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O REI DOS MÚSCULOS

Miro é brigão. Briga, ele afirma, é desafio para homem de verdade. Macho. Arruma encrenca em qualquer lugar. Se não arruma, provoca. Nas festas, atiça quem encontra pela frente, sobretudo os fracotes. Distribui esbarrões, derruba a bebida alheia de propósito, sem cerimônia vocifera: “Por que a boneca está me encarando? Tá me achando bonito?”. Se o ofendido não reage, Miro insiste: “Você não é de nada, não?”. Se, ainda assim, não recebe troco, dá o primeiro tapa. No rosto, de leve, para aquecer o sangue do adversário.

Adora sexta e sábado. Bailes em toda a cidade, ocasiões perfeitas para se medir com outros valentões. Uma noitada feliz traz de lembrança, pelo menos, duas lutas. Mesmo que tome uns socos, o resultado é sempre positivo: bate mais do que leva. O que reforça sua crença na invencibilidade. Julga-se o maior brigador do país. O mais forte também. Seu corpanzil lembra uma grande saca de batatas sustentada por dois cabos de vassoura. Exibe-o com orgulho. Até na chuva anda sem camiseta.

Gasta três horas por dia na academia, de segunda a sexta. Duas malhando pesado, uma se admirando no espelho. Miro mira-se e admira-se. Entre um e outro exercício, entra em êxtase com ele mesmo, de frente, de lado, de trás, contraindo os bíceps, levantando os peitorais, medindo o perímetro das pernas, morto de amores pelos próprios músculos. Dizem que se beija quando ninguém o observa, porém há controvérsias. Apenas piscaria o olho, namorando-se em poses sensuais. Confirmado, mesmo, existe apenas seu choro quando o Rodrigo Dentadura, brigão que perdeu os incisivos num sábado de pouca sorte, o ultrapassou no perímetro dos braços.

Reagiu aumentando as doses de testosterona, que compra no mercado negro. Um médico, aluno da academia, o alertou que provavelmente ficará estéril, mantida a superdosagem. Esterilidade sem retorno. Miro não se importou. Vive para o dia de hoje. Crê que jamais confiará numa mulher para ter amor ou filhos. Acha-as todas infiéis. E difíceis de suportar.

De repente, aconteceu. Brigou com um desconhecido, fracote, magro e alto, deu-se mal. E como. De saída, tomou uma voadora que lhe arrancou alguns dentes. Ao cair, duas costelas não resistiram ao impacto dos chutes. Quando os seguranças apareceram, o vencedor saiu de cena. Comemorou a vitória sozinho.

Miro não se corrigiu. Quer vingança. Com as próteses dentárias no lugar, agora diz que faz parte da vida perder de vez em quando. Uma vez em mil, tudo bem. Para evitar que a estatística piore, incrementou a carga de exercícios, a superalimentação, os hormônios. Passou a frequentar duas academias. Uma de manhã, outra à noite. Seis horas de malhação no total, quer dizer, quatro. As duas horas de autocontemplação são sagradas. Nesse período, ele se ama. É o único amor que conhece.

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FELICIDADE GOURMET

 

A felicidade é um prato descomplicado de fazer. É verdade que leva muitos ingredientes, pode custar caro, admite variações, às vezes demora, muita gente jura que o inventou, mas cada um de nós possui talento inato para alcançar as três estrelas do Michelin. É fácil.

Adicione sempre um pouco de desejo à receita. Sem desejo, o prato perde a atração. Preocupações exageradas põem tudo a perder. Cultura e conhecimento podem ser usados à vontade, senão não se aproveita todo o paladar. A Lua deve entrar no tempero, para o cheiro subir ao espaço. A natureza também, para se apurar o gosto da vida. Nada como polvilhar sobre o molho o canto do sabiá ou do pintassilgo, como preferir. Providência simples, que acrescenta doçura. Poesia também entra no preparo. Substitui o sal, quando vem das entranhas.

A base, no entanto, continua você mesmo, suas escolhas, suas preferências. Você decide o que usar e, ao servir-se, será o supremo juiz. Chame os amigos e os parentes para ajudá-lo na cozinha. Eles realçam as delícias da sua receita.

Importante: não se esqueça do ponto. Retire do fogo na hora certa. Tem gente que esperou tanto o prato ficar pronto que morreu antes. Com fome.

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LADRÕES DA BOA-FÉ

 

Sempre que vejo falsos religiosos pregando nas tevês com a maior cara de pau, com a maior seriedade, como senhores absolutos da verdade, penso naqueles 300 picaretas que alguém disse existir no Congresso Nacional, antes de aderir ao grupo. Falsos pastores e falsos políticos são farinha do mesmo saco. Uns e outros sempre me remetem a Tartufo, um dos mais famosos personagens de Molière, o maior dramaturgo francês. Tartufo é, também, o nome da peça que ele protagoniza, das mais conhecidas do teatro.

Tartufo é fingido, hipócrita, mentiroso, corrupto, chantageador, desleal, falso religioso, interessado apenas em tirar dinheiro daqueles a quem faz as mais devotas pregações. A peça estreou em 1664, portanto há 352 anos, e continua atualíssima. São três séculos e meio de Tartufo, sem mudança do caráter humano – e sem perspectiva de melhora. Provocou violenta reação do clero da época, ficando proibida por alguns anos. Quem a visse ou encenasse foi ameaçado de excomunhão pelo arcebispo de Paris.

Leia Tartufo, para ver como a canalhice atravessa o tempo. Depois, ligue a tevê, escute atentamente os canais religiosos com apelo financeiro, analise as técnicas de dissimulação utilizadas, observe a sub-reptícia venda de Deus em prestações mensais. Em seguida, compare os debates no Congresso com a verdadeira atuação, nos bastidores, de deputados e senadores, da venda de emendas ao propinoduto descarado. O resultado é puro teatro, o teatro de Molière, a falsidade de Tartufo até a exaustão. Uma tartufada sem fim.

Acontece que Tartufo, no final da peça, é desmascarado. No Brasil, isso ainda está longe de acontecer. Ensaiamos apenas os primeiros passos. Nossos Tartufos continuam depositários da moralidade, ladrões da boa-fé. A cada dia que passa, Molière estremece no túmulo por nós. Ai de nós.

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DOS ANDES PARA BRASÍLIA, COM PUDOR

Os quíchuas, descendentes dos incas, formam a maior parte da população peruana. Sua língua foi proibida pelos espanhóis, que mataram muitos dos que insistiram em mantê-la. Por séculos não houve livros escritos em quíchua. Escutei este poema perto de Machu Picchu, mantido pela tradição oral, hoje traduzido para o espanhol. Parece que foi criado por um Dom Quixote dos Andes. A simplicidade faz sua beleza. O minimalismo é seu coração.

Hoje é o dia da minha partida.
Era. Hoje não vou mais, fica para amanhã.
Partirei tocando
uma flauta de osso de mosquito.
Minha bandeira será uma teia de aranha.
De um ovo de formiga farei meu tambor.
Minha montaria? Minha montaria
será um ninho de beija-flor.

O provérbio mais famoso dos quíchuas é “ama sua, ama quella, ama llulla”, ou seja: “não roubar, não ser preguiçoso, não mentir”. Já pensou se Brasília o adotasse? O Brasil viraria uma potência até nos Jogos Olímpicos.

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MANIA DE ESCRITOR

 

 

Compro muitas esferográficas, cada vez mais. Mesma marca, mesmo modelo, mesma cor azul. Adquiro, em geral, uma dúzia por dia; uma grosa, quando fico muito tenso. Sempre estou tenso. Num sábado de desespero, trouxe para casa mil e duzentas. Receio que sumam do mercado. Já ameaçaram, três décadas atrás, uma quase tragédia para mim, que vivo de escrever e não suporto computador. Como passar sem elas? Jamais me adaptei a outro tipo de caneta. Tentei, é verdade, não deu certo: a inspiração desapareceu, não produzi uma linha, o pavor se instalou. Daí o apego. Devo-lhes o ofício.

Esferográficas são depósitos de ficção. Dentro das cargas há contos, poemas, novelas e romances, uns grudados nos outros, compactos, prontos. Basta um pouco de sensibilidade para enxergá-los. Cargas e obras se confundem.

Libero as histórias ao derramar sobre o papel o torvelinho de letras. A tarefa demanda paciência. É um quebra-cabeça onde peças de diferentes jogos se misturaram, o início de um ligado ao final ou ao meio de outro, com um detalhe assustador: ignoro as imagens que devo montar. Quando me perco, contemplo a tinta durante horas, busco o fio da meada lá dentro da caneta, até desemaranhar o novelo, frase por frase, vírgula por vírgula.

A coleção cresceu, absorveu meu espaço. Não posso comer, lotou a cozinha. Tampouco dormir, ocupou o quarto. A sala se reduziu ao túnel pelo qual engatinho, espremido entre milhares de caixas.

Não me vanglorio do maior estoque de ficção do mundo. Pelo contrário, temo-o. Cargas oprimem. Não suporto tanto peso.

Compro cada vez mais.

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O SAPO QUE CANTOU COM A ORQUESTRA

 

 

A noite era de gala: início do festival de música em Trancoso, na Bahia. Tudo e todos a postos: orquestra sinfônica, solistas nacionais e internacionais, o teatro de arquitetura única, ao ar livre, acústica perfeita, mais de mil pessoas presentes.

No meio do concerto em Fá maior de Gershwin, um intruso entusiasmado com a beleza da composição solta a voz: é um sapo, dos grandes. O canto, beneficiado pela acústica, inunda a plateia. Muita gente se volta para trás, para confirmar a presença do batráquio na fileira mais alta do teatro. Reconhecido, ele capricha na apresentação. Acompanha o tom da orquestra. Violinos, violas, oboés, trompetes, fagotes e o coaxado parecem ensaiados. Risos pipocam.

O bicho se entusiasma, inventa um som grave e repetitivo, abusa de seus parcos recursos vocais – e a tragédia acontece. O sapo atravessa a orquestra, há um completo desencontro entre os instrumentos e o tenor exibicionista. Alguém lhe desfere um golpe de sapato, o bicho salta de lado e retoma a partitura.

Um grilo salva a pátria. Quem já estava com grilo com um animal, agora tem dois. O grilo estrila. Também se delicia com a acústica. O sapo o vê, esquece a apresentação e vai à caça. Tem êxito. Enquanto o batráquio engole o inseto, penso que o grilo evitou que engolíssemos o sapo.

Histórias de Trancoso. Não da Trancoso portuguesa, famosa pelo inusitado e pela inverossimilhança dos casos, mas da Trancoso brasileira. Aqui um sapo cantou com uma orquestra. Por momentos se saiu bem. Eu vi. E ouvi.

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XIXI EM DEUS

 

Eu caminhava debaixo de sol forte no meio de Mianmar, país asiático antigamente conhecido como Burma. Na região predominam os animistas, seguidores de uma religião que atribui espíritos e deuses a coisas e animais, como montanhas, rios, árvores, elefantes.

O guia da caminhada, Chauk, era animista. Assim que começamos a subir ao pico mais alto da área, ele parou e se pôs a orar, ajoelhado. Perguntei-lhe o motivo. Ele pedia autorização ao deus da montanha para atravessarmos o solo sagrado. Obtida a permissão, seguimos em frente. De repente, ele me segurou:

– Sentes a presença de deus? Está aqui, ao nosso redor. Até tocou minha pele.

Me esforcei para sentir o toque divino, mas nada. Percebi o sol, o calor, o vento abafado, o cansaço, o suor. Nenhum deus. Decepcionado, Chauk seguiu em frente. Parou-me de novo duas horas depois:

– É verdade mesmo que não sentes a presença de deus?

– Não sinto, Chauk. Desculpe-me.

Então veio o problema. Eu quis fazer xixi. Virei de lado, pronto para me aliviar, o primeiro pingo tinha caído. Chauk entrou em desespero:

– Não, não, aqui não, eu lhe imploro. Seremos castigados. O solo é sagrado.

– Como que eu faço, então?

– Segura.

– Não aguento mais.

– Segura.

– Peça ao deus para me liberar, por favor.

Chauk ajoelhou, ergueu as mãos. Falou com tristeza:

– Sinto muito. Deus não permitiu. Aqui, jamais.

– Então vamos voltar depressa.

Desci correndo.  A cada impacto das botas no chão o aperto duplicou. E ainda faltava uma hora para chegar ao banheiro. Não suportei a pressão. Pedi desculpas ao Chauk, pedi desculpas ao deus, pequei. Pequei em cima de umas plantinhas quase sem folhas de tão secas. Salvei-as da morte. O pequeno deus que as habitava devia até me agradecer.

Chauk ficou bravo comigo. Para amenizar, abri uma barra de chocolate, dividi-a com ele, que nunca havia experimentado cacau. Adorou. Dei-lhe minha outra barra. Chocolate lhe fez bem. Ficou falante outra vez. Jogou um pedaço para o deus da montanha e me contou que eu tinha sido perdoado. Ave, chocolate! É uma doce penitência para quem fez xixi em deus.

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O GATO DE LENÇÓIS

 

Quem desce a rua da prefeitura de Lençóis, no sertão da Bahia, encontra o gato de Alice no País das Maravilhas esparramado sobre o peitoril de uma das seis janelas de um casarão centenário. Pachorrento, pelo escovado como se recém-saído de salão de beleza, o animal deixa tombar com displicência uma das patas sobre a parede, o que incrementa a pose de preguiça. Pálpebras cerradas, dispensa aos desconhecidos que o acariciam o descaso de profundo conhecedor da espécie humana: gente chega, gente vai, ele fica. Não se move nem para agradecer a atenção. Das sete vidas, já gastou seis. Longas, por sinal. Muito longas.

À sombra do velho beiral, ele vive no passado. Relembra ex-poderosos da cidade que não pagavam salário aos empregados “para não deixar o povo mal acostumado”. Auxiliados por jagunços, os coronéis mantiveram a escravidão século 20 adentro. Cem anos antes, o felino rememora a corrida aos diamantes, quando a área conheceu o auge e ganhou o nome atual: Chapada Diamantina. No entanto, foram descobertas as minas da África do Sul, mais fáceis e baratas para explorar, e Lençóis entrou em maus lençóis: chegou a decadência. A população caiu para menos da metade.

O gato avança pelo passado, mergulha na história da própria Terra, gravada nos canyons, serras e planícies da região. Enxerga terremotos que rasgaram as rochas, treme ante o choque de placas tectônicas a erguer e afundar toda uma cordilheira, foge do mar que invadiu o sertão até secar milênios mais tarde. Então viu o gelo e o dilúvio chegarem e embaralharem os testemunhos antigos.

O bichano estaca setecentos milhões de anos atrás, quando a Chapada se acalmou em termos geológicos, sem ter com quem trocar ideia: na época, a vida se resumia a simples algas. Ele se teletransporta ao alto do Morro do Castelo e, lá de cima, descortina a vista que jamais o cansa. A cada dia, surpreende-se com a longevidade do planeta. Sabe que a Terra acabará engolindo-o de volta. Questão de tempo. Mas quem já viveu tanto não tem essas preocupações comezinhas.

Com o sorriso de seu famoso parente de Cheshire, o gato de Lençóis se diverte com a presunção de muitos felinos que acreditam ter sido o mundo feito exclusivamente para eles, através do toque de uma varinha mágica. Escuta na velha eletrola da casa o refrão “o sertão vai virar, o mar vai virar sertão”, balança a cabeça em concordância, mas sabe que não estará aqui para o próximo round do dilúvio. Talvez nem sua espécie.

Coço-lhe a cabeça atrás das orelhas, ele se derrete ainda mais no parapeito, ronrona. Com preguiça, abre os olhos. Só então descubro que é cego.

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AGRESSÃO E CURA

 

Quem bate e depois sopra não comete agressão? Quem machuca, quase mata e depois cura não comete crime?

Essas perguntas andam me incomodando. Explico o motivo. Estive em Buenos Aires, e os argentinos me deram de presente a pior gripe da vida. Febre, dor, desânimo, sensação de fim do mundo, tudo junto. Pior que dengue ou zika. Parece que fortificaram o vírus antes de o inocularem em meu corpo.

Acontece que, quando contraio essas gripes deprimentes, meu remédio infalível vem da Argentina. Ele se chama Jorge Luis Borges. Assim que retomo o grande autor portenho, meu espírito se fortalece, o corpo se revigora, viajo na poderosa imaginação e cultura de Borges, embarco em seus labirintos e espelhos, quando dou por mim já não me lembro de doença, de vírus, estou em estado de graça.

Nesta semana, rendido à gripe, folheei as Obras Completas de Borges, mergulhei nas Ficções, na História Universal da Infâmia, no Aleph, nas Inquisições. Horas depois, o milagre. Recuperei o ânimo, encantado uma vez mais com o Bruxo. Minha cabeça voltou a funcionar, o mal-estar cedeu.

Em agradecimento, voltei mentalmente a Buenos Aires, à rua Tucumán, entre Esmeralda e Suipacha, onde Borges nasceu em 1899. Depois entrei no centenário Café Tortoni para curtir o rococó e as discussões intelectuais. Numa de suas mesas, me encontrei certa vez com Borges, encontro imaginário ocorrido na verdade com um sósia e velho amigo dele. Me lembro de que foi lá no Tortoni que comecei a espirrar e a sentir calafrios. Teria eu respirado alguns vírus antigos, muito resistentes, deixados lá dentro, décadas atrás, pelo próprio Borges? Pois é. Fica a dúvida. Bate e sopra. Quase mata e depois salva. Como resolver o dilema?

Importa é que o remédio funcionou. Sempre funciona. Por que você não o experimenta na próxima gripe ou mesmo sem ela? Não tem contra-indicação e não lhe provocará questões éticas sobre culpa, doença e crime. Aqui entre nós: por conta dos efeitos literários benfazejos de Borges, eu até já perdoei os argentinos pelos vírus que me legaram. Perdoo de antemão. Sempre. Uma cabeça em deleite vale muito mais que um corpo com alguns bilhões de vírus a mais.

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O FRALDULENTO – FINAL DA SAGA

 

 

 

Encontrei minha neta Teresa com a fralda mais suja que o Congresso Nacional. Sim, ela conseguiu a façanha. Tentei limpá-la com uns quinze paninhos úmidos. Não fizeram qualquer diferença. Diante de tanta sujeira, lavá-la me pareceu a solução lógica. Embrulhei-a em três fraldas novas, o que ofereceu algum isolamento entre minha pele e a matéria orgânica que escorria até o chão. Fui até a banheira, abri a torneira. Primeiro problema: a água estava quente ou fria demais? Quando concluí que estava morna e confortável, não houve mais jeito. Para mim. O contato tinha sido inevitável. Eu também fedia.

Tentei remover, de longe, a espessa camada amarela com o jato mais forte do chuveirinho, mas não tive êxito. Fui obrigado a segurar a menina. Venci a resistência e a segurei. De repente, vapt. Ela quase caiu. Por reflexo, agarrei-a contra o peito. Ah, como o melado escorrega… Mais liso que gosma de quiabo. Fiquei imundo do peito à calça, enquanto a baixinha me escapava entre a mão direita e a esquerda e quase despencava. Grudei-a com força no último momento, antes que mergulhasse no suco amarelo acumulado junto ao ralo.

Quando me vi, precisava de um banho com urgência. Todo dourado, entrei em desespero. A Teresa percebeu. Sorriu para mim, na vã tentativa de me consolar. Ou a danadinha se divertia?

Resultado da batalha: melhor seria se nós dois tomássemos uma chuveirada. Assim o caldo fedorento iria para o ralo, e recuperaríamos a aparência e o cheiro civilizados. Sob a ducha, apareceu mais problema. A pobrezinha por pouco não foi à lona, quer dizer, ao mármore do piso. Mas também pudera. Bebês ficam muito lisos quando ensaboados. Já me esquecera.

Secar a Teresa foi outra luta. Ela mexia demais na concha de plástico onde minha filha a enxugava sem a menor dificuldade. Quase beijou o chão enquanto eu buscava o talco. No entanto, consegui perfumá-la. Ficou todinha branca, exalando rosas. Da cabeça aos pés. Os olhinhos pretos eram a única parte que se destacava no meio da alvura. Eu, contudo, conseguira. Comemorei a vitória com um pequeno grito. Que arrependimento… Minha neta se assustou e começou a chorar. Com toda a força de sete meses de treinamento.

Sou, porém, perseverante. Peguei um chocalho, balancei-o até sentir cãibra nas mãos. O esforço valeu. Dali a dez minutos, o berreiro parou.

Depois do talco, veio a pomada. Só então ataquei a fralda. O fato de, uma vez mais, colocá-la de trás para a frente não vem ao caso. Acontece sempre. Importa dizer que, no momento em que devolvia a Teresa ao berço, minha filha chegou. Ao ver meu serviço, não teve dó:

– Pai, que fralda mais mal colocada!

Fiquei ofendido. Os fraldulentos merecem mais respeito. Teresa sorriu de novo para mim. Ela se divertia com minha cara ou se vingava? Não quis interpretar a expressão. Dei-lhe um beijo. Com ternura. Como se fosse uma medalha por bravura. Sobrevivera ao avô.

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O FRALDULENTO

Sou fraldulento. Nada a ver com fraude, nem com o Congresso Nacional, mas com fralda infantil. Sou muito lento ao trocá-las, além de jamais conseguir a maneira correta: fica frouxa, não sei qual é a parte da frente ou a de trás, costumo grudar o esparadrapo na pele da pequena vítima. Tem mais: detesto a tarefa. Não apenas pelo cheiro e pela consistência da coisa que as fraldas retêm, sobretudo pela moleza do corpo dos bebês, que sempre me parecem a ponto de desconjuntar-se, quebrar a espinha, escorregar das mãos, cair no chão. Sim, sou fraldulento.

Imagine, então, minha destreza depois de mais de trinta anos sem praticar, isto é, desde que meus filhos cresceram. Tornei-me mais fraldulento que qualquer membro do nosso Congresso. Imagine, agora, eu numa noite, sozinho na casa de minha neta Teresa, de apenas sete meses. Torci para que a baixinha não fizesse nem xixi. Porém, lá pelas tantas, ouvi um choro mais esganiçado. Meu coração disparou: será que aconteceu o pior?

Bem devagarinho, a examinei. Testemunhei uma cena de horror. Tive vontade de fugir. A meleca era tanta que saía até pela nuca. Nunca imaginei que tal quantidade coubesse num ser humano tão pequeno. O pior é que minha neta esticou os braços para mim, mais em pedido de socorro que de carinho. E agora?

Minha reação, pura defesa, foi sorrir e imaginar que nada tinha visto. Suportaria o choro por uma hora, até que minha filha voltasse e removesse o espetáculo dantesco. Suja estava a Teresa, suja continuaria um pouco mais. A consciência não me permitiu abandonar a neta. E se ficasse assada, sofrendo, tadinha? Peguei-a e a fui descascando, camada por camada de pano, até chegar à origem de tudo.

Quando deparei o estado geral da coitadinha, lambuzada da nuca aos pés, concluí: não havia salvação para a pobre garota. A única solução seria o descarte. Humanamente impossível limpar tamanha sujeira. Olhei para a lixeira, mas o anjo da guarda da Teresa foi mais forte. Deu-me um puxão de orelha e ordenou:

– Vamos, Luís, ao trabalho!

– Uai, por que você não vai?

– A obrigação é sua, vovô.

E lá fui eu trocar a fralda. Avô também tem de participar. Quer queira, quer não.

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MARCIANOS NÃO PAGAM CONTAS

 

Não acredito na tão propalada objetividade da ciência, apesar do sucesso do método empírico. Indivíduos de carne o osso fazem as pesquisas, sentimentos os norteiam e, embora tentem ser isentos, crenças impregnam seu trabalho. Como impregnam… Os grupos também aderem, em bloco, a idéias preconcebidas. Segundo os estudiosos da mente, a emoção precede, estimula e guia a razão, e todos ficaríamos loucos caso tentássemos nos desvencilhar dos arroubos do temperamento. A razão pura é um sonho de verão, como ficou provado no famoso teorema de Gödel, o da Incompletude. Somos matematicamente impossíveis de entender o mundo. A não ser que saiamos deste Universo.

Por isso, a comunidade científica, como qualquer outra, pode aderir a inverdades. O certo de hoje com certeza não o será no futuro. A realidade muda com as pesquisas e a troca de paradigmas. Durante séculos, as melhores cabeças propalaram o geocentrismo, tese filosófica tornada dogma religioso e científico. A ideia era tão certa, tão verdadeira, que não admitia contestação. Quem duvidasse ia para a fogueira. Pouca gente duvidou.

Marte também ilustra quanto a subjetividade pode tomar conta dos adeptos da objetividade: a partir do século 19, o planeta transformou-se no maior exportador de alienígenas que, ainda hoje, reaparecem nas fotos da NASA. Outro sonho de verão. No entanto, há quem ainda não se tenha rendido às evidências. Aposto que, se uma rádio retransmitir o trote de Orson Welles de muitas décadas atrás, anunciando uma invasão marciana, teremos cartesianos correndo apavorados pelas ruas.

A lenda dos marcianos começou em 1877, quando o astrônomo italiano Schiaparelli enxergou canais artificiais na superfície do planeta. A fantasia logo conquistou defensores, sobretudo na comunidade científica norte-americana, a começar pelo seu líder, o competente Percival Lowell. Em março de 1901, a sisuda revista Scientific American admitia que “as fileiras dos que desacreditam nos canais diminui cada vez mais”. Note-se que, na época, alguns astrônomos, com os olhos no céu, mas os pés no chão, explicavam o suposto sistema de irrigação no Planeta Vermelho como meros acidentes geológicos ou resultado da baixa resolução dos telescópios. Essas ponderações de nada adiantaram. A maioria dos cientistas viu o que queria: marcianos inteligentes.

Se a objetividade é um sonho, a subjetividade tampouco traz a verdade. Quantos de nossos conflitos decorrem da opinião alheia transformada em fato ou empurrada pela nossa goela abaixo? Até que ponto estamos vendo coisas que nos convenceram a ver através de uma retórica convincente, digna dos melhores sofistas, ou através da manipulação? Como capturar a realidade – se é que existe uma – sem cometer engano?

Descobri tanta inverdade em circulação, tanto delírio no dia a dia, que decretei o fim da realidade. Se nada casa com nada, então nada existe. O real é uma ficção.Isso mesmo, uma ficção! Para comprovar minha tese, deixei de enxergar as contas, ou seja, parei de pagá-las. Que os marcianos as pagassem. Cortaram a luz, a água, o telefone, o cartão de crédito, meu nome foi para o cartório, tomaram meu computador, vão me despejar na semana que vem. Detesto credores. Eles derrubam meu argumento lógico, enterram minha filosofice, não engolem minha conversa, me dão um choque de realidade. Objetiva e subjetivamente, aqui neste quarto às escuras, com sede, fome e frio, não sei como sair dessa.

 

 

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O RISO DO TEMPO

 

Faz 15 anos que o tempo ri de mim. Tudo começou na virada do ano 2000, porque escutei o jornal e a televisão. Nunca escute jornal e tv, hoje eu digo. Quase à meia-noite do 31 de dezembro de 1999, coloquei sete chips contaminados com o bug do milênio sobre cada um dos sete chakras e interliguei-os com fios de cobre. Usei sete pilhas alcalinas, que duram mais, ante o colapso das usinas hidrelétricas, uma tragédia certa em todas as mídias. Parafernália montada sobre o corpo, fui para a varanda e abri os braços, a fim de facilitar a captura da energia cósmica através do chakra do alto da cabeça, o que deflagraria minha viagem no tempo.

Tudo quase foi por água abaixo, nem tanto pela chuva torrencial, mas por causa dos policiais que me acusavam de atentado ao pudor. Afinal, ninguém pode ficar pelado na varanda do apartamento, em cima da balaustrada, com as mãos apontadas para o céu. Para complicar, um bando de engraçadinhos não parava de gritar: “Pula, pula, puuula!”.

Quando soou a primeira badalada da meia-noite, arrepios percorreram minha espinha, vindos da emoção e dos pingos gelados.

O bug funcionou direitinho. Instantaneamente, o circuito voou para o anno da graça de 1900. Como eu estava conectado, fui junto. Num momento, eu vivia em 1999; no seguinte, cem annos antes. Eu havia descoberto a máchina do tempo, simples, barata, efficiente. Com uma vantagem adicional: ella me faria eterno. Quando voltasse a 1999, depois de viver outra vez todo o século 20, usaria de novo o artifício para recomeçar. Pensei no tédio de enfrentar os mesmos eventos, as mesmas catástrofes, as mesmas mortandades, afastei na hora o pessimismo. Preferi me concentrar nas dez décadas que teria pela frente. Eu lucraria muito com meus conhecimentos. Por exemplo, faria fortuna nas loterias. Memorizara vários números premiados. As boas perspectivas compensariam a mesmice.

O sonho acabou no primeiro minuto. Materializei-me no meio de uma multidão, à porta de uma igreja, que celebrava a esperança em 1900. Estupefactas, as senhorinhas sentiram-se obrigadas a desmaiar e os cavalheiros, a brandir bengalas em nome do pudor. Ganhei galos na cabeça e roxos no corpo. Toda nudez será castigada, no início ou no fim do século.

Quasi linchado, arranquei as pilhas que alimentavam os chips. Num átimo, voltei para casa. Fogos de artifício e canhões de laser illuminavam a noicte, os polliciaes ainda me ameaçavam prender. Os engraçadinhos insistiam: “Pulla, pulla, puuulla!”. Seria meu pullo a grande cellebração da virada do século? Não tinha a multidão programma melhor para fazer?

Adentrei o apartamento, tomado por um mau estar differente. Desde então, faz 15 anos e alguns meses, tenho a impressão de que algo se corrompeu em mim. Não consigo determinar o quê, mas percebo seus signaes, por exemplo quando a orthographia me trae ou esqueço a escripta. Sinto-me com mais de cem annos. O pharmacêutico me tractou com diversas poções, infructíferas até agora. Meu humor peora a cada dia. Minha memmória idem. Creo que deste millénio eu não passo.

 

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O PEIDO FATAL

 

Imagine-se à beira da piscina, num hotel em Ipanema, à beira-mar, numa tarde de muito sol. Deitado na espreguiçadeira, você acompanha as hóspedes que circulam dentro e fora d’água. A seu lado, duas delas se bronzeiam com fios dentais. Seus filhos e netos se retiraram para ver os atores famosos do filme que estão rodando nos jardins da frente. Os netos estão felizes. Afinal, é Dia das Crianças. Momentos assim removem o estresse do dia a dia, relaxam o corpo. Bem, relaxaram demais o meu.

Todos produzimos gases durante a digestão. Uns mais, outros menos. A rainha da Inglaterra – ou seu marido, não sei ao certo – parece pertencer ao primeiro time. Para tirar a dúvida, confira a cara do príncipe Harry que estava atrás do casal real, na sacada do palácio de Buckingham, após um jato odoroso. A reação principesca diz tudo. As fotos só não esclarecem se houve muito barulho.

De volta ao Rio, senti o efeito da digestão de uma portentosa feijoada. Um bólido de ar cruzou meus intestinos. A custo, segurei-o, um centímetro antes de ganhar o céu aberto. O danado logo arrebanhou companheiros, cada qual mais libertário que o outro, revoltados com a prisão. Cutucaram-me com força e com sutileza, fingindo ser pacíficos.

Após uma longa luta, rendi-me ao assédio. Liberei o mais insistente. Saiu em silêncio, febril. Em segundos, contaminou a área a meu redor e seguiu em frente, desinibido. Entendidos em guerra química recomendariam o uso imediato de máscara contra gases venenosos.

As mulheres nas laterais olharam para mim, desconfiadas. Encarei-as, devolvendo a desconfiança, recolheram-se. Um zunzunzum de desconforto e curiosidade circulou pela piscina. Encolhi-me, inocente.

Nisso, uma de minhas netas voltou. Veio correndo, com o entusiasmo dos seis anos, gritando:

– Vovô, vovô, eu vi fazer um filme!

Assim que chegou a meu lado, ela deu duas profundas fungadas, fez cara de desagrado e fuzilou:

– Hum, vovô, você peidou! Conheço este cheiro. Agora você não respeita mais nem o Dia das Crianças!

As gargalhadas me pareceram ensurdecedoras. Fui a diversão de muita gente naquela tarde. Mesmo no dia seguinte, alguém sempre me sorria, acusador: “Foi ele!”. Netos são um perigo. Que o diga a rainha da Inglaterra. Eu também.

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A PIPI, O PARAÍSO E OS BILIONÁRIOS DA FORBES

 

 

Fundei a PIPI – Primeira Igreja da Prosperidade Infinita – inspirado por um pedreiro que criou sua própria igreja, “porque igreja está dando muito mais dinheiro que pedreiro”. Nunca vi tanta sinceridade e pragmatismo num futuro pastor. Assumiu o objetivo numa boa, sem esconder nada. Também fiquei com inveja de quatro pastores brasileiros que a Forbes listou entre os 1200 bilionários (em dólares!) do mundo. A revista também foi pragmática. No ramo de negócio, escreveu, sem despistar: religião.

Na minha PIPI, seguindo a lógica do mercado, a retribuição não tem limite. Quem doa mais, aqui e agora, leva mais do lado de lá, depois. Por exemplo, quem entrega apenas o dízimo ganha férias em Cancún ou Paris, depois de morto evidentemente. Quem oferece o trízimo (agora há seitas que exigem 13% do salário do fiel) curte um mês nos resorts do nordeste brasileiro, que continuam mais caros que viagens ao exterior, apesar do dólar nas alturas. Ao maior doador (exijo dele alguns milhões em minha conta) está reservada, no paraíso, uma tarde inteira na cadeira do Grande Chefe, a contemplar de cima toda a grandeza do infinito. Alguém promete mais do que a PIPI? Ninguém!

O outro mundo tem uma grande vantagem para as igrejas, como a PIPI: não possui Procon. Sem fiscalização, ninguém jamais reclamou ou reclamará se o produto comprado aqui foi entregue lá, a contento. Muita gente de cá já descobriu essa falha de comunicação básica e perene, e partiu para o vale-tudo. Oferece absurdos. Não vou perder essa guerra. Assim, nada se compara às vantagens da minha PIPI. Ela promete até sexo farto, seguro e gratuito entre os eleitos. Há bilhões de almas disponíveis para todos, oriundas de todos os séculos, nenhuma com Aids e atribulações afins, problemas exclusivamente terrenos. Diversão segura para todos.

Os banquetes da PIPI no além serão literalmente paradisíacos. Haverá 666 pratos (belo número, hein?) no almoço e no jantar, preparados no fogo eterno do andar inferior por todos aqueles que rejeitarem ou criticarem a PIPI.

Se você quiser aderir à PIPI, não perca tempo. Traga sua declaração de renda para eu medir seu potencial de doação. Viro o Leão com sonegação. Faça os depósitos em qualquer banco. Também aceito cartão de crédito. Divido em até cinco vezes. Juros módicos.

Como a esperança é a última que morre, morro de esperança de conseguir minha prosperidade infinita. Aqui na Terra, é óbvio, junto com a turma da Forbes. Às suas custas, caro seguidor da PIPI. Agradeço de antemão. Você é um anjo.

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GUERRA DE TRAVESSEIROS

 

O grande segredo do escritor é manter o espírito jovem, curioso, destemido, que avança sobre o tempo como se ele durasse para sempre januvia 50 mg. Alguns resumem este segredo na fórmula Peter Pan: nunca cresça. Há limites. Estou muito contente com minha vida adulta, não quero regredir de maneira alguma. Detestaria usar fralda, chupar bico ou pedir autorização para sair de casa. No entanto…

No entanto, no mundo adulto há espaço para brincadeiras que a maior parte dos crescidos despreza. Sobretudo brincadeira com quem ainda não cresceu e, com todo o direito, vive a infância em toda a sua graça. É o caso de meus netos. Eles adoram uma luta de travesseiros. Eu também.

De vez em quando, eles se juntam e, não sei por quê, sempre me elegem a vítima do grupo. Caem sobre mim com a força dos braços, sem se pouparem, a ponto de, vez ou outra, voar penas ou flocos para os lados. E, ocasionalmente, um deles, atingido por um golpe certeiro.

Dia desses, num hotel, meus quatro netos mais velhos combinaram comigo uma guerra, enquanto os pais jantassem fora. Combinação em segredo, pois pais, se puderem, colocam empecilho em tudo. Sou pai, conheço o mecanismo. Como também sou avô, dou-me o direito de desligar o mecanismo, em nome da farra. Mais vale uma pequena lembrança que uma grande repressão.

Lutamos os cinco com tanto vigor que, lá pelas tantas, o apartamento do hotel virou algazarra. Depois que pegaram fogo, não adiantou avisar às crianças que excedíamos em barulho e pulos no chão. Alertei-os sobre o incômodo para os vizinhos. Que nada, a briga estava boa demais para arrefecer o ânimo. Nem um abajur lançado ao chão por má pontaria os fez mudar de ideia.

De repente, o telefone tocou. A recepcionista, muito delicada, informou que os hóspedes de cima, de baixo, da frente e dos lados pediam para encerrarmos a bagunça. Morri de vergonha, mas estava feito. Cedi a vitória por nocaute aos netos, e os coloquei para dormir.

Ao ver os quatro juntos, lado a lado numa cama de casal, em sono solto, leve sorriso nos lábios, senti uma enorme alegria: a lembrança da luta duraria muito mais entre eles que em mim. Eles me concederiam a eternidade, sua doce eternidade da infância, preservada pela memória. Como se o tempo durasse para sempre. E todas as guerras terminassem em tamanha paz.

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PAIXÃO, OUTRO MODO DE USAR

 

 

A paixão conduz a vida. Literalmente. Ela leva à procriação, que nos perpetua no mundo. Mas existem outros tipos de paixão, às vezes tão avassaladores quanto uma noite no motel. Conheci pessoas que amavam os livros mais que os parceiros de cama – e nunca se arrependeram. Livros, para elas e para eles, são pura libido. Imagino suas cantadas em Dom Casmurro: “Passas a noite comigo, tesouro?”. Dom Casmurro nunca teve a escolha de dizer não, a homem ou mulher.

Entre estes libidinosos, estão três ex-professores de literatura. O mais velho, em discurso inflamado, incensava o vocábulo “que”, que se presta a tanto uso e carrega versatilidade única, capaz de, entre outras coisas, unir ideias díspares e, com toque de vara de condão, ordenar o discurso. O segundo, detrator do “que”, esmerava-se para mostrar a lógica interna do português, espalhada nas regras e nas sutilezas da língua, onde arte e ciência se mesclam. Língua remete ao amor: seduz e deixa-se seduzir. Além disso, captura o tempo, digere-o, incorpora-o e evolui com ele. Como não incluí-la entre as paixões? O mais jovem dos mestres me apresentou a Shakespeare, destrinçou seus meandros, deixou-me a impressão de que jamais deveria escrever diante da beleza sufocante do texto do Velho Bardo. Custei a me livrar da angústia da influência, com direito a frequentes recaídas.

Os três professores contagiaram-me, garoto que lia e rabiscava histórias. Domar palavras, desde cedo, transformou-se em ofício, paixão erótica. Se o sexo, no auge da fusão, exige sobretudo o corpo, a criação, a qualquer momento, requer corpo, mente e alma. Daí sua durabilidade, daí sua resistência, renovada em cada romance, em cada criança de palavras que concebemos e trazemos ao mundo. A escrita, durante a gestação que, em geral, leva mais de nove meses, não apresenta o exagero de testosterona para o qual a natureza nos preparou durante milhões de anos, entretanto a orgia verbal pode ser transmitida, multiplicada em cada leitor e fala-nos ao cérebro e ao coração.

Os muito comedidos que me perdoem, mas paixões são fundamentais. Com sua ajuda, o ser humano evolui sobre a Terra. Elas conduzem a vida. À vida também.

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SANTO NÃO TIRA CARTEIRA DE MOTORISTA

 

Sempre que vejo um carro cheio de amuletos, fitas, frases e adesivos protetores contra acidentes, eu me lembro de seu Divino, homem de muita fé. Ele deve ter sido um dos piores motoristas que já passaram pela Terra. Nunca entendi como conseguiu a carteira. Morria de medo de estrada e de trânsito. Assustava-se com cada veículo que o ultrapassava. Fugia, apavorado, para o acostamento, houvesse ou não acostamento. Dirigia a vinte por hora, o rosto colado ao volante. Derrubava a mureta da garagem duas vezes por semana. De vez em quando, caía dentro do mata-burro à entrada de sua fazenda. Um perigo, o seu Divino. Para ele e para os outros.

Um dia resolveu, por precaução, escrever nas portas de sua velha Rural Willys uma quadrinha com rima bem rica, especialmente encomendada ao sacristão, para atrair as bênçãos celestiais:

 

“O Pai na frente,

A Mãe na guia,

Livrai-nos de acidente,

Jesus, José e Virgem Maria”.

 

Virou chacota: de tão barbeiro, precisava da proteção da Sagrada Família inteira. Nem bem começou a desfilar o carro bento, bateu num barranco, capotou e caiu dentro de um córrego. Ao ser resgatado, de bom humor, disse que estava dando água para a tropa de cem cavalos do motor.

Passado o susto, ficou ressabiado: por que os céus não o haviam protegido? Depois de muito pensar, descobriu a razão: não era lá muito devoto da Virgem Maria. Preferia outra santa, que considerava mais milagrosa. Para cortejá-la, raspou das portas o nome da Virgem e pintou ele mesmo, em garranchos, o da eleita:

 

“O Pai na frente,

A Mãe na guia,

Livrai-nos de acidente,

Jesus, José e Nossa Senhora Aparecida”.

 

De nada adiantou lhe dizer que, além de perder a rima, havia trocado seis por meia dúzia. A mudança tampouco deu certo. Seu Divino continuou trombando e batendo, dia sim, dia não. Depois de quase destruir a Rural Willys numa focinhada de frente contra um caminhão, encostou-a na garagem, para o bem geral e alívio da família. Fé é fé, mas, ao volante, quem funciona mesmo é o motorista. Afinal, santo nunca tirou carteira de habilitação.

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