Arquivos da categoria: política

A ARTE DE COMER PELAS BEIRADAS

 

O chinês Sun Tzu faz sucesso dois mil e quinhentos anos depois de morto. Ele escreveu “A Arte da Guerra”, livro que deveria se chamar “A Arte de Comer o Inimigo pelas Beiradas”. O livro faz tanto sucesso que há gente ganhando dinheiro ensinando essa arte para empresários. Eta gente arteira!                                                                                                           Segundo Sun Tzu, a melhor batalha se vence sem disparar as armas, dobrando o oponente através da exibição de força e de organização. Em outras palavras, deve-se convencer o inimigo de que perderá a luta, caso ouse o enfrentamento. Esta é hoje a estratégia usada pela China em seu relacionamento com o exterior.  Aprendeu com seu próprio mestre. Sua pujança e poderio inibem desafios. Tornou-se a economia da qual o mundo depende para crescer. Todos querem vender para eles. Os chineses tiram proveito da situação. Pergunte ao dalai lama. Sob ameaça de retaliação, Pequim já obrigou muitos países a desconvidar o líder budista para visitá-los. Pragmatismo comercial.
Sem disparos, também, foi a conquista dos Estados Unidos através do controle da maior arma do capitalismo: o capital. Com reservas trilionárias em dólares, os comunistas aterrorizam Washington quando insinuam que não mais comprarão papéis do Tesouro ianque. O dólar viraria pó, caso esse dinheiro fosse direcionado, por exemplo, para o ouro (cujo preço iria para o espaço). Com tamanho trunfo na manga, Pequim adia para sempre a independência do Tibete (nascente dos principais mananciais de água chineses) e, aos poucos, reabocanha Taiwan (que também tenta aproveitar os bons ventos do continente). Ao mesmo tempo, adquire empresas e terra em vários países. Sem que percebamos, em muitas fábricas e fazendas no Ocidente, já se fala mandarim.                                                        
Em outra estratégia de Sun Tzu, a China destrói os parques industriais de muitas nações, inundando-os com produtos baratos. Não poupa os Estados Unidos ou Bangladesh, o Brasil ou a Alemanha. Tentará ela, no futuro, quando detiver o monopólio de milhares de artigos, impor os preços que bem entender? Por que resistiria à tentação?                                 A revista The Economist antecipou para 2018 a transformação do país em maior economia global, desbancando a norte-americana. Daí o medo do pernóstico Trump: não quer engolir o segundo lugar justamente quando é presidente. Vai fazer de tudo para barrar o crescimento chinês. Até guerra, podemos esperar. A China será o inimigo público número 1 da Era Trumpete (ou Era Topete, sei lá).                                                                          Santo de casa faz milagre, sim. Os chineses que o digam. Comendo pelas beiradas, Sun Tzu vem ganhando a guerra para eles. Sem um disparo. Por enquanto.

P.S. Para quem não gosta de ler, Sun Tzu também escreveu: “Quanto mais você ler e aprender, menos seu inimigo saberá”.

Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail

DEITADOS EM BERÇO ESPLÊNDIDO

O espetáculo proporcionado pelos deputados no 17 de abril não deveria ter assustado tanta gente. Afinal, eles são a nossa cara, nosso DNA, nossas digitais. Usamos Deus para tudo, agarramo-nos a patriotadas de dia e de noite, sempre agradecemos ao papai, à mamãe ou à titia por terem cuidado da gente na infância, somos contra a corrupção. Estamos imersos até o pescoço na exaltação da resposta singela, na ilusão do populismo, na crença da desinformação alheia, na cultura do fácil. Fugimos da complexidade como o diabo da cruz. Ao fazermos isso, abrimos espaço para a imbecilidade. Imbecilidade que escancarou sua face cruel no domingo 17 de abril.

A realidade nunca foi simples e fica mais complexa à medida que o tempo avança. Sua compreensão carece de reflexão, muita reflexão – e reflexão em geral exige dedicação. Para produzirmos na indústria ou no intelecto, necessitamos de conhecimento – que requer aprendizagem. Aprendizagem que demanda esforço. Um exemplo: por mais que ainda se tente vender, no Brasil, a escola como local de diversão, as dificuldades com a matemática, as ciências ou o português desmentem, numa tacada, a crendice de que sala de aula é recreio. Andar e falar também impõem dificuldades ao cérebro. Que tal doravante limitarmos os bebês a engatinhar e balbuciar? Que tal, para diminuir o desgaste mental dos alunos, exigirmos que apenas desenhem sua assinatura? Na matemática, bastaria somar dois mais dois?

A cultura do fácil gera a tacanhice. Ela nos obriga a adiar problemas há muito carecendo de solução, das chacinas às reformas de leis obsoletas, das balas perdidas ao comércio de drogas, da má distribuição de renda à falta de serviços públicos razoáveis, do abuso dos impostos à corrupção em todos os níveis de governo. Um dos efeitos mais perversos dessa atitude é o pouco valor que temos dado à vida humana no Brasil. Os cadáveres da pobreza, da negligência, da violência urbana, da ausência do Estado e da impunidade chegam às nossas casas com a regularidade de A Voz do Brasil, aliás viraram a marca de um Brasil sem voz. A cultura do fácil prefere adiar o problema em vez de enfrentá-lo. A mediocridade vive de sofismas e tautologias.

O desenvolvimento de uma ideia, projeto ou nação implica a consideração de muitas variáveis e, com frequência, admite mais de uma solução. Qual a mais benéfica? Qual a mais duradoura? Qual produz menos efeitos colaterais? Corremos o risco até de errar na análise, porém precisamos encarar a complexidade. Isso não aconteceu no 17 de abril, tampouco acontece no Brasil. O que se viu foi uma enxurrada de idiotices com a nossa cara. Para evitá-las, no governo e entre nós, eleitores, o primeiro passo é o abandono da cultura do fácil.

Eis o difícil.

Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail

A SÍRIA É AQUI

 

 

Massacres, chacinas, extermínios em massa sempre frequentam o noticiário. O ser humano nunca se cansa de matar o semelhante. Não importa quão civilizado o país se julgue, ele sempre será bárbaro quando lida com o outro, com o diferente. Quer exemplo mais contundente que a invasão do Iraque pelos norte-americanos? Segundo cálculos feitos nos Estados Unidos e na Inglaterra, mais de um milhão de civis iraquianos teriam sido dizimados pelos bombardeios ordenados por George W. Bush. Quer outro exemplo, mais recente? Os mortos na Síria, contagem que varia entre duzentos e trezentos e cinquenta mil desde o início do conflito. Quer um exemplo do Brasil? Aqui aconteceram mais de cem mil homicídios no ano passado, número maior que o de vítimas no conflito da Síria em 2015. Uma guerra civil não declarada assola nosso país. Dez por cento dos homicídios do mundo ocorreram aqui. Dez por cento num país que tem menos de três por cento da população da Terra.

Neste exato momento, assisto a um tiroteio entre três facções rivais de venda de drogas no bairro da Serra, em Belo Horizonte. Os combates acontecem dia e noite. Ouvi-os sobretudo nas madrugadas, com armas pesadas, de repetição. A polícia só agora deu as caras. Há uma concentração de viaturas na praça principal do Conglomerado da Serra. Dizem que várias pessoas morreram. Entre elas, meninos de 13 ou 14 anos, que nesta semana exibiam metralhadoras pelas ruas da comunidade, orgulhosos de seu poder. E mais tarde não hesitaram em dispará-las contra os adversários.

Em BH, como no resto do país, há uma clara ausência do Estado no combate ao tráfico de drogas, vácuo que permite o surgimento de enclaves independentes dentro do país, com leis próprias, como o toque de recolher hoje em vigor numa parte do Conglomerado, implantado pelos bandidos. O Estado proíbe o consumo e o tráfico de drogas, mas não consegue impedir que aconteçam. Mudar a lei seria uma solução?

Diante do quadro, algo mais triste me assola: o pequeno valor dado à vida humana. Como disse acima, não importa o país, tampouco a época. Todos matam. Descendo ao interior da nossa sociedade, os 100000 homicídios anuais mostram que os indivíduos também matam. Somos violentos. Violentos desde que surgimos no mundo. Daí minha tristeza maior. Sempre acreditei que, no século 21, nos respeitaríamos e viveríamos em iguais oportunidades para todos. Viveríamos uma democracia. A utopia desaba. E desabamos todos juntos.

Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail

O ORÁCULO QUE DEU CERTO

 

31 de dezembro de 2012, 10 da noite. Estávamos os quatro ao redor da mesa de bebidas e tira-gostos, aguardando a virada: um sueco, um italiano, um argentino e eu. Depois de aplaudir nossa escolha para a Copa e as Olimpíadas, o sueco e o italiano elogiaram o bom desempenho da economia brasileira. Concordei e disse que, em breve, alcançaríamos a Inglaterra. O argentino, professor de economia na Universidade de Londres, discordou:

– Você está falando bobagem, Luís. O Brasil nunca alcançará a Inglaterra, se vocês mantiverem a atual política econômica. E vai regredir.

– O que tem de errado com nossa política econômica, se o Brasil está dando certo?

– Tem muita coisa errada. O governo gasta mais do que arrecada, gasta mal, em coisas supérfluas e jogadas eleitoreiras, financia demais o consumo, a inflação vai disparar, subsidia combustível com o caixa da Petrobras e tira da empresa a capacidade de investimento, esqueceu a infraestrutura, a corrupção atingiu níveis assustadores, o real está supervalorizado, o mundo ainda não saiu da recessão. Se mantiverem esta política suicida, o país não se sustenta. Vai acabar perdendo o crédito e a credibilidade. E as reservas internacionais brasileiras poderão ser insuficientes para o serviço da dívida, pois os juros para vocês subirão muito. As conquistas sociais, em grande parte, vão virar pó.

A conversa virou um bate-boca animado, nós dois intransigentes, eu espantado com a desinformação do professor de uma das grandes escolas de economia do mundo. Dou a mão à palmatória. Eu era o desinformado. O oráculo estava certo. Sem qualquer ambiguidade. Infelizmente para todos nós.

Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail

O HOMEM QUE ALIMENTA POMBOS

 

Todas as manhãs, ao redor das dez horas, o muçulmano chega ao Regent´s Park, aqui em Londres, pela entrada próxima à Mesquita Central, na Park Road. Chega a caráter: turbante, barba comprida, bata, chinelo. Parece carregar uma melancia sobre a barriga. O rosto magro lembra o do Bin Laden.

Nem bem pisa no parque, uma revoada de pássaros o persegue. Gaivotas, patos, marrecos, gansos, galinhas-d´água, corvos, pombos, centenas de bichos. Até dois cisnes. Sem pressa, o São Francisco do Islã se dirige a um banco, tira dos sacos de supermercado dúzias de pães e quilos de flocos de milho, parte, reparte e lança a comida aos animais, que iniciam a luta pela sobrevivência. Ele tenta distribuir equitativamente a refeição, pois as gaivotas avançam na terra e no ar com a sanha de vikings e nada deixariam para as demais espécies.

Seu olhar é tranquilo, exala prazer na tarefa, nada o abala. Nem os pombos que, ávidos, pousam em seu turbante para se aproximarem de sua mão. Ali perto, em Baker Street, dezenas de pessoas protestam contra a presença de muçulmanos na Inglaterra. “São todos terroristas”, gritam os mais exaltados. Carros de polícia zunem pela Park Road. O homem, rodeado pelas aves, olha para elas, embevecido. Ignora a manifestação. Os pombos são da paz.

Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail

MANGA COM LEITE MATA

 

Conheci apenas uma avó, a materna, e a visitava nas férias, sobretudo em janeiro, por coincidência no auge da safra de mangas. Em sua fazenda, havia um pomar que sumia de vista aos meus olhos de menino. Apesar de tanta fruta, ela me proibia manga com leite. Misturar os dois era tiro e queda, podia encomendar o caixão. Vovó tinha visto centenas de imprudentes irem para a cova após a ingestão do coquetel fatal.

Para que a manga não fizesse mal, depois do café da manhã com leite vindo direto do curral, eu deveria esperar pelo menos três horas. Três horas. Espera torturante para um menino. Ao sair para o quintal, eu enxergava as mangas madurinhas, morria de vontade de chupar algumas, mas não podia. Com medo de desobediência, ela me controlava de longe e de perto: “só depois das 11 da manhã, viu, Luís?” Eu retrucava: “posso comer mangada, então, vó?” Mangada ela permitia. Minha cabeça não entendia: mangada pode, manga não? Por quê? Não é tudo a mesma coisa?

Comecei a desconfiar daquela proibição. Devia ser crendice da vovó. Resolvi comprovar, fazer o supremo teste. Depois de um bom copo de leite, fui escondido para o pomar, peguei a fruta mais bonita, bem no alto, chupei-a até o caroço ficar branquinho. Quando terminei, bateu o desespero. E se…?

Senti o estômago embrulhar, o coração acelerou, fiquei tonto. O suor escorreu pela testa. Tive certeza: estava morrendo. Quase saí gritando por socorro. No entanto, resisti. Se eu queria provar que a vovó estava errada, precisava aguentar firme. Terrível espera. Estive a ponto de desistir várias vezes, antes que caísse duro. As horas passaram, sobrevivi. Hoje adoro manga com leite.

Fico imaginando se, mudando o conteúdo e o contexto, não tenho dito a meus netos que manga com leite mata. Preconceito a gente adquire sem perceber. E transmite. Sei que, por mais que fique atento, alguma tolice transmitirei. A gente é manipulado o tempo todo, acaba acreditando em mentira. Por exemplo, que no Brasil não existe político honesto. Existe, sim. Juro. Por isso, torço para que meus netos tenham a coragem de me contestar, nem que seja pelo mero exercício da contestação. Que enfrentem as mangas com leite que, sem perceber, eu cultivo. Só assim obterão um país honesto.

Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail

BARBÁRIE NÃO SE COMBATE COM BARBÁRIE

 

 

As hegemonias, como as unanimidades, são burras. E míopes.

Burras porque, para se perpetuarem, abusam das armas disponíveis para eliminar pontos de vista ou culturas diferentes. Às vezes, até admitem alguma influência externa ou de grupo minoritário, desde que possam absorvê-la sem se comprometer. As hegemonias assumem o papel de gendarmes do bem, reservando o papel do demônio às vozes dissonantes. Julgam-se paladinas da justiça e a distribuem de acordo com o interesse e a conveniência da hora, sem se importar com a coerência de seus atos.

Como tudo que é humano, as hegemonias um dia terminam. As mais perigosas são justamente as mais bem sucedidas, aquelas que se impuseram de modo mais amplo. Quando desabam, e sempre acabam desabando, deixam um vazio de opções e, em seu rastro, a desorientação ou o caos. Após a queda do Império Romano, sucederam-se mil anos de estagnação, conhecidos por Idade das Trevas, em que o mundo ocidental viveu um misticismo desastroso e as fogueiras queimaram algumas das melhores cabeças. A civilização reencontrou o caminho em boa parte graças aos muçulmanos que recuperaram, reproduziram e reintroduziram na Europa textos oriundos das antigas Grécia e Roma banidos pelos cristãos. Surgiu então o Renascimento.

As hegemonias são míopes, porque não enxergam um metro além do quintal. Acreditam que a vida de um de seus cidadãos equivale à de dez dos estrangeiros – ou mil, como se depreende dos discursos mais inflamados. Condenam o assassinato de seus próprios inocentes, porém matam inocentes alhures e, com cinismo, propalam que distribuem a morte com justiça.  Se entendem que seus interesses foram contrariados, ameaçam meio mundo com a vingança e o dies irae. Ignoram decisões de fóruns mundiais que desagradam seus aliados, porém efetivam a toque de caixa as que atingem os desafetos. Quem não está a favor está contra: de que prática democrática extraíram tamanha arrogância?

Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail

A BANALIZAÇÃO DA TRAGÉDIA

O rompimento das barragens de Mariana acrescentará mais um capítulo à banalização da tragédia. Muitos morreram, centenas ficaram sem teto, a poluição já atinge o Espírito Santo, mas a catástrofe acabará como simples lembrança, acompanhada dos chavões de sempre: acidentes acontecem, poderia ter sido pior. As ações efetivas contra o risco serão, uma vez mais, adiadas ou esquecidas. O mesmo vale para o Sul brasileiro, onde as chuvas castigam e carregam sonhos. No Rio, ontem, a Linha Vermelha parou enquanto policiais e bandidos trocavam tiros sobre a cabeça dos motoristas, que se jogavam no asfalto em busca de proteção. Em Salvador, há algum tempo, durante uma greve da PM, aconteceram quase 200 homicídios. De tanto vermos a desgraça alheia, ficamos anestesiados, algo insensíveis. A tragédia não existe mais. Transformou-se em corriqueira contagem de corpos e de prejuízo financeiro. A tragédia virou estatística.

O problema não é exclusivo do Brasil. No Haiti, os milhares de desabrigados pelo terremoto transformaram-se em eventual pauta na televisão, nada mais. Ainda sofrem, mas o mundo os deixou de lado. Na África, a fome e a guerra dizimam milhares todos os dias, mas isso é um problema deles que, de vez em quando, chama nossa atenção. No Iraque, os corpos deixados pelos homens-bomba e carros-bomba se contam às dezenas, morticínio que, embora terrível, não se compara nem de longe ao provocado pelos invasores norte-americanos que, com suas armas e sua hipocrisia, mataram entre dez e vinte vezes mais civis iraquianos que Saddam Hussein em todo o seu sangrento governo. Outra tragédia: o dinheiro gasto na invasão do Iraque teria acabado, durante décadas, com a fome na Terra e recuperado os prejuízos trazidos por chuvas, secas e terremotos. Matar gente é melhor negócio que matar a fome.

Em qualquer canto do planeta, democrático ou não, a tragédia se banalizou e nós nos acostumamos. Hoje ela faz parte de nosso dia a dia, não mais nos afeta nem quando acontece ao vizinho. Diante desse quadro, logo um novo Stálin se levantará e, uma vez mais na História, proclamará com escárnio: uma morte é uma tragédia; um milhão de mortes, mera estatística. Que não viremos estatística. A cada hora, a banalização da tragédia aperta o cerco a nosso redor.

Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail

O HOMEM QUE SE TRANSFORMOU NA HUMANIDADE

Michel de Montaigne (1533-1592) foi um filósofo com pegada de cronista – ou um cronista com espírito filosófico. Transformou-se na própria matéria de pesquisa, isto é, a partir dele mesmo generalizou a busca pelo substrato humano de todos nós. Inquirindo-se, ele nos revelou. Leitor de Platão, Aristóteles, Sêneca, Lucrécio, Cícero e Plutarco, entediou-se com a balbúrdia, as brigas e os protocolos que o cercavam. Depois da morte de seu grande amigo Étienne de la Boétie, foi atingido por uma longa crise de melancolia. Refugiou-se na torre de seu castelo para repensar a própria vida e o mundo.

No silêncio e isolamento de um quarto despojado, combateu anacrônicos paradigmas medievais, como o teocentrismo, apesar do risco que tais escritos traziam a seu pescoço. Na época, questionar a religião mandava muita gente para a forca ou a fogueira. Debruçado sobre si mesmo, Montaigne buscou um sentido para a existência quando a razão parecia ter sido trucidada pelo tumulto e pelas guerras entre católicos e protestantes. Perscrutou a amizade, a glória, a solidão, os prazeres, a volúpia, o medo, a companhia dos homens, das mulheres e dos livros, a vaidade, o domínio da vontade, a arte de conversar, a força da imaginação, o casamento. Escreveu detalhadamente sobre tudo isso. Também explorou os limites do conhecimento e o significado da filosofia e da morte. Assim nasceu a magnífica obra Ensaios, dividida em três Livros.

Arguto e astuto, ao falar das próprias dúvidas e incoerências, com frequência assumiu como suas muitas certezas e conclusões alheias com o objetivo de criticá-las, expondo suas falhas e inconsistências. Os elogios costumam conter demolidoras contestações, como no caso do mais longo dos ensaios, Apologia de Raymond Sebond, no qual, enquanto aparenta defender as ideias do sacerdote catalão Sebond, ele as refuta.

Ao levar o raciocínio às últimas consequências na indagação do que somos, chegou a conclusões que soam modernas, como a noção de que as pessoas e o mundo partilham idêntica unidade metafísica: tudo está intimamente ligado, é interdependente. Homens e animais possuem a mesma natureza básica, portanto não somos privilegiados generic for januvia. Como, então, dentro de nossa miopia e pequenez, conhecer a totalidade? O ser humano, medida dele mesmo, não se esconde da própria limitação e jamais escapa da vida, esse curto período durante o qual a consciência se manifesta. Assim, ele é continente e conteúdo da proposta filosófica, qual o quadro de M. C. Escher no qual o observador se reflete numa bola que engloba o universo. Nada existe, portanto, fora de nós. Nem Deus, que só vale porque foi feito a nosso modo.

O ceticismo de Montaigne prossegue. Incongruentes, antagônicos, confusos, todos nos mostramos estranhos, multiformes, incapazes de formular propostas definitivas: “a qualidade mais universal é a diversidade”. Não chegamos a valores intrínsecos, apenas emitimos opiniões, voláteis como as nuvens. A moralidade varia de acordo com o lugar e o tempo. As religiões são valores geralmente herdados, resultantes de tradições locais. Dizer que alguém é cristão ou muçulmano equivaleria a afirmar que uma pessoa é perigordina ou alemã. Nossas leis não são justas. Sua autoridade provém do fato de serem leis, pois não passam de “um autêntico testemunho da imbecilidade humana, tal o número de contradições e erros que carregam”. Se o filósofo as respeitava, era porque achava que devia, como bom cidadão, nunca em decorrência da razão e da consciência.

Como sustentava Montaigne esse edifício de pilares desencontrados? Da mesma maneira que nossa espécie manobra as múltiplas abordagens sobre a existência, oriundas de todos os quadrantes e hoje divulgadas ad nauseam pela mídia e pelos livros, conceitos de alcance restrito, cada vez mais restritos, a começar pelas limitações da ciência e da religião. O autor de Ensaios explora nossa incapacidade de gerar absolutos, válidos em qualquer tempo e espaço. Permanece, portanto, atual. Sabe lidar com a diversidade.

Suas divagações demonstram intuição, engenhosidade e, sobretudo, boa dose de humor e ironia, como ao falar do amor, do sexo ou das “ventosidades que o rabo produz”. O estilo mantém o texto fluente e saboroso, apesar de escrito na época da fundação da cidade de São Paulo. Ele afirma, com sua típica verve: “Tenho uma maneira de pensar que me isola dos outros, e, por outro lado, sou de uma ignorância pueril acerca do que todo mundo sabe. Esses defeitos me valeram uma reputação de bobo, que se assenta em cinco ou seis fatos reais”. Em outro trecho, alfineta os contemporâneos: “Aristarco dizia que só se haviam encontrado outrora sete sábios no mundo inteiro, e que em sua época fora difícil descobrir sete ignorantes; não teríamos mais razão do que ele para dizê-lo de nosso século?” A espécie humana tampouco escapa da jocosidade: “O homem é bem insensato; não saberia forjar um simples inseto e forja deuses às dúzias”.

Erra, no entanto, ao analisar o Brasil: “Dizem que no Brasil as pessoas só morrem de velhice, o que se atribui à pureza e à calma do ar que respiram, e que, a meu ver, provém antes da serenidade e da tranquilidade de suas almas isentas de paixões, de desgostos, de preocupações que excitam e contrariam. Ignorantes, iletrados, sem lei nem rei, nem religião alguma, sua vida desenvolve-se numa admirável simplicidade”. Soubesse ele do ar podre que, quatrocentos e trinta e cinco anos depois da primeira edição do Ensaios (1580), respiramos hoje no Brasil, de nossos desgostos e paixões, de nossas leis, governantes e religiões… No entanto, também acerta, já que as conclusões mudam com o tempo, tão cambiantes quanto as ideias. O que é verdade agora, não o será amanhã, assim como hoje não aceitamos um suposto jus primae noctis que os suseranos teriam imposto a seus vassalos na Idade Média, reservando-se o direito de dormir a primeira noite com as noivas nascidas em suas terras. Da mesma maneira, também rejeitamos as bulas papais dos séculos 15 e 16 que autorizaram ou confirmaram aos cristãos o direito de escravizar os pagãos, justificaram o comércio de africanos e a chacina de índios nas Américas. A este respeito, diz Montaigne no Livro III: “Quantas cidades arrasadas, quantos povos exterminados! Milhões de indivíduos trucidados (…) Nunca a ambição incitou a tal ponto os homens a tão horríveis e revoltantes ações!”

Michel de Montaigne, ao descrever a volatilidade humana, acaba por se contradizer, pois desemboca num absoluto: somos feitos da mesma matéria de inconstância e contradição. Há, portanto, algo de permanente em todos nós desde que o mundo é mundo. Enquanto nossas incongruências existirem, Ensaios permanecerá valiosa ferramenta na vã tentativa de nos entendermos.

 

Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail

Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail

A BANALIDADE DO FÁCIL

 

 

Ainda louvamos, no Brasil, a cultura do fácil. Se é fácil, é bom. Se não faz pensar, é ótimo. Se apenas diverte, é genial. Se não exige neurônios, merece os altares. Se anestesia, leva ao paraíso. Acreditamos que entretenimento é cultura, banalidade é conhecimento, superficialidade é panaceia, e isso basta para o sucesso do país e das pessoas.

Detestamos as ideias, o debate, o raciocínio. São inoportunos, sugadores de massa cinzenta, ladrões do tempo que poderíamos dedicar às telenovelas ou aos games. Dizemos que ciência, política e filosofia não enchem a barriga, só a cabeça. Se alguém fala de problemática, rimos, brandimos a solucionática, mas não sabemos o que é isso. Na escola, rechaçamos os professores mais exigentes, pedantes cobradores da aprendizagem, fazemos abaixo-assinados para removê-los. Na mesma linha, criticamos os alunos mais dedicados. Destoam da vulgaridade.

Nosso gesto perpetua a desinformação, gera desinteresse pela atualidade, alheia-nos da evolução, afasta-nos da excelência. Em última análise, cortejamos o subdesenvolvimento. Graças à cultura do fácil, tornamo-nos incapazes de discutir, refutar, propor, identificar mentira e manipulação, combater a roubalheira, ter opinião própria, cobrar direitos, ser cidadãos. Resultado: assumimos, há tempos, complexo de inferioridade frente ao resto da Terra, justificado pelas nossas tão alardeadas ignorância, despreparo, incompetência e corrupção, subprodutos da cultura do fácil. Perdemos nosso amor-próprio. Morremos de nosso próprio veneno, a perpétua louvação da mediocridade.

A cultura do fácil obriga-nos a adiar problemas há muito carecendo de solução, das chacinas às reformas de leis obsoletas, das balas perdidas ao comércio de drogas, da má distribuição de renda à falta de serviços públicos razoáveis, do abuso dos impostos à corrupção em todos os níveis de governo. Vivemos hoje dois exemplos contundentes: em vez de cortar os gastos, o governo propõe aumentar impostos. Em vez de encerrar de vez a contribuição de empresas a campanhas políticas, o Congresso a mantém e cria o doador anônimo.

Um dos efeitos mais perversos dessa atitude é o pouco valor que temos dado à vida humana no Brasil. Os cadáveres da pobreza, da negligência, da violência urbana, da ausência do Estado e da impunidade chegam às nossas casas com a regularidade de A Voz do Brasil, aliás viraram a marca de um Brasil sem voz. A cultura do fácil prefere adiar o problema em vez de enfrentá-lo. A mediocridade vive de sofismas e tautologias.

O desenvolvimento de uma ideia, projeto ou nação implica a consideração de muitas variáveis e, com frequência, admite mais de uma solução. Qual a mais benéfica? Qual a mais duradoura? Qual produz menos efeitos colaterais? Corremos o risco até de errar na análise, porém precisamos encarar a complexidade. Para isso, o primeiro passo é o abandono da cultura do fácil.

Eis o difícil.

Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail

UM PAÍS EM MUTAÇÃO – HISTÓRIAS DA CHINA

A China entrou na adolescência há três décadas, e os efeitos do crescimento acelerado, alguns perversos, se fizeram sentir em muitos setores. Por exemplo, o preço dos imóveis nas cidades e nas áreas industrializadas disparou. A especulação campeou, pequenos proprietários foram ludibriados, outros expulsos, sem indenização, das propriedades reconquistadas do Estado a duras penas, alguns simplesmente liquidados pelas máfias da construção. Apesar de ser um milhão de quilômetros quadrados maior que o Brasil, falta terra na China, país de muitas montanhas e desertos: apenas um quinto do território se presta à agricultura. A densidade populacional é sete vezes superior à nossa.

Diante de tamanha falta de espaço, proibiram-se os cemitérios. Nada de descanso eterno comendo grama pela raiz: os corpos devem ser cremados. Em compensação, como pude observar sobretudo no interior, muitas famílias guardam as cinzas dos ancestrais, em pequenos altares domésticos, durante várias gerações. A tradição provoca dor de cabeça nos defuntos: nem depois de partirem eles encontram a paz. Filhos, netos, bisnetos e tataranetos, por conta de duas ou três varinhas de incenso que acendem e esfregam entre as mãos, estão sempre a suplicar a seus mortos ajuda nos assuntos mais variados, dos apertos financeiros aos amorosos.

Creio que a maioria dessas almas, exigidas em excesso, tenha perdido a centenária paciência e abandonado os lares em que viveram. Como a comprovar, os chineses enxergam fantasmas em todos os lugares. São tantos e tão assustadores que influenciaram até a arquitetura. Para mantê-los à distância, construía-se o acesso às casas e templos em ziguezague, às vezes em ângulos retos. Segundo a lenda, fantasmas não dobram esquinas.

Os vivos também penam com o crescimento descontrolado. Para evitar a explosão demográfica, adotou-se a política de “uma família, um filho”. Os casais levaram a exigência ao pé da letra. Se nascia uma menina, sobretudo entre os camponeses, eles a abandonavam ou mesmo matavam. Nos lixões de Xangai, era comum, até duas décadas atrás, encontrarem-se recém-nascidas largadas à própria sorte. Resultado: além de terra, faltam mulheres na China. Estima-se que até sessenta milhões de homens não encontrarão companheiras. Como enfrentarão a frustração ante um dos instintos humanos mais básicos?

Há quem diga que um novo espectro ronde o comunismo, produzido por um tipo desconhecido de revolução sexual, a revolta masculina ante a falta de mulheres. Triste ironia, caso o espectro baixe de fato à terra: o regime que apregoa a igualdade naufragaria graças à desigualdade que provocou. Ponto para a profissão mais antiga do mundo. Apesar do risco de prisão, rodar a bolsinha nas ruas chinesas compensa. Existe freguês sobrando. E o preço anda nas alturas.

Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail

MEU DIA DE PORCO IMPERIALISTA

Há muitos anos, quando a China ainda não era a potência que sustenta e derruba a economia do mundo, tampouco o capitalismo selvagem campeava por lá, visitei uma de suas comunas agrícolas, na qual centenas de camponeses tentavam tirar do solo, além do próprio sustento, algumas sacas extras de arroz e painço para enviar às cidades. Iam muito bem, ganhando seu dinheirinho, fazendo pequenas poupanças, graças à recém-instalada política de privatização da terra: toda a produção que excedesse as quotas impostas pelo governo poderia ficar para os lavradores.

Minha guia e intérprete, uma senhora que, grudada em meu pé, só me deixava ver aquilo que lhe interessava, descrevia o processo de abertura econômica com a eloquência de quem acabava de descobrir a pólvora, aliás, uma invenção chinesa. Apresentou-me às mulheres dos camponeses. Elas, à tarde, em grupo, cantando hinos revolucionários, confeccionavam roupas e bordados que, exportados, renderiam lucros para a cooperativa local. Sem desconfiar, testemunhei o embrião do capitalismo chinês que tomou conta do mundo.

Alice, a guia, contou-lhes, conforme me disse mais tarde, que eu era sul-americano. Creio que a palavra americano provocou a ira de uma chinesa de óculos enormes, bem grossos, cabelos lisos e escorridos como os da Maga Patalógica, postura doutoral de professora catedrática, um metro e meio de bravura. Berrou para mim, com dificuldade na pronúncia dos erres:

– Impelialist pig! Impelialist pig! Impelialist pig!

Eu, porco imperialista? Ou, para ela, qualquer americano, do norte ou do sul, se encaixava no figurino? Ou o título caberia a qualquer visitante? Gritou até que a guia, irritadíssima, esbravejou de volta e, mal sucedida em encerrar a cantilena, avançou sobre a pequenina camponesa, amordaçando-a com a mão, depois o braço. A um pequeno vacilo, ouvi de novo:

– Impelialist pig! Impelia…

No momento seguinte, as duas chinesas rolaram no chão. Não me contive, comecei a rir. Engalfinharam-se, estapearam-se, unharam-se. Jamais alguém tomou tanto minhas dores, com tanto empenho.

– Impelia…

As demais mulheres entraram no deixa-disso, algumas, em solidariedade à companheira, deram cutucões e puxaram os cabelos daquela que me acompanhava. Finda a manifestação contra a minha presença, recuperada a respiração, escutei o pedido de desculpas formais:

– Em nome de todos os povos da China, em nome da solidariedade que une os povos do Brasil e da China, peço desculpas por esse gesto de pouca civilidade. Por favor, transmita a todos os brasileiros e sul-americanos nossas mais profundas desculpas.

Pois é. Estou transmitindo as desculpas agora… A cada vez que me lembro do caso, morro de rir de tanta formalidade e gentileza comigo, enquanto o regime, poucos dias antes, havia trucidado milhares de pessoas na Praça da Paz Celestial. Contrastes humanos.

Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail

TODO DITADOR MERECE UMA CUSPIDA

Certa vez, quando tinha trinta e um anos, dirigi de Madri ao Valle de los Caídos, onde o generalíssimo Franco está enterrado, só para cuspir em seu túmulo. Realizei um sonho de adolescente. Cuspi com prazer na lápide que cobre Franco e, mais tarde, na de dois outros ditadores, um francês e um brasileiro. Stálin escapou por falta de grana. Hitler, porque sumiu. Minha mania cessou quando, como romancista, comecei a me interessar pelas profundezas, pelos meandros, pela alma dessas pessoas detestáveis que, no entanto, são humanas. Humanidade não é sinônimo de bondade. Nunca foi, nunca será. Os maus são até mais romanceáveis. Então parei com a cusparada, aturdido por questões mais fundamentais a meu ofício.
O que faz um homem apegar-se ao poder, julgar-se insubstituível, dono da razão, único com capacidade de chefiar um país? O que faz um homem se transformar em ditador e perseguir todos os que se opõem a suas ideias? Para entender um pouco mais do lado negro da força, li Salazar: Uma biografia definitiva, de Filipe Ribeiro de Menezes, lançado pela editora Leya.
Salazar governou Portugal com mão de ferro durante trinta e seis anos, até que, em coma, foi substituído por Marcelo Caetano, em 1968. Morreu sem saber que tinha sido destituído, pois ninguém teve a coragem de lhe contar o fato. Legou aos portugueses o estado mais atrasado da Europa, mergulhado num obscurantismo católico e rural, porém dentro de seu louco projeto de salvar Portugal através da manutenção de sua pureza cultural e racial, idílica, como se fosse possível, em pleno século 20, resgatar para o pequeno país o sabor das Bucólicas, de Virgílio – sem os ardores homossexuais, é óbvio.
Homem culto, formado em Coimbra, foi incapaz de romper com sua tradicional formação religiosa para separar Estado e fé (aliás, estão querendo juntar os dois no Brasil de hoje, iranizando o país). Talvez por isso, diante de sua estatura intelectual, a verdadeira e a que ele mesmo se outorgou, julgou-se melhor que seus pares e se coroou eterno homem forte. Essa é a sina do ditador. Com alguma cultura, algum carisma e muita força, ele se impõe, arruma bajuladores, cultiva a servilidade, distribui favores e mimos, aniquila opositores, mantém-se no poder.
Esta biografia de Salazar, escrita por Filipe Menezes, não é, entretanto, definitiva. Definitivas, para os ditadores, de direita ou de esquerda, são a repulsa, o desdém, o desprezo das gerações futuras, independentemente da riqueza literária de suas figuras. Eles merecem cusparadas enquanto estão vivos. Apesar do risco.

 

Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail