Arquivos da categoria: Brasil

O REI DOS MÚSCULOS

Miro é brigão. Briga, ele afirma, é desafio para homem de verdade. Macho. Arruma encrenca em qualquer lugar. Se não arruma, provoca. Nas festas, atiça quem encontra pela frente, sobretudo os fracotes. Distribui esbarrões, derruba a bebida alheia de propósito, sem cerimônia vocifera: “Por que a boneca está me encarando? Tá me achando bonito?”. Se o ofendido não reage, Miro insiste: “Você não é de nada, não?”. Se, ainda assim, não recebe troco, dá o primeiro tapa. No rosto, de leve, para aquecer o sangue do adversário.

Adora sexta e sábado. Bailes em toda a cidade, ocasiões perfeitas para se medir com outros valentões. Uma noitada feliz traz de lembrança, pelo menos, duas lutas. Mesmo que tome uns socos, o resultado é sempre positivo: bate mais do que leva. O que reforça sua crença na invencibilidade. Julga-se o maior brigador do país. O mais forte também. Seu corpanzil lembra uma grande saca de batatas sustentada por dois cabos de vassoura. Exibe-o com orgulho. Até na chuva anda sem camiseta.

Gasta três horas por dia na academia, de segunda a sexta. Duas malhando pesado, uma se admirando no espelho. Miro mira-se e admira-se. Entre um e outro exercício, entra em êxtase com ele mesmo, de frente, de lado, de trás, contraindo os bíceps, levantando os peitorais, medindo o perímetro das pernas, morto de amores pelos próprios músculos. Dizem que se beija quando ninguém o observa, porém há controvérsias. Apenas piscaria o olho, namorando-se em poses sensuais. Confirmado, mesmo, existe apenas seu choro quando o Rodrigo Dentadura, brigão que perdeu os incisivos num sábado de pouca sorte, o ultrapassou no perímetro dos braços.

Reagiu aumentando as doses de testosterona, que compra no mercado negro. Um médico, aluno da academia, o alertou que provavelmente ficará estéril, mantida a superdosagem. Esterilidade sem retorno. Miro não se importou. Vive para o dia de hoje. Crê que jamais confiará numa mulher para ter amor ou filhos. Acha-as todas infiéis. E difíceis de suportar.

De repente, aconteceu. Brigou com um desconhecido, fracote, magro e alto, deu-se mal. E como. De saída, tomou uma voadora que lhe arrancou alguns dentes. Ao cair, duas costelas não resistiram ao impacto dos chutes. Quando os seguranças apareceram, o vencedor saiu de cena. Comemorou a vitória sozinho.

Miro não se corrigiu. Quer vingança. Com as próteses dentárias no lugar, agora diz que faz parte da vida perder de vez em quando. Uma vez em mil, tudo bem. Para evitar que a estatística piore, incrementou a carga de exercícios, a superalimentação, os hormônios. Passou a frequentar duas academias. Uma de manhã, outra à noite. Seis horas de malhação no total, quer dizer, quatro. As duas horas de autocontemplação são sagradas. Nesse período, ele se ama. É o único amor que conhece.

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ALTO VERÃO

As nevascas no Hemisfério Norte viraram notícia outra vez. Têm sido terríveis. E argumento para os que defendem ou desprezam a mudança climática global. Para uns, é apenas outro sinal da catástrofe, agora se manifestando com o frio; para outros, uma prova de que o clima continua o mesmo de sempre, às vezes mais seco, às vezes mais úmido. Discussões à parte, olho para nosso calorzinho, essa delícia que desfrutamos no verão, no outono, no inverno e na primavera, uma vez mais bendigo os trópicos. O calor aqui está sempre presente, mesmo quando chove.

Comparemos nosso clima com o do Canadá, por exemplo. Lá o frio impera, e o inverno assusta. Em Calgary, certa vez peguei 32 graus abaixo de zero. Isso mesmo, 32 negativos. Sonhei com o Brasil naquela hora, receoso de virar picolé e, qual nos desenhos animados, trincar feito vidro. A cada quarteirão que andava, entrava depressa numa loja para me aquecer, saía, corria pela rua até outra loja salvadora, quentinha. No entanto, vi uma japonesa desfilar de minissaia. Que mágica fazia ela se, num freezer desses, até os carros precisam de aquecimento? Nas vagas de estacionamento, há tomadas elétricas para manter líquida a água do motor e possibilitar a partida, do contrário mesmo a gasolina corre o risco de congelar. Até as cachoeiras se petrificam e lembram lágrimas de vela pairando no espaço.

Perto de Calgary, em Banff, após uma semana de nevascas em abril, a temperatura de repente subiu para 20 graus acima de zero, e a primavera chegou de um dia para o outro. Em quarenta e oito horas, o lago sobre o qual eu caminhara descongelou e virou uma coleção de pequenos icebergs. Ao explorar a mata ao redor, tive de fugir em disparada, pois um urso recém-saído da hibernação parecia me confundir com comida. Como as pessoas conseguem viver num lugar desses?

No entanto, alguns canadenses me fizeram a pergunta inversa: como suportamos o calor brasileiro? Alegaram que derreteriam nos trópicos.

Examino a temperatura de nosso alto verão, sinto o conforto de quem não precisa de agasalho, sequer de se refugiar em lojas, concluo que o paraíso, se não fica aqui, montou uma filial no Brasil. Nosso calor tem a medida certa. Mesmo que alguns canadenses não o apreciem, mata de inveja a maioria deles. Como adorariam viver aqui…

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UM SABOROSO CONSERVADOR

O norte-americano John dos Passos, neto de portugueses, foi um dos ícones da literatura de seu país no século 20. Um de seus livros, “Manhattan Transfer”, costuma aparecer na lista dos 100 melhores do século em todo o mundo, além de ter influenciado muitos autores, no Brasil inclusive.

Outra de suas obras, “O Brasil em Movimento”, lançada na década de 1960, fala sobre suas viagens ao Brasil. Ele percorreu vários de nossos estados, de Norte a Sul, e nos deixou um relato saboroso do que viu.

Como viu o senhor John dos Passos! Viu com um olhar minucioso, cativante, original. Esqueça seu conservadorismo, suas observações mais à direita que a de seus compatriotas republicanos (menos que o Trump, é claro). Garimpe no livro as opiniões dele sobre Juscelino Kubitschek, Getúlio Vargas, Aloísio Alves, Israel Pinheiro, João Goulart e Carlos Lacerda. Ele conversou com todos eles e muita gente mais.

Busque as descrições que fez de um país em movimento, em busca do século 21 com a construção de Brasília. Deixe-se levar pela beleza e rigores que ele resgata de nossa natureza, da Floresta Amazônica, de uma viagem por Minas Gerais ou pelo Paraná.

O grande romancista também foi um grande viajante. Quando ele termina seu relato, fica o gosto de quero mais e a certeza de que um olhar estrangeiro pode trazer novidades a respeito de nós mesmos.

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O PERFUME DE VIVER

Cientistas afirmam que os odores nos agarram com maior força e por mais tempo, pois as narinas ficam perto do centro olfativo no cérebro. Não sei se o motivo é esse, mas alguns cheiros deles nos remetem a situações vividas décadas antes e, ao percebê-los, recuperamos toda a intensidade do momento. Em outras palavras, odores são máquinas do tempo. Devolvem-nos instantaneamente ao passado.

Por exemplo, em dezembro, não escapo das magnólias de BH. Este ano não tem sido exceção. Quando as flores apareceram, após a primeira chuva, seu perfume invadiu o bairro Funcionários e a Savassi. Ao andar por lá, voltei à adolescência. Num clique, minha memória foi destampada. Relembrei as provas de fim de ano; o sanduíche de pernil da Padaria Savassi; as sessões do Cine Pathé em que, aos 13 anos, o porteiro me deixava assistir ao filme proibido até os 18, desde que eu entrasse depois de iniciada a sessão e saísse antes do término, por receio do Juizado de Menores; as caminhadas pelas ruas, sem medo de assalto; as conversas com os amigos, que, como eu, não sabiam o que era a vida – desconfio, ainda continuamos em plena dúvida. Alguém realmente sabe o que é a vida, sem fórmulas pré-concebidas e idiotas?

Foi debaixo de uma magnólia florida que, depois de acreditar que uma colega do curso de inglês, com quem andava de mãos dadas, aceitaria um beijo, levei uma despedida cruel:

– Quem que você está achando que eu sou, menino?

Menino! A palavra doeu mais que o fora. Apagou meu orgulho adulto de 15 anos.

Como se vê, o perfume das magnólias, sem que as pessoas desconfiem, marca a memória de muita gente. Hoje, ele se intromete em namoros, paqueras, exames do Enem, conversas entre colegas, cervejas na Rua Pernambuco ou na feirinha da Tomé de Souza, no saboroso pastel de carne da Rua Paraíba, no WhatsApp que trouxe uma boa notícia no shopping, no livro surpreendente que você descobriu numa das livrarias da Fernandes Tourinho, na caminhada até a Praça da Liberdade. De repente, no futuro, sem que se explique como, a lembrança volta nas moléculas do ar de dezembro.

As magnólias não sabem por que exalam o perfume, assim como muita gente continua sem entender o motivo da vida. Haveria mesmo uma razão – ou nosso perfume é simplesmente viver? Embora os tempos mudem, as magnólias e algumas velhas questões permanecem. Dezembro sempre as traz de volta.

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MOMENTO DA SAUDADE

O rapaz entrou no pré­­­dio em passadas de bêbado, tropeçou no pequeno degrau da portaria, quase caiu. Falava muito, a voz se arrastava, o corpo exalava cerveja e cachaça, os cabelos pareciam sujos de talco misturado com ketchup. A julgar pelos sinais, a farra tinha sido boa. Contou-me que voltava da comemoração do último dia de aula. Ele nem acreditava que não havia mais re­­posição nem provas, apenas a formatura o aguardava, após cinco anos de faculdade de engenharia. Já alugara o capelo e o modelito de formando com a capa de Batman, traje agora exigido na cerimônia. As fotografias oficiais estavam prontas. Os convites, distribuídos. Em sua camiseta, coberta de desenhos e bocas de batom, três palavras escritas com esferográfica me chamaram a atenção: “Amigos para Sempre”. Abaixo, uma dúzia de assinaturas.

O rapaz ainda não se deu conta, mas o término das aulas é a semente de uma grande saudade. Todo novembro e dezembro, época em que as despedidas e formaturas se concentram, novas turmas iniciam a rotina de trabalho e de saudade. Cada pessoa toma seu rumo, com frequência longe de Belo Horizonte. Com o passar do tempo, talvez devido ao aumento das responsabilidades que a vida impõe, talvez pelo avanço da idade, o espírito irreverente do jovem se vai, e entram em campo a sisudez, a reserva, o ar de decano. Claro, há quem não se deixe dominar tão cedo pelo peso do compromisso, mas a maioria acaba cedendo. Então surge a nostalgia. O profissional se lembra dos anos de faculdade, recorda o espírito livre, leve e solto do último dia de aula, e a saudade chega. O tempo não poupa nem a mais elevada autoestima.

As reuniões de turma são um remédio eficaz, porém de curta duração, para essa saudade. Nem bem os colegas se reencontram, trocam abraços, tateiam assuntos, reconhecem-se, avançam. Dali a minutos, o antigo clima de camaradagem desponta, os anos se apagam, a conversa rola, a memória se instala, triunfante: baixam as lembranças, baixam os casos e causos, baixa a juventude que escapou em ritmo de Usain Bolt. Os amigos se ancoram no passado, em episódios que jamais mu­­­darão, em histórias que, ano após ano, serão repetidas à exaustão, sobretudo as mais engraçadas. Elas serão o referencial permanente, o graal revisitado. Livres da formalidade, alguns dos presentes ao encontro ensaiam um retorno no tempo: viram adolescentes. Os mais circunspectos, mais idosos do que merecem, os repreendem. Os outros riem. Aqui e ali, despontam os desgarrados: o economista que virou cineasta, o dentista que se tornou fazendeiro, o médico que explora hotel.

O ciclo da vida continua. Logo após a breve revisita, todos se vão. Levam dentro da mente o garoto que, bêbado, tinha três palavras na camiseta: “Amigos para Sempre”.

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LADRÕES DA BOA-FÉ

 

Sempre que vejo falsos religiosos pregando nas tevês com a maior cara de pau, com a maior seriedade, como senhores absolutos da verdade, penso naqueles 300 picaretas que alguém disse existir no Congresso Nacional, antes de aderir ao grupo. Falsos pastores e falsos políticos são farinha do mesmo saco. Uns e outros sempre me remetem a Tartufo, um dos mais famosos personagens de Molière, o maior dramaturgo francês. Tartufo é, também, o nome da peça que ele protagoniza, das mais conhecidas do teatro.

Tartufo é fingido, hipócrita, mentiroso, corrupto, chantageador, desleal, falso religioso, interessado apenas em tirar dinheiro daqueles a quem faz as mais devotas pregações. A peça estreou em 1664, portanto há 352 anos, e continua atualíssima. São três séculos e meio de Tartufo, sem mudança do caráter humano – e sem perspectiva de melhora. Provocou violenta reação do clero da época, ficando proibida por alguns anos. Quem a visse ou encenasse foi ameaçado de excomunhão pelo arcebispo de Paris.

Leia Tartufo, para ver como a canalhice atravessa o tempo. Depois, ligue a tevê, escute atentamente os canais religiosos com apelo financeiro, analise as técnicas de dissimulação utilizadas, observe a sub-reptícia venda de Deus em prestações mensais. Em seguida, compare os debates no Congresso com a verdadeira atuação, nos bastidores, de deputados e senadores, da venda de emendas ao propinoduto descarado. O resultado é puro teatro, o teatro de Molière, a falsidade de Tartufo até a exaustão. Uma tartufada sem fim.

Acontece que Tartufo, no final da peça, é desmascarado. No Brasil, isso ainda está longe de acontecer. Ensaiamos apenas os primeiros passos. Nossos Tartufos continuam depositários da moralidade, ladrões da boa-fé. A cada dia que passa, Molière estremece no túmulo por nós. Ai de nós.

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DOS ANDES PARA BRASÍLIA, COM PUDOR

Os quíchuas, descendentes dos incas, formam a maior parte da população peruana. Sua língua foi proibida pelos espanhóis, que mataram muitos dos que insistiram em mantê-la. Por séculos não houve livros escritos em quíchua. Escutei este poema perto de Machu Picchu, mantido pela tradição oral, hoje traduzido para o espanhol. Parece que foi criado por um Dom Quixote dos Andes. A simplicidade faz sua beleza. O minimalismo é seu coração.

Hoje é o dia da minha partida.
Era. Hoje não vou mais, fica para amanhã.
Partirei tocando
uma flauta de osso de mosquito.
Minha bandeira será uma teia de aranha.
De um ovo de formiga farei meu tambor.
Minha montaria? Minha montaria
será um ninho de beija-flor.

O provérbio mais famoso dos quíchuas é “ama sua, ama quella, ama llulla”, ou seja: “não roubar, não ser preguiçoso, não mentir”. Já pensou se Brasília o adotasse? O Brasil viraria uma potência até nos Jogos Olímpicos.

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A INTOLERÂNCIA MORA AO LADO

A capacidade humana de se inventar é admirável. Em cada lugar habitado, pouco importa em que tempo, nós nos atribuímos uma origem diferente. Na América do Sul, alguns povos acreditavam que surgimos do milho. Outros preferiram a batata ou a mandioca. Na Noruega, viemos de árvores. Na Índia, da manteiga. O barro foi uma opção no Oriente Médio, na Grécia, na China, nas Américas do Norte e Central. No Tibete, surgimos da união de um ET com um macaco. Na Coreia, substituíram o macaco pelo urso.

No Quênia, ora descemos do céu, ora saímos de dentro de um joelho. Na Oceania, brotamos de vermes. Sim, a capacidade de nos inventarmos não tem fim.

Também não tem fim nossa capacidade de acreditar. Vi, no México, mulheres se arrastando de joelhos nus no adro da Basílica de Guadalupe, largando trilhas de sangue. Uma atmosfera de beatitude as seguia, como se estivessem fora deste mundo. No Brasil, testemunhei um pajé, em transe, entrando em contato com os deuses da tribo. Em Mianmar, num templo que comemorava 2 500 anos de existência, centenas de pessoas rezavam para encontrar o caminho ensinado por Buda. Enquanto balançavam a cabeça, queimavam incenso, e o ar adquiria cheiro de nirvana.

Na Mesquita Azul, na Turquia, logo após o chamado do muezim, que me remeteu aos contos das Mil e Uma Noites, os muçulmanos curvavam-se em direção a Meca, em rogos compenetrados. Alá parecia estar entre eles. No templo Tanah Lot, na Indonésia, as orações, durante o incêndio de cores trazido pelo mergulho do sol no oceano, criaram clima de transcendência mesmo para quem não participava da cerimônia. Em Katmandu, no Nepal, uma garota, transformada em deusa viva, fazia cegos enxergar e paralíticos jogar fora cadeiras de roda e muletas. O mesmo aconteceu no norte da Índia, onde uma aguinha a escorrer do lingam de Shiva, pedra cinzenta com meio metro de altura, transformava a força vital do deus em milagres. Na Alemanha, na época do Natal, conheci celebrações pré-cristãs para o solstício de inverno, mantidas por uma tradição multimilenar. Na Tailândia, fiéis cobriam as imagens sagradas com folhas de ouro ao fazer pedidos ou agradecer as graças alcançadas. Sim, nossa capacidade de acreditar não tem fim.

Diante de tanta diversidade, nossa capacidade de respeitar a crença alheia teria fim? Sempre apostei na tolerância dos brasileiros. Afinal, somos o país do sincretismo religioso.

Já não estou tão seguro. Ao entrar, em Belo Horizonte, em dois templos onde se prometem milagres em troca de dinheiro, testemunhei radicalismo contra os demais credos: segundo os pregadores, quem não pertencia à seita era indigno de viver, um condenado, um intocável. Fiquei duplamente assustado. Com o discurso e com a cara de pau dos manipuladores. Em determinado momento, um deles disse que os seguidores da seita deveriam evitar até conversar com os não membros para não ser contaminados. Também precisavam, em casa, se livrar de qualquer escultura ou pintura com figuras humanas.

​O mundo conhece o efeito dos excessos. A história está cheia de exemplos. A humanidade, em sua múltipla capacidade de se inventar e de acreditar, é maior que qualquer culto. Cultos passam, a humanidade fica. A intolerância não é o caminho, nem a verdade, muito menos a vida. É apenas o casamento da presunção com a sede de poder.

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JABUTICABA!

Talvez tenha sido a chuvarada de maio, incomum para a época. A jabuticabeira, agradecida, resolveu soltar flor temporã. Achou que setembro chegara, enfeitou-se para a estação. Parecia noiva, toda de branco, perfumada, com milhares de pajens, as abelhas. Qualquer que tenha sido o motivo, pela segunda vez, em vinte anos, a jabuticabeira de meu quintal deu fruta em junho. Miúda, mas com a doçura de beijo de neta. Foi uma alegria. Para mim e para os bichos.

Primeiro chegaram os micos, famintos. Lançaram-se ao ataque, mal as cascas ficaram rajadas. Até os mais jovens, que pela primeira vez experimentavam o gostinho de céu na boca, debulharam os galhos. Tentei espantá-los, mas sabiam que nunca os machucaria. Olharam-me com descaso e continuaram o banquete, com requinte de gourmets. Removeram o caroço com as mãos e os dentes, engoliram o suco, estalaram a língua. O tchauzinho na saída deve ter sido imaginação minha.

Receosos de que a sanha dos micos acabasse com a preciosa carga, os pássaros choveram. Sabiás-de-coleira e de peito-vermelho, sanhaços verdes, azuis, amarelos, acinzentados, saíras, bem-te-vis, maritacas. Os tucanos permaneceram de tocaia, assuntando o alvoroço. Marimbondos, dos grandes e dos pequenos, se alojaram nos ramos mais altos, territoriais, porém comedidos. Preferiram as frutas já bicadas.

O chão ficou coberto com sementes e cascas. Borboletas e mariposas se fartaram. À noite, foi a vez dos morcegos e dos gambás. Arruaça até de madrugada.

As formigas compareceram aos milhares, das redondas, doceiras, até umas achatadas, primas próximas de aranhas. Subiam e desciam pelo tronco, agitadas, como se o mundo estivesse por um fio e a sobrevivência dependesse da correria. As mais espertas exploravam os pulgões, obrigando-os a secretar um líquido transparente que elas carregavam para casa.

Os animais ignoraram preceitos islâmicos, judaicos e cristãos. Trabalharam e comeram, inclusive na sexta, no sábado e no domingo, sem descanso. A religião da natureza é a sobrevivência. Sua nação, o dia de hoje. Seu heroísmo, a barriga cheia. Cada um ficou na sua, feliz.

Muita gente não planta jabuticabeira sob a alegação de que não aproveitará seus frutos, já que a árvore demora até dez anos para produzi-los. E daí? Nosso egocentrismo extremo ou o antropocentrismo exacerbado, às vezes, não nos permite a solidariedade com outras pessoas ou espécies. A vida não somos nós apenas, nós que aqui estamos, agora. Somos, porém, os únicos capazes de olhar para fora de nós mesmos e de nos compartilhar com o resto do mundo.

Jabuticabeiras duram 100 anos. A minha continuará no quintal depois que eu me for. Futuros pássaros, micos, formigas e borboletas aproveitarão o néctar do tempo certo e o do temporão. Também meu neto ou bisneto. Ao se deliciarem com a doçura, não pensarão em mim. Não precisam, nem quero. Estou recompensado desde agora. Um pouquinho de mim estará em todos eles. Assim como, hoje, todos estão aqui dentro de minha alegria.

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LEITURA É SAÚDE

 

Convém repetir, agora que a Educação e a Cultura viraram um único ministério neste país de curta memória. Livros divertem, instruem, transmitem sabedoria, levam-nos através do tempo e do espaço, guardam memórias. Têm mais. Trazem outro benefício, ainda pouco divulgado, de suma importância. Livros são questão de saúde pública. Isso mesmo. Saúde pública.

Cientistas em todo o mundo comprovaram que quem lê muito, sobretudo ficção (romances, contos, fantasias), isto é, quem excita bastante a imaginação, tende a ter menos a doença de Alzheimer. Em outras palavras, a leitura ajuda a evitar que a gente fique gagá em idade avançada. Parece que, igual a outros órgãos, quanto mais se ativam os miolos, melhor eles agem e reagem. Posto de outra maneira, livro é musculação para o cérebro: deixa os neurônios saradaços. Você pode comprovar em sua família. Provavelmente seus avós e bisavós que liam muito chegaram à velhice bem lúcidos. Velhice e lucidez todo mundo quer. As alternativas não são nem um pouco agradáveis.

Os benefícios do livro não param por aí. A leitura atua em duas nobres regiões do cérebro, situadas no meio e na parte de trás da cabeça, ligadas à imaginação e à visão, enquanto os filmes e a televisão agem apenas na parte posterior, vinculada ao córtex visual. É como se a leitura criasse um filme em nossa mente e nós, ao mesmo tempo em que criamos o filme, também assistíssemos à sua première. Somos o único criador e o único espectador, na confortável poltrona da curtição mental. No futebol, seria como bater o escanteio e correr para cabecear no gol. Outro detalhe: o livro cura a desconcentração provocada pela internet, essa intolerância generalizada com o pensamento mais sofisticado.

É assim que a leitura funciona. Exercita nossa cabeça, deixa-nos saudáveis por mais tempo. Isso explica, ainda, por que a leitura exige um pouquinho mais de esforço. Mas o resultado compensa. Compensa não apenas na diversão, no entretenimento, no conhecimento adquirido. Na saúde também. Saúde pública. Na pátria da ordem e do progresso, ainda precisamos descobrir a pólvora.

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DEITADOS EM BERÇO ESPLÊNDIDO

O espetáculo proporcionado pelos deputados no 17 de abril não deveria ter assustado tanta gente. Afinal, eles são a nossa cara, nosso DNA, nossas digitais. Usamos Deus para tudo, agarramo-nos a patriotadas de dia e de noite, sempre agradecemos ao papai, à mamãe ou à titia por terem cuidado da gente na infância, somos contra a corrupção. Estamos imersos até o pescoço na exaltação da resposta singela, na ilusão do populismo, na crença da desinformação alheia, na cultura do fácil. Fugimos da complexidade como o diabo da cruz. Ao fazermos isso, abrimos espaço para a imbecilidade. Imbecilidade que escancarou sua face cruel no domingo 17 de abril.

A realidade nunca foi simples e fica mais complexa à medida que o tempo avança. Sua compreensão carece de reflexão, muita reflexão – e reflexão em geral exige dedicação. Para produzirmos na indústria ou no intelecto, necessitamos de conhecimento – que requer aprendizagem. Aprendizagem que demanda esforço. Um exemplo: por mais que ainda se tente vender, no Brasil, a escola como local de diversão, as dificuldades com a matemática, as ciências ou o português desmentem, numa tacada, a crendice de que sala de aula é recreio. Andar e falar também impõem dificuldades ao cérebro. Que tal doravante limitarmos os bebês a engatinhar e balbuciar? Que tal, para diminuir o desgaste mental dos alunos, exigirmos que apenas desenhem sua assinatura? Na matemática, bastaria somar dois mais dois?

A cultura do fácil gera a tacanhice. Ela nos obriga a adiar problemas há muito carecendo de solução, das chacinas às reformas de leis obsoletas, das balas perdidas ao comércio de drogas, da má distribuição de renda à falta de serviços públicos razoáveis, do abuso dos impostos à corrupção em todos os níveis de governo. Um dos efeitos mais perversos dessa atitude é o pouco valor que temos dado à vida humana no Brasil. Os cadáveres da pobreza, da negligência, da violência urbana, da ausência do Estado e da impunidade chegam às nossas casas com a regularidade de A Voz do Brasil, aliás viraram a marca de um Brasil sem voz. A cultura do fácil prefere adiar o problema em vez de enfrentá-lo. A mediocridade vive de sofismas e tautologias.

O desenvolvimento de uma ideia, projeto ou nação implica a consideração de muitas variáveis e, com frequência, admite mais de uma solução. Qual a mais benéfica? Qual a mais duradoura? Qual produz menos efeitos colaterais? Corremos o risco até de errar na análise, porém precisamos encarar a complexidade. Isso não aconteceu no 17 de abril, tampouco acontece no Brasil. O que se viu foi uma enxurrada de idiotices com a nossa cara. Para evitá-las, no governo e entre nós, eleitores, o primeiro passo é o abandono da cultura do fácil.

Eis o difícil.

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PEDRAS NO CAMINHO

 

 

No meio do caminho tinha uma pedra

Tinha uma pedra no meio do caminho.

 

Assim Carlos Drummond de Andrade inicia seu famoso poema, escandaloso para a época da publicação, tanto que o poeta se divertiu ao compilar e publicar 194 páginas de descomposturas indignadas contra os dez versos de No Meio do Caminho.

Drummond é uma quase unanimidade nacional como nosso poeta maior. Capturou o mundo, vasto mundo em palavras e versos, com e sem rima, que, décadas afora, não envelhecem e continuam falando como dois olhos que acordam os homens. Tinha apenas duas mãos e o sentimento do mundo. Ajudado pelas lembranças de Minas Gerais, casas entre bananeiras, pomar amor cantar, a fotografia na parede, deixou as culpas no caminho e a luta vã com palavras, ferramentas que o consagraram.

Nesta semana me lembrei muito de Drummond. Da sua pedra no meio do caminho. Havia uma pedra no meio do meu caminho. Ou melhor, duas. Pedras no rim. Não são fotografias na parede, ai, mas como doem.

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NÃO PRECISAMOS DE MÁRTIRES

Ao ler um jornal de hoje, descubro que nove articulistas discutem a situação do país. No miolo, páginas e páginas abordam nossas crises. Só se fala nisso. Prometi-me não tocar no assunto nestas crônicas, embora os dedos cocem o tempo todo. É preciso respirar um ar diferente, não contaminado pelo noticiário. Aqui é um desses espaços. Continuo firme em meu propósito, porém não posso evitar um alerta.

Durante a semana, fui bombardeado por partidários da situação e da oposição. Todos donos da verdade. Meus amigos se dividiram entre as facções. Alguns irados. Contra e a favor de Dilma. Se a tal divisão entre “nós e eles” era um desejo, está concretizado. Sim, protestar é um direito. Aceitar o protesto é uma obrigação.

Temo que, no domingo, os ânimos acirrados produzam violência. Vi várias ameaças, inclusive aqui no facebook. Não precisamos de mártires, de qualquer lado. Precisamos de democracia. Respeito e tolerância fazem parte dela. Aliás, respeito e tolerância são a base da democracia. Que prevaleçam.

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O SAPO QUE CANTOU COM A ORQUESTRA

 

 

A noite era de gala: início do festival de música em Trancoso, na Bahia. Tudo e todos a postos: orquestra sinfônica, solistas nacionais e internacionais, o teatro de arquitetura única, ao ar livre, acústica perfeita, mais de mil pessoas presentes.

No meio do concerto em Fá maior de Gershwin, um intruso entusiasmado com a beleza da composição solta a voz: é um sapo, dos grandes. O canto, beneficiado pela acústica, inunda a plateia. Muita gente se volta para trás, para confirmar a presença do batráquio na fileira mais alta do teatro. Reconhecido, ele capricha na apresentação. Acompanha o tom da orquestra. Violinos, violas, oboés, trompetes, fagotes e o coaxado parecem ensaiados. Risos pipocam.

O bicho se entusiasma, inventa um som grave e repetitivo, abusa de seus parcos recursos vocais – e a tragédia acontece. O sapo atravessa a orquestra, há um completo desencontro entre os instrumentos e o tenor exibicionista. Alguém lhe desfere um golpe de sapato, o bicho salta de lado e retoma a partitura.

Um grilo salva a pátria. Quem já estava com grilo com um animal, agora tem dois. O grilo estrila. Também se delicia com a acústica. O sapo o vê, esquece a apresentação e vai à caça. Tem êxito. Enquanto o batráquio engole o inseto, penso que o grilo evitou que engolíssemos o sapo.

Histórias de Trancoso. Não da Trancoso portuguesa, famosa pelo inusitado e pela inverossimilhança dos casos, mas da Trancoso brasileira. Aqui um sapo cantou com uma orquestra. Por momentos se saiu bem. Eu vi. E ouvi.

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O GATO DE LENÇÓIS

 

Quem desce a rua da prefeitura de Lençóis, no sertão da Bahia, encontra o gato de Alice no País das Maravilhas esparramado sobre o peitoril de uma das seis janelas de um casarão centenário. Pachorrento, pelo escovado como se recém-saído de salão de beleza, o animal deixa tombar com displicência uma das patas sobre a parede, o que incrementa a pose de preguiça. Pálpebras cerradas, dispensa aos desconhecidos que o acariciam o descaso de profundo conhecedor da espécie humana: gente chega, gente vai, ele fica. Não se move nem para agradecer a atenção. Das sete vidas, já gastou seis. Longas, por sinal. Muito longas.

À sombra do velho beiral, ele vive no passado. Relembra ex-poderosos da cidade que não pagavam salário aos empregados “para não deixar o povo mal acostumado”. Auxiliados por jagunços, os coronéis mantiveram a escravidão século 20 adentro. Cem anos antes, o felino rememora a corrida aos diamantes, quando a área conheceu o auge e ganhou o nome atual: Chapada Diamantina. No entanto, foram descobertas as minas da África do Sul, mais fáceis e baratas para explorar, e Lençóis entrou em maus lençóis: chegou a decadência. A população caiu para menos da metade.

O gato avança pelo passado, mergulha na história da própria Terra, gravada nos canyons, serras e planícies da região. Enxerga terremotos que rasgaram as rochas, treme ante o choque de placas tectônicas a erguer e afundar toda uma cordilheira, foge do mar que invadiu o sertão até secar milênios mais tarde. Então viu o gelo e o dilúvio chegarem e embaralharem os testemunhos antigos.

O bichano estaca setecentos milhões de anos atrás, quando a Chapada se acalmou em termos geológicos, sem ter com quem trocar ideia: na época, a vida se resumia a simples algas. Ele se teletransporta ao alto do Morro do Castelo e, lá de cima, descortina a vista que jamais o cansa. A cada dia, surpreende-se com a longevidade do planeta. Sabe que a Terra acabará engolindo-o de volta. Questão de tempo. Mas quem já viveu tanto não tem essas preocupações comezinhas.

Com o sorriso de seu famoso parente de Cheshire, o gato de Lençóis se diverte com a presunção de muitos felinos que acreditam ter sido o mundo feito exclusivamente para eles, através do toque de uma varinha mágica. Escuta na velha eletrola da casa o refrão “o sertão vai virar, o mar vai virar sertão”, balança a cabeça em concordância, mas sabe que não estará aqui para o próximo round do dilúvio. Talvez nem sua espécie.

Coço-lhe a cabeça atrás das orelhas, ele se derrete ainda mais no parapeito, ronrona. Com preguiça, abre os olhos. Só então descubro que é cego.

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BYE BYE, BRASIL

 

Na época da ditadura, muita gente deixou o Brasil em busca de ares mais respiráveis. Um deles, que conheci nos Estados Unidos, rasgou o passaporte depois que conseguiu o green card, de tanta raiva de ser brasileiro. Jurou que nunca mais pisaria aqui. Não sei se cumpriu a promessa.

No ano que passou, a revoada de brasileiros rumo ao exterior voltou. Em tempos democráticos, a maioria bateu asas por falta de emprego, por medo de ser assaltado e por nojo da corrupção. Alguns me disseram que só verão os parentes e amigos lá fora. Aqui, jamais. O bye bye, Brasil foi definitivo.

É claro que era gente com boa formação acadêmica. Sobretudo jovem. Todo o mundo busca a felicidade, do pobre que tudo investe num coyote que o leve através da fronteira México-Estados Unidos ao doutor que consegue um trabalho mais bem remunerado numa universidade australiana.

Aliás, para o país, perder um doutor é terrível. Doutores, em geral, usam em sua formação a universidade pública. Custam muito para a nação. Os estrangeiros recebem de graça uma mão de obra rara e cara. Quem não a quer? Seria uma solução bloquear a saída dos mais competentes e obrigá-los a aceitar o subemprego ou o desemprego? Ou as pessoas, em tempos de crise, não buscarão sempre o melhor caminho para sobreviver? Eu mesmo não estaria aqui, caso meu avô não largasse a Itália cheia de problemas e viesse fazer a América.

Diante da revoada, alguns países querem pegar os melhores pássaros antes que entrem no alçapão alheio. O Canadá, por exemplo, já marcou uma rodada de exame de currículos de brasileiros em nossas capitais para importar médicos, enfermeiros, engenheiros, terapeutas, técnicos em TI. Os selecionados viajarão com garantia de emprego, segurança e de um governo menos corrupto. Vale repetir: os canadenses receberão de graça a mão de obra que nossos cofres suaram para formar. Perderemos gente qualificada que fará falta para a população.

Sim, estamos em crise. O que não podemos é tentar barrar a tempestade com um discurso de negação. Sim, o problema é grave. Sem mão de obra qualificada, nossa recuperação será mais longa e difícil. Medidas devem ser tomadas para diminuir o êxodo. Proposta de trabalho é a primeira sedução, a mais eficiente. Mas que governo tomará essa iniciativa? Com que dinheiro? Por outro lado, a saída continuará sendo o aeroporto?

Diante do desemprego, da insegurança e da corrupção, boas cabeças continuarão a deixar-nos. O bye bye, Brasil se repete. Sangria desatada. Só podemos lamentar.

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A SÍRIA É AQUI

 

 

Massacres, chacinas, extermínios em massa sempre frequentam o noticiário. O ser humano nunca se cansa de matar o semelhante. Não importa quão civilizado o país se julgue, ele sempre será bárbaro quando lida com o outro, com o diferente. Quer exemplo mais contundente que a invasão do Iraque pelos norte-americanos? Segundo cálculos feitos nos Estados Unidos e na Inglaterra, mais de um milhão de civis iraquianos teriam sido dizimados pelos bombardeios ordenados por George W. Bush. Quer outro exemplo, mais recente? Os mortos na Síria, contagem que varia entre duzentos e trezentos e cinquenta mil desde o início do conflito. Quer um exemplo do Brasil? Aqui aconteceram mais de cem mil homicídios no ano passado, número maior que o de vítimas no conflito da Síria em 2015. Uma guerra civil não declarada assola nosso país. Dez por cento dos homicídios do mundo ocorreram aqui. Dez por cento num país que tem menos de três por cento da população da Terra.

Neste exato momento, assisto a um tiroteio entre três facções rivais de venda de drogas no bairro da Serra, em Belo Horizonte. Os combates acontecem dia e noite. Ouvi-os sobretudo nas madrugadas, com armas pesadas, de repetição. A polícia só agora deu as caras. Há uma concentração de viaturas na praça principal do Conglomerado da Serra. Dizem que várias pessoas morreram. Entre elas, meninos de 13 ou 14 anos, que nesta semana exibiam metralhadoras pelas ruas da comunidade, orgulhosos de seu poder. E mais tarde não hesitaram em dispará-las contra os adversários.

Em BH, como no resto do país, há uma clara ausência do Estado no combate ao tráfico de drogas, vácuo que permite o surgimento de enclaves independentes dentro do país, com leis próprias, como o toque de recolher hoje em vigor numa parte do Conglomerado, implantado pelos bandidos. O Estado proíbe o consumo e o tráfico de drogas, mas não consegue impedir que aconteçam. Mudar a lei seria uma solução?

Diante do quadro, algo mais triste me assola: o pequeno valor dado à vida humana. Como disse acima, não importa o país, tampouco a época. Todos matam. Descendo ao interior da nossa sociedade, os 100000 homicídios anuais mostram que os indivíduos também matam. Somos violentos. Violentos desde que surgimos no mundo. Daí minha tristeza maior. Sempre acreditei que, no século 21, nos respeitaríamos e viveríamos em iguais oportunidades para todos. Viveríamos uma democracia. A utopia desaba. E desabamos todos juntos.

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ALTO VERÃO

A nevasca nos Estados Unidos, no Japão e em partes da Europa virou notícia. Tem sido terrível. E argumento para os que defendem ou desprezam a mudança climática global. Para uns, é apenas outro sinal da catástrofe, agora se manifestando com o frio; para outros, uma prova de que o clima continua o mesmo de sempre, às vezes mais seco, às vezes mais úmido. Discussões à parte, olho para nosso calorzinho, essa delícia que desfrutamos no verão, no outono, no inverno e na primavera, uma vez mais bendigo os trópicos. O calor aqui está sempre presente, mesmo quando chove.

Comparemos nosso clima com o do Canadá, por exemplo. Lá o frio impera, e o inverno assusta. Em Calgary, certa vez peguei 32 graus abaixo de zero. Isso mesmo, 32 negativos. Sonhei com o Brasil naquela hora, receoso de virar picolé e, qual nos desenhos animados, trincar feito vidro. A cada quarteirão que andava, entrava depressa numa loja para me aquecer, saía, corria pela rua até outra loja salvadora, quentinha. No entanto, vi uma japonesa desfilar de minissaia. Que mágica fazia ela se, num freezer desses, até os carros precisam de aquecimento? Nas vagas de estacionamento, há tomadas elétricas para manter líquida a água do motor e possibilitar a partida, do contrário mesmo a gasolina corre o risco de congelar. Até as cachoeiras se petrificam e lembram lágrimas de vela pairando no espaço.

Perto de Calgary, em Banff, após uma semana de nevascas em abril, a temperatura de repente subiu para 20 graus acima de zero, e a primavera chegou de um dia para o outro. Em quarenta e oito horas, o lago sobre o qual eu caminhara descongelou e virou uma coleção de pequenos icebergs. Ao explorar a mata ao redor, tive de fugir em disparada, pois um urso recém-saído da hibernação parecia me confundir com comida. Como as pessoas conseguem viver num lugar desses?

No entanto, alguns canadenses me fizeram a pergunta inversa: como suportamos o calor brasileiro? Alegaram que derreteriam nos trópicos. Examino a temperatura de nosso alto verão, sinto o conforto de quem não precisa de agasalho, sequer de se refugiar em lojas, concluo que o paraíso, se não fica aqui, montou uma filial no Brasil. Nosso calor tem a medida certa. Mesmo que alguns canadenses não o apreciem, mata de inveja a maioria deles. Como adorariam viver aqui.

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AS HERESIAS E A HISTÓRIA

 

A história das religiões é assunto apaixonante: revela mais do que se crê. Por exemplo, se você se interessa pelos primórdios do cristianismo, pelos primeiros séculos antes do estabelecimento dos cânones hoje respeitados, aqui vai uma dica: leia O Deus Exilado, de Marilia Fiorillo, professora da USP – Universidade de São Paulo.

O livro analisa a época em que o cristianismo se expandia no Ocidente e no Oriente Médio, sujeito a diversas interpretações. Várias correntes se digladiavam pela hegemonia. Divulgavam suas versões sobre as palavras, as ideias e a natureza de Jesus, contradiziam-se, atacavam-se, até se matavam.

Houve, de fato, muita luta até o século 4 na Síria, no Egito, em Antioquia e em Roma, lugares onde a religião despontava. O Deus Exilado examina as principais correntes e suas teses, com prioridade para o gnosticismo. Vasculha, ainda, os evangelhos apócrifos, aqueles que foram postos de lado quando Constantino, imperador romano, escolheu os de Lucas, Mateus, João e Marcos como os canônicos, relegando os demais à categoria das heresias, inclusive aquele que provavelmente era o mais antigo de todos, fonte de inspiração para outros, o Evangelho de Tomé. Segundo a lenda, Constantino se converteu após ver no céu uma cruz com as iniciais de Cristo e a frase “In hoc signo vinces” (Com este símbolo vencerás). De fato, após ganhar a batalha da Ponte Mílvia, em 312, o imperador transformou a cruz em sua espada.

Com uma pesquisa vasta e interessante, Marilia Fiorillo faz uma viagem no tempo e desmonta mitos até hoje tidos como verdade. A verdade é esclarecedora. Ganha quem a conhece. Como diz o teólogo Leonardo Boff na introdução, o livro é iluminador e libertador.

O Deus Exilado traz fatos e hipóteses sem sectarismo, separando o joio do trigo. O problema é que a quantidade de joio impressiona. É tanto joio que o trigo até hoje não conseguiu germinar a contento.

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PROMESSA RESOLVE?

Agora que o Ano Novo chegou, espero que nossos planos, desejos e sonhos se tornem realidade. Temos doze meses para trabalhar e dar uma ajuda ao destino para conquistarmos os objetivos. Sempre que um ano se inicia, renovamos velhas promessas. Também sou assim.

Prometo-me coisas simples. Por exemplo, organizar meus livros. Entra e sai ano, renovo a esperança de racionalizar a distribuição das obras por assunto e autor. Esperança inútil. Para simplificar a tarefa, radicalizei. Doei três quartos de meu acervo para bibliotecas públicas. Os livros sobreviventes continuam espalhados pelas prateleiras num caos que só eu entendo. Mas sei onde achar cada exemplar. Melhor dizendo, sabia, pois alguém cismou de me ajudar, organizou meu caos e entrei em desespero. Cadê o Montaigne? E o Flaubert? E o Grande Sertão? E o Quincas Borba? E o Borges? E o danado do Shakespeare, completo? E o Murilo Rubião? Será que cometi comigo a desfaçatez de doar algum deles?

Preciso da presença de meus livros preferidos, de sua companhia. Me dão segurança, neles as coisas sempre estão bem, seguras, asseguradas, são tábuas de salvação, muletas para quando a vida capenga. Há obras para todos os gostos e climas. Elas têm personalidade própria, até se arvoram em caminhar sozinhas, como seres independentes. Ou você acha que o Dom Quixote não possui alma própria? Ou que Hamlet parou de dizer to be or not to be?

Ainda bem que tenho até dezembro para organizar meu caos. Se bem me conheço, a promessa vai ficar nisso mesmo, na promessa. Logo vou memorizar para onde cada livro foi remanejado, e as novas posições nas prateleiras se tornarão as definitivas. Entrarei na biblioteca e de novo saberei onde está o Mário Palmério. Ou Platão.

A vida carece de um pouco de desordem para se ordenar. Nem sempre para voltar à mesma. Talvez por isso a gente não cumpra ao longo do ano as promessas e boas vontades assumidas em janeiro. Tudo se ajeita, nada se enjeita. A capacidade de adaptação fez o sucesso da espécie humana. Portanto promessas não cumpridas fazem parte da gente, são nossa humanidade. O que importa é viver como a gente gosta.

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A CORRUPÇÃO COMO ESCADA SOCIAL

 

Nossos escândalos de corrupção sempre me remetem a um livro que fala dos excessos dos anos 1920, a ruidosa década de grande prosperidade que desembocou no caos de 1929. O livro se chama O Grande Gatsby. Foi escrito por Francis Scott Fitzgerald, um norte-americano pobre fascinado pelo mundo dos milionários. Fitzgerald e Zelda, sua mulher, aparecem no filme Meia-noite em Paris, de Woody Allen, em meio a festas extravagantes, esbanjando dinheiro, querendo ser e parecer ricos a qualquer custo. Os políticos de Brasília também aparecem em meio a festas extravagantes, esbanjando dinheiro público, querendo ser ricos a qualquer custo, sobretudo às nossas custas. Seriam para essas festas as tais “verbas de representação” que recebem? Pelo visto, não bastam. Querem muito mais.

O Grande Gatsby trata desses personagens do alpinismo social levado às últimas consequências. Jay Gatz, que se transformaria no grande Gatsby, é um rapaz pobre apaixonado por Daisy, moça rica. A fim de conquistar a amada, Gatsby trata de se enriquecer por meios ilícitos. Depois de ajuntar muito dinheiro, para ostentar posses e atrair Daisy, Gatsby promove festas extravagantes, nas quais esbanja fortunas. Quase conquista Daisy. Fitzgerald atrapalha o final feliz, provocando um morticínio digno dos grandes folhetins.

O romance foi considerado um dos melhores da literatura norte-americana do século 20, com o que não concordo, mas sem dúvida merece ser lido. Não apenas pelo mérito literário, também pelo retrato de uma época de prosperidade que parecia eterna e acabou em tragédia, a Grande Depressão, tragédia que também atingiu a vida particular do escritor Scott Fitzgerald, morto prematuramente aos quarenta e quatro anos. Morreu pobre como nasceu.

Grandes festas, grandes arroubos, grandes roubos, grandes Gatsby. A história se repete no Brasil de hoje. Dinheiro continua a mola do mundo. Há pouco, em 2008, quase trouxe outra grande depressão. O mundo ainda não se recuperou. Continuamos pagando a conta do desmando e da ganância alheia. Lá fora e também aqui dentro do país, onde, além da situação econômica internacional adversa, temos um problema crônico: em muitos órgãos públicos, apesar de todas as prisões já feitas, a viúva, coitada, segue sendo saqueada. A corrupção, para muitos homens públicos, é a grande escada para a escalada social. Para um número cada vez maior, a única.

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O ORÁCULO QUE DEU CERTO

 

31 de dezembro de 2012, 10 da noite. Estávamos os quatro ao redor da mesa de bebidas e tira-gostos, aguardando a virada: um sueco, um italiano, um argentino e eu. Depois de aplaudir nossa escolha para a Copa e as Olimpíadas, o sueco e o italiano elogiaram o bom desempenho da economia brasileira. Concordei e disse que, em breve, alcançaríamos a Inglaterra. O argentino, professor de economia na Universidade de Londres, discordou:

– Você está falando bobagem, Luís. O Brasil nunca alcançará a Inglaterra, se vocês mantiverem a atual política econômica. E vai regredir.

– O que tem de errado com nossa política econômica, se o Brasil está dando certo?

– Tem muita coisa errada. O governo gasta mais do que arrecada, gasta mal, em coisas supérfluas e jogadas eleitoreiras, financia demais o consumo, a inflação vai disparar, subsidia combustível com o caixa da Petrobras e tira da empresa a capacidade de investimento, esqueceu a infraestrutura, a corrupção atingiu níveis assustadores, o real está supervalorizado, o mundo ainda não saiu da recessão. Se mantiverem esta política suicida, o país não se sustenta. Vai acabar perdendo o crédito e a credibilidade. E as reservas internacionais brasileiras poderão ser insuficientes para o serviço da dívida, pois os juros para vocês subirão muito. As conquistas sociais, em grande parte, vão virar pó.

A conversa virou um bate-boca animado, nós dois intransigentes, eu espantado com a desinformação do professor de uma das grandes escolas de economia do mundo. Dou a mão à palmatória. Eu era o desinformado. O oráculo estava certo. Sem qualquer ambiguidade. Infelizmente para todos nós.

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MANGA COM LEITE MATA

 

Conheci apenas uma avó, a materna, e a visitava nas férias, sobretudo em janeiro, por coincidência no auge da safra de mangas. Em sua fazenda, havia um pomar que sumia de vista aos meus olhos de menino. Apesar de tanta fruta, ela me proibia manga com leite. Misturar os dois era tiro e queda, podia encomendar o caixão. Vovó tinha visto centenas de imprudentes irem para a cova após a ingestão do coquetel fatal.

Para que a manga não fizesse mal, depois do café da manhã com leite vindo direto do curral, eu deveria esperar pelo menos três horas. Três horas. Espera torturante para um menino. Ao sair para o quintal, eu enxergava as mangas madurinhas, morria de vontade de chupar algumas, mas não podia. Com medo de desobediência, ela me controlava de longe e de perto: “só depois das 11 da manhã, viu, Luís?” Eu retrucava: “posso comer mangada, então, vó?” Mangada ela permitia. Minha cabeça não entendia: mangada pode, manga não? Por quê? Não é tudo a mesma coisa?

Comecei a desconfiar daquela proibição. Devia ser crendice da vovó. Resolvi comprovar, fazer o supremo teste. Depois de um bom copo de leite, fui escondido para o pomar, peguei a fruta mais bonita, bem no alto, chupei-a até o caroço ficar branquinho. Quando terminei, bateu o desespero. E se…?

Senti o estômago embrulhar, o coração acelerou, fiquei tonto. O suor escorreu pela testa. Tive certeza: estava morrendo. Quase saí gritando por socorro. No entanto, resisti. Se eu queria provar que a vovó estava errada, precisava aguentar firme. Terrível espera. Estive a ponto de desistir várias vezes, antes que caísse duro. As horas passaram, sobrevivi. Hoje adoro manga com leite.

Fico imaginando se, mudando o conteúdo e o contexto, não tenho dito a meus netos que manga com leite mata. Preconceito a gente adquire sem perceber. E transmite. Sei que, por mais que fique atento, alguma tolice transmitirei. A gente é manipulado o tempo todo, acaba acreditando em mentira. Por exemplo, que no Brasil não existe político honesto. Existe, sim. Juro. Por isso, torço para que meus netos tenham a coragem de me contestar, nem que seja pelo mero exercício da contestação. Que enfrentem as mangas com leite que, sem perceber, eu cultivo. Só assim obterão um país honesto.

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A BANALIZAÇÃO DA TRAGÉDIA

O rompimento das barragens de Mariana acrescentará mais um capítulo à banalização da tragédia. Muitos morreram, centenas ficaram sem teto, a poluição já atinge o Espírito Santo, mas a catástrofe acabará como simples lembrança, acompanhada dos chavões de sempre: acidentes acontecem, poderia ter sido pior. As ações efetivas contra o risco serão, uma vez mais, adiadas ou esquecidas. O mesmo vale para o Sul brasileiro, onde as chuvas castigam e carregam sonhos. No Rio, ontem, a Linha Vermelha parou enquanto policiais e bandidos trocavam tiros sobre a cabeça dos motoristas, que se jogavam no asfalto em busca de proteção. Em Salvador, há algum tempo, durante uma greve da PM, aconteceram quase 200 homicídios. De tanto vermos a desgraça alheia, ficamos anestesiados, algo insensíveis. A tragédia não existe mais. Transformou-se em corriqueira contagem de corpos e de prejuízo financeiro. A tragédia virou estatística.

O problema não é exclusivo do Brasil. No Haiti, os milhares de desabrigados pelo terremoto transformaram-se em eventual pauta na televisão, nada mais. Ainda sofrem, mas o mundo os deixou de lado. Na África, a fome e a guerra dizimam milhares todos os dias, mas isso é um problema deles que, de vez em quando, chama nossa atenção. No Iraque, os corpos deixados pelos homens-bomba e carros-bomba se contam às dezenas, morticínio que, embora terrível, não se compara nem de longe ao provocado pelos invasores norte-americanos que, com suas armas e sua hipocrisia, mataram entre dez e vinte vezes mais civis iraquianos que Saddam Hussein em todo o seu sangrento governo. Outra tragédia: o dinheiro gasto na invasão do Iraque teria acabado, durante décadas, com a fome na Terra e recuperado os prejuízos trazidos por chuvas, secas e terremotos. Matar gente é melhor negócio que matar a fome.

Em qualquer canto do planeta, democrático ou não, a tragédia se banalizou e nós nos acostumamos. Hoje ela faz parte de nosso dia a dia, não mais nos afeta nem quando acontece ao vizinho. Diante desse quadro, logo um novo Stálin se levantará e, uma vez mais na História, proclamará com escárnio: uma morte é uma tragédia; um milhão de mortes, mera estatística. Que não viremos estatística. A cada hora, a banalização da tragédia aperta o cerco a nosso redor.

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DRUMMOND 113 MEMÓRIAS

 

 

No meio do caminho tinha uma pedra

Tinha uma pedra no meio do caminho.

 

Assim Carlos Drummond de Andrade inicia seu famoso poema, escandaloso para a época da publicação, tanto que o poeta se divertiu ao compilar e publicar 194 páginas de descomposturas indignadas contra os dez versos de No Meio do Caminho.

Drummond é uma quase unanimidade nacional como nosso poeta maior. Autor de obras como Rosa do Povo, Claro Enigma, Sentimento do Mundo e Boitempo, além da prosa em Contos de Aprendiz e Fala, Amendoeira, o mineiro de Itabira capturou o mundo, vasto mundo em palavras e versos, com e sem rima, que, décadas afora, não envelhecem e continuam falando como dois olhos que acordam os homens.

Para quem deseja degustar Drummond, há uma Antologia Poética, por ele organizada, que oferece uma boa introdução a seu trabalho. Ele tinha apenas duas mãos e o sentimento do mundo. Ajudado pelas lembranças de Minas Gerais, casas entre bananeiras, pomar amor cantar, a fotografia na parede, enquanto deixava culpas no caminho e a luta vã com palavras, reuniu as ferramentas para consagrá-lo. Há muita memória em sua obra.

Hoje me lembrei de Drummond. Amanhã ele faria 113 anos. Pois de tudo fica um pouco. De Drummond, fica muito. Fica toda a poesia que nos encanta. Fica tanta memória. Mesmo que ele não gostasse dela.

 

Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.

Ficou um pouco de tudo
no pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,
retrato.

(…) E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.

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A PIPI, O PARAÍSO E OS BILIONÁRIOS DA FORBES

 

 

Fundei a PIPI – Primeira Igreja da Prosperidade Infinita – inspirado por um pedreiro que criou sua própria igreja, “porque igreja está dando muito mais dinheiro que pedreiro”. Nunca vi tanta sinceridade e pragmatismo num futuro pastor. Assumiu o objetivo numa boa, sem esconder nada. Também fiquei com inveja de quatro pastores brasileiros que a Forbes listou entre os 1200 bilionários (em dólares!) do mundo. A revista também foi pragmática. No ramo de negócio, escreveu, sem despistar: religião.

Na minha PIPI, seguindo a lógica do mercado, a retribuição não tem limite. Quem doa mais, aqui e agora, leva mais do lado de lá, depois. Por exemplo, quem entrega apenas o dízimo ganha férias em Cancún ou Paris, depois de morto evidentemente. Quem oferece o trízimo (agora há seitas que exigem 13% do salário do fiel) curte um mês nos resorts do nordeste brasileiro, que continuam mais caros que viagens ao exterior, apesar do dólar nas alturas. Ao maior doador (exijo dele alguns milhões em minha conta) está reservada, no paraíso, uma tarde inteira na cadeira do Grande Chefe, a contemplar de cima toda a grandeza do infinito. Alguém promete mais do que a PIPI? Ninguém!

O outro mundo tem uma grande vantagem para as igrejas, como a PIPI: não possui Procon. Sem fiscalização, ninguém jamais reclamou ou reclamará se o produto comprado aqui foi entregue lá, a contento. Muita gente de cá já descobriu essa falha de comunicação básica e perene, e partiu para o vale-tudo. Oferece absurdos. Não vou perder essa guerra. Assim, nada se compara às vantagens da minha PIPI. Ela promete até sexo farto, seguro e gratuito entre os eleitos. Há bilhões de almas disponíveis para todos, oriundas de todos os séculos, nenhuma com Aids e atribulações afins, problemas exclusivamente terrenos. Diversão segura para todos.

Os banquetes da PIPI no além serão literalmente paradisíacos. Haverá 666 pratos (belo número, hein?) no almoço e no jantar, preparados no fogo eterno do andar inferior por todos aqueles que rejeitarem ou criticarem a PIPI.

Se você quiser aderir à PIPI, não perca tempo. Traga sua declaração de renda para eu medir seu potencial de doação. Viro o Leão com sonegação. Faça os depósitos em qualquer banco. Também aceito cartão de crédito. Divido em até cinco vezes. Juros módicos.

Como a esperança é a última que morre, morro de esperança de conseguir minha prosperidade infinita. Aqui na Terra, é óbvio, junto com a turma da Forbes. Às suas custas, caro seguidor da PIPI. Agradeço de antemão. Você é um anjo.

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