mais agora que os modelos mais simples custam apenas
100 reais. Se funcionam, não sei, porém o preço comprova a tese de que logo todos terão
um. Nem que seja para parecer moderno e deste mundo. Um mundo de neologismos e
de quinquilharias digitais. Um mundo de gente afobets por gadgets que logo vão para o lixets.
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Boeing em queda livre

O avião canadense decolou de Seoul, na
Coreia do Sul, para Vancouver, no Canadá, às cinco da tarde. Quase trezentas
pessoas a bordo. Minha mulher e eu ocupávamos a penúltima fileira, à frente de
um simpático casal de portugueses. Quando íamos jantar, o piloto ordenou que
aeromoças e passageiros se assentassem e afivelassem os cintos. Havia forte turbulência
pela frente.
          O que se seguiu não foi turbulência,
mas um rodeio de peão em cima de touro bravo. O Boeing 777 despencou sobre um colchão
de ar duro, sofreu um baque, subiu, caiu, adernou à direita, estremeceu, subiu
de novo. Então veio a queda livre. Sem fim. Depois de bater no fundo, pela
janela vi o avião literalmente bater as asas para voar. Elas quase se dobravam
e tocavam uma na outra. Moviam-se quais as de um pássaro ferido, prestes a entregar
os pontos. Maleiros se abriram, objetos tombaram, garrafas caíram, vidros se
espatifaram. Nesse momento, aconteceu o primeiro grito de pavor.
          Dizem que o pânico contagia. Sim, é
verdade. Em questão de segundos, o avião inteiro berrava, uivava, gania,
clamava aos céus. Parecíamos viver os últimos momentos. Olhei para minha mulher.
Ela cruzara as mãos e, cabisbaixa, as apoiara entre as pernas. Brinquei, para
espantar o medo:
          – Puxa, meu bem, nunca imaginei que
iríamos morrer no meio do Pacífico…
          Seu olhar me queimou mais que fogueira
da Inquisição.
          Durante outro mergulho sem fim, o
português no banco de trás se rendeu ao terror:
          – Mariiiia, desta vez fomos!
          Não, não fomos. Novo baque, nova sobrevida,
nova queda:
          – Mariiiiiiiiaaa, desta vez vaaaamos!
Adeus, Mariiia!
          – Adeus, Manoel, amor meu!
          Olhei para o lado. Um garoto coreano rolava
seu carrinho Matchbox sobre os assentos, alheio à balbúrdia, alheio ao medo, alheio
até à mãe, que se descabelava.
          De repente, tudo acabou. Melhor
dizendo, acabou a turbulência. Sobrevivemos. Vi o céu – o belo céu deste mundo
em fim de tarde.

          Não consegui jantar. Meu assento
ficava junto aos banheiros, a fila era enorme, e várias pessoas exalavam o mau
cheiro de quem não se segurara. Havia manchas nos traseiros. Ninguém se sentiu
constrangido. O preço era baixo para tanto alívio.            
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A porta geométrica da alma

        As
seis conferências que Italo Calvino faria em Harvard em 1985, por sinal nunca
apresentadas, devido à sua morte, deram origem ao pequeno livro chamado Seis Propostas para o Próximo Milênio.
Calvino abordou as seis qualidades que considerava
essenciais à boa literatura: leveza, rapidez, exatidão, visibilidade,
multiplicidade e consistência. Não chegou a escrever sobre a consistência,
acometido de letal hemorragia.
          Uma dessas qualidades me chama a
atenção: a multiplicidade. Num mundo em que buracos negros, big bangs,
genomas, retrovírus, neurônios, operações de swap e hedge, ipos e paradigmas frequentam nossas
casas com a assiduidade da internet e da telenovela, a literatura não pode
deixar de refletir sobre esses temas.
        A literatura retrata o tempo em que é
produzida. Para melhor fixar sua época, o escritor precisa mergulhar até o
pescoço nas crenças, crendices e fatos que o rodeiam, necessita absorver o máximo
possível do espírito e da ciência em voga, deve processar tudo e tentar
transmitir a outras gerações sua visão de mundo. Carece, portanto, tornar-se
especialista em generalidade, ser um generalista assumido.
         Nosso século é único, diversificado,
complexo, em rápida evolução. Embora enquanto seres humanos continuemos os
mesmos, com as mesmas buscas e necessidades básicas de todas as gerações
anteriores, o tempo foge, urge, ruge e avança. Como diz Calvino, o conhecimento
nasce do embate entre a exatidão e a irracionalidade, entre a matemática e o
caos. Exatidão, irracionalidade, matemática e caos são temas que só com
multiplicidade o escritor consegue vislumbrar. A multiplicidade é a porta
geométrica da alma. 

Palavras-chave: Calvino, Italo Calvino, Seis propostas para o próximo milênio, multiplicidade, literatura, big bang, swap, conhecimento, irracionalidade

 

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Fé ao volante

          Sempre que vejo um carro cheio de
amuletos, fitas, frases e adesivos protetores contra acidentes, eu me lembro de
seu Divino, homem de muita fé. Ele deve ter sido um dos piores motoristas que
já passaram pela Terra. Nunca entendi como conseguiu a carteira de habilitação. Morria de medo
de estrada e de trânsito. Assustava-se com cada veículo que o ultrapassava: fugia,
apavorado, para o acostamento, houvesse ou não acostamento. Dirigia a vinte por
hora, o rosto colado ao volante. Derrubava a mureta da garagem duas vezes por
semana. De vez em quando, caía dentro do mata-burro à entrada de sua fazenda. Um
perigo, o seu Divino. Para ele e para os outros.
          Um dia resolveu, por precaução,
escrever nas portas de sua velha Rural Willys uma quadrinha com rima bem rica, especialmente
encomendada ao sacristão, para atrair as bênçãos celestiais:
           “O Pai na frente,
          A Mãe na guia,
          Livrai-nos de acidente,
          Jesus, José e Virgem Maria”.
          Virou chacota: de tão barbeiro, precisava
da proteção da Sagrada Família inteira. Nem bem começou a desfilar o carro
bento, bateu num barranco, capotou e caiu dentro de um córrego. Ao ser
resgatado, disse que estava dando água para a tropa de cem
cavalos do motor.
          Passado o susto, ficou ressabiado: por
que os céus não o haviam protegido? Depois de muito pensar, descobriu a razão:
não era lá muito devoto da Virgem Maria. Preferia outra santa, que considerava
mais milagrosa. Para cortejá-la, raspou das portas o nome da Virgem e pintou
ele mesmo, em garranchos, o da eleita:
          “O Pai na frente,
          A Mãe na guia,
          Livrai-nos de acidente,
          Jesus, José e Nossa Senhora Aparecida”.
          De nada adiantou lhe dizer que, além
de perder a rima, havia trocado seis por meia dúzia. A mudança tampouco deu
certo. Seu Divino continuou trombando e batendo, dia sim, dia não. Depois de quase
destruir a Rural Willys numa focinhada de frente contra um caminhão, encostou-a
na garagem, para o bem geral e alívio da família. Fé é fé, mas, ao volante,
quem funciona mesmo é o motorista. Afinal, santo nunca tirou carteira de
habilitação.

           
         Palavras-chave: motorista, barbeiro, acidente, carteira de habilitação, Rural Willys.
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Como conquistar o mundo

        O
chinês Sun Tzu faz sucesso dois mil e quinhentos anos depois de morto. Ele
escreveu A Arte da Guerra, livro que
deveria se chamar A Arte de Comer o
Inimigo pelas Beiradas
. Segundo Sun Tzu, a melhor batalha se vence sem
disparar as armas, dobrando o oponente através da exibição de força e de organização.
Em outras palavras, deve-se convencer o inimigo de que perderá a luta, caso
ouse o enfrentamento. Esta é hoje a estratégia usada pela China em seu relacionamento
com o exterior. Sua pujança e poderio inibem desafios. Tornou-se a economia da
qual o mundo depende para crescer. Todos querem vender para eles. Os chineses
tiram proveito da situação. Pragmatismo comercial.
          Sem disparos, também, foi a conquista
dos Estados Unidos através do controle da maior arma do capitalismo: o capital.
Com reservas em torno de quatro trilhões de dólares, os comunistas aterrorizam
Washington quando insinuam que não mais comprarão papéis do Tesouro ianque. O
dólar viraria pó, caso esse dinheiro fosse direcionado, por exemplo, para o
ouro. Com tamanho trunfo na manga, Pequim adia para sempre a independência do
Tibete e, aos poucos, reabocanha Taiwan. Ao mesmo tempo, adquire empresas e
terra em vários países. Sem que percebamos, em muitas fábricas e fazendas no
Ocidente, inclusive no Brasil, já se fala mandarim.
          Em outra estratégia de Sun Tzu, a
China destrói os parques industriais de muitas nações, inundando-os com
produtos baratos. Tentará ela, no futuro, quando detiver o monopólio de
milhares de artigos, impor os preços que bem entender? Por que não?

          Santo de casa faz milagre, sim. Sun
Tzu que o diga. Comendo pelas beiradas, ele vem ganhando a guerra para os
chineses. Só com a estratégia. Sem um disparo. Por enquanto.            
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A dor da infância

Literatura
se faz com talento e sensibilidade. Talento para transmitir ideias e sensibilidade
para capturar a complexidade do ser humano. Poucos autores realizam essa tarefa
com a competência de Bartolomeu Campos de Queirós. Ele nos encanta, ainda, pela
abordagem de sua própria vida, que transforma em prosa poética. Não é um
escritor infantojuvenil, como costumam rotulá-lo. Nada disso. Talvez ele fale à
criança que ainda habita em
nós. Criança que talvez carregue memórias dolorosas da
infância, com frequência obrigada a crescer à força e na marra, empurrada pela vida.
          Prova disso é seu livro Vermelho Amargo. Nele, vemos o menino
sensível e observador retraçar os passos da paixão de uma família cuja mãe foi
substituída por uma madrasta que possui ingredientes de conto de fadas: ela
distribui pouco amor, pouco carinho, pouca atenção e até pouca comida. Um
simples tomate sintetiza, com dramaticidade, a dor da perda. O pai alcoólatra
pouco contribui para minorar a falta. Vermelho
Amargo
tem gosto de pouco, de falta.
          A dor profunda se mistura à memória
numa linguagem que executa verdadeira sinfonia à língua portuguesa, à palavra
precisa, à reflexão intensa. Tudo isso em setenta páginas de texto.
          Vermelho
Amargo
 fala direto ao coração. E faz sashimi desse coração com uma faca
de gume afiado, pronta para cortar fundo cada fibra de nossa sensibilidade. E
serve o prato ainda com o sangue da memória bem quente, bem líquido, a escorrer
diante dos olhos.        

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Como é saboroso o meu francês

          Você quer conhecer o passado de Minas
Gerais, quer saber como eram nossas terras, habitantes e costumes quando pouca
gente morava em nosso
Estado, quando nossas matas estavam quase intocadas, quando
ainda tínhamos índios botocudos isolados na região do rio Mucuri e cada metro
quadrado de nosso solo revelava novas espécies de animais e de plantas? Pois
existe uma bibliografia razoavelmente extensa sobre esses primórdios, deixada
sobretudo pelos viajantes europeus que aqui vieram após a abertura dos portos.
          Entre eles, está Auguste de
Saint-Hilaire, botânico e naturalista francês que nos visitou entre 1816 e
1822, ao redor dos quarenta anos de idade. Culto, curioso, aventureiro, sem
travas na língua, conservador como ele só, legou-nos observações saborosas,
mesmo hilariantes, colhidas em suas numerosas incursões pelo país, do Rio
Grande do Sul a Goiás. Elegeu, porém, Minas Gerais como sua província favorita.
Admirava os mineiros, pessoas diligentes, trabalhadoras, honestas. Reservou
palavras nada lisonjeiras para os paulistas. Esteve nas nascentes do São
Francisco, cruzou a Mantiqueira, foi ao Distrito Diamantífero, conheceu o
Jequitinhonha.
          Contou em detalhe quanto pagava pela
comida, pela hospedagem, pelos serviços que lhe eram prestados. Coletou
milhares de plantas, descreveu como e para que eram usadas e, precoce pirata
biológico, enviou várias delas para a França e suas colônias.
          Para mim é sempre um choque reler sua
derradeira anotação de viagem, datada de 1822, repleta de humor e precisão,
quando Saint-Hilaire tinha quarenta e três anos de idade, enquanto, ao mesmo
tempo, vejo no frontispício do livro seu retrato já velho, perto da morte. Um
choque. O homem que, com vivacidade, falava comigo sobre o término da segunda
viagem a Minas Gerais e reclamava da condição de nossas estradas, está
enterrado há cento e sessenta anos.

          Eis a estranha magia dos livros:
atravessam o tempo com seus personagens a tiracolo. Graças a eles,
Saint-Hilaire não morreu e não permitiu que a memória da antiga Minas Gerais
desaparecesse. Além disso, seu relato continua saboroso.       
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Um professor desanimado

        Ele dá aulas há quase 30 anos em faculdades particulares. Está cansado. Não das aulas, mas da atual situação do ensino. Queixa-se dos alunos: buscam apenas o diploma. Define o problema com uma frase emblemática: “os alunos de hoje querem o diploma para esconder a incompetência”. Não é preciso saber, é preciso formar.
        Quando ele começou a lecionar, havia maior interesse em aprender. Hoje, nem bem a lista de chamada é passada, a metade da sala vai embora. Em qualquer matéria. Afirma que apenas 10% dos alunos de fato se dedicam aos cursos. 20 %, mediante a persuasão, podem ser motivados e se tornar bons profissionais. Os 70% restantes são casos perdidos.
         Levanta uma hipótese aterrorizante. Tantos estudantes talvez não frequentem as aulas porque não conseguem entendê-las. Muitos leem os manuais e as apostilas e não os compreendem. São incapazes de redigir um texto inteligível. Cometem erros grosseiros. De fato, segundo as estatísticas do Instituto Paulo Montenegro, 38% dos formandos continuam analfabetos funcionais.
        As queixas também se dirigem à burocracia universitária. À caça de maior lucro, o investimento nos cursos é cada vez menor. Os salários seguem a tendência. Os mestres com maior experiência são dispensados, pois, em geral, recebem mais.
        O professor, que foi paraninfo no ano passado, confessa seu cansaço. E fracasso. Alega ter recebido uma educação mais adequada que a que hoje consegue oferecer. Por isso, não se aposenta. Quer reverter a situação. Tem esperança. Cada vez mais tênue. E o tempo escasseia.

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Sonhar é preciso


          Dizem que nós, os escritores,
deliramos mais que os psicanalistas. Tomara que seja verdade. A ficção, às
vezes, se confunde com a realidade, quando não a precede, e temos sérias dificuldades
para separar uma coisa da outra. Como o ser humano não vive sem fantasia,
seguimos em frente, felizes da vida, um pé no chão, outro no sonho. 
Mas escritores e psicanalistas não
estamos sozinhos. O desvario de outros profissionais talvez ultrapasse o nosso.
Por exemplo, o dos cientistas. Eles subjetivamente se outorgaram o título de
objetivos. Existe alucinação maior? Assim diplomados, falam asneiras com ar
doutoral, como se jamais incorressem em erro. Subjetivamente absolutos. Cientistas
imaginam possibilidades e hipóteses, vendem-nas como fatos, e a mídia e as
pessoas as compram como verdade. Vivem, muitas vezes, num mercado de sonho.
Mais acima, talvez, no mundo das nuvens.
          Um dos campos mais delirantes da
ciência é a cosmologia, a especialidade que estuda a origem e a evolução do Universo.
De tanto alarde, até parece que Big Bang, buracos brancos, universos paralelos,
supercordas, dimensões múltiplas, flutuações quânticas são fatos, e não meras
hipóteses de trabalho, transitórias. Até parece que o superstar Stephen Hawking
nunca fala bobagem. Fala, sim, muita. Tem até a coragem de desdizer-se. Virtude
rara.
          Mesmo
os dois pilares centrais da física atual, a relatividade de Einstein e a mecânica
quântica, mostram-se incompatíveis em certos pontos: um ou outro pode estar
errado. E então?
          Na verdade, todos os seres humanos, de
uma ou outra forma, deliramos. Cientistas, psicanalistas, escritores, todos nós
vivemos em desvario. Ainda
bem. O delírio, o erro, a hipótese, o romance, a poesia, o divã, a religião, a
ciência, a filosofia são formas de compreender o mundo, essa elusiva e ilusória
impressão de que existe uma verdade no fim do arco-íris, onde capturaremos o
pote de ouro com as mãos ou o cérebro. Quanto mais sabemos, mais parecemos
ignorar. O delírio mitiga essa falta, mascara nossa crônica ignorância, garimpa
o sonho nosso de cada dia. Ele é nossa humanidade com 100% de pureza.

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