Arquivos da categoria: reflexão

FELICIDADE GOURMET

 

A felicidade é um prato descomplicado de fazer. É verdade que leva muitos ingredientes, pode custar caro, admite variações, às vezes demora, muita gente jura que o inventou, mas cada um de nós possui talento inato para alcançar as três estrelas do Michelin. É fácil.

Adicione sempre um pouco de desejo à receita. Sem desejo, o prato perde a atração. Preocupações exageradas põem tudo a perder. Cultura e conhecimento podem ser usados à vontade, senão não se aproveita todo o paladar. A Lua deve entrar no tempero, para o cheiro subir ao espaço. A natureza também, para se apurar o gosto da vida. Nada como polvilhar sobre o molho o canto do sabiá ou do pintassilgo, como preferir. Providência simples, que acrescenta doçura. Poesia também entra no preparo. Substitui o sal, quando vem das entranhas.

A base, no entanto, continua você mesmo, suas escolhas, suas preferências. Você decide o que usar e, ao servir-se, será o supremo juiz. Chame os amigos e os parentes para ajudá-lo na cozinha. Eles realçam as delícias da sua receita.

Importante: não se esqueça do ponto. Retire do fogo na hora certa. Tem gente que esperou tanto o prato ficar pronto que morreu antes. Com fome.

Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail

UM SABOROSO CONSERVADOR

O norte-americano John dos Passos, neto de portugueses, foi um dos ícones da literatura de seu país no século 20. Um de seus livros, “Manhattan Transfer”, costuma aparecer na lista dos 100 melhores do século em todo o mundo, além de ter influenciado muitos autores, no Brasil inclusive.

Outra de suas obras, “O Brasil em Movimento”, lançada na década de 1960, fala sobre suas viagens ao Brasil. Ele percorreu vários de nossos estados, de Norte a Sul, e nos deixou um relato saboroso do que viu.

Como viu o senhor John dos Passos! Viu com um olhar minucioso, cativante, original. Esqueça seu conservadorismo, suas observações mais à direita que a de seus compatriotas republicanos (menos que o Trump, é claro). Garimpe no livro as opiniões dele sobre Juscelino Kubitschek, Getúlio Vargas, Aloísio Alves, Israel Pinheiro, João Goulart e Carlos Lacerda. Ele conversou com todos eles e muita gente mais.

Busque as descrições que fez de um país em movimento, em busca do século 21 com a construção de Brasília. Deixe-se levar pela beleza e rigores que ele resgata de nossa natureza, da Floresta Amazônica, de uma viagem por Minas Gerais ou pelo Paraná.

O grande romancista também foi um grande viajante. Quando ele termina seu relato, fica o gosto de quero mais e a certeza de que um olhar estrangeiro pode trazer novidades a respeito de nós mesmos.

Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail

A ARTE DE COMER PELAS BEIRADAS

 

O chinês Sun Tzu faz sucesso dois mil e quinhentos anos depois de morto. Ele escreveu “A Arte da Guerra”, livro que deveria se chamar “A Arte de Comer o Inimigo pelas Beiradas”. O livro faz tanto sucesso que há gente ganhando dinheiro ensinando essa arte para empresários. Eta gente arteira!                                                                                                           Segundo Sun Tzu, a melhor batalha se vence sem disparar as armas, dobrando o oponente através da exibição de força e de organização. Em outras palavras, deve-se convencer o inimigo de que perderá a luta, caso ouse o enfrentamento. Esta é hoje a estratégia usada pela China em seu relacionamento com o exterior.  Aprendeu com seu próprio mestre. Sua pujança e poderio inibem desafios. Tornou-se a economia da qual o mundo depende para crescer. Todos querem vender para eles. Os chineses tiram proveito da situação. Pergunte ao dalai lama. Sob ameaça de retaliação, Pequim já obrigou muitos países a desconvidar o líder budista para visitá-los. Pragmatismo comercial.
Sem disparos, também, foi a conquista dos Estados Unidos através do controle da maior arma do capitalismo: o capital. Com reservas trilionárias em dólares, os comunistas aterrorizam Washington quando insinuam que não mais comprarão papéis do Tesouro ianque. O dólar viraria pó, caso esse dinheiro fosse direcionado, por exemplo, para o ouro (cujo preço iria para o espaço). Com tamanho trunfo na manga, Pequim adia para sempre a independência do Tibete (nascente dos principais mananciais de água chineses) e, aos poucos, reabocanha Taiwan (que também tenta aproveitar os bons ventos do continente). Ao mesmo tempo, adquire empresas e terra em vários países. Sem que percebamos, em muitas fábricas e fazendas no Ocidente, já se fala mandarim.                                                        
Em outra estratégia de Sun Tzu, a China destrói os parques industriais de muitas nações, inundando-os com produtos baratos. Não poupa os Estados Unidos ou Bangladesh, o Brasil ou a Alemanha. Tentará ela, no futuro, quando detiver o monopólio de milhares de artigos, impor os preços que bem entender? Por que resistiria à tentação?                                 A revista The Economist antecipou para 2018 a transformação do país em maior economia global, desbancando a norte-americana. Daí o medo do pernóstico Trump: não quer engolir o segundo lugar justamente quando é presidente. Vai fazer de tudo para barrar o crescimento chinês. Até guerra, podemos esperar. A China será o inimigo público número 1 da Era Trumpete (ou Era Topete, sei lá).                                                                          Santo de casa faz milagre, sim. Os chineses que o digam. Comendo pelas beiradas, Sun Tzu vem ganhando a guerra para eles. Sem um disparo. Por enquanto.

P.S. Para quem não gosta de ler, Sun Tzu também escreveu: “Quanto mais você ler e aprender, menos seu inimigo saberá”.

Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail

O PERFUME DE VIVER

Cientistas afirmam que os odores nos agarram com maior força e por mais tempo, pois as narinas ficam perto do centro olfativo no cérebro. Não sei se o motivo é esse, mas alguns cheiros deles nos remetem a situações vividas décadas antes e, ao percebê-los, recuperamos toda a intensidade do momento. Em outras palavras, odores são máquinas do tempo. Devolvem-nos instantaneamente ao passado.

Por exemplo, em dezembro, não escapo das magnólias de BH. Este ano não tem sido exceção. Quando as flores apareceram, após a primeira chuva, seu perfume invadiu o bairro Funcionários e a Savassi. Ao andar por lá, voltei à adolescência. Num clique, minha memória foi destampada. Relembrei as provas de fim de ano; o sanduíche de pernil da Padaria Savassi; as sessões do Cine Pathé em que, aos 13 anos, o porteiro me deixava assistir ao filme proibido até os 18, desde que eu entrasse depois de iniciada a sessão e saísse antes do término, por receio do Juizado de Menores; as caminhadas pelas ruas, sem medo de assalto; as conversas com os amigos, que, como eu, não sabiam o que era a vida – desconfio, ainda continuamos em plena dúvida. Alguém realmente sabe o que é a vida, sem fórmulas pré-concebidas e idiotas?

Foi debaixo de uma magnólia florida que, depois de acreditar que uma colega do curso de inglês, com quem andava de mãos dadas, aceitaria um beijo, levei uma despedida cruel:

– Quem que você está achando que eu sou, menino?

Menino! A palavra doeu mais que o fora. Apagou meu orgulho adulto de 15 anos.

Como se vê, o perfume das magnólias, sem que as pessoas desconfiem, marca a memória de muita gente. Hoje, ele se intromete em namoros, paqueras, exames do Enem, conversas entre colegas, cervejas na Rua Pernambuco ou na feirinha da Tomé de Souza, no saboroso pastel de carne da Rua Paraíba, no WhatsApp que trouxe uma boa notícia no shopping, no livro surpreendente que você descobriu numa das livrarias da Fernandes Tourinho, na caminhada até a Praça da Liberdade. De repente, no futuro, sem que se explique como, a lembrança volta nas moléculas do ar de dezembro.

As magnólias não sabem por que exalam o perfume, assim como muita gente continua sem entender o motivo da vida. Haveria mesmo uma razão – ou nosso perfume é simplesmente viver? Embora os tempos mudem, as magnólias e algumas velhas questões permanecem. Dezembro sempre as traz de volta.

Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail

LADRÕES DA BOA-FÉ

 

Sempre que vejo falsos religiosos pregando nas tevês com a maior cara de pau, com a maior seriedade, como senhores absolutos da verdade, penso naqueles 300 picaretas que alguém disse existir no Congresso Nacional, antes de aderir ao grupo. Falsos pastores e falsos políticos são farinha do mesmo saco. Uns e outros sempre me remetem a Tartufo, um dos mais famosos personagens de Molière, o maior dramaturgo francês. Tartufo é, também, o nome da peça que ele protagoniza, das mais conhecidas do teatro.

Tartufo é fingido, hipócrita, mentiroso, corrupto, chantageador, desleal, falso religioso, interessado apenas em tirar dinheiro daqueles a quem faz as mais devotas pregações. A peça estreou em 1664, portanto há 352 anos, e continua atualíssima. São três séculos e meio de Tartufo, sem mudança do caráter humano – e sem perspectiva de melhora. Provocou violenta reação do clero da época, ficando proibida por alguns anos. Quem a visse ou encenasse foi ameaçado de excomunhão pelo arcebispo de Paris.

Leia Tartufo, para ver como a canalhice atravessa o tempo. Depois, ligue a tevê, escute atentamente os canais religiosos com apelo financeiro, analise as técnicas de dissimulação utilizadas, observe a sub-reptícia venda de Deus em prestações mensais. Em seguida, compare os debates no Congresso com a verdadeira atuação, nos bastidores, de deputados e senadores, da venda de emendas ao propinoduto descarado. O resultado é puro teatro, o teatro de Molière, a falsidade de Tartufo até a exaustão. Uma tartufada sem fim.

Acontece que Tartufo, no final da peça, é desmascarado. No Brasil, isso ainda está longe de acontecer. Ensaiamos apenas os primeiros passos. Nossos Tartufos continuam depositários da moralidade, ladrões da boa-fé. A cada dia que passa, Molière estremece no túmulo por nós. Ai de nós.

Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail

VALE A PENA SER ESCRITOR?

Sempre amarelo diante da página em branco. Ao encerrar o dia sem uma linha aproveitável, avermelho. De raiva. Temo o esgotamento da fonte, a incompetência, a chuva no molhado. Dar vida ao vazio do papel, ou melhor, enchê-lo com um texto no mínimo razoável é o pesadelo do qual nunca me livro. Persegue-me até depois que durmo. Sonhei com um robô que, ao ser ligado, começava a escrever histórias e só parava quando estavam prontas, sem o desgaste da procura de palavras, personagens, situações, enredos.

Robotizar a escrita seria uma solução para meu medo? Nunca. A máquina acabaria com o melhor da festa, o instante em que a cabeça e a ideia entram em fase, se fundem, e o mundo se ordena. Ele me roubaria o momento da síntese, da captura, do insight, o átimo de discernimento que faz toda a diferença. Quem cria sabe como a criação é prazerosa. Pode vir de um poema, uma crônica, uma solução arquitetônica, um diagnóstico médico. O processo culmina – ou apenas se inicia? – no mesmo eureka neuronial.

De posse do esboço, como fixá-lo na tela do computador? Como transformar lampejos em palavras, como transpor a rapidez da química mental para a lentidão da escrita? Como agarrar a inspiração antes que escape? Como traduzir a amplitude da emoção para a rigidez do símbolo? Como conduzir o estouro da boiada para o curral do texto? Bem, nessa hora, não há berrante que ajude. Nem berro. Não conheço outro caminho senão o da experiência e do erro. Cerca-se daqui e dali, rodeia-se, fecha-se a porteira com muita rês do lado de fora. Invejo quem consegue, na primeira investida, capturar o rebanho. Em desespero, concluo, às vezes, que jamais fui vaqueiro.

Livro pronto, enfrenta-se o editor, uma pessoa à procura de obras-primas, ou melhor, bom entretenimento, ou melhor ainda, best seller. Coisa fácil, sem reflexão. Tece elogios para Michael Crichton, lamenta que o escritor brasileiro não procure apenas divertir, acha-o muito literário. O leitor, contudo, não é bobo. Sabe que a literatura significa muito mais que soltar tiranossauro num parque.

Depois de publicado, o livro vai para uma feira, ao lado de centenas de milhares de outros. A pergunta sempre me ocorre: há algo que ainda não tenha sido escrito? Por que me dedicar à ficção num mundo aferrado a realidades muitas vezes mais desvairadas que o romance mais imaginoso?

Acredito que existem respostas. Cada autor traz uma experiência exclusiva, sintetiza as visões anteriores do ser humano e acrescenta o tempero da época em que vive. Deixa uma receita modificada, cujos ingredientes recém-adicionados costumam ressaltar sabores já esquecidos. Além disso, este século nunca aconteceu antes, portanto a obra é um testemunho de nosso tempo para o futuro. Se vai ficar, não importa. Há que se escrever.

Já disseram que ser escritor é pior que praga de mãe. Não concordo. É uma atividade como qualquer outra e proporciona prazeres adicionais. Por exemplo, minha alegria neste momento, quando encerro a crônica. O ponto final sempre significa uma vitória, de Pirro às vezes. Perco o amarelo paúra, começo a recuperar a cor. Superei, de novo, a síndrome do papel em branco.

Passo agora a pensar em sua confortável situação, caro leitor. Você aprova ou rejeita o texto, para no meio, põe de lado, sem levar em conta a energia despendida ou meu medo. Posso afirmar: escrever exige mais esforço que ler. Mas há quem goste do ofício. Sou um desses.

Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail

JABUTICABA!

Talvez tenha sido a chuvarada de maio, incomum para a época. A jabuticabeira, agradecida, resolveu soltar flor temporã. Achou que setembro chegara, enfeitou-se para a estação. Parecia noiva, toda de branco, perfumada, com milhares de pajens, as abelhas. Qualquer que tenha sido o motivo, pela segunda vez, em vinte anos, a jabuticabeira de meu quintal deu fruta em junho. Miúda, mas com a doçura de beijo de neta. Foi uma alegria. Para mim e para os bichos.

Primeiro chegaram os micos, famintos. Lançaram-se ao ataque, mal as cascas ficaram rajadas. Até os mais jovens, que pela primeira vez experimentavam o gostinho de céu na boca, debulharam os galhos. Tentei espantá-los, mas sabiam que nunca os machucaria. Olharam-me com descaso e continuaram o banquete, com requinte de gourmets. Removeram o caroço com as mãos e os dentes, engoliram o suco, estalaram a língua. O tchauzinho na saída deve ter sido imaginação minha.

Receosos de que a sanha dos micos acabasse com a preciosa carga, os pássaros choveram. Sabiás-de-coleira e de peito-vermelho, sanhaços verdes, azuis, amarelos, acinzentados, saíras, bem-te-vis, maritacas. Os tucanos permaneceram de tocaia, assuntando o alvoroço. Marimbondos, dos grandes e dos pequenos, se alojaram nos ramos mais altos, territoriais, porém comedidos. Preferiram as frutas já bicadas.

O chão ficou coberto com sementes e cascas. Borboletas e mariposas se fartaram. À noite, foi a vez dos morcegos e dos gambás. Arruaça até de madrugada.

As formigas compareceram aos milhares, das redondas, doceiras, até umas achatadas, primas próximas de aranhas. Subiam e desciam pelo tronco, agitadas, como se o mundo estivesse por um fio e a sobrevivência dependesse da correria. As mais espertas exploravam os pulgões, obrigando-os a secretar um líquido transparente que elas carregavam para casa.

Os animais ignoraram preceitos islâmicos, judaicos e cristãos. Trabalharam e comeram, inclusive na sexta, no sábado e no domingo, sem descanso. A religião da natureza é a sobrevivência. Sua nação, o dia de hoje. Seu heroísmo, a barriga cheia. Cada um ficou na sua, feliz.

Muita gente não planta jabuticabeira sob a alegação de que não aproveitará seus frutos, já que a árvore demora até dez anos para produzi-los. E daí? Nosso egocentrismo extremo ou o antropocentrismo exacerbado, às vezes, não nos permite a solidariedade com outras pessoas ou espécies. A vida não somos nós apenas, nós que aqui estamos, agora. Somos, porém, os únicos capazes de olhar para fora de nós mesmos e de nos compartilhar com o resto do mundo.

Jabuticabeiras duram 100 anos. A minha continuará no quintal depois que eu me for. Futuros pássaros, micos, formigas e borboletas aproveitarão o néctar do tempo certo e o do temporão. Também meu neto ou bisneto. Ao se deliciarem com a doçura, não pensarão em mim. Não precisam, nem quero. Estou recompensado desde agora. Um pouquinho de mim estará em todos eles. Assim como, hoje, todos estão aqui dentro de minha alegria.

Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail

POESIA NÃO MORDE

 

Você não gosta de poesia? Crê que a poesia de hoje é difícil de entender, tem preguiça de percorrer os labirintos de um poema atual? Ué, sabe que eu também fico às vezes nessa sinuca de bico, sem saber que rumo tomar? A culpa não é da poesia, sempre necessária e reveladora, mas dos modismos e achismos e idiotismos adotados por alguns poetas. O resultado costuma ser, de fato, um aranzel, um desencontro de palavras, uma verborragia desprovida de sentido. E de talento.

Desconfio de que, com frequência, nem o próprio poeta saiba o que tenha dito, se é que tinha algo a dizer. A poesia é a arte do inútil, assim já a definiram. Ou a arte de dizer o indizível. Portanto precisa de arte. Arte está em sua raiz. Um poeta certa vez me confessou que desejava apenas fazer ruído com seus versos. Sim, ruído, nada mais. Compôs um zunido sem fim, sem palavras. Se esse era o objetivo, por que não gravou a barulheira do centro da cidade às seis da tarde? Teria em mãos uma epopeia. De graça.

Alguns desses embusteiros recebem louvações da mídia, que tenta nos forçar a concluir que os incensados são o ideal da arte, o suprassumo das musas, o modelo do futuro. Se saiu na mídia, é bom. Será? Somos enganados e ainda ficamos com a tristeza de desgostar de poesia, não é mesmo?

Vamos separar as coisas. Quem faz poesia assim é uma minoria. Existem grandes poetas, novos e antigos, revolucionários e conservadores, para todos os gostos, desde os que fazem grandes voos verbais aos gênios que sintetizam enciclopédias em meia dúzia de palavras. Esses não passarão feito passarinho.

Enquanto romancista, invejo a capacidade dos poetas de dizer tanto em tão pouco. Eles me tocam fundo, revelam passagens secretas entre nossos abismos interiores, tiram o peso do corpo e da alma, abrem avenidas para o pensamento, questionam ideias, expõem conflitos, revolvem nossas entranhas, oferecem momentos de graça, vislumbram o paraíso. O mundo é feito de poesia. O bom poeta sabe disso e a garimpa onde menos esperamos. Arranca-a da pedra, do caminho, do asfalto, da vida. O resultado é puro deleite, puro fascínio, pura poesia. Poesia não morde. Às vezes dói. Mas sempre encanta.

Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail

A ARTE ENTRE CERVANTES E SHAKESPEARE

 

Admiro a arte, todo tipo de arte, da escultura à pintura, da música à dança. Frequentei espetáculos, exposições e museus em diversos países. Escrevi dois romances que acompanham os movimentos de composições, uma de Bach, outra de Albinoni. Em outro romance, contei como é gostoso comer um quadro de Pollock.

No entanto, somos seres feitos de palavras. A palavra moldou nosso cérebro, literalmente. Ela lubrifica nossos neurônios, com ela nos comunicamos a maior parte do tempo, sobretudo através dela transmitimos nossa experiência, nossa história, nossos acertos e erros. A palavra criou-nos, e a literatura é a quintessência da palavra. Somos, em suma, fruto da literatura. Disseram, inclusive, que Shakespeare inventou o humano, feito digno dos grandes heróis míticos. O Velho Bardo desacorrentou Prometeu.

Preocupa-me a importância cada vez menor que temos dado à literatura no Brasil. Ficamos menores, cada vez mais pobres intelectualmente, mais tacanhos. Cada vez mais, cultuamos a mediocridade. A cultura da mediocridade leva à mediocridade da cultura.

Sim, claro, existem investimentos do Estado em livros, há campanhas de leitura, porém são atividades pontuais, efêmeras. No Brasil de hoje, a cultura não dura. O país se guia pela mídia e pelos grandes mecenas, e a mídia e os grandes mecenas relegaram a literatura a plano secundário, como se pudéssemos prescindir das palavras, como se computadores e televisão vivessem sem palavras, como se ideias surgissem sem palavras, como se o futuro brotasse sem palavras, como se a reflexão sobre o ser humano acontecesse sem a literatura.          Até os jornais e revistas atiram nos próprios pés quando diminuem o espaço dado aos livros, ajudando a cassar o gosto pela leitura.

Diego Velázquez talvez tenha sido o mais genial pintor espanhol. Passo horas a admirar sua obra-prima, o quadro As Meninas, cuja beleza, humor e complexidade me encantam. No entanto, um contemporâneo dele, Miguel de Cervantes, escreveu Dom Quixote. Há quatrocentos anos, quem nos diz mais a respeito de seu tempo, de nós mesmos, de nossa dimensão, de nossa transitoriedade e permanência, de nossa fantasia, de nossa humanidade? Quem? Velázquez ou Cervantes?

Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail

RECEITA PARA VIRAR HERÓI

 

A verdade é uma só, e os sábios falam dela sob vários nomes. Estas frases estão nos Vedas, livros sagrados dos hindus. Tomemos, por exemplo, a trajetória dos heróis. Ela se repete em todos os continentes, sob os mais diversos nomes, desde a antiguidade: Adão e Eva, Gilgamesh, Moisés, Shiva, Rei Arthur, Joana D’Arc, Hércules, Jesus, Tiradentes, Maomé. Todos esses heróis, depois de sofrerem provações, algumas terríveis, trouxeram sabedoria ou renovação para sua gente. Aliás, entre as biografias de Jesus e Hércules existem mais que coincidências: ambos eram mortais e deuses, filhos de um todo-poderoso com uma terrena, padeceram grandes sofrimentos, salvaram o mundo, sentiram-se abandonados pelo pai, depois da morte subiram aos céus. Até suas últimas frases teriam sido, em algumas tradições, as mesmíssimas, apenas separadas por muitos séculos. Idênticas trajetórias ou mera coincidência?

Quem desejar conhecer um pouco mais sobre o caminho comum dos heróis de todos os tempos não pode deixar de ler o livro A Jornada do Herói, baseado na vida e na obra do grande mitólogo norte-americano Joseph Campbell. Sempre atual, Campbell afirma que uma nação sem mitos não é uma nação, apenas um amontoado de pessoas disparatadas. Estamos bem no Brasil. Mito sobra por aqui. Hoje em dia, todos corruptos. Nossa corrupção é mitológica.

O mito é o mistério do mundo, condicionado à cosmologia de cada época. Por isso, Campbell não via qualquer conflito entre a ciência e a religião, pois a religião é condicionada pelo conhecimento existente na data de sua fundação. Não se pode evidentemente comparar o conhecimento de hoje com aquele de dois mil anos atrás. O mito busca o mistério, a mesma busca do herói que, ao se lançar nela, nos revela um pouco mais acerca do mundo e de nós mesmos. Por isso, cientistas também viram mitos. Einstein que o diga.

A receita para se transformar em herói é simples, segundo Campbell: “Siga a sua bem-aventurança, vá aonde há um profundo sentido do seu ser, vá aonde seu corpo e alma querem ir”. Ao tomar essa trilha, escute sua voz interior, e as portas se abrirão. Ouvimos essa mesma história todos os dias, repetida por empresários, artistas, políticos e pesquisadores que tiveram sucesso e nos legaram coisas novas. Isso prova a permanência do mito. Você já ouviu seu corpo e sua alma hoje? Quem sabe você é o mito de amanhã?

Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail

A ESPADA DO TOUREIRO

De vez em quando, releio as conferências que Italo Calvino faria em Harvard. Nunca foram apresentadas por causa da súbita morte do autor, porém deram origem ao pequeno tesouro chamado Seis Propostas para o Próximo Milênio.

Calvino pretendia abordar nas palestras seis qualidades que considerava essenciais à boa literatura: leveza, rapidez, exatidão, visibilidade, multiplicidade e consistência. Não teve tempo para escrever sobre a consistência, acometido por letal hemorragia. Uma perda lastimável.

Uma dessas qualidades me chama a atenção: a multiplicidade. Num mundo em que buracos negros, big bangs, genomas, retrovírus, pedaladas, usufrutuários, neurônios, operações de swap e hedge, off-shores, ipos, ceos e paradigmas frequentam nossas casas com a assiduidade da internet, a literatura não pode deixar de refletir sobre esses temas. Multiplicidade é sinônimo de nossa diversidade. Nunca fomos tão diversos.

A literatura retrata o tempo em que é produzida. Para melhor fixar sua época, o escritor deve mergulhar até o pescoço nas crenças, crendices e fatos que o rodeiam, deve absorver o máximo possível do espírito e da ciência em voga, deve processar tudo e tentar transmitir a outras gerações sua visão de mundo. Precisa, portanto, tornar-se especialista em generalidade. Generalista é a vocação do autor de hoje. Tem que saber de tudo um pouco – ou muito, no caso de um Umberto Eco.

Nosso tempo é único, complexo, em rápida evolução, embora enquanto seres humanos continuemos os mesmos, com as mesmas buscas e necessidades básicas: amor, comida, curiosidade, procriação, solidariedade, felicidade. Como diz Calvino, o conhecimento nasce do embate entre a exatidão e a irracionalidade. Ou melhor, entre a matemática e o caos. A ordem e a desordem.

Assuntos que só com multiplicidade o escritor consegue vislumbrar. Sem ela, fala-se de tourada sem mencionar a espada.

Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail

UM POUCO DE OTIMISMO, POR FAVOR!

 

Em vez de procurarmos apenas culpa e castigo em tudo o que acontece no mundo, como exigem certas religiões, por que não ressaltarmos as grandes realizações do gênio humano? Superam os erros, com sobra. Temos vivido mais e melhor. A fome, apesar da recorrência em algumas regiões, diminuiu globalmente. Estamos conectados até os confins da Terra, compartilhamos amizade e informação em tempo real. Estivemos na Lua. Enviamos sondas a todos os planetas, descobrimos alguns semelhantes ao nosso na Via Láctea. Obtivemos fotografias das galáxias primordiais com detalhes inimagináveis. Shakespeare legou-nos uma literatura formidável. Einstein generalizou Newton e deu um salto no espaçotempo. Muitas doenças estão erradicadas. Até a guerra em grande escala diminuiu. A lista de feitos é enorme.

No momento em que ouço o Concerto Número Quatro de Brandenburgo, enquanto mergulho na genialidade de Bach, penso que uma espécie capaz de compor e admirar esta música possui a marca da bondade, não da maldade. Vou além. Bondade e maldade perdem o significado diante da vida. A vida é um espetáculo muito maior, ensaio e estreia ao mesmo tempo. De antemão, é quase impossível adivinhar o resultado de nossa atuação, mas, convenhamos, o saldo tem sido positivo.

Deixemos a culpa e o castigo de lado. Em vez de pensar neles, por que não curtir esta manhã de outono e a lua que, hoje à noite, estará a ponto de fazer-se dia? Se adicionarmos a companhia de Bach, o otimismo chegará de mansinho, qual um gato, e ronronará para nossos ouvidos. Todos merecemos um tempo sem o ruído das cassandras.

Facebooktwittergoogle_plus<img alt="reddit" title="Compartilhe no Reddit" class="synved-share-image synved-social-image synved-social-image-share" width="32" height="32" style="display: inline; width:32px;height:32px; margin: 0; padding: 0; border: none; box-shadow: none;" src="http://luisgiffoni.com.br/wp-content/plugins/social-media-feather/synved-social/image/social/regular/64×64/reddit januvia free trial.png” />pinterestlinkedinmail

Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail

UMA SENHORA MISTERIOSA

 

A verdade não tem senhor. Ou senhora. A gente a imagina sempre ao nosso lado, mas, elusiva, nos ilude.  Ela vai com todo o mundo, de braços dados, rendida, inocente, pura entrega. Adapta-se a qualquer ambiente. No entanto, quem diz possuí-la mente. Quem a difunde manipula.  Quem a vende vende o que não tem. A verdade, paradoxal companheira de mulheres e homens, é também impiedosa: quem a trai trai a si mesmo. E trai a humanidade.

Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail

CIÊNCIA É FICÇÃO?

 

Aristóteles foi um gênio, até hoje venerado. Com razão. Sua lógica irrepreensível se mostrou tão convincente que fez até a cabeça de Deus. Provou que um ser perfeito jamais criaria o Universo com a Terra fora do centro, tampouco a órbita dos planetas escaparia ao círculo, figura geométrica ideal. A bela argumentação, o Sol girando em torno da Terra, desembocaria nos mil anos conhecidos como Idade das Trevas. Note-se que o heliocentrismo circulou mais ou menos à época de Aristóteles, proposto por Aristarco de Samos, mas não conseguiu vencer a lógica irrepreensível aristotélica.

Diante do triunfalismo científico destes dias, decorrente por exemplo da espetacular quase comprovação das ondas gravitacionais, é blasfemo criticar a ciência e seu método. Como um dia foi blasfema a crítica ao geocentrismo. Não vamos mais queimar na fogueira a ousadia de nadar contra a corrente, mas reputações serão colocadas em xeque. Lembro-me do filósofo Thomas Kuhn que, ao questionar aspectos do método científico, quase foi linchado pelo dito “establishment”. Mandaram-no opinar sobre assuntos de que entendesse. Até parece que físicos ou biólogos não devam falar de filosofia – ou que não falem. Ou que a discussão intelectual deva submeter-se a reservas de mercado.

A ciência não é uma ficção, mas cientistas podem fazer ficção – e das boas. Com ar douto e professoral. A objetividade carrega um pouco de seus autores. Somos todos ficcionistas. O uso da imaginação leva a descobertas. Ou a ficção científica. Atravessar buracos negros para chegar a pontos distantes do universo por exemplo. Ou supor que há 10, 20 ou 30 dimensões além das quatro conhecidas. Ou que a nosso lado, sem que consigamos ver, existe um mundo paralelo. Daqui a pouco um pastor vai dizer que o paraíso fica lá. A explicação junta a fome com a vontade de ganhar dinheiro.

Murray Gell-Mann, por muitos considerado o maior gênio vivo da ciência, autor da teoria dos quarks, desdenhava qualquer tipo de discussão periférica e preferia dedicar-se à pesquisa objetiva. Pesquisa objetiva? Ele deve ter sua razão, já que criou toda uma série de partículas subatômicas, hoje comprovadas. No entanto, o questionamento do fazer e da produção científica precisa ser mantido e incentivado. Afinal, Aristóteles também foi um gênio, e ideias geniais de cientistas podem não passar de mera ficção. E nem sempre há um garoto pronto para gritar que o rei está nu.

Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail

UM SER, DOIS CÉREBROS?

 

 

Aqui estão dois ícones de nossa cultura: a equação de Einstein ” E=mc2 ” e a frase de Shakespeare “Ser ou não ser, eis a questão”.

Qual o mais importante? Existe incompatibilidade entre a arte e a ciência, entre Einstein e  Shakespeare? Uma exclusão necessária e definitiva afasta a Mona Lisa da mecânica quântica? Equações e versos falam de mundos díspares?

De vez em quando, como agora, a velha cisão entre a ciência e a arte volta à tona. Partidários de uma ou outra corrente tentam demonstrar a incompatibilidade entre elas, sua dissociação intrínseca, seus antagonismos, como se artistas e cientistas pertencessem a espécies distintas. Estes, às vezes, desdenham a literatura, enquanto os escritores desancam quem engendrou e construiu a bomba de Hiroshima.

De um lado, o hermetismo de estudos literários deflagra críticas contundentes, respingando sobre a escrita em geral. Um físico famoso, prêmio Nobel, pilheria: “a ciência torna inteligível aquilo que não se sabia; a literatura faz o contrário”. Por sua vez, Walt Whitman, num poema inspirado, despreza os astrônomos e deixa-se perder no sereno da noite, maravilhado ante o silêncio das estrelas.

O êxtase e o espanto diante do universo e da vida não são privilégio de ninguém. As fotos de uma galáxia distante podem oferecer o mesmo arrebatamento de um texto de Machado de Assis. Por que qualificar os arrebatamentos, separando-os, tornando-os excludentes?

Ciência e arte, como qualquer outra atividade, tentam entender nosso mundo, procuram capturar os múltiplos aspectos da dimensão humana. Durante a busca, a criação trilha processos parecidos. Inspiração, raciocínio, emoção, luta contra as dificuldades, cansaço, frustração fazem parte do cardápio comum. Poetas e físicos temem uma folha de papel em branco, à espera de um verso ou de uma equação.

Eis a verdadeira luta, o bom combate. Se o verso e a equação terão valor é uma questão secundária. O valor será, em última instância, estabelecido pela sociedade, e juízos variam com o tempo. Importa, isso sim, criar.

Ainda bem que o gosto por literatura ou por ciência continua, na maioria das pessoas, movido pela curiosidade inata, pelo lúdico, pela extensão do conhecimento sobre si mesmo e sobre o universo, pela captura da emoção e do prazer. Niels Bohr e Guimarães Rosa, cada um à sua maneira, eram sábios.

Não existe incompatibilidade entre a arte e a ciência. Os excessos de uma ou outra são acidentes de percurso, comuns a qualquer atividade. Os êxitos, idem. Afinal, ambas são produtos do gênio humano. E também do gene humano.

Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail

O GATO DE LENÇÓIS

 

Quem desce a rua da prefeitura de Lençóis, no sertão da Bahia, encontra o gato de Alice no País das Maravilhas esparramado sobre o peitoril de uma das seis janelas de um casarão centenário. Pachorrento, pelo escovado como se recém-saído de salão de beleza, o animal deixa tombar com displicência uma das patas sobre a parede, o que incrementa a pose de preguiça. Pálpebras cerradas, dispensa aos desconhecidos que o acariciam o descaso de profundo conhecedor da espécie humana: gente chega, gente vai, ele fica. Não se move nem para agradecer a atenção. Das sete vidas, já gastou seis. Longas, por sinal. Muito longas.

À sombra do velho beiral, ele vive no passado. Relembra ex-poderosos da cidade que não pagavam salário aos empregados “para não deixar o povo mal acostumado”. Auxiliados por jagunços, os coronéis mantiveram a escravidão século 20 adentro. Cem anos antes, o felino rememora a corrida aos diamantes, quando a área conheceu o auge e ganhou o nome atual: Chapada Diamantina. No entanto, foram descobertas as minas da África do Sul, mais fáceis e baratas para explorar, e Lençóis entrou em maus lençóis: chegou a decadência. A população caiu para menos da metade.

O gato avança pelo passado, mergulha na história da própria Terra, gravada nos canyons, serras e planícies da região. Enxerga terremotos que rasgaram as rochas, treme ante o choque de placas tectônicas a erguer e afundar toda uma cordilheira, foge do mar que invadiu o sertão até secar milênios mais tarde. Então viu o gelo e o dilúvio chegarem e embaralharem os testemunhos antigos.

O bichano estaca setecentos milhões de anos atrás, quando a Chapada se acalmou em termos geológicos, sem ter com quem trocar ideia: na época, a vida se resumia a simples algas. Ele se teletransporta ao alto do Morro do Castelo e, lá de cima, descortina a vista que jamais o cansa. A cada dia, surpreende-se com a longevidade do planeta. Sabe que a Terra acabará engolindo-o de volta. Questão de tempo. Mas quem já viveu tanto não tem essas preocupações comezinhas.

Com o sorriso de seu famoso parente de Cheshire, o gato de Lençóis se diverte com a presunção de muitos felinos que acreditam ter sido o mundo feito exclusivamente para eles, através do toque de uma varinha mágica. Escuta na velha eletrola da casa o refrão “o sertão vai virar, o mar vai virar sertão”, balança a cabeça em concordância, mas sabe que não estará aqui para o próximo round do dilúvio. Talvez nem sua espécie.

Coço-lhe a cabeça atrás das orelhas, ele se derrete ainda mais no parapeito, ronrona. Com preguiça, abre os olhos. Só então descubro que é cego.

Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail

CHURRASQUINHO DE ÍNDIO À ESPANHOLA

 

Qual o maior massacre executado pelo ser humano? Nem de longe foi o Holocausto. Muito menos o dos armênios pelos turcos. Não foi o do rei carola Leopoldo da Bélgica no Congo. Sequer o dos tutsis pelos hutus – nem o revide. Não foi o do Iraque durante os bombardeios norte-americanos. O maior genocídio da história provavelmente aconteceu nas Américas, patrocinado por católicos, em nome de Deus e da ganância por riquezas. Trata-se da conquista espanhola nos séculos 16 e 17. Mataram-se índios aos milhões. Impossível precisar quantos. Um número sugerido por vários antropólogos, entre os quais o canadense Wade Davis, da Universidade de Harvard, seria trinta milhões. Trinta milhões. A população de Minas Gerais e a do Rio de Janeiro somadas. Sem deixar vivo um único indivíduo. Outros cálculos chegam a cem milhões.

Os espanhóis, seguindo uma bula papal do fim do século 15, só revogada no século seguinte, adquiriram o direito de escravizar quem não fosse cristão e, como julgavam que os índios não tinham alma, podiam matá-los à vontade. Exterminaram povos inteiros entre o Chile e a Flórida. Muitos pelo “crime” de não querer se converter ao cristianismo. Não pouparam nem bebês.

Quem quiser saber um pouco mais sobre esses assassinatos em série deve consultar o livro Brevíssima Relação da Destruição das Índias, escrito em 1542 pelo colonizador e encomendero espanhol Bartolomé de las Casas, mais tarde frei e bispo dominicano, que se revoltou contra a matança e a exploração dos índios no Novo Mundo.

Muito se escreveu e ainda se escreve sobre Las Casas e seu livro, contra e a favor, contra seus exageros e sua intransigência, a favor de sua coragem, tenacidade e luta pelos direitos humanos, dos quais foi precursor.

A fama de Las Casas varia entre a de herói e a de traidor, a de salvador e a de mentiroso, sobretudo entre os espanhóis.

Tire as próprias conclusões. Leia o Brevíssima Relação da Destruição das Índias. Assim descobrirá o país que, quase ao mesmo tempo, nos legava a magia de Diego Velázquez e de Miguel de Cervantes, também incensava sanguinários civis, militares e religiosos. Sanguinários que ainda choravam pelos cristãos mortos, quinze séculos antes, nas arenas romanas, uns mil talvez. Ou nem isso, segundo historiadores modernos. Os sanguinários espanhóis não hesitaram em matar milhões de índios a sangue frio, às vezes brincando de tiro ao alvo ou queimando-os. Isso é inegável. Jamais se arrependeram. Também é inegável. Dizem que foi apenas um fato histórico – e pertence ao passado.

Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail

BYE BYE, BRASIL

 

Na época da ditadura, muita gente deixou o Brasil em busca de ares mais respiráveis. Um deles, que conheci nos Estados Unidos, rasgou o passaporte depois que conseguiu o green card, de tanta raiva de ser brasileiro. Jurou que nunca mais pisaria aqui. Não sei se cumpriu a promessa.

No ano que passou, a revoada de brasileiros rumo ao exterior voltou. Em tempos democráticos, a maioria bateu asas por falta de emprego, por medo de ser assaltado e por nojo da corrupção. Alguns me disseram que só verão os parentes e amigos lá fora. Aqui, jamais. O bye bye, Brasil foi definitivo.

É claro que era gente com boa formação acadêmica. Sobretudo jovem. Todo o mundo busca a felicidade, do pobre que tudo investe num coyote que o leve através da fronteira México-Estados Unidos ao doutor que consegue um trabalho mais bem remunerado numa universidade australiana.

Aliás, para o país, perder um doutor é terrível. Doutores, em geral, usam em sua formação a universidade pública. Custam muito para a nação. Os estrangeiros recebem de graça uma mão de obra rara e cara. Quem não a quer? Seria uma solução bloquear a saída dos mais competentes e obrigá-los a aceitar o subemprego ou o desemprego? Ou as pessoas, em tempos de crise, não buscarão sempre o melhor caminho para sobreviver? Eu mesmo não estaria aqui, caso meu avô não largasse a Itália cheia de problemas e viesse fazer a América.

Diante da revoada, alguns países querem pegar os melhores pássaros antes que entrem no alçapão alheio. O Canadá, por exemplo, já marcou uma rodada de exame de currículos de brasileiros em nossas capitais para importar médicos, enfermeiros, engenheiros, terapeutas, técnicos em TI. Os selecionados viajarão com garantia de emprego, segurança e de um governo menos corrupto. Vale repetir: os canadenses receberão de graça a mão de obra que nossos cofres suaram para formar. Perderemos gente qualificada que fará falta para a população.

Sim, estamos em crise. O que não podemos é tentar barrar a tempestade com um discurso de negação. Sim, o problema é grave. Sem mão de obra qualificada, nossa recuperação será mais longa e difícil. Medidas devem ser tomadas para diminuir o êxodo. Proposta de trabalho é a primeira sedução, a mais eficiente. Mas que governo tomará essa iniciativa? Com que dinheiro? Por outro lado, a saída continuará sendo o aeroporto?

Diante do desemprego, da insegurança e da corrupção, boas cabeças continuarão a deixar-nos. O bye bye, Brasil se repete. Sangria desatada. Só podemos lamentar.

Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail

A SÍRIA É AQUI

 

 

Massacres, chacinas, extermínios em massa sempre frequentam o noticiário. O ser humano nunca se cansa de matar o semelhante. Não importa quão civilizado o país se julgue, ele sempre será bárbaro quando lida com o outro, com o diferente. Quer exemplo mais contundente que a invasão do Iraque pelos norte-americanos? Segundo cálculos feitos nos Estados Unidos e na Inglaterra, mais de um milhão de civis iraquianos teriam sido dizimados pelos bombardeios ordenados por George W. Bush. Quer outro exemplo, mais recente? Os mortos na Síria, contagem que varia entre duzentos e trezentos e cinquenta mil desde o início do conflito. Quer um exemplo do Brasil? Aqui aconteceram mais de cem mil homicídios no ano passado, número maior que o de vítimas no conflito da Síria em 2015. Uma guerra civil não declarada assola nosso país. Dez por cento dos homicídios do mundo ocorreram aqui. Dez por cento num país que tem menos de três por cento da população da Terra.

Neste exato momento, assisto a um tiroteio entre três facções rivais de venda de drogas no bairro da Serra, em Belo Horizonte. Os combates acontecem dia e noite. Ouvi-os sobretudo nas madrugadas, com armas pesadas, de repetição. A polícia só agora deu as caras. Há uma concentração de viaturas na praça principal do Conglomerado da Serra. Dizem que várias pessoas morreram. Entre elas, meninos de 13 ou 14 anos, que nesta semana exibiam metralhadoras pelas ruas da comunidade, orgulhosos de seu poder. E mais tarde não hesitaram em dispará-las contra os adversários.

Em BH, como no resto do país, há uma clara ausência do Estado no combate ao tráfico de drogas, vácuo que permite o surgimento de enclaves independentes dentro do país, com leis próprias, como o toque de recolher hoje em vigor numa parte do Conglomerado, implantado pelos bandidos. O Estado proíbe o consumo e o tráfico de drogas, mas não consegue impedir que aconteçam. Mudar a lei seria uma solução?

Diante do quadro, algo mais triste me assola: o pequeno valor dado à vida humana. Como disse acima, não importa o país, tampouco a época. Todos matam. Descendo ao interior da nossa sociedade, os 100000 homicídios anuais mostram que os indivíduos também matam. Somos violentos. Violentos desde que surgimos no mundo. Daí minha tristeza maior. Sempre acreditei que, no século 21, nos respeitaríamos e viveríamos em iguais oportunidades para todos. Viveríamos uma democracia. A utopia desaba. E desabamos todos juntos.

Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail

AS HERESIAS E A HISTÓRIA

 

A história das religiões é assunto apaixonante: revela mais do que se crê. Por exemplo, se você se interessa pelos primórdios do cristianismo, pelos primeiros séculos antes do estabelecimento dos cânones hoje respeitados, aqui vai uma dica: leia O Deus Exilado, de Marilia Fiorillo, professora da USP – Universidade de São Paulo.

O livro analisa a época em que o cristianismo se expandia no Ocidente e no Oriente Médio, sujeito a diversas interpretações. Várias correntes se digladiavam pela hegemonia. Divulgavam suas versões sobre as palavras, as ideias e a natureza de Jesus, contradiziam-se, atacavam-se, até se matavam.

Houve, de fato, muita luta até o século 4 na Síria, no Egito, em Antioquia e em Roma, lugares onde a religião despontava. O Deus Exilado examina as principais correntes e suas teses, com prioridade para o gnosticismo. Vasculha, ainda, os evangelhos apócrifos, aqueles que foram postos de lado quando Constantino, imperador romano, escolheu os de Lucas, Mateus, João e Marcos como os canônicos, relegando os demais à categoria das heresias, inclusive aquele que provavelmente era o mais antigo de todos, fonte de inspiração para outros, o Evangelho de Tomé. Segundo a lenda, Constantino se converteu após ver no céu uma cruz com as iniciais de Cristo e a frase “In hoc signo vinces” (Com este símbolo vencerás). De fato, após ganhar a batalha da Ponte Mílvia, em 312, o imperador transformou a cruz em sua espada.

Com uma pesquisa vasta e interessante, Marilia Fiorillo faz uma viagem no tempo e desmonta mitos até hoje tidos como verdade. A verdade é esclarecedora. Ganha quem a conhece. Como diz o teólogo Leonardo Boff na introdução, o livro é iluminador e libertador.

O Deus Exilado traz fatos e hipóteses sem sectarismo, separando o joio do trigo. O problema é que a quantidade de joio impressiona. É tanto joio que o trigo até hoje não conseguiu germinar a contento.

Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail

A CORRUPÇÃO COMO ESCADA SOCIAL

 

Nossos escândalos de corrupção sempre me remetem a um livro que fala dos excessos dos anos 1920, a ruidosa década de grande prosperidade que desembocou no caos de 1929. O livro se chama O Grande Gatsby. Foi escrito por Francis Scott Fitzgerald, um norte-americano pobre fascinado pelo mundo dos milionários. Fitzgerald e Zelda, sua mulher, aparecem no filme Meia-noite em Paris, de Woody Allen, em meio a festas extravagantes, esbanjando dinheiro, querendo ser e parecer ricos a qualquer custo. Os políticos de Brasília também aparecem em meio a festas extravagantes, esbanjando dinheiro público, querendo ser ricos a qualquer custo, sobretudo às nossas custas. Seriam para essas festas as tais “verbas de representação” que recebem? Pelo visto, não bastam. Querem muito mais.

O Grande Gatsby trata desses personagens do alpinismo social levado às últimas consequências. Jay Gatz, que se transformaria no grande Gatsby, é um rapaz pobre apaixonado por Daisy, moça rica. A fim de conquistar a amada, Gatsby trata de se enriquecer por meios ilícitos. Depois de ajuntar muito dinheiro, para ostentar posses e atrair Daisy, Gatsby promove festas extravagantes, nas quais esbanja fortunas. Quase conquista Daisy. Fitzgerald atrapalha o final feliz, provocando um morticínio digno dos grandes folhetins.

O romance foi considerado um dos melhores da literatura norte-americana do século 20, com o que não concordo, mas sem dúvida merece ser lido. Não apenas pelo mérito literário, também pelo retrato de uma época de prosperidade que parecia eterna e acabou em tragédia, a Grande Depressão, tragédia que também atingiu a vida particular do escritor Scott Fitzgerald, morto prematuramente aos quarenta e quatro anos. Morreu pobre como nasceu.

Grandes festas, grandes arroubos, grandes roubos, grandes Gatsby. A história se repete no Brasil de hoje. Dinheiro continua a mola do mundo. Há pouco, em 2008, quase trouxe outra grande depressão. O mundo ainda não se recuperou. Continuamos pagando a conta do desmando e da ganância alheia. Lá fora e também aqui dentro do país, onde, além da situação econômica internacional adversa, temos um problema crônico: em muitos órgãos públicos, apesar de todas as prisões já feitas, a viúva, coitada, segue sendo saqueada. A corrupção, para muitos homens públicos, é a grande escada para a escalada social. Para um número cada vez maior, a única.

Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail

RECEITA PRA FICAR LOUCO

 

 

Para tudo, precisamos de modelos hoje em dia – também podemos chamá-los de sistemas, critérios, planos, classificações, conjuntos, teorias, padrões – em busca de maior sentido à vida ou para extrapolar a rotina. Criamos modelos para este e todos os mundos, incluídos o paraíso, o inferno, as estrelas, os universos paralelos. Para o real e o imaginário. Nem a literatura escapa. Temos modelos até para a loucura. Mais de quinhentos, segundo os psiquiatras.

Modelos inserem o particular no global. É cômodo. Em vez de nos ocuparmos de muitos casos, nós os condensamos, unindo-os através de características comuns. Assim, tratando-nos por primatas, incluímo-nos numa família mais ampla com a qual temos noventa e sete por cento de semelhança genética. Não deixa de ser paradoxal que, enquanto procuramos sínteses totalizantes, abertas para o cosmo, tornamo-nos, no varejo, cada vez mais especialistas, mais míopes. Cada vez mais sabemos mais de menos.

Geramos modelos de comportamento, de economia, de religião, de física, de química, de fisiologia, de evolução no Sambódromo, de circulação de dinheiro, de espalhamento de vírus na Terra, de distribuição da matéria nas galáxias, de expansão do Universo, de distribuição de jogadores no campo de futebol. Construímos suportes para cada aspecto da vida e das ideias, porém demonstramos pouca fidelidade a eles. Sempre consideramos nosso tempo o mais aquinhoado; nossas certezas, as melhores, nossos pontos de vista, os definitivos. Somos, no entanto, volúveis – e como. Na época do descobrimento do Brasil, o Sol gravitava em torno da Terra e os índios não tinham alma. No século 19, a beleza feminina carecia de muito volume corporal e aceitava-se a escravidão. Hoje, ainda se acredita em duende e no poder da guerra para resolver disputas.

A vida é uma peça de teatro em que o primeiro ensaio coincide com a estreia. Detalhe: o texto muda a cada apresentação. Em outras palavras, tomamos decisões cujas consequências, a priori, não sabemos medir. No atual modelo, o futuro promete ser melhor que o presente, embora desconheçamos como e por quê. Porque duramos mais que nossos avós, postulamos que nossos netos devam viver cento e cinquenta anos. Descartamos a hipótese de que o século 21 possa reservar-nos dias amargos graças a decisões tomadas, no século 20, com aparente garantia de prudência, tecnologia e conhecimento.

Se alguém me pedisse para montar um modelo em que juntássemos internet, ETs, o cometa Hale-Bopp, castração, tênis Nike, religião, tranquilizantes e vodca, eu não saberia por onde começar, muito menos supor que alguém pudesse acreditar no monstrengo gerado por esse coquetel indigesto. Pois esses ingredientes fundiram-se nas cabeças e nos corpos dos seguidores de uma seita maluca dos Estados Unidos, a Heaven’s Gate. Trinta e nove deles, calçados com Nike e bêbados com vodca e calmantes, suicidaram para alcançar um suposto Portal do Céu, escondido no rabo do cometa Hale-Bopp, no qual Jesus Cristo em pessoa estaria viajando pelo Universo, escoltado por ETs. Todos os trinta e nove abraçaram um modelo que lhes fez sentido e sacrificaram-se em nome dele.

Apenas como exercício de imaginação, penso na possibilidade de, num momento de loucura, desconhecimento ou distração geral, a humanidade embarcar em disparate similar. Por que não? Afinal, somos viciados em ligar uma ideia a outra. Nada nos garante que sempre tomaremos a decisão correta, sobretudo quando considerados períodos mais longos, em que os efeitos perversos se multiplicam: a possibilidade de acertar cem por cento das vezes é nula. Louvamos paradigmas, aceitamos dogmas, admitimos preconceitos. Temos exemplos de países ditos desenvolvidos que acataram absurdos de seus líderes. Épocas inteiras praticaram aberrações. Quem sabe já tenhamos feito opções cuja nocividade descobriremos tarde demais? Até que ponto podemos conciliar o presente com o futuro? Como garantir o bom senso ante a tentação da loucura? Estaria eu louco ao aventar estupidez em escala universal? O tempo o dirá.

Como disse, a vida parece uma peça. Também no sentido de engano, logro, embuste, ludíbrio. A vida prega muitas peças. Ela nos poupará da insensatez coletiva? Sobra-nos o velho consolo. Quem brinca com fogo pode se queimar, porém, sem ele, a humanidade jamais teria sobrevivido pelos últimos cem mil anos.

 

Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail

O HOMEM QUE ALIMENTA POMBOS

 

Todas as manhãs, ao redor das dez horas, o muçulmano chega ao Regent´s Park, aqui em Londres, pela entrada próxima à Mesquita Central, na Park Road. Chega a caráter: turbante, barba comprida, bata, chinelo. Parece carregar uma melancia sobre a barriga. O rosto magro lembra o do Bin Laden.

Nem bem pisa no parque, uma revoada de pássaros o persegue. Gaivotas, patos, marrecos, gansos, galinhas-d´água, corvos, pombos, centenas de bichos. Até dois cisnes. Sem pressa, o São Francisco do Islã se dirige a um banco, tira dos sacos de supermercado dúzias de pães e quilos de flocos de milho, parte, reparte e lança a comida aos animais, que iniciam a luta pela sobrevivência. Ele tenta distribuir equitativamente a refeição, pois as gaivotas avançam na terra e no ar com a sanha de vikings e nada deixariam para as demais espécies.

Seu olhar é tranquilo, exala prazer na tarefa, nada o abala. Nem os pombos que, ávidos, pousam em seu turbante para se aproximarem de sua mão. Ali perto, em Baker Street, dezenas de pessoas protestam contra a presença de muçulmanos na Inglaterra. “São todos terroristas”, gritam os mais exaltados. Carros de polícia zunem pela Park Road. O homem, rodeado pelas aves, olha para elas, embevecido. Ignora a manifestação. Os pombos são da paz.

Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail

MANGA COM LEITE MATA

 

Conheci apenas uma avó, a materna, e a visitava nas férias, sobretudo em janeiro, por coincidência no auge da safra de mangas. Em sua fazenda, havia um pomar que sumia de vista aos meus olhos de menino. Apesar de tanta fruta, ela me proibia manga com leite. Misturar os dois era tiro e queda, podia encomendar o caixão. Vovó tinha visto centenas de imprudentes irem para a cova após a ingestão do coquetel fatal.

Para que a manga não fizesse mal, depois do café da manhã com leite vindo direto do curral, eu deveria esperar pelo menos três horas. Três horas. Espera torturante para um menino. Ao sair para o quintal, eu enxergava as mangas madurinhas, morria de vontade de chupar algumas, mas não podia. Com medo de desobediência, ela me controlava de longe e de perto: “só depois das 11 da manhã, viu, Luís?” Eu retrucava: “posso comer mangada, então, vó?” Mangada ela permitia. Minha cabeça não entendia: mangada pode, manga não? Por quê? Não é tudo a mesma coisa?

Comecei a desconfiar daquela proibição. Devia ser crendice da vovó. Resolvi comprovar, fazer o supremo teste. Depois de um bom copo de leite, fui escondido para o pomar, peguei a fruta mais bonita, bem no alto, chupei-a até o caroço ficar branquinho. Quando terminei, bateu o desespero. E se…?

Senti o estômago embrulhar, o coração acelerou, fiquei tonto. O suor escorreu pela testa. Tive certeza: estava morrendo. Quase saí gritando por socorro. No entanto, resisti. Se eu queria provar que a vovó estava errada, precisava aguentar firme. Terrível espera. Estive a ponto de desistir várias vezes, antes que caísse duro. As horas passaram, sobrevivi. Hoje adoro manga com leite.

Fico imaginando se, mudando o conteúdo e o contexto, não tenho dito a meus netos que manga com leite mata. Preconceito a gente adquire sem perceber. E transmite. Sei que, por mais que fique atento, alguma tolice transmitirei. A gente é manipulado o tempo todo, acaba acreditando em mentira. Por exemplo, que no Brasil não existe político honesto. Existe, sim. Juro. Por isso, torço para que meus netos tenham a coragem de me contestar, nem que seja pelo mero exercício da contestação. Que enfrentem as mangas com leite que, sem perceber, eu cultivo. Só assim obterão um país honesto.

Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail

MARCIANOS NÃO PAGAM CONTAS

 

Não acredito na tão propalada objetividade da ciência, apesar do sucesso do método empírico. Indivíduos de carne o osso fazem as pesquisas, sentimentos os norteiam e, embora tentem ser isentos, crenças impregnam seu trabalho. Como impregnam… Os grupos também aderem, em bloco, a idéias preconcebidas. Segundo os estudiosos da mente, a emoção precede, estimula e guia a razão, e todos ficaríamos loucos caso tentássemos nos desvencilhar dos arroubos do temperamento. A razão pura é um sonho de verão, como ficou provado no famoso teorema de Gödel, o da Incompletude. Somos matematicamente impossíveis de entender o mundo. A não ser que saiamos deste Universo.

Por isso, a comunidade científica, como qualquer outra, pode aderir a inverdades. O certo de hoje com certeza não o será no futuro. A realidade muda com as pesquisas e a troca de paradigmas. Durante séculos, as melhores cabeças propalaram o geocentrismo, tese filosófica tornada dogma religioso e científico. A ideia era tão certa, tão verdadeira, que não admitia contestação. Quem duvidasse ia para a fogueira. Pouca gente duvidou.

Marte também ilustra quanto a subjetividade pode tomar conta dos adeptos da objetividade: a partir do século 19, o planeta transformou-se no maior exportador de alienígenas que, ainda hoje, reaparecem nas fotos da NASA. Outro sonho de verão. No entanto, há quem ainda não se tenha rendido às evidências. Aposto que, se uma rádio retransmitir o trote de Orson Welles de muitas décadas atrás, anunciando uma invasão marciana, teremos cartesianos correndo apavorados pelas ruas.

A lenda dos marcianos começou em 1877, quando o astrônomo italiano Schiaparelli enxergou canais artificiais na superfície do planeta. A fantasia logo conquistou defensores, sobretudo na comunidade científica norte-americana, a começar pelo seu líder, o competente Percival Lowell. Em março de 1901, a sisuda revista Scientific American admitia que “as fileiras dos que desacreditam nos canais diminui cada vez mais”. Note-se que, na época, alguns astrônomos, com os olhos no céu, mas os pés no chão, explicavam o suposto sistema de irrigação no Planeta Vermelho como meros acidentes geológicos ou resultado da baixa resolução dos telescópios. Essas ponderações de nada adiantaram. A maioria dos cientistas viu o que queria: marcianos inteligentes.

Se a objetividade é um sonho, a subjetividade tampouco traz a verdade. Quantos de nossos conflitos decorrem da opinião alheia transformada em fato ou empurrada pela nossa goela abaixo? Até que ponto estamos vendo coisas que nos convenceram a ver através de uma retórica convincente, digna dos melhores sofistas, ou através da manipulação? Como capturar a realidade – se é que existe uma – sem cometer engano?

Descobri tanta inverdade em circulação, tanto delírio no dia a dia, que decretei o fim da realidade. Se nada casa com nada, então nada existe. O real é uma ficção.Isso mesmo, uma ficção! Para comprovar minha tese, deixei de enxergar as contas, ou seja, parei de pagá-las. Que os marcianos as pagassem. Cortaram a luz, a água, o telefone, o cartão de crédito, meu nome foi para o cartório, tomaram meu computador, vão me despejar na semana que vem. Detesto credores. Eles derrubam meu argumento lógico, enterram minha filosofice, não engolem minha conversa, me dão um choque de realidade. Objetiva e subjetivamente, aqui neste quarto às escuras, com sede, fome e frio, não sei como sair dessa.

 

 

Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail

BARBÁRIE NÃO SE COMBATE COM BARBÁRIE

 

 

As hegemonias, como as unanimidades, são burras. E míopes.

Burras porque, para se perpetuarem, abusam das armas disponíveis para eliminar pontos de vista ou culturas diferentes. Às vezes, até admitem alguma influência externa ou de grupo minoritário, desde que possam absorvê-la sem se comprometer. As hegemonias assumem o papel de gendarmes do bem, reservando o papel do demônio às vozes dissonantes. Julgam-se paladinas da justiça e a distribuem de acordo com o interesse e a conveniência da hora, sem se importar com a coerência de seus atos.

Como tudo que é humano, as hegemonias um dia terminam. As mais perigosas são justamente as mais bem sucedidas, aquelas que se impuseram de modo mais amplo. Quando desabam, e sempre acabam desabando, deixam um vazio de opções e, em seu rastro, a desorientação ou o caos. Após a queda do Império Romano, sucederam-se mil anos de estagnação, conhecidos por Idade das Trevas, em que o mundo ocidental viveu um misticismo desastroso e as fogueiras queimaram algumas das melhores cabeças. A civilização reencontrou o caminho em boa parte graças aos muçulmanos que recuperaram, reproduziram e reintroduziram na Europa textos oriundos das antigas Grécia e Roma banidos pelos cristãos. Surgiu então o Renascimento.

As hegemonias são míopes, porque não enxergam um metro além do quintal. Acreditam que a vida de um de seus cidadãos equivale à de dez dos estrangeiros – ou mil, como se depreende dos discursos mais inflamados. Condenam o assassinato de seus próprios inocentes, porém matam inocentes alhures e, com cinismo, propalam que distribuem a morte com justiça.  Se entendem que seus interesses foram contrariados, ameaçam meio mundo com a vingança e o dies irae. Ignoram decisões de fóruns mundiais que desagradam seus aliados, porém efetivam a toque de caixa as que atingem os desafetos. Quem não está a favor está contra: de que prática democrática extraíram tamanha arrogância?

Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail

A BANALIZAÇÃO DA TRAGÉDIA

O rompimento das barragens de Mariana acrescentará mais um capítulo à banalização da tragédia. Muitos morreram, centenas ficaram sem teto, a poluição já atinge o Espírito Santo, mas a catástrofe acabará como simples lembrança, acompanhada dos chavões de sempre: acidentes acontecem, poderia ter sido pior. As ações efetivas contra o risco serão, uma vez mais, adiadas ou esquecidas. O mesmo vale para o Sul brasileiro, onde as chuvas castigam e carregam sonhos. No Rio, ontem, a Linha Vermelha parou enquanto policiais e bandidos trocavam tiros sobre a cabeça dos motoristas, que se jogavam no asfalto em busca de proteção. Em Salvador, há algum tempo, durante uma greve da PM, aconteceram quase 200 homicídios. De tanto vermos a desgraça alheia, ficamos anestesiados, algo insensíveis. A tragédia não existe mais. Transformou-se em corriqueira contagem de corpos e de prejuízo financeiro. A tragédia virou estatística.

O problema não é exclusivo do Brasil. No Haiti, os milhares de desabrigados pelo terremoto transformaram-se em eventual pauta na televisão, nada mais. Ainda sofrem, mas o mundo os deixou de lado. Na África, a fome e a guerra dizimam milhares todos os dias, mas isso é um problema deles que, de vez em quando, chama nossa atenção. No Iraque, os corpos deixados pelos homens-bomba e carros-bomba se contam às dezenas, morticínio que, embora terrível, não se compara nem de longe ao provocado pelos invasores norte-americanos que, com suas armas e sua hipocrisia, mataram entre dez e vinte vezes mais civis iraquianos que Saddam Hussein em todo o seu sangrento governo. Outra tragédia: o dinheiro gasto na invasão do Iraque teria acabado, durante décadas, com a fome na Terra e recuperado os prejuízos trazidos por chuvas, secas e terremotos. Matar gente é melhor negócio que matar a fome.

Em qualquer canto do planeta, democrático ou não, a tragédia se banalizou e nós nos acostumamos. Hoje ela faz parte de nosso dia a dia, não mais nos afeta nem quando acontece ao vizinho. Diante desse quadro, logo um novo Stálin se levantará e, uma vez mais na História, proclamará com escárnio: uma morte é uma tragédia; um milhão de mortes, mera estatística. Que não viremos estatística. A cada hora, a banalização da tragédia aperta o cerco a nosso redor.

Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail

A CIÊNCIA DA INSIGNIFICÂNCIA

Até o século 20, o ser humano era a figura central do Universo, orgulhoso por ignorância, arrogante por herança mítica, grande por pequenez. Julgávamo-nos razão bastante para a existência de tudo que nos cerca, críamos mesmo que podíamos usar e abusar do planeta, talhado sob medida divina para nossas necessidades, fonte eterna de água, comida e materiais. A lenda sucumbiu à realidade. De queda em queda ao longo das últimas décadas, assumimos condição periférica, desprovidos de privilégios, sem pai nem mãe, sujeitos a limitações cada vez mais iminentes. Ante a imensidão desvelada, viramos nada.

Quem nos pulverizou de tal maneira? Os principais responsáveis foram os físicos. Eles forjaram nossa nulidade. Moldaram nosso pensamento, destruíram a objetividade absoluta com a introdução do observador, assombraram-nos com novas interpretações da realidade, trouxeram medo com a fissão e a fusão atômicas. Mais que quaisquer outros profissionais, ampliaram as fronteiras do que conhecemos ou julgamos conhecer. Mergulharam no infinitamente pequeno, diluíram a matéria em flutuações adimensionais, inquiriram o infinitamente grande, construíram uma ponte quântica entre os extremos, descobriram a expansão do Universo, postularam começo e fim para os átomos, descreveram dezenas de fenômenos e partículas que teriam ocorrido durante o primeiro nanossegundo cosmológico, sucumbiram ante a matéria e a energia escura que tudo envolvem e ainda não se revelam. O Big Bang, hipótese de trabalho com várias lacunas, frequenta nossa mesa tanto quanto um espaguete ao molho de tomate.

Os físicos também nos legaram a palavra do século: relatividade. Embora herdada do pai dos cientistas modernos, Galileu Galilei, a relatividade nos arrebatou após o trabalho de Einstein. Não conheço outra com tamanha influência, nem em Darwin, autor da teoria da evolução, nem em Freud, grande divulgador de neologismos. Da antropologia à arte, da política à filosofia, mesmo no humor, tudo ficou relativo. Einstein, passado um século desde a Relatividade Geral, ainda nos arranca admiração e espanto. Graças à singeleza de suas equações, a física perdeu o hermetismo e ocupou o espaço das ideias. Ganhamos novo paradigma.

Diante de tamanha abertura para o Cosmo, o grande e o pequeno Cosmo, ganhamos alguma sabedoria, mas perdemos o orgulho de senhores do Universo. Embora continuemos os mesmos, com nossas carências de ar, água, comida, amor e curiosidade, paradoxalmente nossa mente cresceu enquanto perdíamos o status de senhores da criação. Hoje nos encantamos com nossa insignificância diante de um Universo que ultrapassa a imaginação. O importante é que o encantamento persiste.

Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail

A PIPI, O PARAÍSO E OS BILIONÁRIOS DA FORBES

 

 

Fundei a PIPI – Primeira Igreja da Prosperidade Infinita – inspirado por um pedreiro que criou sua própria igreja, “porque igreja está dando muito mais dinheiro que pedreiro”. Nunca vi tanta sinceridade e pragmatismo num futuro pastor. Assumiu o objetivo numa boa, sem esconder nada. Também fiquei com inveja de quatro pastores brasileiros que a Forbes listou entre os 1200 bilionários (em dólares!) do mundo. A revista também foi pragmática. No ramo de negócio, escreveu, sem despistar: religião.

Na minha PIPI, seguindo a lógica do mercado, a retribuição não tem limite. Quem doa mais, aqui e agora, leva mais do lado de lá, depois. Por exemplo, quem entrega apenas o dízimo ganha férias em Cancún ou Paris, depois de morto evidentemente. Quem oferece o trízimo (agora há seitas que exigem 13% do salário do fiel) curte um mês nos resorts do nordeste brasileiro, que continuam mais caros que viagens ao exterior, apesar do dólar nas alturas. Ao maior doador (exijo dele alguns milhões em minha conta) está reservada, no paraíso, uma tarde inteira na cadeira do Grande Chefe, a contemplar de cima toda a grandeza do infinito. Alguém promete mais do que a PIPI? Ninguém!

O outro mundo tem uma grande vantagem para as igrejas, como a PIPI: não possui Procon. Sem fiscalização, ninguém jamais reclamou ou reclamará se o produto comprado aqui foi entregue lá, a contento. Muita gente de cá já descobriu essa falha de comunicação básica e perene, e partiu para o vale-tudo. Oferece absurdos. Não vou perder essa guerra. Assim, nada se compara às vantagens da minha PIPI. Ela promete até sexo farto, seguro e gratuito entre os eleitos. Há bilhões de almas disponíveis para todos, oriundas de todos os séculos, nenhuma com Aids e atribulações afins, problemas exclusivamente terrenos. Diversão segura para todos.

Os banquetes da PIPI no além serão literalmente paradisíacos. Haverá 666 pratos (belo número, hein?) no almoço e no jantar, preparados no fogo eterno do andar inferior por todos aqueles que rejeitarem ou criticarem a PIPI.

Se você quiser aderir à PIPI, não perca tempo. Traga sua declaração de renda para eu medir seu potencial de doação. Viro o Leão com sonegação. Faça os depósitos em qualquer banco. Também aceito cartão de crédito. Divido em até cinco vezes. Juros módicos.

Como a esperança é a última que morre, morro de esperança de conseguir minha prosperidade infinita. Aqui na Terra, é óbvio, junto com a turma da Forbes. Às suas custas, caro seguidor da PIPI. Agradeço de antemão. Você é um anjo.

Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail

O HOMEM QUE SE TRANSFORMOU NA HUMANIDADE

Michel de Montaigne (1533-1592) foi um filósofo com pegada de cronista – ou um cronista com espírito filosófico. Transformou-se na própria matéria de pesquisa, isto é, a partir dele mesmo generalizou a busca pelo substrato humano de todos nós. Inquirindo-se, ele nos revelou. Leitor de Platão, Aristóteles, Sêneca, Lucrécio, Cícero e Plutarco, entediou-se com a balbúrdia, as brigas e os protocolos que o cercavam. Depois da morte de seu grande amigo Étienne de la Boétie, foi atingido por uma longa crise de melancolia. Refugiou-se na torre de seu castelo para repensar a própria vida e o mundo.

No silêncio e isolamento de um quarto despojado, combateu anacrônicos paradigmas medievais, como o teocentrismo, apesar do risco que tais escritos traziam a seu pescoço. Na época, questionar a religião mandava muita gente para a forca ou a fogueira. Debruçado sobre si mesmo, Montaigne buscou um sentido para a existência quando a razão parecia ter sido trucidada pelo tumulto e pelas guerras entre católicos e protestantes. Perscrutou a amizade, a glória, a solidão, os prazeres, a volúpia, o medo, a companhia dos homens, das mulheres e dos livros, a vaidade, o domínio da vontade, a arte de conversar, a força da imaginação, o casamento. Escreveu detalhadamente sobre tudo isso. Também explorou os limites do conhecimento e o significado da filosofia e da morte. Assim nasceu a magnífica obra Ensaios, dividida em três Livros.

Arguto e astuto, ao falar das próprias dúvidas e incoerências, com frequência assumiu como suas muitas certezas e conclusões alheias com o objetivo de criticá-las, expondo suas falhas e inconsistências. Os elogios costumam conter demolidoras contestações, como no caso do mais longo dos ensaios, Apologia de Raymond Sebond, no qual, enquanto aparenta defender as ideias do sacerdote catalão Sebond, ele as refuta.

Ao levar o raciocínio às últimas consequências na indagação do que somos, chegou a conclusões que soam modernas, como a noção de que as pessoas e o mundo partilham idêntica unidade metafísica: tudo está intimamente ligado, é interdependente. Homens e animais possuem a mesma natureza básica, portanto não somos privilegiados generic for januvia. Como, então, dentro de nossa miopia e pequenez, conhecer a totalidade? O ser humano, medida dele mesmo, não se esconde da própria limitação e jamais escapa da vida, esse curto período durante o qual a consciência se manifesta. Assim, ele é continente e conteúdo da proposta filosófica, qual o quadro de M. C. Escher no qual o observador se reflete numa bola que engloba o universo. Nada existe, portanto, fora de nós. Nem Deus, que só vale porque foi feito a nosso modo.

O ceticismo de Montaigne prossegue. Incongruentes, antagônicos, confusos, todos nos mostramos estranhos, multiformes, incapazes de formular propostas definitivas: “a qualidade mais universal é a diversidade”. Não chegamos a valores intrínsecos, apenas emitimos opiniões, voláteis como as nuvens. A moralidade varia de acordo com o lugar e o tempo. As religiões são valores geralmente herdados, resultantes de tradições locais. Dizer que alguém é cristão ou muçulmano equivaleria a afirmar que uma pessoa é perigordina ou alemã. Nossas leis não são justas. Sua autoridade provém do fato de serem leis, pois não passam de “um autêntico testemunho da imbecilidade humana, tal o número de contradições e erros que carregam”. Se o filósofo as respeitava, era porque achava que devia, como bom cidadão, nunca em decorrência da razão e da consciência.

Como sustentava Montaigne esse edifício de pilares desencontrados? Da mesma maneira que nossa espécie manobra as múltiplas abordagens sobre a existência, oriundas de todos os quadrantes e hoje divulgadas ad nauseam pela mídia e pelos livros, conceitos de alcance restrito, cada vez mais restritos, a começar pelas limitações da ciência e da religião. O autor de Ensaios explora nossa incapacidade de gerar absolutos, válidos em qualquer tempo e espaço. Permanece, portanto, atual. Sabe lidar com a diversidade.

Suas divagações demonstram intuição, engenhosidade e, sobretudo, boa dose de humor e ironia, como ao falar do amor, do sexo ou das “ventosidades que o rabo produz”. O estilo mantém o texto fluente e saboroso, apesar de escrito na época da fundação da cidade de São Paulo. Ele afirma, com sua típica verve: “Tenho uma maneira de pensar que me isola dos outros, e, por outro lado, sou de uma ignorância pueril acerca do que todo mundo sabe. Esses defeitos me valeram uma reputação de bobo, que se assenta em cinco ou seis fatos reais”. Em outro trecho, alfineta os contemporâneos: “Aristarco dizia que só se haviam encontrado outrora sete sábios no mundo inteiro, e que em sua época fora difícil descobrir sete ignorantes; não teríamos mais razão do que ele para dizê-lo de nosso século?” A espécie humana tampouco escapa da jocosidade: “O homem é bem insensato; não saberia forjar um simples inseto e forja deuses às dúzias”.

Erra, no entanto, ao analisar o Brasil: “Dizem que no Brasil as pessoas só morrem de velhice, o que se atribui à pureza e à calma do ar que respiram, e que, a meu ver, provém antes da serenidade e da tranquilidade de suas almas isentas de paixões, de desgostos, de preocupações que excitam e contrariam. Ignorantes, iletrados, sem lei nem rei, nem religião alguma, sua vida desenvolve-se numa admirável simplicidade”. Soubesse ele do ar podre que, quatrocentos e trinta e cinco anos depois da primeira edição do Ensaios (1580), respiramos hoje no Brasil, de nossos desgostos e paixões, de nossas leis, governantes e religiões… No entanto, também acerta, já que as conclusões mudam com o tempo, tão cambiantes quanto as ideias. O que é verdade agora, não o será amanhã, assim como hoje não aceitamos um suposto jus primae noctis que os suseranos teriam imposto a seus vassalos na Idade Média, reservando-se o direito de dormir a primeira noite com as noivas nascidas em suas terras. Da mesma maneira, também rejeitamos as bulas papais dos séculos 15 e 16 que autorizaram ou confirmaram aos cristãos o direito de escravizar os pagãos, justificaram o comércio de africanos e a chacina de índios nas Américas. A este respeito, diz Montaigne no Livro III: “Quantas cidades arrasadas, quantos povos exterminados! Milhões de indivíduos trucidados (…) Nunca a ambição incitou a tal ponto os homens a tão horríveis e revoltantes ações!”

Michel de Montaigne, ao descrever a volatilidade humana, acaba por se contradizer, pois desemboca num absoluto: somos feitos da mesma matéria de inconstância e contradição. Há, portanto, algo de permanente em todos nós desde que o mundo é mundo. Enquanto nossas incongruências existirem, Ensaios permanecerá valiosa ferramenta na vã tentativa de nos entendermos.

 

Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail

Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail

A FICÇÃO MOLDA A REALIDADE?

Não custa repetir: a leitura muda o cérebro, tanto no funcionamento quanto na estrutura física. É o que dizem os neurocientistas. Quando lemos muito, sobretudo obras de ficção (romance, novela, conto, poesia), percebemos melhor o mundo a nosso redor, melhor nos adaptamos aos desafios, melhor nos saímos com o sexo. Até no sexo, quem diria. É fato: bons leitores e boas leitoras arrumam parceir(a)os com maior facilidade. Tem mais: o cérebro dos que leem muito também custa mais para envelhecer.
Sim, a leitura de romances, contos e novelas é um tipo de seguro de vida, quase uma garantia de que provavelmente chegaremos à velhice com boa saúde mental. Dois estudos recentes feitos nos Estados Unidos comprovaram, uma vez mais, esses benefícios.
O primeiro estudo, executado na Universidade Tufts, em Boston, demonstrou que a leitura desenvolve melhores circuitos cerebrais, isto é, constrói um tipo de via expressa no cérebro por onde os impulsos elétricos circulam com maior velocidade que nas pessoas que não leem. Em outras palavras, quem lê raciocina mais rápido.
A outra pesquisa, feita na Universidade de Stanford, na Califórnia, constatou que, nos leitores assíduos, os neurônios, sobretudo os do hemisfério esquerdo do cérebro, custam muito mais para envelhecer. Esse benefício não acontece com pessoas analfabetas ou pouco chegadas aos livros, diz o resultado final. Uma pena.
Resumindo a questão: além de raciocinar mais rápido, quem lê raciocina por muito mais tempo e com melhor qualidade. Como costumo dizer, leitura é uma questão de saúde pública. Só falta descobrirmos o óbvio.

 

Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail

A ARTE DE CARREGAR UMA MORIBUNDA NUM CARRINHO DE MÃO

 

Através da literatura, a gente conhece muitos países, visita seus sertões, encontra sua gente, recorda o passado com suas histórias boas e cruéis. Conhece sem sair do lugar, no conforto de uma poltrona, a mente presa e liberta pelas páginas que lê. Quer conhecer a África do Sul gastando quase nada? Isso é possível através da arte de JM Coetzee, o mais famoso escritor sul-africano da atualidade. Até o Prêmio Nobel ele já ganhou.

“Vida e Época de Michael K” é o romance de Coetzee que traz um homem envolvido numa guerra que não compreende, perseguido por agentes de um regime totalitário, assediado por pessoas que desejam controlá-lo. Sem saber, Michael busca a liberdade, nasceu para ela e quase a perde nas armadilhas que a sociedade lhe prepara: o cárcere, o trabalho forçado, a sedução, o amor filial, o compromisso, a obrigação de ir até o fim. Ele vive uma situação insólita: carrega a mãe doente num carrinho de mão África do Sul afora, em busca do lugar onde ela teria nascido e agora deseja morrer. Faz esse último pedido a Michael, que o atende. Depois do desenlace, ele, abobalhado, deformado de nascença, inculto, não faz perguntas, não questiona, apenas cumpre a promessa, embora não saiba ao certo se o lugar ao qual leva as cinzas maternas é, de fato, o torrão natal dela.

Apesar de todo o cerceamento, Michael é um homem livre: acompanha na escuridão a semente que germina, esgueira-se entre as pessoas como sombra, contempla o mar e o céu, nada espera do mundo, nada sonha. Livre, simplesmente vive.

JM Coetzee consegue com um personagem tão simplório criar uma obra cativante, hipnótica, inesquecível. Tece a trama com as minúcias de um crochê. Para completar o fascínio, adiciona o cheiro das paisagens, a beleza das estepes e das montanhas, a amplidão dos vazios geográficos sul-africanos. Ao mesmo tempo, escreve um violento libelo contra a tirania, o totalitarismo, a guerra, a discriminação. Literatura, já disseram, é magia. Coetzee é um de seus grandes magos.

Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail

A SEDUÇÃO DO DESERTO

 

Acabo de chegar do Norte da Argentina, região pouco frequentada pelos brasileiros. Nada frequentada, melhor dizendo. Talvez porque seja a parte mais pobre do país. “Nosso Terceiro Mundo”, definiu um hermano, orgulhoso de ter nascido bem longe, em Buenos Aires. Nós, brasileiros, raciocinamos da mesma maneira. Possuímos verdadeiro horror pelo que não possua algum glamour e reconhecimento internacional. Preferimos o falso requinte de uma Disneylândia a uma cultura original que não se apegou ao fake e ao marketing. “Quando viajo, não quero ver pobreza”, me confessa um amigo. “Pobreza basta a daqui”. A gente perde muita beleza com essa mentalidade.

Para chegar ao Norte da Argentina, saí de Córdoba rumo a Salta, quase mil quilômetros de boas estradas numa só reta, com passagem pelos Vales Calchaquies, região de bons vinhos e estranhas formações rochosas. Depois, segui em direção à Bolívia, país que exerce forte influência na região, não apenas pela cultura, como pela etnia indígena aimará, dominante nos Andes, a cordilheira que atravessa a parte ocidental da América do Sul. Mais de 8000 km de extensão. Os picos mais altos das Américas.

Ao chegar à Quebrada de Humahuaca, na província de Jujuy, o deserto tomou conta da paisagem. Secura, calor, cáctus, areia, poeira. Montanhas nuas multicoloridas. Uma delas, o Hornocal, dizem ter mais de 20 estratos empilhados, cada um de uma cor. Contei seis, que se repetem em ondulações, produzindo uma das mais belas paisagens que se possa imaginar: quilômetros de encostas, a 4300 metros de altitude, onde o vermelho, o rosa, o verde, o branco, o cinza e o amarelo aparecem lado a lado, em faixas horizontais que os movimentos da Terra puseram quase na vertical. São como ondas congeladas de um passado violento, mais tarde polido pelo gelo e pela água. Ali perto, em Purmamarca, o espetáculo se repete, ainda mais vermelho, num cânion que leva justamente o nome de Colorado. Em Tilcara, as geleiras extintas deixaram seu rastro de montanhas de pedra e areia onde o tempo esculpiu castelos, covas e pináculos que lembram o chapéu de uma bruxa. Aí também os índios pucará construíram uma cidade de pedra. Abandonada há séculos, as ruínas foram restauradas e dão uma boa ideia da difícil sobrevivência no deserto. No entanto, se isso serve de consolo, o pôr do sol em toda a Quebrada de Humahuaca vale a viagem. Vale a viagem e deixa troco de saudade. O colorido dos morros, picos e formações rochosas assume tonalidades que lembram o planeta Marte. Bem aqui na Terra.

O Norte da Argentina pode não ser conhecido dos brasileiros, pode não ter fama, pode não ter glamour internacional, mas possui a Terra em seu estado puro, em sua geologia exposta, em suas entranhas revoltas, em suas imensas possibilidades de beleza. Tem ainda a cultura ancestral aimará e pucará. A ONU reconheceu esses valores. Transformou recentemente a Quebrada de Humahuaca em Patrimônio Natural e Cultural da Humanidade. Com muito merecimento, diga-se. Para comprovar, basta ir lá, ver e se encantar. E trazer na memória, bem vivos, exemplos de como nosso planeta tem sido genioso ao longo das eras.

Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail

CONSUMISMO NÃO É MEIO DE VIDA

 

Vivemos a euforia do consumismo. “Consome ou morrerás” – é o primeiro mandamento da atualidade. Apesar da exaltação e dos bajuladores, prever o fim do consumismo não exige muita elucubração. Tomemos, por exemplo, o item mais básico, a comida. Nos Estados Unidos, por mais que os médicos alertem contra a ingestão de refeições exageradas, muitos devoram em torno quatro mil calorias por dia. Se adotarmos essa receita no mundo inteiro, sem considerar quão balofos ficaremos, isto é, se multiplicarmos essa overdose alimentar pela população global, vai faltar hambúrguer com batata frita para muita gente. E como.

Eis a primeira constatação: não existe vaca nem horta para uma radical democracia alimentar, mantidos os atuais volumes dos pratos dos ricos. Severos regimes de emagrecimento deverão ser aceitos pelos gorduchos setentrionais para que sobre um pouquinho mais para os esquálidos meridionais, contingente que excede um bilhão de pessoas, ora concentrados sobretudo na África.

Surge aqui um paradoxo: dobrar a produção mundial de alimentos exigiria investimento muito inferior ao injetado em bancos e empresas na crise de 2008 ou apenas um quinto do orçamento militar mundial em 2015, mas a comunidade internacional jamais se uniria em torno de tal meta. Afastar a fome não é prioridade. Portanto, a perder de vista, balofos e esquálidos reclamarão de sua incômoda condição.

Outra constatação: se o gasto de madeira ou de combustível fóssil nos países mais desenvolvidos for universalizado, coitada da Floresta Amazônica ou do petróleo. Pouco nos importamos com o desmatamento, quando escolhemos nossos móveis ou construímos nossas casas. Todos queremos encher o tanque, sem nos interessarmos pelo que resta de petróleo ou pelo tanto que polui. Outra questão, ainda mais importante, é a da água. A atual crise que o diga. Agimos qual o humorista no restaurante onde a garçonete informa que as tartarugas marinhas estão em extinção. “Tartaruga em extinção?”, espanta-se ele. “Pois então me traga duas ao ponto, bem depressa”.

A Terra ficou pequena para sustentar o consumismo. Poupar não é pecado, por mais que se marqueteie o contrário. O desperdício, sim, prejudica. Pelo bem ou pelo mal, seremos a última geração perdulária. Pelo bem ou pelo mal, opções serão feitas no futuro. Afinal, consumismo não é meio de vida.

 

Observação: esta crônica foi publicada originalmente em 1998.

Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail

NATURE X NURTURE

 

 

Até que ponto o ser humano é dominado pelos genes ou pela cultura? Não consigo me livrar da questão, bem sintetizada, na língua inglesa, através da expressão nature x nurture. O assunto, campo minado, já foi debatido centenas de vezes em todas as mídias, contendores levantaram paixões e provas, princípios de toda a ordem foram brandidos, contra e a favor de cada corrente, ouviram-se ameaças semelhantes às que cercaram o sequenciamento de nosso genoma, por medo alguns varreram o imbróglio para debaixo do tapete. A dúvida permanece.

Minha aposta tem sido algo como sessenta por cento genética e quarenta por cento cultura. No entanto, descobertas da biologia parecem desmentir-me. Segundo alguns pesquisadores, cada vez mais ruidosos, na prática somos cem por cento resultado daquelas minúsculas cadeias de moléculas, com quilômetros de extensão, que se espremem dentro dos cromossomos.

Cadeia é uma boa palavra. Estaríamos presos aos genes. Não apenas a cor dos olhos, os cinco dedos do pé, o instinto de sobrevivência e o de reprodução, o diabetes, o câncer, a obesidade, o ataque cardíaco, mas também o egoísmo, a violência, a inteligência, a lei do mais forte, a preferência por certas comidas, o insucesso no amor resultariam de programação ancestral da qual ninguém escapa. Até a religiosidade. Há vários anos, neuropesquisadores sugeriram que Deus era fruto do lobo temporal do cérebro, ou melhor, a fé proviria da excitação de estruturas no interior da cabeça. Se devidamente estimuladas, essas regiões transformariam céticos em profetas apocalípticos que recebem mensagens diretamente do céu e mandam-nos arrepender dos pecados, pois o fim está próximo. Segundo os neuropsicólogos, muitos religiosos, oráculos, visionários e psicógrafos ao longo da história teriam sido doentes mentais sem diagnóstico. Inventou-se até uma especialidade para lidar com as consequências dessa descoberta: neuroteólogo. Teria a genética feito a luz?

Cultura ou genética? Ambas. Não sobreviveremos sem a identidade humana construída desde as cavernas, tampouco sem instinto, sem razão, sem inteligência, sem as mãos, sem sentimento, sem emoção, sem arte, sem respeito mútuo. Se hoje passamos de sete bilhões e não corremos o risco de extinção, nosso sucesso também se deve à cultura. Para melhor, ela se entranhou no dia a dia, tornou-se parte de nosso comportamento. Virou crucial fator evolutivo, meio lamarckista, é verdade, pois só com a prática continuada cria raízes profundas.

Otimista, antevejo a hora em que ela substituirá alguns imperativos genéticos, com frequência cruéis, antes caros à nossa sobrevivência Look At This. Romântico, acredito no futuro em que, libertos de velhas superstições, nossos sonhos de liberdade, fraternidade e igualdade se concretizarão. Realista, espero contarmos, para sempre, com a sagacidade do genoma.  Quanto tempo levará a fusão naturenurture? Trinta mil anos, prazo que demoramos para desenvolver nossa humanidade, é uma boa aposta. Quem viver verá.

Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail

Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail

PAIXÃO, OUTRO MODO DE USAR

 

 

A paixão conduz a vida. Literalmente. Ela leva à procriação, que nos perpetua no mundo. Mas existem outros tipos de paixão, às vezes tão avassaladores quanto uma noite no motel. Conheci pessoas que amavam os livros mais que os parceiros de cama – e nunca se arrependeram. Livros, para elas e para eles, são pura libido. Imagino suas cantadas em Dom Casmurro: “Passas a noite comigo, tesouro?”. Dom Casmurro nunca teve a escolha de dizer não, a homem ou mulher.

Entre estes libidinosos, estão três ex-professores de literatura. O mais velho, em discurso inflamado, incensava o vocábulo “que”, que se presta a tanto uso e carrega versatilidade única, capaz de, entre outras coisas, unir ideias díspares e, com toque de vara de condão, ordenar o discurso. O segundo, detrator do “que”, esmerava-se para mostrar a lógica interna do português, espalhada nas regras e nas sutilezas da língua, onde arte e ciência se mesclam. Língua remete ao amor: seduz e deixa-se seduzir. Além disso, captura o tempo, digere-o, incorpora-o e evolui com ele. Como não incluí-la entre as paixões? O mais jovem dos mestres me apresentou a Shakespeare, destrinçou seus meandros, deixou-me a impressão de que jamais deveria escrever diante da beleza sufocante do texto do Velho Bardo. Custei a me livrar da angústia da influência, com direito a frequentes recaídas.

Os três professores contagiaram-me, garoto que lia e rabiscava histórias. Domar palavras, desde cedo, transformou-se em ofício, paixão erótica. Se o sexo, no auge da fusão, exige sobretudo o corpo, a criação, a qualquer momento, requer corpo, mente e alma. Daí sua durabilidade, daí sua resistência, renovada em cada romance, em cada criança de palavras que concebemos e trazemos ao mundo. A escrita, durante a gestação que, em geral, leva mais de nove meses, não apresenta o exagero de testosterona para o qual a natureza nos preparou durante milhões de anos, entretanto a orgia verbal pode ser transmitida, multiplicada em cada leitor e fala-nos ao cérebro e ao coração.

Os muito comedidos que me perdoem, mas paixões são fundamentais. Com sua ajuda, o ser humano evolui sobre a Terra. Elas conduzem a vida. À vida também.

Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail

SANTO NÃO TIRA CARTEIRA DE MOTORISTA

 

Sempre que vejo um carro cheio de amuletos, fitas, frases e adesivos protetores contra acidentes, eu me lembro de seu Divino, homem de muita fé. Ele deve ter sido um dos piores motoristas que já passaram pela Terra. Nunca entendi como conseguiu a carteira. Morria de medo de estrada e de trânsito. Assustava-se com cada veículo que o ultrapassava. Fugia, apavorado, para o acostamento, houvesse ou não acostamento. Dirigia a vinte por hora, o rosto colado ao volante. Derrubava a mureta da garagem duas vezes por semana. De vez em quando, caía dentro do mata-burro à entrada de sua fazenda. Um perigo, o seu Divino. Para ele e para os outros.

Um dia resolveu, por precaução, escrever nas portas de sua velha Rural Willys uma quadrinha com rima bem rica, especialmente encomendada ao sacristão, para atrair as bênçãos celestiais:

 

“O Pai na frente,

A Mãe na guia,

Livrai-nos de acidente,

Jesus, José e Virgem Maria”.

 

Virou chacota: de tão barbeiro, precisava da proteção da Sagrada Família inteira. Nem bem começou a desfilar o carro bento, bateu num barranco, capotou e caiu dentro de um córrego. Ao ser resgatado, de bom humor, disse que estava dando água para a tropa de cem cavalos do motor.

Passado o susto, ficou ressabiado: por que os céus não o haviam protegido? Depois de muito pensar, descobriu a razão: não era lá muito devoto da Virgem Maria. Preferia outra santa, que considerava mais milagrosa. Para cortejá-la, raspou das portas o nome da Virgem e pintou ele mesmo, em garranchos, o da eleita:

 

“O Pai na frente,

A Mãe na guia,

Livrai-nos de acidente,

Jesus, José e Nossa Senhora Aparecida”.

 

De nada adiantou lhe dizer que, além de perder a rima, havia trocado seis por meia dúzia. A mudança tampouco deu certo. Seu Divino continuou trombando e batendo, dia sim, dia não. Depois de quase destruir a Rural Willys numa focinhada de frente contra um caminhão, encostou-a na garagem, para o bem geral e alívio da família. Fé é fé, mas, ao volante, quem funciona mesmo é o motorista. Afinal, santo nunca tirou carteira de habilitação.

Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail

A BANALIDADE DO FÁCIL

 

 

Ainda louvamos, no Brasil, a cultura do fácil. Se é fácil, é bom. Se não faz pensar, é ótimo. Se apenas diverte, é genial. Se não exige neurônios, merece os altares. Se anestesia, leva ao paraíso. Acreditamos que entretenimento é cultura, banalidade é conhecimento, superficialidade é panaceia, e isso basta para o sucesso do país e das pessoas.

Detestamos as ideias, o debate, o raciocínio. São inoportunos, sugadores de massa cinzenta, ladrões do tempo que poderíamos dedicar às telenovelas ou aos games. Dizemos que ciência, política e filosofia não enchem a barriga, só a cabeça. Se alguém fala de problemática, rimos, brandimos a solucionática, mas não sabemos o que é isso. Na escola, rechaçamos os professores mais exigentes, pedantes cobradores da aprendizagem, fazemos abaixo-assinados para removê-los. Na mesma linha, criticamos os alunos mais dedicados. Destoam da vulgaridade.

Nosso gesto perpetua a desinformação, gera desinteresse pela atualidade, alheia-nos da evolução, afasta-nos da excelência. Em última análise, cortejamos o subdesenvolvimento. Graças à cultura do fácil, tornamo-nos incapazes de discutir, refutar, propor, identificar mentira e manipulação, combater a roubalheira, ter opinião própria, cobrar direitos, ser cidadãos. Resultado: assumimos, há tempos, complexo de inferioridade frente ao resto da Terra, justificado pelas nossas tão alardeadas ignorância, despreparo, incompetência e corrupção, subprodutos da cultura do fácil. Perdemos nosso amor-próprio. Morremos de nosso próprio veneno, a perpétua louvação da mediocridade.

A cultura do fácil obriga-nos a adiar problemas há muito carecendo de solução, das chacinas às reformas de leis obsoletas, das balas perdidas ao comércio de drogas, da má distribuição de renda à falta de serviços públicos razoáveis, do abuso dos impostos à corrupção em todos os níveis de governo. Vivemos hoje dois exemplos contundentes: em vez de cortar os gastos, o governo propõe aumentar impostos. Em vez de encerrar de vez a contribuição de empresas a campanhas políticas, o Congresso a mantém e cria o doador anônimo.

Um dos efeitos mais perversos dessa atitude é o pouco valor que temos dado à vida humana no Brasil. Os cadáveres da pobreza, da negligência, da violência urbana, da ausência do Estado e da impunidade chegam às nossas casas com a regularidade de A Voz do Brasil, aliás viraram a marca de um Brasil sem voz. A cultura do fácil prefere adiar o problema em vez de enfrentá-lo. A mediocridade vive de sofismas e tautologias.

O desenvolvimento de uma ideia, projeto ou nação implica a consideração de muitas variáveis e, com frequência, admite mais de uma solução. Qual a mais benéfica? Qual a mais duradoura? Qual produz menos efeitos colaterais? Corremos o risco até de errar na análise, porém precisamos encarar a complexidade. Para isso, o primeiro passo é o abandono da cultura do fácil.

Eis o difícil.

Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail

O CÃO DE GUARDA DE DARWIN

 

Há prazeres que acontecem de surpresa, na hora certa, na medida exata. Por exemplo, um livro ganho de presente com bom tema, bom autor, boa escrita. Resultado: boa leitura. A gente se aconchega numa cadeira, abre o primeiro capítulo, avança com gosto nas páginas. Somem o tempo e o espaço, autor e leitor fundem-se em prazerosa simbiose. Foi o que ocorreu comigo durante as chuvas do fim de semana. Ganhei o livro Escritos sobre Ciência e Religião, do inglês Thomas Henry Huxley, publicado pela Editora Unesp. Saborosa leitura.

Como o título indica, são ensaios sobre as relações entre ciência, religião e cultura, abordando a importância do conhecimento, da pesquisa, da abertura às descobertas, da honestidade intelectual, bem como questões variadas sobre o natural e o sobrenatural.

São três pequenas obras-primas da clareza, da concisão, da erudição. A primeira foi apresentada em Londres quando Huxley tinha 41 anos e causou tanta celeuma que trouxe a proibição de um famoso ciclo de palestras que acontecia na cidade aos domingos.

Se você estranhou que os ingleses estejam proibindo palestras sobre ciência e religião, saiba que estou falando de outros tempos. Huxley viveu entre 1825 e 1895, mas possuía mentalidade moderna, atual, evidentemente dados uns descontos aqui e ali. Graças a ele, sua garra e inteligência, a teoria da evolução de Darwin não foi defenestrada por religiosos e defensores da imutabilidade das espécies. Salvou-se por um triz. Huxley converteu-se num cão de guarda da seleção natural.

Além disso, ele também defendia com unhas e dentes o acesso irrestrito do povo à educação e ajudou a reformar o sistema de ensino inglês. Curiosamente algumas de suas idéias, sucesso por lá há um século e meio, agora começam a ser implantadas no Brasil.

Embora tenha morrido há mais de 100 anos, Huxley ainda nos fala com o entusiasmo e a lucidez que o marcaram. É o milagre do livro, da memória, da transmissão do conhecimento. É o milagre da surpresa que nos acontece na hora certa, na medida exata durante a chuva que levou a secura embora – e renova a virtude da lucidez intelectual.

Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail

VISITA AO PARAÍSO – COM DIREITO A RETORNO

 

Nestes dias de muita turbulência, cansados de tanta corrupção e incompetência, nada como um cantinho bem quieto para refrescar nossa cabeça que anda deste tamanho. Que tal o paraíso? Lá tudo é sereno. Quer dizer, quase sereno. Melhor ainda se a gente puder visitá-lo e voltar em seguida. Pois consegui a façanha através de uma obra original, gostosa e criativa, dessas que a gente não larga até o fim, enquanto ri sozinho. Trata-se de um livro de crônicas que devolve à vida escritores já falecidos e lhes arranca palpites sobre as próprias criações, sobre o mundo atual, sobre o cotidiano dos vivos. Ah, sim, os ressuscitados também fofocam. Muito.

O autor do resgate de vinte e cinco escritores que já nos deixaram é o angolano José Eduardo Agualusa, conhecido entre nós por seus romances Estação das Chuvas e O vendedor de Passados. Agualusa psicografa opiniões de Machado de Assis sobre o acordo ortográfico, Vinicius de Morais elogia a literatura de Chico Buarque, Jorge Amado diz que a morte o salvou dos patrulheiros do politicamente correto, Bertrand Russell continua ateu mesmo no paraíso, Euclides da Cunha faz mortais revelações sobre sua vida, Saint-Exupéry explica por que O Pequeno Príncipe é o livro de cabeceira das misses, o padre Antônio Vieira defende a união dos povos lusófonos, Eça de Queirós inveja a juventude do Brasil, Jorge Luis Borges garante que recuperou a visão na vida eterna, mas lá infelizmente não existem livros, João Cabral de Mello Neto não parou de tomar aspirina depois que foi para o céu, Clarice Lispector descobriu que há tanto para não ver com olhos para sempre fechados, Fernando Pessoa ainda sofre do tédio de ser Fernando Pessoa, mesmo tendo sido mais de cem pessoas.

Os depoimentos contam com muitas pitadas de humor e ironia de Agualusa, o médium que visitou o outro mundo para que soubéssemos o que lá acontece ou não acontece. Para quem se interessa pela vida no paraíso, o endereço é o livro O Lugar do Morto, lançado pela editora portuguesa Tinta da China. Pôr-se no lugar do escritor morto, como faz o talento de Agualusa, é garantia de reflexão, humor e de cultura. Um pausa para repouso nesses dias agitados que temos pela frente.

Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail