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VALE A PENA SER ESCRITOR?

Sempre amarelo diante da página em branco. Ao encerrar o dia sem uma linha aproveitável, avermelho. De raiva. Temo o esgotamento da fonte, a incompetência, a chuva no molhado. Dar vida ao vazio do papel, ou melhor, enchê-lo com um texto no mínimo razoável é o pesadelo do qual nunca me livro. Persegue-me até depois que durmo. Sonhei com um robô que, ao ser ligado, começava a escrever histórias e só parava quando estavam prontas, sem o desgaste da procura de palavras, personagens, situações, enredos.

Robotizar a escrita seria uma solução para meu medo? Nunca. A máquina acabaria com o melhor da festa, o instante em que a cabeça e a ideia entram em fase, se fundem, e o mundo se ordena. Ele me roubaria o momento da síntese, da captura, do insight, o átimo de discernimento que faz toda a diferença. Quem cria sabe como a criação é prazerosa. Pode vir de um poema, uma crônica, uma solução arquitetônica, um diagnóstico médico. O processo culmina – ou apenas se inicia? – no mesmo eureka neuronial.

De posse do esboço, como fixá-lo na tela do computador? Como transformar lampejos em palavras, como transpor a rapidez da química mental para a lentidão da escrita? Como agarrar a inspiração antes que escape? Como traduzir a amplitude da emoção para a rigidez do símbolo? Como conduzir o estouro da boiada para o curral do texto? Bem, nessa hora, não há berrante que ajude. Nem berro. Não conheço outro caminho senão o da experiência e do erro. Cerca-se daqui e dali, rodeia-se, fecha-se a porteira com muita rês do lado de fora. Invejo quem consegue, na primeira investida, capturar o rebanho. Em desespero, concluo, às vezes, que jamais fui vaqueiro.

Livro pronto, enfrenta-se o editor, uma pessoa à procura de obras-primas, ou melhor, bom entretenimento, ou melhor ainda, best seller. Coisa fácil, sem reflexão. Tece elogios para Michael Crichton, lamenta que o escritor brasileiro não procure apenas divertir, acha-o muito literário. O leitor, contudo, não é bobo. Sabe que a literatura significa muito mais que soltar tiranossauro num parque.

Depois de publicado, o livro vai para uma feira, ao lado de centenas de milhares de outros. A pergunta sempre me ocorre: há algo que ainda não tenha sido escrito? Por que me dedicar à ficção num mundo aferrado a realidades muitas vezes mais desvairadas que o romance mais imaginoso?

Acredito que existem respostas. Cada autor traz uma experiência exclusiva, sintetiza as visões anteriores do ser humano e acrescenta o tempero da época em que vive. Deixa uma receita modificada, cujos ingredientes recém-adicionados costumam ressaltar sabores já esquecidos. Além disso, este século nunca aconteceu antes, portanto a obra é um testemunho de nosso tempo para o futuro. Se vai ficar, não importa. Há que se escrever.

Já disseram que ser escritor é pior que praga de mãe. Não concordo. É uma atividade como qualquer outra e proporciona prazeres adicionais. Por exemplo, minha alegria neste momento, quando encerro a crônica. O ponto final sempre significa uma vitória, de Pirro às vezes. Perco o amarelo paúra, começo a recuperar a cor. Superei, de novo, a síndrome do papel em branco.

Passo agora a pensar em sua confortável situação, caro leitor. Você aprova ou rejeita o texto, para no meio, põe de lado, sem levar em conta a energia despendida ou meu medo. Posso afirmar: escrever exige mais esforço que ler. Mas há quem goste do ofício. Sou um desses.

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MANIA DE ESCRITOR

 

 

Compro muitas esferográficas, cada vez mais. Mesma marca, mesmo modelo, mesma cor azul. Adquiro, em geral, uma dúzia por dia; uma grosa, quando fico muito tenso. Sempre estou tenso. Num sábado de desespero, trouxe para casa mil e duzentas. Receio que sumam do mercado. Já ameaçaram, três décadas atrás, uma quase tragédia para mim, que vivo de escrever e não suporto computador. Como passar sem elas? Jamais me adaptei a outro tipo de caneta. Tentei, é verdade, não deu certo: a inspiração desapareceu, não produzi uma linha, o pavor se instalou. Daí o apego. Devo-lhes o ofício.

Esferográficas são depósitos de ficção. Dentro das cargas há contos, poemas, novelas e romances, uns grudados nos outros, compactos, prontos. Basta um pouco de sensibilidade para enxergá-los. Cargas e obras se confundem.

Libero as histórias ao derramar sobre o papel o torvelinho de letras. A tarefa demanda paciência. É um quebra-cabeça onde peças de diferentes jogos se misturaram, o início de um ligado ao final ou ao meio de outro, com um detalhe assustador: ignoro as imagens que devo montar. Quando me perco, contemplo a tinta durante horas, busco o fio da meada lá dentro da caneta, até desemaranhar o novelo, frase por frase, vírgula por vírgula.

A coleção cresceu, absorveu meu espaço. Não posso comer, lotou a cozinha. Tampouco dormir, ocupou o quarto. A sala se reduziu ao túnel pelo qual engatinho, espremido entre milhares de caixas.

Não me vanglorio do maior estoque de ficção do mundo. Pelo contrário, temo-o. Cargas oprimem. Não suporto tanto peso.

Compro cada vez mais.

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DE ONDE VÊM OS POEMAS?

MUSA ANTIGA

 

A camisa no cabide

me encara

indaga há hora e meia

por que dela me ocupo

se sobram trabalhos e dias

escuto carros, makitas zoam

homens fecham negócios, buscam comida

crianças estudam, aviões passam

em silêncio e grito

o manso e o aflito

se atiram na vala comum

da vida

sorrio para a camisa marrom

no cabide de enganos

e escrevo Hesíodo

no mesmo tom, mesma virtude e azar

para gregos e troianos

sou Pierre Menard

há dois mil e setecentos anos.

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A DOR DOS ARGENTINOS E DOS SERTANEJOS

Agora que o papa é hermano e os argentinos são notícia por causa das eleições presidenciais, pergunto-me qual livro melhor representaria o querido país vizinho. Minha escolha coincide com a de muita gente, inclusive a de Jorge Luis Borges, genial autor cujas obras mereceriam a honraria.

Assim, fico com o livro Martín Fierro, escrito por José Hernández na década de 1870. Faz, portanto, quase um século e meio que Martín Fierro encanta nossos hermanos. Ele aborda as lutas, golpes, perseguições, dores, amores, aventuras e desventuras do habitante das grandes pradarias dos nossos vizinhos, o gaúcho. Sim, é gauchesca a obra mais característica dos hermanos, com direito a todos os ingredientes do gênero, da honra desmedida ao machismo e à dor de cotovelo.

Trata-se de um longo poema, quase 1200 sextetos entremeados de composições mais longas, com rimas bem sonoras, bem ricas, na linguagem típica do gaúcho que era malquisto e malvisto pela aristocracia do país, mas que possuía um espírito cheio de orgulho e força, com uma filosofia marcada pela vicissitude.

José Hernández conhecia bem seu personagem, pois viveu próximo a ele desde a infância, a ponto de confundirem-se criador e criatura. Mergulhar em Martín Fierro é voltar no tempo, é pressentir as letras que fariam sucesso com o tango décadas depois.

Martín Fierro recupera um modo de vida que hoje em dia faz sucesso entre os fãs dos rodeios de Barretos, em São Paulo. Aliás, os sextetos de Martín Fierro facilmente se transformariam em música sertaneja, porém com qualidade muito superior àquela que a gente ouve. Infinitamente superior, diga-se de passagem.

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DRUMMOND 113 MEMÓRIAS

 

 

No meio do caminho tinha uma pedra

Tinha uma pedra no meio do caminho.

 

Assim Carlos Drummond de Andrade inicia seu famoso poema, escandaloso para a época da publicação, tanto que o poeta se divertiu ao compilar e publicar 194 páginas de descomposturas indignadas contra os dez versos de No Meio do Caminho.

Drummond é uma quase unanimidade nacional como nosso poeta maior. Autor de obras como Rosa do Povo, Claro Enigma, Sentimento do Mundo e Boitempo, além da prosa em Contos de Aprendiz e Fala, Amendoeira, o mineiro de Itabira capturou o mundo, vasto mundo em palavras e versos, com e sem rima, que, décadas afora, não envelhecem e continuam falando como dois olhos que acordam os homens.

Para quem deseja degustar Drummond, há uma Antologia Poética, por ele organizada, que oferece uma boa introdução a seu trabalho. Ele tinha apenas duas mãos e o sentimento do mundo. Ajudado pelas lembranças de Minas Gerais, casas entre bananeiras, pomar amor cantar, a fotografia na parede, enquanto deixava culpas no caminho e a luta vã com palavras, reuniu as ferramentas para consagrá-lo. Há muita memória em sua obra.

Hoje me lembrei de Drummond. Amanhã ele faria 113 anos. Pois de tudo fica um pouco. De Drummond, fica muito. Fica toda a poesia que nos encanta. Fica tanta memória. Mesmo que ele não gostasse dela.

 

Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.

Ficou um pouco de tudo
no pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,
retrato.

(…) E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.

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A CIÊNCIA DA INSIGNIFICÂNCIA

Até o século 20, o ser humano era a figura central do Universo, orgulhoso por ignorância, arrogante por herança mítica, grande por pequenez. Julgávamo-nos razão bastante para a existência de tudo que nos cerca, críamos mesmo que podíamos usar e abusar do planeta, talhado sob medida divina para nossas necessidades, fonte eterna de água, comida e materiais. A lenda sucumbiu à realidade. De queda em queda ao longo das últimas décadas, assumimos condição periférica, desprovidos de privilégios, sem pai nem mãe, sujeitos a limitações cada vez mais iminentes. Ante a imensidão desvelada, viramos nada.

Quem nos pulverizou de tal maneira? Os principais responsáveis foram os físicos. Eles forjaram nossa nulidade. Moldaram nosso pensamento, destruíram a objetividade absoluta com a introdução do observador, assombraram-nos com novas interpretações da realidade, trouxeram medo com a fissão e a fusão atômicas. Mais que quaisquer outros profissionais, ampliaram as fronteiras do que conhecemos ou julgamos conhecer. Mergulharam no infinitamente pequeno, diluíram a matéria em flutuações adimensionais, inquiriram o infinitamente grande, construíram uma ponte quântica entre os extremos, descobriram a expansão do Universo, postularam começo e fim para os átomos, descreveram dezenas de fenômenos e partículas que teriam ocorrido durante o primeiro nanossegundo cosmológico, sucumbiram ante a matéria e a energia escura que tudo envolvem e ainda não se revelam. O Big Bang, hipótese de trabalho com várias lacunas, frequenta nossa mesa tanto quanto um espaguete ao molho de tomate.

Os físicos também nos legaram a palavra do século: relatividade. Embora herdada do pai dos cientistas modernos, Galileu Galilei, a relatividade nos arrebatou após o trabalho de Einstein. Não conheço outra com tamanha influência, nem em Darwin, autor da teoria da evolução, nem em Freud, grande divulgador de neologismos. Da antropologia à arte, da política à filosofia, mesmo no humor, tudo ficou relativo. Einstein, passado um século desde a Relatividade Geral, ainda nos arranca admiração e espanto. Graças à singeleza de suas equações, a física perdeu o hermetismo e ocupou o espaço das ideias. Ganhamos novo paradigma.

Diante de tamanha abertura para o Cosmo, o grande e o pequeno Cosmo, ganhamos alguma sabedoria, mas perdemos o orgulho de senhores do Universo. Embora continuemos os mesmos, com nossas carências de ar, água, comida, amor e curiosidade, paradoxalmente nossa mente cresceu enquanto perdíamos o status de senhores da criação. Hoje nos encantamos com nossa insignificância diante de um Universo que ultrapassa a imaginação. O importante é que o encantamento persiste.

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A FICÇÃO MOLDA A REALIDADE?

Não custa repetir: a leitura muda o cérebro, tanto no funcionamento quanto na estrutura física. É o que dizem os neurocientistas. Quando lemos muito, sobretudo obras de ficção (romance, novela, conto, poesia), percebemos melhor o mundo a nosso redor, melhor nos adaptamos aos desafios, melhor nos saímos com o sexo. Até no sexo, quem diria. É fato: bons leitores e boas leitoras arrumam parceir(a)os com maior facilidade. Tem mais: o cérebro dos que leem muito também custa mais para envelhecer.
Sim, a leitura de romances, contos e novelas é um tipo de seguro de vida, quase uma garantia de que provavelmente chegaremos à velhice com boa saúde mental. Dois estudos recentes feitos nos Estados Unidos comprovaram, uma vez mais, esses benefícios.
O primeiro estudo, executado na Universidade Tufts, em Boston, demonstrou que a leitura desenvolve melhores circuitos cerebrais, isto é, constrói um tipo de via expressa no cérebro por onde os impulsos elétricos circulam com maior velocidade que nas pessoas que não leem. Em outras palavras, quem lê raciocina mais rápido.
A outra pesquisa, feita na Universidade de Stanford, na Califórnia, constatou que, nos leitores assíduos, os neurônios, sobretudo os do hemisfério esquerdo do cérebro, custam muito mais para envelhecer. Esse benefício não acontece com pessoas analfabetas ou pouco chegadas aos livros, diz o resultado final. Uma pena.
Resumindo a questão: além de raciocinar mais rápido, quem lê raciocina por muito mais tempo e com melhor qualidade. Como costumo dizer, leitura é uma questão de saúde pública. Só falta descobrirmos o óbvio.

 

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A ARTE DE CARREGAR UMA MORIBUNDA NUM CARRINHO DE MÃO

 

Através da literatura, a gente conhece muitos países, visita seus sertões, encontra sua gente, recorda o passado com suas histórias boas e cruéis. Conhece sem sair do lugar, no conforto de uma poltrona, a mente presa e liberta pelas páginas que lê. Quer conhecer a África do Sul gastando quase nada? Isso é possível através da arte de JM Coetzee, o mais famoso escritor sul-africano da atualidade. Até o Prêmio Nobel ele já ganhou.

“Vida e Época de Michael K” é o romance de Coetzee que traz um homem envolvido numa guerra que não compreende, perseguido por agentes de um regime totalitário, assediado por pessoas que desejam controlá-lo. Sem saber, Michael busca a liberdade, nasceu para ela e quase a perde nas armadilhas que a sociedade lhe prepara: o cárcere, o trabalho forçado, a sedução, o amor filial, o compromisso, a obrigação de ir até o fim. Ele vive uma situação insólita: carrega a mãe doente num carrinho de mão África do Sul afora, em busca do lugar onde ela teria nascido e agora deseja morrer. Faz esse último pedido a Michael, que o atende. Depois do desenlace, ele, abobalhado, deformado de nascença, inculto, não faz perguntas, não questiona, apenas cumpre a promessa, embora não saiba ao certo se o lugar ao qual leva as cinzas maternas é, de fato, o torrão natal dela.

Apesar de todo o cerceamento, Michael é um homem livre: acompanha na escuridão a semente que germina, esgueira-se entre as pessoas como sombra, contempla o mar e o céu, nada espera do mundo, nada sonha. Livre, simplesmente vive.

JM Coetzee consegue com um personagem tão simplório criar uma obra cativante, hipnótica, inesquecível. Tece a trama com as minúcias de um crochê. Para completar o fascínio, adiciona o cheiro das paisagens, a beleza das estepes e das montanhas, a amplidão dos vazios geográficos sul-africanos. Ao mesmo tempo, escreve um violento libelo contra a tirania, o totalitarismo, a guerra, a discriminação. Literatura, já disseram, é magia. Coetzee é um de seus grandes magos.

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PAIXÃO, OUTRO MODO DE USAR

 

 

A paixão conduz a vida. Literalmente. Ela leva à procriação, que nos perpetua no mundo. Mas existem outros tipos de paixão, às vezes tão avassaladores quanto uma noite no motel. Conheci pessoas que amavam os livros mais que os parceiros de cama – e nunca se arrependeram. Livros, para elas e para eles, são pura libido. Imagino suas cantadas em Dom Casmurro: “Passas a noite comigo, tesouro?”. Dom Casmurro nunca teve a escolha de dizer não, a homem ou mulher.

Entre estes libidinosos, estão três ex-professores de literatura. O mais velho, em discurso inflamado, incensava o vocábulo “que”, que se presta a tanto uso e carrega versatilidade única, capaz de, entre outras coisas, unir ideias díspares e, com toque de vara de condão, ordenar o discurso. O segundo, detrator do “que”, esmerava-se para mostrar a lógica interna do português, espalhada nas regras e nas sutilezas da língua, onde arte e ciência se mesclam. Língua remete ao amor: seduz e deixa-se seduzir. Além disso, captura o tempo, digere-o, incorpora-o e evolui com ele. Como não incluí-la entre as paixões? O mais jovem dos mestres me apresentou a Shakespeare, destrinçou seus meandros, deixou-me a impressão de que jamais deveria escrever diante da beleza sufocante do texto do Velho Bardo. Custei a me livrar da angústia da influência, com direito a frequentes recaídas.

Os três professores contagiaram-me, garoto que lia e rabiscava histórias. Domar palavras, desde cedo, transformou-se em ofício, paixão erótica. Se o sexo, no auge da fusão, exige sobretudo o corpo, a criação, a qualquer momento, requer corpo, mente e alma. Daí sua durabilidade, daí sua resistência, renovada em cada romance, em cada criança de palavras que concebemos e trazemos ao mundo. A escrita, durante a gestação que, em geral, leva mais de nove meses, não apresenta o exagero de testosterona para o qual a natureza nos preparou durante milhões de anos, entretanto a orgia verbal pode ser transmitida, multiplicada em cada leitor e fala-nos ao cérebro e ao coração.

Os muito comedidos que me perdoem, mas paixões são fundamentais. Com sua ajuda, o ser humano evolui sobre a Terra. Elas conduzem a vida. À vida também.

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VISITA AO PARAÍSO – COM DIREITO A RETORNO

 

Nestes dias de muita turbulência, cansados de tanta corrupção e incompetência, nada como um cantinho bem quieto para refrescar nossa cabeça que anda deste tamanho. Que tal o paraíso? Lá tudo é sereno. Quer dizer, quase sereno. Melhor ainda se a gente puder visitá-lo e voltar em seguida. Pois consegui a façanha através de uma obra original, gostosa e criativa, dessas que a gente não larga até o fim, enquanto ri sozinho. Trata-se de um livro de crônicas que devolve à vida escritores já falecidos e lhes arranca palpites sobre as próprias criações, sobre o mundo atual, sobre o cotidiano dos vivos. Ah, sim, os ressuscitados também fofocam. Muito.

O autor do resgate de vinte e cinco escritores que já nos deixaram é o angolano José Eduardo Agualusa, conhecido entre nós por seus romances Estação das Chuvas e O vendedor de Passados. Agualusa psicografa opiniões de Machado de Assis sobre o acordo ortográfico, Vinicius de Morais elogia a literatura de Chico Buarque, Jorge Amado diz que a morte o salvou dos patrulheiros do politicamente correto, Bertrand Russell continua ateu mesmo no paraíso, Euclides da Cunha faz mortais revelações sobre sua vida, Saint-Exupéry explica por que O Pequeno Príncipe é o livro de cabeceira das misses, o padre Antônio Vieira defende a união dos povos lusófonos, Eça de Queirós inveja a juventude do Brasil, Jorge Luis Borges garante que recuperou a visão na vida eterna, mas lá infelizmente não existem livros, João Cabral de Mello Neto não parou de tomar aspirina depois que foi para o céu, Clarice Lispector descobriu que há tanto para não ver com olhos para sempre fechados, Fernando Pessoa ainda sofre do tédio de ser Fernando Pessoa, mesmo tendo sido mais de cem pessoas.

Os depoimentos contam com muitas pitadas de humor e ironia de Agualusa, o médium que visitou o outro mundo para que soubéssemos o que lá acontece ou não acontece. Para quem se interessa pela vida no paraíso, o endereço é o livro O Lugar do Morto, lançado pela editora portuguesa Tinta da China. Pôr-se no lugar do escritor morto, como faz o talento de Agualusa, é garantia de reflexão, humor e de cultura. Um pausa para repouso nesses dias agitados que temos pela frente.

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PACTO COM CAIM

José Saramago, único ganhador do Prêmio Nobel de Literatura da língua portuguesa, faleceu em 2010. Para muitos, ele deve estar ardendo no fogo do inferno. Ateu convicto, comunista de carteirinha, criticou duramente a Igreja, chamou o papa Bento XVI de cínico, afirmou que a Bíblia é um manual de maus costumes, recebeu ameaças eclesiásticas e governamentais, quase foi banido de Portugal, autoexilou-se em Lanzarote, na Espanha. Teólogos tacharam-no de ingênuo, desonesto, mal informado, intérprete unilateral da Bíblia e, dias após sua morte, o Vaticano denominou-o populista extremista e ideólogo antirreligioso. Sugeriu-se que suas obras não deveriam ser lidas pelos verdadeiros cristãos.

Em seu derradeiro romance, Caim, o escritor voltou o olhar iconoclasta contra Deus e o condenou, depois de analisar vários episódios bíblicos em que julgou deploráveis as atitudes do criador, geradoras de exclusão, assassinato, misoginia, guerra, perseguição e intolerância. Usou Caim como porta-voz. Transformou-o em consciência crítica dos gestos divinos que não trava a língua quando se encontra com Deus. Por exemplo, afirma que matou Abel porque não podia matar o próprio criador. Este admite certa dose de culpa no episódio e, em segredo, celebra um pacto com Caim que, para pagar pela morte do irmão, errará mundo afora.

Esse vagar sem eira nem beira pelo tempo e pelo espaço bíblico constitui a estrutura da obra. Como se vê, Caim é um livro controverso a partir da concepção, quase tanto quanto O Evangelho segundo Jesus Cristo, publicado em 1991. A bem da verdade, literariamente Caim não é das melhores lavras do escritor, mas com certeza das mais explosivas, tão explosiva que uma amiga me confessou ter receio de, ao lê-la, cometer pecado mortal. Creio que muita gente sentiu e sente medo do romance. Quer ler, porém não acha coragem.

Eu não teria esse tipo de preocupação. Afinal, se somos feitos à imagem e semelhança de Deus, nossa curiosidade e questionamento foram herdadas. O que é a onisciência senão a curiosidade levada ao paroxismo? O que são os mandamentos senão questionamentos à nossa própria natureza?

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DE ONDE VÊM AS HISTÓRIAS?

 

De onde vêm as histórias?  De onde vêm os contos, as novelas, os poemas, os romances? Estão por aí, no ar, na vida, à disposição do primeiro que agarrá-las e colocá-las no papel – ou carecem de um autor para tirá-las do nada? Saem da cachola ou da cartola? Surgem do dia a dia ou da imaginação? Nascem da reflexão ou numa frase ouvida na rua?
Durante minhas palestras, as pessoas costumam me fazer estas perguntas difíceis. Francamente não sei a resposta. De vez em quando, muito de vez em quando, uma história me chega pronta, prontinha, só faltando o polimento. É como se um santo (ou a tal musa dos gregos) baixasse e me soprasse o texto, parágrafo por parágrafo. O prazer é enorme, muito esperado, mas raríssimo. O santo vai embora depressa e nunca deixa o nome para ser reconvocado. Não adianta rezar ou fazer promessa.
Na vasta maioria das vezes, tenho que penar muito para escrever uma linha. Ralar de verdade. Com frequência, chego ao fim do dia sem produzir uma palavra, submerso na terrível sensação de ter jogado o tempo pela janela, ter desperdiçado justamente o tempo, o bem mais escasso de que dispomos. Nessa hora, não choro, vou em frente. Insisto, exploro cantinhos da mente em busca de associações, reviro lembranças, faço conjeturas, leio livros que nada têm com a literatura, exploro becos sem saída, até que, de repente, abro uma trilha à qual me apego. Como me apego à mais tênue esperança. Nem sempre essa trilha me leva ao objetivo, e sou obrigado a recomeçar. O duro recomeço.
Um dia, no entanto, sinto ter achado o caminho. Parece que a cabeça necessita de uma massa crítica de exploração, divagação e dor para deflagrar o processo criativo. Assim, linha por linha, parágrafo por parágrafo, sujeita a revisões e cortes futuros, a história ganha forma, nem sempre aquela que imaginei. O fim nem sempre é filho do início. Abastarda-se ou virginiza-se no texto. Uma zorra.
Quer passar pela experiência? Tente imaginar uma história. Procure-a por aí, no ar seco deste inverno, ou a garimpe dentro de você. Lembranças da infância, quem sabe? Memórias de um amor perdido, talvez? Ponha as ideias no papel. Examine-as com senso crítico. Talvez você descubra um caminho mais fácil que o meu. Se descobrir, me conte, por favor. Bem depressa. Faz quatro anos que me desdobro para terminar um romance – e, até agora, só está começado.

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