Todos os posts de Luis Giffoni

AS HERESIAS E A HISTÓRIA

 

A história das religiões é assunto apaixonante: revela mais do que se crê. Por exemplo, se você se interessa pelos primórdios do cristianismo, pelos primeiros séculos antes do estabelecimento dos cânones hoje respeitados, aqui vai uma dica: leia O Deus Exilado, de Marilia Fiorillo, professora da USP – Universidade de São Paulo.

O livro analisa a época em que o cristianismo se expandia no Ocidente e no Oriente Médio, sujeito a diversas interpretações. Várias correntes se digladiavam pela hegemonia. Divulgavam suas versões sobre as palavras, as ideias e a natureza de Jesus, contradiziam-se, atacavam-se, até se matavam.

Houve, de fato, muita luta até o século 4 na Síria, no Egito, em Antioquia e em Roma, lugares onde a religião despontava. O Deus Exilado examina as principais correntes e suas teses, com prioridade para o gnosticismo. Vasculha, ainda, os evangelhos apócrifos, aqueles que foram postos de lado quando Constantino, imperador romano, escolheu os de Lucas, Mateus, João e Marcos como os canônicos, relegando os demais à categoria das heresias, inclusive aquele que provavelmente era o mais antigo de todos, fonte de inspiração para outros, o Evangelho de Tomé. Segundo a lenda, Constantino se converteu após ver no céu uma cruz com as iniciais de Cristo e a frase “In hoc signo vinces” (Com este símbolo vencerás). De fato, após ganhar a batalha da Ponte Mílvia, em 312, o imperador transformou a cruz em sua espada.

Com uma pesquisa vasta e interessante, Marilia Fiorillo faz uma viagem no tempo e desmonta mitos até hoje tidos como verdade. A verdade é esclarecedora. Ganha quem a conhece. Como diz o teólogo Leonardo Boff na introdução, o livro é iluminador e libertador.

O Deus Exilado traz fatos e hipóteses sem sectarismo, separando o joio do trigo. O problema é que a quantidade de joio impressiona. É tanto joio que o trigo até hoje não conseguiu germinar a contento.

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PROMESSA RESOLVE?

Agora que o Ano Novo chegou, espero que nossos planos, desejos e sonhos se tornem realidade. Temos doze meses para trabalhar e dar uma ajuda ao destino para conquistarmos os objetivos. Sempre que um ano se inicia, renovamos velhas promessas. Também sou assim.

Prometo-me coisas simples. Por exemplo, organizar meus livros. Entra e sai ano, renovo a esperança de racionalizar a distribuição das obras por assunto e autor. Esperança inútil. Para simplificar a tarefa, radicalizei. Doei três quartos de meu acervo para bibliotecas públicas. Os livros sobreviventes continuam espalhados pelas prateleiras num caos que só eu entendo. Mas sei onde achar cada exemplar. Melhor dizendo, sabia, pois alguém cismou de me ajudar, organizou meu caos e entrei em desespero. Cadê o Montaigne? E o Flaubert? E o Grande Sertão? E o Quincas Borba? E o Borges? E o danado do Shakespeare, completo? E o Murilo Rubião? Será que cometi comigo a desfaçatez de doar algum deles?

Preciso da presença de meus livros preferidos, de sua companhia. Me dão segurança, neles as coisas sempre estão bem, seguras, asseguradas, são tábuas de salvação, muletas para quando a vida capenga. Há obras para todos os gostos e climas. Elas têm personalidade própria, até se arvoram em caminhar sozinhas, como seres independentes. Ou você acha que o Dom Quixote não possui alma própria? Ou que Hamlet parou de dizer to be or not to be?

Ainda bem que tenho até dezembro para organizar meu caos. Se bem me conheço, a promessa vai ficar nisso mesmo, na promessa. Logo vou memorizar para onde cada livro foi remanejado, e as novas posições nas prateleiras se tornarão as definitivas. Entrarei na biblioteca e de novo saberei onde está o Mário Palmério. Ou Platão.

A vida carece de um pouco de desordem para se ordenar. Nem sempre para voltar à mesma. Talvez por isso a gente não cumpra ao longo do ano as promessas e boas vontades assumidas em janeiro. Tudo se ajeita, nada se enjeita. A capacidade de adaptação fez o sucesso da espécie humana. Portanto promessas não cumpridas fazem parte da gente, são nossa humanidade. O que importa é viver como a gente gosta.

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A CORRUPÇÃO COMO ESCADA SOCIAL

 

Nossos escândalos de corrupção sempre me remetem a um livro que fala dos excessos dos anos 1920, a ruidosa década de grande prosperidade que desembocou no caos de 1929. O livro se chama O Grande Gatsby. Foi escrito por Francis Scott Fitzgerald, um norte-americano pobre fascinado pelo mundo dos milionários. Fitzgerald e Zelda, sua mulher, aparecem no filme Meia-noite em Paris, de Woody Allen, em meio a festas extravagantes, esbanjando dinheiro, querendo ser e parecer ricos a qualquer custo. Os políticos de Brasília também aparecem em meio a festas extravagantes, esbanjando dinheiro público, querendo ser ricos a qualquer custo, sobretudo às nossas custas. Seriam para essas festas as tais “verbas de representação” que recebem? Pelo visto, não bastam. Querem muito mais.

O Grande Gatsby trata desses personagens do alpinismo social levado às últimas consequências. Jay Gatz, que se transformaria no grande Gatsby, é um rapaz pobre apaixonado por Daisy, moça rica. A fim de conquistar a amada, Gatsby trata de se enriquecer por meios ilícitos. Depois de ajuntar muito dinheiro, para ostentar posses e atrair Daisy, Gatsby promove festas extravagantes, nas quais esbanja fortunas. Quase conquista Daisy. Fitzgerald atrapalha o final feliz, provocando um morticínio digno dos grandes folhetins.

O romance foi considerado um dos melhores da literatura norte-americana do século 20, com o que não concordo, mas sem dúvida merece ser lido. Não apenas pelo mérito literário, também pelo retrato de uma época de prosperidade que parecia eterna e acabou em tragédia, a Grande Depressão, tragédia que também atingiu a vida particular do escritor Scott Fitzgerald, morto prematuramente aos quarenta e quatro anos. Morreu pobre como nasceu.

Grandes festas, grandes arroubos, grandes roubos, grandes Gatsby. A história se repete no Brasil de hoje. Dinheiro continua a mola do mundo. Há pouco, em 2008, quase trouxe outra grande depressão. O mundo ainda não se recuperou. Continuamos pagando a conta do desmando e da ganância alheia. Lá fora e também aqui dentro do país, onde, além da situação econômica internacional adversa, temos um problema crônico: em muitos órgãos públicos, apesar de todas as prisões já feitas, a viúva, coitada, segue sendo saqueada. A corrupção, para muitos homens públicos, é a grande escada para a escalada social. Para um número cada vez maior, a única.

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O ORÁCULO QUE DEU CERTO

 

31 de dezembro de 2012, 10 da noite. Estávamos os quatro ao redor da mesa de bebidas e tira-gostos, aguardando a virada: um sueco, um italiano, um argentino e eu. Depois de aplaudir nossa escolha para a Copa e as Olimpíadas, o sueco e o italiano elogiaram o bom desempenho da economia brasileira. Concordei e disse que, em breve, alcançaríamos a Inglaterra. O argentino, professor de economia na Universidade de Londres, discordou:

– Você está falando bobagem, Luís. O Brasil nunca alcançará a Inglaterra, se vocês mantiverem a atual política econômica. E vai regredir.

– O que tem de errado com nossa política econômica, se o Brasil está dando certo?

– Tem muita coisa errada. O governo gasta mais do que arrecada, gasta mal, em coisas supérfluas e jogadas eleitoreiras, financia demais o consumo, a inflação vai disparar, subsidia combustível com o caixa da Petrobras e tira da empresa a capacidade de investimento, esqueceu a infraestrutura, a corrupção atingiu níveis assustadores, o real está supervalorizado, o mundo ainda não saiu da recessão. Se mantiverem esta política suicida, o país não se sustenta. Vai acabar perdendo o crédito e a credibilidade. E as reservas internacionais brasileiras poderão ser insuficientes para o serviço da dívida, pois os juros para vocês subirão muito. As conquistas sociais, em grande parte, vão virar pó.

A conversa virou um bate-boca animado, nós dois intransigentes, eu espantado com a desinformação do professor de uma das grandes escolas de economia do mundo. Dou a mão à palmatória. Eu era o desinformado. O oráculo estava certo. Sem qualquer ambiguidade. Infelizmente para todos nós.

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QUEM INVENTOU NOSSO NATAL?

 

Que autor melhor reflete o espírito do Natal? Quem mais patrocinou em suas obras a solidariedade que se busca espalhar nesta época do ano? Quem mais influenciou o imaginário do Natal em família? Quem mais se aproveitou desta festa para fazer crítica social, mostrar o contraste entre o rico e o pobre?

O inglês Charles Dickens, nascido há pouco mais de dois séculos, é o nome que me vem à cabeça. Foi o Paulo Coelho da época. Seus livros vendiam – e vendem – mais que batata em supermercado. Com frequência melodramático, inverossímil e moralista, Dickens é o rei dos natais tradicionais em família, com os deserdados da Inglaterra vitoriana do lado de fora das janelas, mortos de fome e frio, a observar o conforto e as guloseimas do lado de dentro dos lares dos ricos.

Dickens era um contestador, uma voz dissonante do império inglês em seu auge de triunfalismo, embora muito bem aceito no país. Criticava a miséria e a exploração das pessoas, ou melhor, defendia os que não se beneficiaram da Revolução Industrial. Entre outras, exemplo disso é sua novela “Um Cântico de Natal”, o famoso “A Christmas Carol”, de 1843, tantas vezes filmado e adaptado, protagonizado pelo avarento Ebenezer Scrooge, que economizava até a luz, pois a escuridão é mais barata.

Scrooge, pai do tio Patinhas do Walt Disney, detestava natais e ajudar as pessoas. Após ser assombrado por almas penadas e vislumbrar um terrível futuro, sofre a transformação que o leva a celebrar cada Natal e a tomar conta do pequeno Tim, garoto pobre com problema nas pernas. Haja lágrimas. Haja bom propósito de ajudar o próximo.

Até hoje, quando o vinte e cinco de dezembro se aproxima, muita gente acredita na transformação permanente do coração e da mente das pessoas. Nós não mudamos há milênios, continuamos egoístas e centrados em nós mesmos, mas vivemos a esperança de dias mais justos e mais solidários. O grande artífice dessa crença foi Charles Dickens, espalhada mundo afora pelo poder de que a Inglaterra então dispunha.

Leia os livros de Dickens, encha-se do contraste que ainda persiste em nossa sociedade e tenha um Natal temperado pela solidariedade. Vai durar pouco tempo, mas que seja infinita enquanto dure.

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O FRALDULENTO – FINAL DA SAGA

 

 

 

Encontrei minha neta Teresa com a fralda mais suja que o Congresso Nacional. Sim, ela conseguiu a façanha. Tentei limpá-la com uns quinze paninhos úmidos. Não fizeram qualquer diferença. Diante de tanta sujeira, lavá-la me pareceu a solução lógica. Embrulhei-a em três fraldas novas, o que ofereceu algum isolamento entre minha pele e a matéria orgânica que escorria até o chão. Fui até a banheira, abri a torneira. Primeiro problema: a água estava quente ou fria demais? Quando concluí que estava morna e confortável, não houve mais jeito. Para mim. O contato tinha sido inevitável. Eu também fedia.

Tentei remover, de longe, a espessa camada amarela com o jato mais forte do chuveirinho, mas não tive êxito. Fui obrigado a segurar a menina. Venci a resistência e a segurei. De repente, vapt. Ela quase caiu. Por reflexo, agarrei-a contra o peito. Ah, como o melado escorrega… Mais liso que gosma de quiabo. Fiquei imundo do peito à calça, enquanto a baixinha me escapava entre a mão direita e a esquerda e quase despencava. Grudei-a com força no último momento, antes que mergulhasse no suco amarelo acumulado junto ao ralo.

Quando me vi, precisava de um banho com urgência. Todo dourado, entrei em desespero. A Teresa percebeu. Sorriu para mim, na vã tentativa de me consolar. Ou a danadinha se divertia?

Resultado da batalha: melhor seria se nós dois tomássemos uma chuveirada. Assim o caldo fedorento iria para o ralo, e recuperaríamos a aparência e o cheiro civilizados. Sob a ducha, apareceu mais problema. A pobrezinha por pouco não foi à lona, quer dizer, ao mármore do piso. Mas também pudera. Bebês ficam muito lisos quando ensaboados. Já me esquecera.

Secar a Teresa foi outra luta. Ela mexia demais na concha de plástico onde minha filha a enxugava sem a menor dificuldade. Quase beijou o chão enquanto eu buscava o talco. No entanto, consegui perfumá-la. Ficou todinha branca, exalando rosas. Da cabeça aos pés. Os olhinhos pretos eram a única parte que se destacava no meio da alvura. Eu, contudo, conseguira. Comemorei a vitória com um pequeno grito. Que arrependimento… Minha neta se assustou e começou a chorar. Com toda a força de sete meses de treinamento.

Sou, porém, perseverante. Peguei um chocalho, balancei-o até sentir cãibra nas mãos. O esforço valeu. Dali a dez minutos, o berreiro parou.

Depois do talco, veio a pomada. Só então ataquei a fralda. O fato de, uma vez mais, colocá-la de trás para a frente não vem ao caso. Acontece sempre. Importa dizer que, no momento em que devolvia a Teresa ao berço, minha filha chegou. Ao ver meu serviço, não teve dó:

– Pai, que fralda mais mal colocada!

Fiquei ofendido. Os fraldulentos merecem mais respeito. Teresa sorriu de novo para mim. Ela se divertia com minha cara ou se vingava? Não quis interpretar a expressão. Dei-lhe um beijo. Com ternura. Como se fosse uma medalha por bravura. Sobrevivera ao avô.

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O FRALDULENTO

Sou fraldulento. Nada a ver com fraude, nem com o Congresso Nacional, mas com fralda infantil. Sou muito lento ao trocá-las, além de jamais conseguir a maneira correta: fica frouxa, não sei qual é a parte da frente ou a de trás, costumo grudar o esparadrapo na pele da pequena vítima. Tem mais: detesto a tarefa. Não apenas pelo cheiro e pela consistência da coisa que as fraldas retêm, sobretudo pela moleza do corpo dos bebês, que sempre me parecem a ponto de desconjuntar-se, quebrar a espinha, escorregar das mãos, cair no chão. Sim, sou fraldulento.

Imagine, então, minha destreza depois de mais de trinta anos sem praticar, isto é, desde que meus filhos cresceram. Tornei-me mais fraldulento que qualquer membro do nosso Congresso. Imagine, agora, eu numa noite, sozinho na casa de minha neta Teresa, de apenas sete meses. Torci para que a baixinha não fizesse nem xixi. Porém, lá pelas tantas, ouvi um choro mais esganiçado. Meu coração disparou: será que aconteceu o pior?

Bem devagarinho, a examinei. Testemunhei uma cena de horror. Tive vontade de fugir. A meleca era tanta que saía até pela nuca. Nunca imaginei que tal quantidade coubesse num ser humano tão pequeno. O pior é que minha neta esticou os braços para mim, mais em pedido de socorro que de carinho. E agora?

Minha reação, pura defesa, foi sorrir e imaginar que nada tinha visto. Suportaria o choro por uma hora, até que minha filha voltasse e removesse o espetáculo dantesco. Suja estava a Teresa, suja continuaria um pouco mais. A consciência não me permitiu abandonar a neta. E se ficasse assada, sofrendo, tadinha? Peguei-a e a fui descascando, camada por camada de pano, até chegar à origem de tudo.

Quando deparei o estado geral da coitadinha, lambuzada da nuca aos pés, concluí: não havia salvação para a pobre garota. A única solução seria o descarte. Humanamente impossível limpar tamanha sujeira. Olhei para a lixeira, mas o anjo da guarda da Teresa foi mais forte. Deu-me um puxão de orelha e ordenou:

– Vamos, Luís, ao trabalho!

– Uai, por que você não vai?

– A obrigação é sua, vovô.

E lá fui eu trocar a fralda. Avô também tem de participar. Quer queira, quer não.

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RECEITA PRA FICAR LOUCO

 

 

Para tudo, precisamos de modelos hoje em dia – também podemos chamá-los de sistemas, critérios, planos, classificações, conjuntos, teorias, padrões – em busca de maior sentido à vida ou para extrapolar a rotina. Criamos modelos para este e todos os mundos, incluídos o paraíso, o inferno, as estrelas, os universos paralelos. Para o real e o imaginário. Nem a literatura escapa. Temos modelos até para a loucura. Mais de quinhentos, segundo os psiquiatras.

Modelos inserem o particular no global. É cômodo. Em vez de nos ocuparmos de muitos casos, nós os condensamos, unindo-os através de características comuns. Assim, tratando-nos por primatas, incluímo-nos numa família mais ampla com a qual temos noventa e sete por cento de semelhança genética. Não deixa de ser paradoxal que, enquanto procuramos sínteses totalizantes, abertas para o cosmo, tornamo-nos, no varejo, cada vez mais especialistas, mais míopes. Cada vez mais sabemos mais de menos.

Geramos modelos de comportamento, de economia, de religião, de física, de química, de fisiologia, de evolução no Sambódromo, de circulação de dinheiro, de espalhamento de vírus na Terra, de distribuição da matéria nas galáxias, de expansão do Universo, de distribuição de jogadores no campo de futebol. Construímos suportes para cada aspecto da vida e das ideias, porém demonstramos pouca fidelidade a eles. Sempre consideramos nosso tempo o mais aquinhoado; nossas certezas, as melhores, nossos pontos de vista, os definitivos. Somos, no entanto, volúveis – e como. Na época do descobrimento do Brasil, o Sol gravitava em torno da Terra e os índios não tinham alma. No século 19, a beleza feminina carecia de muito volume corporal e aceitava-se a escravidão. Hoje, ainda se acredita em duende e no poder da guerra para resolver disputas.

A vida é uma peça de teatro em que o primeiro ensaio coincide com a estreia. Detalhe: o texto muda a cada apresentação. Em outras palavras, tomamos decisões cujas consequências, a priori, não sabemos medir. No atual modelo, o futuro promete ser melhor que o presente, embora desconheçamos como e por quê. Porque duramos mais que nossos avós, postulamos que nossos netos devam viver cento e cinquenta anos. Descartamos a hipótese de que o século 21 possa reservar-nos dias amargos graças a decisões tomadas, no século 20, com aparente garantia de prudência, tecnologia e conhecimento.

Se alguém me pedisse para montar um modelo em que juntássemos internet, ETs, o cometa Hale-Bopp, castração, tênis Nike, religião, tranquilizantes e vodca, eu não saberia por onde começar, muito menos supor que alguém pudesse acreditar no monstrengo gerado por esse coquetel indigesto. Pois esses ingredientes fundiram-se nas cabeças e nos corpos dos seguidores de uma seita maluca dos Estados Unidos, a Heaven’s Gate. Trinta e nove deles, calçados com Nike e bêbados com vodca e calmantes, suicidaram para alcançar um suposto Portal do Céu, escondido no rabo do cometa Hale-Bopp, no qual Jesus Cristo em pessoa estaria viajando pelo Universo, escoltado por ETs. Todos os trinta e nove abraçaram um modelo que lhes fez sentido e sacrificaram-se em nome dele.

Apenas como exercício de imaginação, penso na possibilidade de, num momento de loucura, desconhecimento ou distração geral, a humanidade embarcar em disparate similar. Por que não? Afinal, somos viciados em ligar uma ideia a outra. Nada nos garante que sempre tomaremos a decisão correta, sobretudo quando considerados períodos mais longos, em que os efeitos perversos se multiplicam: a possibilidade de acertar cem por cento das vezes é nula. Louvamos paradigmas, aceitamos dogmas, admitimos preconceitos. Temos exemplos de países ditos desenvolvidos que acataram absurdos de seus líderes. Épocas inteiras praticaram aberrações. Quem sabe já tenhamos feito opções cuja nocividade descobriremos tarde demais? Até que ponto podemos conciliar o presente com o futuro? Como garantir o bom senso ante a tentação da loucura? Estaria eu louco ao aventar estupidez em escala universal? O tempo o dirá.

Como disse, a vida parece uma peça. Também no sentido de engano, logro, embuste, ludíbrio. A vida prega muitas peças. Ela nos poupará da insensatez coletiva? Sobra-nos o velho consolo. Quem brinca com fogo pode se queimar, porém, sem ele, a humanidade jamais teria sobrevivido pelos últimos cem mil anos.

 

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O HOMEM QUE ALIMENTA POMBOS

 

Todas as manhãs, ao redor das dez horas, o muçulmano chega ao Regent´s Park, aqui em Londres, pela entrada próxima à Mesquita Central, na Park Road. Chega a caráter: turbante, barba comprida, bata, chinelo. Parece carregar uma melancia sobre a barriga. O rosto magro lembra o do Bin Laden.

Nem bem pisa no parque, uma revoada de pássaros o persegue. Gaivotas, patos, marrecos, gansos, galinhas-d´água, corvos, pombos, centenas de bichos. Até dois cisnes. Sem pressa, o São Francisco do Islã se dirige a um banco, tira dos sacos de supermercado dúzias de pães e quilos de flocos de milho, parte, reparte e lança a comida aos animais, que iniciam a luta pela sobrevivência. Ele tenta distribuir equitativamente a refeição, pois as gaivotas avançam na terra e no ar com a sanha de vikings e nada deixariam para as demais espécies.

Seu olhar é tranquilo, exala prazer na tarefa, nada o abala. Nem os pombos que, ávidos, pousam em seu turbante para se aproximarem de sua mão. Ali perto, em Baker Street, dezenas de pessoas protestam contra a presença de muçulmanos na Inglaterra. “São todos terroristas”, gritam os mais exaltados. Carros de polícia zunem pela Park Road. O homem, rodeado pelas aves, olha para elas, embevecido. Ignora a manifestação. Os pombos são da paz.

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DE ONDE VÊM OS POEMAS?

MUSA ANTIGA

 

A camisa no cabide

me encara

indaga há hora e meia

por que dela me ocupo

se sobram trabalhos e dias

escuto carros, makitas zoam

homens fecham negócios, buscam comida

crianças estudam, aviões passam

em silêncio e grito

o manso e o aflito

se atiram na vala comum

da vida

sorrio para a camisa marrom

no cabide de enganos

e escrevo Hesíodo

no mesmo tom, mesma virtude e azar

para gregos e troianos

sou Pierre Menard

há dois mil e setecentos anos.

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MANGA COM LEITE MATA

 

Conheci apenas uma avó, a materna, e a visitava nas férias, sobretudo em janeiro, por coincidência no auge da safra de mangas. Em sua fazenda, havia um pomar que sumia de vista aos meus olhos de menino. Apesar de tanta fruta, ela me proibia manga com leite. Misturar os dois era tiro e queda, podia encomendar o caixão. Vovó tinha visto centenas de imprudentes irem para a cova após a ingestão do coquetel fatal.

Para que a manga não fizesse mal, depois do café da manhã com leite vindo direto do curral, eu deveria esperar pelo menos três horas. Três horas. Espera torturante para um menino. Ao sair para o quintal, eu enxergava as mangas madurinhas, morria de vontade de chupar algumas, mas não podia. Com medo de desobediência, ela me controlava de longe e de perto: “só depois das 11 da manhã, viu, Luís?” Eu retrucava: “posso comer mangada, então, vó?” Mangada ela permitia. Minha cabeça não entendia: mangada pode, manga não? Por quê? Não é tudo a mesma coisa?

Comecei a desconfiar daquela proibição. Devia ser crendice da vovó. Resolvi comprovar, fazer o supremo teste. Depois de um bom copo de leite, fui escondido para o pomar, peguei a fruta mais bonita, bem no alto, chupei-a até o caroço ficar branquinho. Quando terminei, bateu o desespero. E se…?

Senti o estômago embrulhar, o coração acelerou, fiquei tonto. O suor escorreu pela testa. Tive certeza: estava morrendo. Quase saí gritando por socorro. No entanto, resisti. Se eu queria provar que a vovó estava errada, precisava aguentar firme. Terrível espera. Estive a ponto de desistir várias vezes, antes que caísse duro. As horas passaram, sobrevivi. Hoje adoro manga com leite.

Fico imaginando se, mudando o conteúdo e o contexto, não tenho dito a meus netos que manga com leite mata. Preconceito a gente adquire sem perceber. E transmite. Sei que, por mais que fique atento, alguma tolice transmitirei. A gente é manipulado o tempo todo, acaba acreditando em mentira. Por exemplo, que no Brasil não existe político honesto. Existe, sim. Juro. Por isso, torço para que meus netos tenham a coragem de me contestar, nem que seja pelo mero exercício da contestação. Que enfrentem as mangas com leite que, sem perceber, eu cultivo. Só assim obterão um país honesto.

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CARINHO É UMA LUTA

 

 

Nesta semana, ao tentar falar com uma de minhas netas pelo Skype, ela me despachou:

– Vovô, tenho um trabalho importante para fazer e não posso conversar. Tchau.

Achei interessante a expressão “trabalho importante” na boca de uma garota de 4 anos, fiquei a imaginar o que seria. Descobri que era brincar com a boneca nova. Deixei-a curtir o brinquedo. A gente conversaria em outra hora, quando ela não tivesse trabalho importante.

Por coincidência, participei como jurado de um concurso de crônicas sobre o relacionamento familiar. Os concorrentes deveriam revelar a idade. Para minha surpresa, um grande número deles reclamava, nos escritos, do abandono pelos parentes. Um, de 51 anos, dizia-se desprezado até pelos netos. Estranhei. Aos 51, os netos deveriam ser ainda muito jovens e já estavam sendo cobrados.

Amor e carinho a gente planta todos os dias. E rega com cuidado, põe ao sol, espera para vê-los crescer. Amor de neto, então, nem se diga. Crianças, apesar da mística em torno da infância, são egoístas. O mundo delas gira em torno dos próprios umbigos. Trazê-las ao nosso mundo necessita de atenção e paciência. Unilateral, quase sempre. Dando linha, igual pescador. Trazendo isca de afeto. Só assim a gente, depois de alguma espera, fisga. E corre para o abraço. Literalmente. Demoradamente.

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PASSARÃO E PASSARINHOS

 

A diversidade (de raças, de crenças, de costumes, de culturas, de adaptação) é a grande responsável pelo êxito humano, êxito que nos deixa orgulhosos até nos autoproclamarmos ápice da evolução, os pontos alfa ou ômega, topo da cadeia alimentar e títulos afins. Essa mania de grandeza vem de longe, de milênios atrás, como atesta o filósofo Protágoras, para quem o ser humano é a medida de todas as coisas. Conheço um mineiro que se julga Napoleão. Todos afirmam que ele sofre de sérios distúrbios mentais. Não haveria essa mania de grandeza contaminado o Homo sapiens desde Protágoras, embora nos consideremos normais? Cadê o hospital psiquiátrico para a internação geral da nossa espécie?

Dois bem-te-vis me provocaram essas reflexões. Construíram o ninho no poste em frente à minha janela, estão criando os filhotes, cantam satisfeitos da madrugada ao anoitecer e, até onde percebo, não filosofam, não poluem, não sofrem no trânsito, não frequentam psicanalistas, não fazem declarações de renda, não matam para conquistar territórios, não praticam atos terroristas, não bombardeiam inocentes, apesar do nome que lhes demos na classificação ornitológica: tiranídeos. Estamos precisando de tiranos assim. Por que ninguém se julga bem-te-vi, em vez de Napoleão? Que eu saiba, apenas o poeta Mario Quintana se julgou passarinho. E nos faz voar em seus versos:

 

Todos esses que aí estão

Atravancando o meu caminho,

Eles passarão…

Eu passarinho.

 

 

 

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MARCIANOS NÃO PAGAM CONTAS

 

Não acredito na tão propalada objetividade da ciência, apesar do sucesso do método empírico. Indivíduos de carne o osso fazem as pesquisas, sentimentos os norteiam e, embora tentem ser isentos, crenças impregnam seu trabalho. Como impregnam… Os grupos também aderem, em bloco, a idéias preconcebidas. Segundo os estudiosos da mente, a emoção precede, estimula e guia a razão, e todos ficaríamos loucos caso tentássemos nos desvencilhar dos arroubos do temperamento. A razão pura é um sonho de verão, como ficou provado no famoso teorema de Gödel, o da Incompletude. Somos matematicamente impossíveis de entender o mundo. A não ser que saiamos deste Universo.

Por isso, a comunidade científica, como qualquer outra, pode aderir a inverdades. O certo de hoje com certeza não o será no futuro. A realidade muda com as pesquisas e a troca de paradigmas. Durante séculos, as melhores cabeças propalaram o geocentrismo, tese filosófica tornada dogma religioso e científico. A ideia era tão certa, tão verdadeira, que não admitia contestação. Quem duvidasse ia para a fogueira. Pouca gente duvidou.

Marte também ilustra quanto a subjetividade pode tomar conta dos adeptos da objetividade: a partir do século 19, o planeta transformou-se no maior exportador de alienígenas que, ainda hoje, reaparecem nas fotos da NASA. Outro sonho de verão. No entanto, há quem ainda não se tenha rendido às evidências. Aposto que, se uma rádio retransmitir o trote de Orson Welles de muitas décadas atrás, anunciando uma invasão marciana, teremos cartesianos correndo apavorados pelas ruas.

A lenda dos marcianos começou em 1877, quando o astrônomo italiano Schiaparelli enxergou canais artificiais na superfície do planeta. A fantasia logo conquistou defensores, sobretudo na comunidade científica norte-americana, a começar pelo seu líder, o competente Percival Lowell. Em março de 1901, a sisuda revista Scientific American admitia que “as fileiras dos que desacreditam nos canais diminui cada vez mais”. Note-se que, na época, alguns astrônomos, com os olhos no céu, mas os pés no chão, explicavam o suposto sistema de irrigação no Planeta Vermelho como meros acidentes geológicos ou resultado da baixa resolução dos telescópios. Essas ponderações de nada adiantaram. A maioria dos cientistas viu o que queria: marcianos inteligentes.

Se a objetividade é um sonho, a subjetividade tampouco traz a verdade. Quantos de nossos conflitos decorrem da opinião alheia transformada em fato ou empurrada pela nossa goela abaixo? Até que ponto estamos vendo coisas que nos convenceram a ver através de uma retórica convincente, digna dos melhores sofistas, ou através da manipulação? Como capturar a realidade – se é que existe uma – sem cometer engano?

Descobri tanta inverdade em circulação, tanto delírio no dia a dia, que decretei o fim da realidade. Se nada casa com nada, então nada existe. O real é uma ficção.Isso mesmo, uma ficção! Para comprovar minha tese, deixei de enxergar as contas, ou seja, parei de pagá-las. Que os marcianos as pagassem. Cortaram a luz, a água, o telefone, o cartão de crédito, meu nome foi para o cartório, tomaram meu computador, vão me despejar na semana que vem. Detesto credores. Eles derrubam meu argumento lógico, enterram minha filosofice, não engolem minha conversa, me dão um choque de realidade. Objetiva e subjetivamente, aqui neste quarto às escuras, com sede, fome e frio, não sei como sair dessa.

 

 

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BARBÁRIE NÃO SE COMBATE COM BARBÁRIE

 

 

As hegemonias, como as unanimidades, são burras. E míopes.

Burras porque, para se perpetuarem, abusam das armas disponíveis para eliminar pontos de vista ou culturas diferentes. Às vezes, até admitem alguma influência externa ou de grupo minoritário, desde que possam absorvê-la sem se comprometer. As hegemonias assumem o papel de gendarmes do bem, reservando o papel do demônio às vozes dissonantes. Julgam-se paladinas da justiça e a distribuem de acordo com o interesse e a conveniência da hora, sem se importar com a coerência de seus atos.

Como tudo que é humano, as hegemonias um dia terminam. As mais perigosas são justamente as mais bem sucedidas, aquelas que se impuseram de modo mais amplo. Quando desabam, e sempre acabam desabando, deixam um vazio de opções e, em seu rastro, a desorientação ou o caos. Após a queda do Império Romano, sucederam-se mil anos de estagnação, conhecidos por Idade das Trevas, em que o mundo ocidental viveu um misticismo desastroso e as fogueiras queimaram algumas das melhores cabeças. A civilização reencontrou o caminho em boa parte graças aos muçulmanos que recuperaram, reproduziram e reintroduziram na Europa textos oriundos das antigas Grécia e Roma banidos pelos cristãos. Surgiu então o Renascimento.

As hegemonias são míopes, porque não enxergam um metro além do quintal. Acreditam que a vida de um de seus cidadãos equivale à de dez dos estrangeiros – ou mil, como se depreende dos discursos mais inflamados. Condenam o assassinato de seus próprios inocentes, porém matam inocentes alhures e, com cinismo, propalam que distribuem a morte com justiça.  Se entendem que seus interesses foram contrariados, ameaçam meio mundo com a vingança e o dies irae. Ignoram decisões de fóruns mundiais que desagradam seus aliados, porém efetivam a toque de caixa as que atingem os desafetos. Quem não está a favor está contra: de que prática democrática extraíram tamanha arrogância?

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O RISO DO TEMPO

 

Faz 15 anos que o tempo ri de mim. Tudo começou na virada do ano 2000, porque escutei o jornal e a televisão. Nunca escute jornal e tv, hoje eu digo. Quase à meia-noite do 31 de dezembro de 1999, coloquei sete chips contaminados com o bug do milênio sobre cada um dos sete chakras e interliguei-os com fios de cobre. Usei sete pilhas alcalinas, que duram mais, ante o colapso das usinas hidrelétricas, uma tragédia certa em todas as mídias. Parafernália montada sobre o corpo, fui para a varanda e abri os braços, a fim de facilitar a captura da energia cósmica através do chakra do alto da cabeça, o que deflagraria minha viagem no tempo.

Tudo quase foi por água abaixo, nem tanto pela chuva torrencial, mas por causa dos policiais que me acusavam de atentado ao pudor. Afinal, ninguém pode ficar pelado na varanda do apartamento, em cima da balaustrada, com as mãos apontadas para o céu. Para complicar, um bando de engraçadinhos não parava de gritar: “Pula, pula, puuula!”.

Quando soou a primeira badalada da meia-noite, arrepios percorreram minha espinha, vindos da emoção e dos pingos gelados.

O bug funcionou direitinho. Instantaneamente, o circuito voou para o anno da graça de 1900. Como eu estava conectado, fui junto. Num momento, eu vivia em 1999; no seguinte, cem annos antes. Eu havia descoberto a máchina do tempo, simples, barata, efficiente. Com uma vantagem adicional: ella me faria eterno. Quando voltasse a 1999, depois de viver outra vez todo o século 20, usaria de novo o artifício para recomeçar. Pensei no tédio de enfrentar os mesmos eventos, as mesmas catástrofes, as mesmas mortandades, afastei na hora o pessimismo. Preferi me concentrar nas dez décadas que teria pela frente. Eu lucraria muito com meus conhecimentos. Por exemplo, faria fortuna nas loterias. Memorizara vários números premiados. As boas perspectivas compensariam a mesmice.

O sonho acabou no primeiro minuto. Materializei-me no meio de uma multidão, à porta de uma igreja, que celebrava a esperança em 1900. Estupefactas, as senhorinhas sentiram-se obrigadas a desmaiar e os cavalheiros, a brandir bengalas em nome do pudor. Ganhei galos na cabeça e roxos no corpo. Toda nudez será castigada, no início ou no fim do século.

Quasi linchado, arranquei as pilhas que alimentavam os chips. Num átimo, voltei para casa. Fogos de artifício e canhões de laser illuminavam a noicte, os polliciaes ainda me ameaçavam prender. Os engraçadinhos insistiam: “Pulla, pulla, puuulla!”. Seria meu pullo a grande cellebração da virada do século? Não tinha a multidão programma melhor para fazer?

Adentrei o apartamento, tomado por um mau estar differente. Desde então, faz 15 anos e alguns meses, tenho a impressão de que algo se corrompeu em mim. Não consigo determinar o quê, mas percebo seus signaes, por exemplo quando a orthographia me trae ou esqueço a escripta. Sinto-me com mais de cem annos. O pharmacêutico me tractou com diversas poções, infructíferas até agora. Meu humor peora a cada dia. Minha memmória idem. Creo que deste millénio eu não passo.

 

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A BANALIZAÇÃO DA TRAGÉDIA

O rompimento das barragens de Mariana acrescentará mais um capítulo à banalização da tragédia. Muitos morreram, centenas ficaram sem teto, a poluição já atinge o Espírito Santo, mas a catástrofe acabará como simples lembrança, acompanhada dos chavões de sempre: acidentes acontecem, poderia ter sido pior. As ações efetivas contra o risco serão, uma vez mais, adiadas ou esquecidas. O mesmo vale para o Sul brasileiro, onde as chuvas castigam e carregam sonhos. No Rio, ontem, a Linha Vermelha parou enquanto policiais e bandidos trocavam tiros sobre a cabeça dos motoristas, que se jogavam no asfalto em busca de proteção. Em Salvador, há algum tempo, durante uma greve da PM, aconteceram quase 200 homicídios. De tanto vermos a desgraça alheia, ficamos anestesiados, algo insensíveis. A tragédia não existe mais. Transformou-se em corriqueira contagem de corpos e de prejuízo financeiro. A tragédia virou estatística.

O problema não é exclusivo do Brasil. No Haiti, os milhares de desabrigados pelo terremoto transformaram-se em eventual pauta na televisão, nada mais. Ainda sofrem, mas o mundo os deixou de lado. Na África, a fome e a guerra dizimam milhares todos os dias, mas isso é um problema deles que, de vez em quando, chama nossa atenção. No Iraque, os corpos deixados pelos homens-bomba e carros-bomba se contam às dezenas, morticínio que, embora terrível, não se compara nem de longe ao provocado pelos invasores norte-americanos que, com suas armas e sua hipocrisia, mataram entre dez e vinte vezes mais civis iraquianos que Saddam Hussein em todo o seu sangrento governo. Outra tragédia: o dinheiro gasto na invasão do Iraque teria acabado, durante décadas, com a fome na Terra e recuperado os prejuízos trazidos por chuvas, secas e terremotos. Matar gente é melhor negócio que matar a fome.

Em qualquer canto do planeta, democrático ou não, a tragédia se banalizou e nós nos acostumamos. Hoje ela faz parte de nosso dia a dia, não mais nos afeta nem quando acontece ao vizinho. Diante desse quadro, logo um novo Stálin se levantará e, uma vez mais na História, proclamará com escárnio: uma morte é uma tragédia; um milhão de mortes, mera estatística. Que não viremos estatística. A cada hora, a banalização da tragédia aperta o cerco a nosso redor.

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A DOR DOS ARGENTINOS E DOS SERTANEJOS

Agora que o papa é hermano e os argentinos são notícia por causa das eleições presidenciais, pergunto-me qual livro melhor representaria o querido país vizinho. Minha escolha coincide com a de muita gente, inclusive a de Jorge Luis Borges, genial autor cujas obras mereceriam a honraria.

Assim, fico com o livro Martín Fierro, escrito por José Hernández na década de 1870. Faz, portanto, quase um século e meio que Martín Fierro encanta nossos hermanos. Ele aborda as lutas, golpes, perseguições, dores, amores, aventuras e desventuras do habitante das grandes pradarias dos nossos vizinhos, o gaúcho. Sim, é gauchesca a obra mais característica dos hermanos, com direito a todos os ingredientes do gênero, da honra desmedida ao machismo e à dor de cotovelo.

Trata-se de um longo poema, quase 1200 sextetos entremeados de composições mais longas, com rimas bem sonoras, bem ricas, na linguagem típica do gaúcho que era malquisto e malvisto pela aristocracia do país, mas que possuía um espírito cheio de orgulho e força, com uma filosofia marcada pela vicissitude.

José Hernández conhecia bem seu personagem, pois viveu próximo a ele desde a infância, a ponto de confundirem-se criador e criatura. Mergulhar em Martín Fierro é voltar no tempo, é pressentir as letras que fariam sucesso com o tango décadas depois.

Martín Fierro recupera um modo de vida que hoje em dia faz sucesso entre os fãs dos rodeios de Barretos, em São Paulo. Aliás, os sextetos de Martín Fierro facilmente se transformariam em música sertaneja, porém com qualidade muito superior àquela que a gente ouve. Infinitamente superior, diga-se de passagem.

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O PEIDO FATAL

 

Imagine-se à beira da piscina, num hotel em Ipanema, à beira-mar, numa tarde de muito sol. Deitado na espreguiçadeira, você acompanha as hóspedes que circulam dentro e fora d’água. A seu lado, duas delas se bronzeiam com fios dentais. Seus filhos e netos se retiraram para ver os atores famosos do filme que estão rodando nos jardins da frente. Os netos estão felizes. Afinal, é Dia das Crianças. Momentos assim removem o estresse do dia a dia, relaxam o corpo. Bem, relaxaram demais o meu.

Todos produzimos gases durante a digestão. Uns mais, outros menos. A rainha da Inglaterra – ou seu marido, não sei ao certo – parece pertencer ao primeiro time. Para tirar a dúvida, confira a cara do príncipe Harry que estava atrás do casal real, na sacada do palácio de Buckingham, após um jato odoroso. A reação principesca diz tudo. As fotos só não esclarecem se houve muito barulho.

De volta ao Rio, senti o efeito da digestão de uma portentosa feijoada. Um bólido de ar cruzou meus intestinos. A custo, segurei-o, um centímetro antes de ganhar o céu aberto. O danado logo arrebanhou companheiros, cada qual mais libertário que o outro, revoltados com a prisão. Cutucaram-me com força e com sutileza, fingindo ser pacíficos.

Após uma longa luta, rendi-me ao assédio. Liberei o mais insistente. Saiu em silêncio, febril. Em segundos, contaminou a área a meu redor e seguiu em frente, desinibido. Entendidos em guerra química recomendariam o uso imediato de máscara contra gases venenosos.

As mulheres nas laterais olharam para mim, desconfiadas. Encarei-as, devolvendo a desconfiança, recolheram-se. Um zunzunzum de desconforto e curiosidade circulou pela piscina. Encolhi-me, inocente.

Nisso, uma de minhas netas voltou. Veio correndo, com o entusiasmo dos seis anos, gritando:

– Vovô, vovô, eu vi fazer um filme!

Assim que chegou a meu lado, ela deu duas profundas fungadas, fez cara de desagrado e fuzilou:

– Hum, vovô, você peidou! Conheço este cheiro. Agora você não respeita mais nem o Dia das Crianças!

As gargalhadas me pareceram ensurdecedoras. Fui a diversão de muita gente naquela tarde. Mesmo no dia seguinte, alguém sempre me sorria, acusador: “Foi ele!”. Netos são um perigo. Que o diga a rainha da Inglaterra. Eu também.

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ONDE FICA O FIM DO MUNDO?

Fazia dois dias que eu estava em Leh, principal cidade do Ladakh, na Caxemira Oriental, perto da divisa da Índia com a China e o Paquistão. O dono de uma loja me indagou, atônito:

– O que você veio fazer no fim do mundo?

Não soube o que falar. Isso lá é pergunta que um nativo faça a um recém-chegado? De fato, Leh parece ser o fim do mundo. Com seu frio, aridez, poeira e ar rarefeito de quatro mil metros de altitude, provocava-me cansaço e desânimo. Sem falar na constante ameaça de bombardeios e no blecaute às seis da tarde. Longe de tudo, eu não tinha para onde fugir.

Lembrei-me de uma amiga da Alemanha que, num tranquilo posto de gasolina de Minas Gerais, minha terra, confidenciou: “Aqui parece o fim do mundo”. A recíproca foi verdadeira. Senti o mesmo em Wittgenstein, terra dela, num outono gelado, retido num lugarejo sem saída. A grande atividade durante dias foi colher cogumelos no bosque. Fins do mundo são, portanto, relativos. Até sob outros aspectos. Sempre ouço que estamos vivendo o fim do mundo. Nosso tempo, entretanto, se assemelha aos demais. Abriga, inclusive, falsas intuições, falsas previsões e falsas cassandras. Tudo porque, igual mesmo, o de sempre, somos nós, os seres humanos.

A viagem para Leh começara em meio a muita confusão em Nova Délhi, onde não se respeitava a fila do checkin e cada assento no avião era disputado a tapa. Nunca vi tanta gente importante junta, a quem os funcionários da companhia aérea davam a preferência de embarque, seduzidos pelo dinheiro que corria à solta em cima do balcão. As imagens de Saigon sitiada pelos vietcongues me ocorreram.

Enfrentei várias revistas na mala e no corpo, custamos a decolar. A maioria dos passageiros desceu nas cidades intermediárias, sobretudo no Punjab, de modo que poucos heróis alcançaram o fim do mundo, isto é, da linha.

Herói é a palavra correta. Conversando com o engenheiro de vôo, ele me revelou com orgulho que apenas seis pilotos em toda a Terra tinham competência para aterrissar o Boeing em Leh, tal a dificuldade do aeroporto: pista curta, encravada entre picos nevados, precipícios nas laterais e, para complicar mais, um monastério budista na cabeceira. Corrigiu-se: eram apenas cinco pilotos, pois o sexto se espatifara uma semana antes, na hora do pouso. Com um sorriso amarelo, senti-me um bravo por encarar tal loucura. Até que ponto o engenheiro estava brincando?

Voltei ao assento, esqueci a questão. A paisagem do Karakoram, uma das cadeias do Himalaia, me arrebatou. Paga a viagem até Leh – e deixa troco. Sim, vale a pena. Sobrevoamos quilômetros e quilômetros de picos nevados, agudos como se feitos ontem à noite, encostas íngremes, passos profundos, geleiras, canyons, vales, morenas. O paliteiro, de tão alto, quase espetava a fuselagem. Naquela vastidão branca, nunca se acharia um avião, mesmo um Jumbo, que tivesse a insensatez de cair. A beleza rude, até agressiva, pela insignificância que reduziu a mim e à máquina que me transportava, misturou fascínio e temor. Depois de me acostumar com a grandiosidade, percebi a graça do conjunto: o Karakoram é uma bandeja de suspiros saindo do forno. Suspiros de pedra e gelo.

De repente, um ponto ainda mais proeminente. É o K2, avisou o piloto, o segundo pico mais alto do planeta e o mais difícil de escalar. Com arrepios adicionais, dei-me conta de que estava longe de casa, perto de fato do fim do mundo. Relaxei. Encarei a vastidão com outros olhos. O fim do mundo é lindo.

 

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DRUMMOND 113 MEMÓRIAS

 

 

No meio do caminho tinha uma pedra

Tinha uma pedra no meio do caminho.

 

Assim Carlos Drummond de Andrade inicia seu famoso poema, escandaloso para a época da publicação, tanto que o poeta se divertiu ao compilar e publicar 194 páginas de descomposturas indignadas contra os dez versos de No Meio do Caminho.

Drummond é uma quase unanimidade nacional como nosso poeta maior. Autor de obras como Rosa do Povo, Claro Enigma, Sentimento do Mundo e Boitempo, além da prosa em Contos de Aprendiz e Fala, Amendoeira, o mineiro de Itabira capturou o mundo, vasto mundo em palavras e versos, com e sem rima, que, décadas afora, não envelhecem e continuam falando como dois olhos que acordam os homens.

Para quem deseja degustar Drummond, há uma Antologia Poética, por ele organizada, que oferece uma boa introdução a seu trabalho. Ele tinha apenas duas mãos e o sentimento do mundo. Ajudado pelas lembranças de Minas Gerais, casas entre bananeiras, pomar amor cantar, a fotografia na parede, enquanto deixava culpas no caminho e a luta vã com palavras, reuniu as ferramentas para consagrá-lo. Há muita memória em sua obra.

Hoje me lembrei de Drummond. Amanhã ele faria 113 anos. Pois de tudo fica um pouco. De Drummond, fica muito. Fica toda a poesia que nos encanta. Fica tanta memória. Mesmo que ele não gostasse dela.

 

Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.

Ficou um pouco de tudo
no pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,
retrato.

(…) E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.

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A ILHA DR JEKYLL E MR HYDE

 

 

Se há um lugar no mundo em que a sobrevivência se comemora a cada dia, esse lugar se chama Bali. Quem escapa de um terremoto, pode sucumbir, horas mais tarde, a uma erupção vulcânica. Ou, de madrugada, a tufões devastadores. Ou, sol a pino, a um tsunami com quinze metros de altura, monstruoso mesmo para os mais ousados surfistas que todos os dias chegam a Denpasar em busca de algumas das maiores ondas do mundo. Pelo número de tremores de terra que, sem descanso, sacodem a ilha, a maioria detectável apenas pelos sismógrafos, os vagalhões de Bali devem resultar de maremotos em cascata. Às vezes, parece que estes, de tão numerosos, provocam o constante surf azul-cobalto com crista branca, perfeito para a prática esportiva. Perfeito também para encantar os olhos.

O perigo faz o balinês feliz. Ciente da brevidade dos momentos de paz, ele os aproveita com sorriso aberto e alegria incontida, expressos em cantorias e cerimônias que varam as noites. Sem ostentação e sem miséria, entrega-se à natureza ao mesmo tempo generosa e hostil. Planta o arroz nas colinas com o tom verde das folhas de ipê em setembro. Para aumentar as colheitas, desenvolveu um complexo sistema de irrigação por gravidade. Não passa sede: as chuvas renovam constantemente os mananciais. Venera as árvores waringin e respeita os tigres que ainda resistem nas florestas. A natureza é o sangue de Bali.

O sol tropical convida o visitante ao mar. As praias, quando escapam das cinzas ou rochas negras dos vulcões que mataram milhares, possuem a brancura do giz. Ao mergulhar em suas águas, por exemplo, em Dagang, perto de Nusa Dua, a fauna subaquática lembra as visões do paraíso comuns às tradições religiosas: a beleza inebria os sentidos e sugere o deleite eterno. O colorido dos peixes, do vermelho-sangue ao índigo, cambiantes de acordo com o ângulo da luz, harmoniza-se com os corais de quiméricas formas e matizes. Moreias azuladas entocam-se em esqueletos de calcáreo, ao lado de ermitões em carapaças alugadas. Caravelas passeiam sobre anêmonas, enquanto polvos pintados de sépia perseguem caranguejos carmesins. Como consegue a natureza inventar tanta diversidade?

Em Bali se confirma que experimentar é, de fato, o grande hobby da vida, experimentar sem objetivo, a esmo. O acaso, principal maestro da evolução, dono de curiosidade infantil, fomenta novas espécies e lança-as à própria sorte no meio ambiente. Por mais desvairados que sejamos ao imaginar um ser ou um comportamento, a natureza com certeza já terá testado algo semelhante. Sobreviver é o grande prêmio em jogo. Daí, em escala maior, o regozijo do balinês. Aos trancos, ele segue em frente. Sabe que mora numa terra em que o doutor Jekyll e o senhor Hyde (o médico e o monstro) se alternam para visitá-lo – e a alegria, talvez a última, deve ser curtida até o limite.

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A CIÊNCIA DA INSIGNIFICÂNCIA

Até o século 20, o ser humano era a figura central do Universo, orgulhoso por ignorância, arrogante por herança mítica, grande por pequenez. Julgávamo-nos razão bastante para a existência de tudo que nos cerca, críamos mesmo que podíamos usar e abusar do planeta, talhado sob medida divina para nossas necessidades, fonte eterna de água, comida e materiais. A lenda sucumbiu à realidade. De queda em queda ao longo das últimas décadas, assumimos condição periférica, desprovidos de privilégios, sem pai nem mãe, sujeitos a limitações cada vez mais iminentes. Ante a imensidão desvelada, viramos nada.

Quem nos pulverizou de tal maneira? Os principais responsáveis foram os físicos. Eles forjaram nossa nulidade. Moldaram nosso pensamento, destruíram a objetividade absoluta com a introdução do observador, assombraram-nos com novas interpretações da realidade, trouxeram medo com a fissão e a fusão atômicas. Mais que quaisquer outros profissionais, ampliaram as fronteiras do que conhecemos ou julgamos conhecer. Mergulharam no infinitamente pequeno, diluíram a matéria em flutuações adimensionais, inquiriram o infinitamente grande, construíram uma ponte quântica entre os extremos, descobriram a expansão do Universo, postularam começo e fim para os átomos, descreveram dezenas de fenômenos e partículas que teriam ocorrido durante o primeiro nanossegundo cosmológico, sucumbiram ante a matéria e a energia escura que tudo envolvem e ainda não se revelam. O Big Bang, hipótese de trabalho com várias lacunas, frequenta nossa mesa tanto quanto um espaguete ao molho de tomate.

Os físicos também nos legaram a palavra do século: relatividade. Embora herdada do pai dos cientistas modernos, Galileu Galilei, a relatividade nos arrebatou após o trabalho de Einstein. Não conheço outra com tamanha influência, nem em Darwin, autor da teoria da evolução, nem em Freud, grande divulgador de neologismos. Da antropologia à arte, da política à filosofia, mesmo no humor, tudo ficou relativo. Einstein, passado um século desde a Relatividade Geral, ainda nos arranca admiração e espanto. Graças à singeleza de suas equações, a física perdeu o hermetismo e ocupou o espaço das ideias. Ganhamos novo paradigma.

Diante de tamanha abertura para o Cosmo, o grande e o pequeno Cosmo, ganhamos alguma sabedoria, mas perdemos o orgulho de senhores do Universo. Embora continuemos os mesmos, com nossas carências de ar, água, comida, amor e curiosidade, paradoxalmente nossa mente cresceu enquanto perdíamos o status de senhores da criação. Hoje nos encantamos com nossa insignificância diante de um Universo que ultrapassa a imaginação. O importante é que o encantamento persiste.

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A PIPI, O PARAÍSO E OS BILIONÁRIOS DA FORBES

 

 

Fundei a PIPI – Primeira Igreja da Prosperidade Infinita – inspirado por um pedreiro que criou sua própria igreja, “porque igreja está dando muito mais dinheiro que pedreiro”. Nunca vi tanta sinceridade e pragmatismo num futuro pastor. Assumiu o objetivo numa boa, sem esconder nada. Também fiquei com inveja de quatro pastores brasileiros que a Forbes listou entre os 1200 bilionários (em dólares!) do mundo. A revista também foi pragmática. No ramo de negócio, escreveu, sem despistar: religião.

Na minha PIPI, seguindo a lógica do mercado, a retribuição não tem limite. Quem doa mais, aqui e agora, leva mais do lado de lá, depois. Por exemplo, quem entrega apenas o dízimo ganha férias em Cancún ou Paris, depois de morto evidentemente. Quem oferece o trízimo (agora há seitas que exigem 13% do salário do fiel) curte um mês nos resorts do nordeste brasileiro, que continuam mais caros que viagens ao exterior, apesar do dólar nas alturas. Ao maior doador (exijo dele alguns milhões em minha conta) está reservada, no paraíso, uma tarde inteira na cadeira do Grande Chefe, a contemplar de cima toda a grandeza do infinito. Alguém promete mais do que a PIPI? Ninguém!

O outro mundo tem uma grande vantagem para as igrejas, como a PIPI: não possui Procon. Sem fiscalização, ninguém jamais reclamou ou reclamará se o produto comprado aqui foi entregue lá, a contento. Muita gente de cá já descobriu essa falha de comunicação básica e perene, e partiu para o vale-tudo. Oferece absurdos. Não vou perder essa guerra. Assim, nada se compara às vantagens da minha PIPI. Ela promete até sexo farto, seguro e gratuito entre os eleitos. Há bilhões de almas disponíveis para todos, oriundas de todos os séculos, nenhuma com Aids e atribulações afins, problemas exclusivamente terrenos. Diversão segura para todos.

Os banquetes da PIPI no além serão literalmente paradisíacos. Haverá 666 pratos (belo número, hein?) no almoço e no jantar, preparados no fogo eterno do andar inferior por todos aqueles que rejeitarem ou criticarem a PIPI.

Se você quiser aderir à PIPI, não perca tempo. Traga sua declaração de renda para eu medir seu potencial de doação. Viro o Leão com sonegação. Faça os depósitos em qualquer banco. Também aceito cartão de crédito. Divido em até cinco vezes. Juros módicos.

Como a esperança é a última que morre, morro de esperança de conseguir minha prosperidade infinita. Aqui na Terra, é óbvio, junto com a turma da Forbes. Às suas custas, caro seguidor da PIPI. Agradeço de antemão. Você é um anjo.

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GUERRA DE TRAVESSEIROS

 

O grande segredo do escritor é manter o espírito jovem, curioso, destemido, que avança sobre o tempo como se ele durasse para sempre januvia 50 mg. Alguns resumem este segredo na fórmula Peter Pan: nunca cresça. Há limites. Estou muito contente com minha vida adulta, não quero regredir de maneira alguma. Detestaria usar fralda, chupar bico ou pedir autorização para sair de casa. No entanto…

No entanto, no mundo adulto há espaço para brincadeiras que a maior parte dos crescidos despreza. Sobretudo brincadeira com quem ainda não cresceu e, com todo o direito, vive a infância em toda a sua graça. É o caso de meus netos. Eles adoram uma luta de travesseiros. Eu também.

De vez em quando, eles se juntam e, não sei por quê, sempre me elegem a vítima do grupo. Caem sobre mim com a força dos braços, sem se pouparem, a ponto de, vez ou outra, voar penas ou flocos para os lados. E, ocasionalmente, um deles, atingido por um golpe certeiro.

Dia desses, num hotel, meus quatro netos mais velhos combinaram comigo uma guerra, enquanto os pais jantassem fora. Combinação em segredo, pois pais, se puderem, colocam empecilho em tudo. Sou pai, conheço o mecanismo. Como também sou avô, dou-me o direito de desligar o mecanismo, em nome da farra. Mais vale uma pequena lembrança que uma grande repressão.

Lutamos os cinco com tanto vigor que, lá pelas tantas, o apartamento do hotel virou algazarra. Depois que pegaram fogo, não adiantou avisar às crianças que excedíamos em barulho e pulos no chão. Alertei-os sobre o incômodo para os vizinhos. Que nada, a briga estava boa demais para arrefecer o ânimo. Nem um abajur lançado ao chão por má pontaria os fez mudar de ideia.

De repente, o telefone tocou. A recepcionista, muito delicada, informou que os hóspedes de cima, de baixo, da frente e dos lados pediam para encerrarmos a bagunça. Morri de vergonha, mas estava feito. Cedi a vitória por nocaute aos netos, e os coloquei para dormir.

Ao ver os quatro juntos, lado a lado numa cama de casal, em sono solto, leve sorriso nos lábios, senti uma enorme alegria: a lembrança da luta duraria muito mais entre eles que em mim. Eles me concederiam a eternidade, sua doce eternidade da infância, preservada pela memória. Como se o tempo durasse para sempre. E todas as guerras terminassem em tamanha paz.

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O HOMEM QUE SE TRANSFORMOU NA HUMANIDADE

Michel de Montaigne (1533-1592) foi um filósofo com pegada de cronista – ou um cronista com espírito filosófico. Transformou-se na própria matéria de pesquisa, isto é, a partir dele mesmo generalizou a busca pelo substrato humano de todos nós. Inquirindo-se, ele nos revelou. Leitor de Platão, Aristóteles, Sêneca, Lucrécio, Cícero e Plutarco, entediou-se com a balbúrdia, as brigas e os protocolos que o cercavam. Depois da morte de seu grande amigo Étienne de la Boétie, foi atingido por uma longa crise de melancolia. Refugiou-se na torre de seu castelo para repensar a própria vida e o mundo.

No silêncio e isolamento de um quarto despojado, combateu anacrônicos paradigmas medievais, como o teocentrismo, apesar do risco que tais escritos traziam a seu pescoço. Na época, questionar a religião mandava muita gente para a forca ou a fogueira. Debruçado sobre si mesmo, Montaigne buscou um sentido para a existência quando a razão parecia ter sido trucidada pelo tumulto e pelas guerras entre católicos e protestantes. Perscrutou a amizade, a glória, a solidão, os prazeres, a volúpia, o medo, a companhia dos homens, das mulheres e dos livros, a vaidade, o domínio da vontade, a arte de conversar, a força da imaginação, o casamento. Escreveu detalhadamente sobre tudo isso. Também explorou os limites do conhecimento e o significado da filosofia e da morte. Assim nasceu a magnífica obra Ensaios, dividida em três Livros.

Arguto e astuto, ao falar das próprias dúvidas e incoerências, com frequência assumiu como suas muitas certezas e conclusões alheias com o objetivo de criticá-las, expondo suas falhas e inconsistências. Os elogios costumam conter demolidoras contestações, como no caso do mais longo dos ensaios, Apologia de Raymond Sebond, no qual, enquanto aparenta defender as ideias do sacerdote catalão Sebond, ele as refuta.

Ao levar o raciocínio às últimas consequências na indagação do que somos, chegou a conclusões que soam modernas, como a noção de que as pessoas e o mundo partilham idêntica unidade metafísica: tudo está intimamente ligado, é interdependente. Homens e animais possuem a mesma natureza básica, portanto não somos privilegiados generic for januvia. Como, então, dentro de nossa miopia e pequenez, conhecer a totalidade? O ser humano, medida dele mesmo, não se esconde da própria limitação e jamais escapa da vida, esse curto período durante o qual a consciência se manifesta. Assim, ele é continente e conteúdo da proposta filosófica, qual o quadro de M. C. Escher no qual o observador se reflete numa bola que engloba o universo. Nada existe, portanto, fora de nós. Nem Deus, que só vale porque foi feito a nosso modo.

O ceticismo de Montaigne prossegue. Incongruentes, antagônicos, confusos, todos nos mostramos estranhos, multiformes, incapazes de formular propostas definitivas: “a qualidade mais universal é a diversidade”. Não chegamos a valores intrínsecos, apenas emitimos opiniões, voláteis como as nuvens. A moralidade varia de acordo com o lugar e o tempo. As religiões são valores geralmente herdados, resultantes de tradições locais. Dizer que alguém é cristão ou muçulmano equivaleria a afirmar que uma pessoa é perigordina ou alemã. Nossas leis não são justas. Sua autoridade provém do fato de serem leis, pois não passam de “um autêntico testemunho da imbecilidade humana, tal o número de contradições e erros que carregam”. Se o filósofo as respeitava, era porque achava que devia, como bom cidadão, nunca em decorrência da razão e da consciência.

Como sustentava Montaigne esse edifício de pilares desencontrados? Da mesma maneira que nossa espécie manobra as múltiplas abordagens sobre a existência, oriundas de todos os quadrantes e hoje divulgadas ad nauseam pela mídia e pelos livros, conceitos de alcance restrito, cada vez mais restritos, a começar pelas limitações da ciência e da religião. O autor de Ensaios explora nossa incapacidade de gerar absolutos, válidos em qualquer tempo e espaço. Permanece, portanto, atual. Sabe lidar com a diversidade.

Suas divagações demonstram intuição, engenhosidade e, sobretudo, boa dose de humor e ironia, como ao falar do amor, do sexo ou das “ventosidades que o rabo produz”. O estilo mantém o texto fluente e saboroso, apesar de escrito na época da fundação da cidade de São Paulo. Ele afirma, com sua típica verve: “Tenho uma maneira de pensar que me isola dos outros, e, por outro lado, sou de uma ignorância pueril acerca do que todo mundo sabe. Esses defeitos me valeram uma reputação de bobo, que se assenta em cinco ou seis fatos reais”. Em outro trecho, alfineta os contemporâneos: “Aristarco dizia que só se haviam encontrado outrora sete sábios no mundo inteiro, e que em sua época fora difícil descobrir sete ignorantes; não teríamos mais razão do que ele para dizê-lo de nosso século?” A espécie humana tampouco escapa da jocosidade: “O homem é bem insensato; não saberia forjar um simples inseto e forja deuses às dúzias”.

Erra, no entanto, ao analisar o Brasil: “Dizem que no Brasil as pessoas só morrem de velhice, o que se atribui à pureza e à calma do ar que respiram, e que, a meu ver, provém antes da serenidade e da tranquilidade de suas almas isentas de paixões, de desgostos, de preocupações que excitam e contrariam. Ignorantes, iletrados, sem lei nem rei, nem religião alguma, sua vida desenvolve-se numa admirável simplicidade”. Soubesse ele do ar podre que, quatrocentos e trinta e cinco anos depois da primeira edição do Ensaios (1580), respiramos hoje no Brasil, de nossos desgostos e paixões, de nossas leis, governantes e religiões… No entanto, também acerta, já que as conclusões mudam com o tempo, tão cambiantes quanto as ideias. O que é verdade agora, não o será amanhã, assim como hoje não aceitamos um suposto jus primae noctis que os suseranos teriam imposto a seus vassalos na Idade Média, reservando-se o direito de dormir a primeira noite com as noivas nascidas em suas terras. Da mesma maneira, também rejeitamos as bulas papais dos séculos 15 e 16 que autorizaram ou confirmaram aos cristãos o direito de escravizar os pagãos, justificaram o comércio de africanos e a chacina de índios nas Américas. A este respeito, diz Montaigne no Livro III: “Quantas cidades arrasadas, quantos povos exterminados! Milhões de indivíduos trucidados (…) Nunca a ambição incitou a tal ponto os homens a tão horríveis e revoltantes ações!”

Michel de Montaigne, ao descrever a volatilidade humana, acaba por se contradizer, pois desemboca num absoluto: somos feitos da mesma matéria de inconstância e contradição. Há, portanto, algo de permanente em todos nós desde que o mundo é mundo. Enquanto nossas incongruências existirem, Ensaios permanecerá valiosa ferramenta na vã tentativa de nos entendermos.

 

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A FICÇÃO MOLDA A REALIDADE?

Não custa repetir: a leitura muda o cérebro, tanto no funcionamento quanto na estrutura física. É o que dizem os neurocientistas. Quando lemos muito, sobretudo obras de ficção (romance, novela, conto, poesia), percebemos melhor o mundo a nosso redor, melhor nos adaptamos aos desafios, melhor nos saímos com o sexo. Até no sexo, quem diria. É fato: bons leitores e boas leitoras arrumam parceir(a)os com maior facilidade. Tem mais: o cérebro dos que leem muito também custa mais para envelhecer.
Sim, a leitura de romances, contos e novelas é um tipo de seguro de vida, quase uma garantia de que provavelmente chegaremos à velhice com boa saúde mental. Dois estudos recentes feitos nos Estados Unidos comprovaram, uma vez mais, esses benefícios.
O primeiro estudo, executado na Universidade Tufts, em Boston, demonstrou que a leitura desenvolve melhores circuitos cerebrais, isto é, constrói um tipo de via expressa no cérebro por onde os impulsos elétricos circulam com maior velocidade que nas pessoas que não leem. Em outras palavras, quem lê raciocina mais rápido.
A outra pesquisa, feita na Universidade de Stanford, na Califórnia, constatou que, nos leitores assíduos, os neurônios, sobretudo os do hemisfério esquerdo do cérebro, custam muito mais para envelhecer. Esse benefício não acontece com pessoas analfabetas ou pouco chegadas aos livros, diz o resultado final. Uma pena.
Resumindo a questão: além de raciocinar mais rápido, quem lê raciocina por muito mais tempo e com melhor qualidade. Como costumo dizer, leitura é uma questão de saúde pública. Só falta descobrirmos o óbvio.

 

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A ARTE DE CARREGAR UMA MORIBUNDA NUM CARRINHO DE MÃO

 

Através da literatura, a gente conhece muitos países, visita seus sertões, encontra sua gente, recorda o passado com suas histórias boas e cruéis. Conhece sem sair do lugar, no conforto de uma poltrona, a mente presa e liberta pelas páginas que lê. Quer conhecer a África do Sul gastando quase nada? Isso é possível através da arte de JM Coetzee, o mais famoso escritor sul-africano da atualidade. Até o Prêmio Nobel ele já ganhou.

“Vida e Época de Michael K” é o romance de Coetzee que traz um homem envolvido numa guerra que não compreende, perseguido por agentes de um regime totalitário, assediado por pessoas que desejam controlá-lo. Sem saber, Michael busca a liberdade, nasceu para ela e quase a perde nas armadilhas que a sociedade lhe prepara: o cárcere, o trabalho forçado, a sedução, o amor filial, o compromisso, a obrigação de ir até o fim. Ele vive uma situação insólita: carrega a mãe doente num carrinho de mão África do Sul afora, em busca do lugar onde ela teria nascido e agora deseja morrer. Faz esse último pedido a Michael, que o atende. Depois do desenlace, ele, abobalhado, deformado de nascença, inculto, não faz perguntas, não questiona, apenas cumpre a promessa, embora não saiba ao certo se o lugar ao qual leva as cinzas maternas é, de fato, o torrão natal dela.

Apesar de todo o cerceamento, Michael é um homem livre: acompanha na escuridão a semente que germina, esgueira-se entre as pessoas como sombra, contempla o mar e o céu, nada espera do mundo, nada sonha. Livre, simplesmente vive.

JM Coetzee consegue com um personagem tão simplório criar uma obra cativante, hipnótica, inesquecível. Tece a trama com as minúcias de um crochê. Para completar o fascínio, adiciona o cheiro das paisagens, a beleza das estepes e das montanhas, a amplidão dos vazios geográficos sul-africanos. Ao mesmo tempo, escreve um violento libelo contra a tirania, o totalitarismo, a guerra, a discriminação. Literatura, já disseram, é magia. Coetzee é um de seus grandes magos.

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A SEDUÇÃO DO DESERTO

 

Acabo de chegar do Norte da Argentina, região pouco frequentada pelos brasileiros. Nada frequentada, melhor dizendo. Talvez porque seja a parte mais pobre do país. “Nosso Terceiro Mundo”, definiu um hermano, orgulhoso de ter nascido bem longe, em Buenos Aires. Nós, brasileiros, raciocinamos da mesma maneira. Possuímos verdadeiro horror pelo que não possua algum glamour e reconhecimento internacional. Preferimos o falso requinte de uma Disneylândia a uma cultura original que não se apegou ao fake e ao marketing. “Quando viajo, não quero ver pobreza”, me confessa um amigo. “Pobreza basta a daqui”. A gente perde muita beleza com essa mentalidade.

Para chegar ao Norte da Argentina, saí de Córdoba rumo a Salta, quase mil quilômetros de boas estradas numa só reta, com passagem pelos Vales Calchaquies, região de bons vinhos e estranhas formações rochosas. Depois, segui em direção à Bolívia, país que exerce forte influência na região, não apenas pela cultura, como pela etnia indígena aimará, dominante nos Andes, a cordilheira que atravessa a parte ocidental da América do Sul. Mais de 8000 km de extensão. Os picos mais altos das Américas.

Ao chegar à Quebrada de Humahuaca, na província de Jujuy, o deserto tomou conta da paisagem. Secura, calor, cáctus, areia, poeira. Montanhas nuas multicoloridas. Uma delas, o Hornocal, dizem ter mais de 20 estratos empilhados, cada um de uma cor. Contei seis, que se repetem em ondulações, produzindo uma das mais belas paisagens que se possa imaginar: quilômetros de encostas, a 4300 metros de altitude, onde o vermelho, o rosa, o verde, o branco, o cinza e o amarelo aparecem lado a lado, em faixas horizontais que os movimentos da Terra puseram quase na vertical. São como ondas congeladas de um passado violento, mais tarde polido pelo gelo e pela água. Ali perto, em Purmamarca, o espetáculo se repete, ainda mais vermelho, num cânion que leva justamente o nome de Colorado. Em Tilcara, as geleiras extintas deixaram seu rastro de montanhas de pedra e areia onde o tempo esculpiu castelos, covas e pináculos que lembram o chapéu de uma bruxa. Aí também os índios pucará construíram uma cidade de pedra. Abandonada há séculos, as ruínas foram restauradas e dão uma boa ideia da difícil sobrevivência no deserto. No entanto, se isso serve de consolo, o pôr do sol em toda a Quebrada de Humahuaca vale a viagem. Vale a viagem e deixa troco de saudade. O colorido dos morros, picos e formações rochosas assume tonalidades que lembram o planeta Marte. Bem aqui na Terra.

O Norte da Argentina pode não ser conhecido dos brasileiros, pode não ter fama, pode não ter glamour internacional, mas possui a Terra em seu estado puro, em sua geologia exposta, em suas entranhas revoltas, em suas imensas possibilidades de beleza. Tem ainda a cultura ancestral aimará e pucará. A ONU reconheceu esses valores. Transformou recentemente a Quebrada de Humahuaca em Patrimônio Natural e Cultural da Humanidade. Com muito merecimento, diga-se. Para comprovar, basta ir lá, ver e se encantar. E trazer na memória, bem vivos, exemplos de como nosso planeta tem sido genioso ao longo das eras.

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CONSUMISMO NÃO É MEIO DE VIDA

 

Vivemos a euforia do consumismo. “Consome ou morrerás” – é o primeiro mandamento da atualidade. Apesar da exaltação e dos bajuladores, prever o fim do consumismo não exige muita elucubração. Tomemos, por exemplo, o item mais básico, a comida. Nos Estados Unidos, por mais que os médicos alertem contra a ingestão de refeições exageradas, muitos devoram em torno quatro mil calorias por dia. Se adotarmos essa receita no mundo inteiro, sem considerar quão balofos ficaremos, isto é, se multiplicarmos essa overdose alimentar pela população global, vai faltar hambúrguer com batata frita para muita gente. E como.

Eis a primeira constatação: não existe vaca nem horta para uma radical democracia alimentar, mantidos os atuais volumes dos pratos dos ricos. Severos regimes de emagrecimento deverão ser aceitos pelos gorduchos setentrionais para que sobre um pouquinho mais para os esquálidos meridionais, contingente que excede um bilhão de pessoas, ora concentrados sobretudo na África.

Surge aqui um paradoxo: dobrar a produção mundial de alimentos exigiria investimento muito inferior ao injetado em bancos e empresas na crise de 2008 ou apenas um quinto do orçamento militar mundial em 2015, mas a comunidade internacional jamais se uniria em torno de tal meta. Afastar a fome não é prioridade. Portanto, a perder de vista, balofos e esquálidos reclamarão de sua incômoda condição.

Outra constatação: se o gasto de madeira ou de combustível fóssil nos países mais desenvolvidos for universalizado, coitada da Floresta Amazônica ou do petróleo. Pouco nos importamos com o desmatamento, quando escolhemos nossos móveis ou construímos nossas casas. Todos queremos encher o tanque, sem nos interessarmos pelo que resta de petróleo ou pelo tanto que polui. Outra questão, ainda mais importante, é a da água. A atual crise que o diga. Agimos qual o humorista no restaurante onde a garçonete informa que as tartarugas marinhas estão em extinção. “Tartaruga em extinção?”, espanta-se ele. “Pois então me traga duas ao ponto, bem depressa”.

A Terra ficou pequena para sustentar o consumismo. Poupar não é pecado, por mais que se marqueteie o contrário. O desperdício, sim, prejudica. Pelo bem ou pelo mal, seremos a última geração perdulária. Pelo bem ou pelo mal, opções serão feitas no futuro. Afinal, consumismo não é meio de vida.

 

Observação: esta crônica foi publicada originalmente em 1998.

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NATURE X NURTURE

 

 

Até que ponto o ser humano é dominado pelos genes ou pela cultura? Não consigo me livrar da questão, bem sintetizada, na língua inglesa, através da expressão nature x nurture. O assunto, campo minado, já foi debatido centenas de vezes em todas as mídias, contendores levantaram paixões e provas, princípios de toda a ordem foram brandidos, contra e a favor de cada corrente, ouviram-se ameaças semelhantes às que cercaram o sequenciamento de nosso genoma, por medo alguns varreram o imbróglio para debaixo do tapete. A dúvida permanece.

Minha aposta tem sido algo como sessenta por cento genética e quarenta por cento cultura. No entanto, descobertas da biologia parecem desmentir-me. Segundo alguns pesquisadores, cada vez mais ruidosos, na prática somos cem por cento resultado daquelas minúsculas cadeias de moléculas, com quilômetros de extensão, que se espremem dentro dos cromossomos.

Cadeia é uma boa palavra. Estaríamos presos aos genes. Não apenas a cor dos olhos, os cinco dedos do pé, o instinto de sobrevivência e o de reprodução, o diabetes, o câncer, a obesidade, o ataque cardíaco, mas também o egoísmo, a violência, a inteligência, a lei do mais forte, a preferência por certas comidas, o insucesso no amor resultariam de programação ancestral da qual ninguém escapa. Até a religiosidade. Há vários anos, neuropesquisadores sugeriram que Deus era fruto do lobo temporal do cérebro, ou melhor, a fé proviria da excitação de estruturas no interior da cabeça. Se devidamente estimuladas, essas regiões transformariam céticos em profetas apocalípticos que recebem mensagens diretamente do céu e mandam-nos arrepender dos pecados, pois o fim está próximo. Segundo os neuropsicólogos, muitos religiosos, oráculos, visionários e psicógrafos ao longo da história teriam sido doentes mentais sem diagnóstico. Inventou-se até uma especialidade para lidar com as consequências dessa descoberta: neuroteólogo. Teria a genética feito a luz?

Cultura ou genética? Ambas. Não sobreviveremos sem a identidade humana construída desde as cavernas, tampouco sem instinto, sem razão, sem inteligência, sem as mãos, sem sentimento, sem emoção, sem arte, sem respeito mútuo. Se hoje passamos de sete bilhões e não corremos o risco de extinção, nosso sucesso também se deve à cultura. Para melhor, ela se entranhou no dia a dia, tornou-se parte de nosso comportamento. Virou crucial fator evolutivo, meio lamarckista, é verdade, pois só com a prática continuada cria raízes profundas.

Otimista, antevejo a hora em que ela substituirá alguns imperativos genéticos, com frequência cruéis, antes caros à nossa sobrevivência Look At This. Romântico, acredito no futuro em que, libertos de velhas superstições, nossos sonhos de liberdade, fraternidade e igualdade se concretizarão. Realista, espero contarmos, para sempre, com a sagacidade do genoma.  Quanto tempo levará a fusão naturenurture? Trinta mil anos, prazo que demoramos para desenvolver nossa humanidade, é uma boa aposta. Quem viver verá.

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PAIXÃO, OUTRO MODO DE USAR

 

 

A paixão conduz a vida. Literalmente. Ela leva à procriação, que nos perpetua no mundo. Mas existem outros tipos de paixão, às vezes tão avassaladores quanto uma noite no motel. Conheci pessoas que amavam os livros mais que os parceiros de cama – e nunca se arrependeram. Livros, para elas e para eles, são pura libido. Imagino suas cantadas em Dom Casmurro: “Passas a noite comigo, tesouro?”. Dom Casmurro nunca teve a escolha de dizer não, a homem ou mulher.

Entre estes libidinosos, estão três ex-professores de literatura. O mais velho, em discurso inflamado, incensava o vocábulo “que”, que se presta a tanto uso e carrega versatilidade única, capaz de, entre outras coisas, unir ideias díspares e, com toque de vara de condão, ordenar o discurso. O segundo, detrator do “que”, esmerava-se para mostrar a lógica interna do português, espalhada nas regras e nas sutilezas da língua, onde arte e ciência se mesclam. Língua remete ao amor: seduz e deixa-se seduzir. Além disso, captura o tempo, digere-o, incorpora-o e evolui com ele. Como não incluí-la entre as paixões? O mais jovem dos mestres me apresentou a Shakespeare, destrinçou seus meandros, deixou-me a impressão de que jamais deveria escrever diante da beleza sufocante do texto do Velho Bardo. Custei a me livrar da angústia da influência, com direito a frequentes recaídas.

Os três professores contagiaram-me, garoto que lia e rabiscava histórias. Domar palavras, desde cedo, transformou-se em ofício, paixão erótica. Se o sexo, no auge da fusão, exige sobretudo o corpo, a criação, a qualquer momento, requer corpo, mente e alma. Daí sua durabilidade, daí sua resistência, renovada em cada romance, em cada criança de palavras que concebemos e trazemos ao mundo. A escrita, durante a gestação que, em geral, leva mais de nove meses, não apresenta o exagero de testosterona para o qual a natureza nos preparou durante milhões de anos, entretanto a orgia verbal pode ser transmitida, multiplicada em cada leitor e fala-nos ao cérebro e ao coração.

Os muito comedidos que me perdoem, mas paixões são fundamentais. Com sua ajuda, o ser humano evolui sobre a Terra. Elas conduzem a vida. À vida também.

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SANTO NÃO TIRA CARTEIRA DE MOTORISTA

 

Sempre que vejo um carro cheio de amuletos, fitas, frases e adesivos protetores contra acidentes, eu me lembro de seu Divino, homem de muita fé. Ele deve ter sido um dos piores motoristas que já passaram pela Terra. Nunca entendi como conseguiu a carteira. Morria de medo de estrada e de trânsito. Assustava-se com cada veículo que o ultrapassava. Fugia, apavorado, para o acostamento, houvesse ou não acostamento. Dirigia a vinte por hora, o rosto colado ao volante. Derrubava a mureta da garagem duas vezes por semana. De vez em quando, caía dentro do mata-burro à entrada de sua fazenda. Um perigo, o seu Divino. Para ele e para os outros.

Um dia resolveu, por precaução, escrever nas portas de sua velha Rural Willys uma quadrinha com rima bem rica, especialmente encomendada ao sacristão, para atrair as bênçãos celestiais:

 

“O Pai na frente,

A Mãe na guia,

Livrai-nos de acidente,

Jesus, José e Virgem Maria”.

 

Virou chacota: de tão barbeiro, precisava da proteção da Sagrada Família inteira. Nem bem começou a desfilar o carro bento, bateu num barranco, capotou e caiu dentro de um córrego. Ao ser resgatado, de bom humor, disse que estava dando água para a tropa de cem cavalos do motor.

Passado o susto, ficou ressabiado: por que os céus não o haviam protegido? Depois de muito pensar, descobriu a razão: não era lá muito devoto da Virgem Maria. Preferia outra santa, que considerava mais milagrosa. Para cortejá-la, raspou das portas o nome da Virgem e pintou ele mesmo, em garranchos, o da eleita:

 

“O Pai na frente,

A Mãe na guia,

Livrai-nos de acidente,

Jesus, José e Nossa Senhora Aparecida”.

 

De nada adiantou lhe dizer que, além de perder a rima, havia trocado seis por meia dúzia. A mudança tampouco deu certo. Seu Divino continuou trombando e batendo, dia sim, dia não. Depois de quase destruir a Rural Willys numa focinhada de frente contra um caminhão, encostou-a na garagem, para o bem geral e alívio da família. Fé é fé, mas, ao volante, quem funciona mesmo é o motorista. Afinal, santo nunca tirou carteira de habilitação.

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A BANALIDADE DO FÁCIL

 

 

Ainda louvamos, no Brasil, a cultura do fácil. Se é fácil, é bom. Se não faz pensar, é ótimo. Se apenas diverte, é genial. Se não exige neurônios, merece os altares. Se anestesia, leva ao paraíso. Acreditamos que entretenimento é cultura, banalidade é conhecimento, superficialidade é panaceia, e isso basta para o sucesso do país e das pessoas.

Detestamos as ideias, o debate, o raciocínio. São inoportunos, sugadores de massa cinzenta, ladrões do tempo que poderíamos dedicar às telenovelas ou aos games. Dizemos que ciência, política e filosofia não enchem a barriga, só a cabeça. Se alguém fala de problemática, rimos, brandimos a solucionática, mas não sabemos o que é isso. Na escola, rechaçamos os professores mais exigentes, pedantes cobradores da aprendizagem, fazemos abaixo-assinados para removê-los. Na mesma linha, criticamos os alunos mais dedicados. Destoam da vulgaridade.

Nosso gesto perpetua a desinformação, gera desinteresse pela atualidade, alheia-nos da evolução, afasta-nos da excelência. Em última análise, cortejamos o subdesenvolvimento. Graças à cultura do fácil, tornamo-nos incapazes de discutir, refutar, propor, identificar mentira e manipulação, combater a roubalheira, ter opinião própria, cobrar direitos, ser cidadãos. Resultado: assumimos, há tempos, complexo de inferioridade frente ao resto da Terra, justificado pelas nossas tão alardeadas ignorância, despreparo, incompetência e corrupção, subprodutos da cultura do fácil. Perdemos nosso amor-próprio. Morremos de nosso próprio veneno, a perpétua louvação da mediocridade.

A cultura do fácil obriga-nos a adiar problemas há muito carecendo de solução, das chacinas às reformas de leis obsoletas, das balas perdidas ao comércio de drogas, da má distribuição de renda à falta de serviços públicos razoáveis, do abuso dos impostos à corrupção em todos os níveis de governo. Vivemos hoje dois exemplos contundentes: em vez de cortar os gastos, o governo propõe aumentar impostos. Em vez de encerrar de vez a contribuição de empresas a campanhas políticas, o Congresso a mantém e cria o doador anônimo.

Um dos efeitos mais perversos dessa atitude é o pouco valor que temos dado à vida humana no Brasil. Os cadáveres da pobreza, da negligência, da violência urbana, da ausência do Estado e da impunidade chegam às nossas casas com a regularidade de A Voz do Brasil, aliás viraram a marca de um Brasil sem voz. A cultura do fácil prefere adiar o problema em vez de enfrentá-lo. A mediocridade vive de sofismas e tautologias.

O desenvolvimento de uma ideia, projeto ou nação implica a consideração de muitas variáveis e, com frequência, admite mais de uma solução. Qual a mais benéfica? Qual a mais duradoura? Qual produz menos efeitos colaterais? Corremos o risco até de errar na análise, porém precisamos encarar a complexidade. Para isso, o primeiro passo é o abandono da cultura do fácil.

Eis o difícil.

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O CÃO DE GUARDA DE DARWIN

 

Há prazeres que acontecem de surpresa, na hora certa, na medida exata. Por exemplo, um livro ganho de presente com bom tema, bom autor, boa escrita. Resultado: boa leitura. A gente se aconchega numa cadeira, abre o primeiro capítulo, avança com gosto nas páginas. Somem o tempo e o espaço, autor e leitor fundem-se em prazerosa simbiose. Foi o que ocorreu comigo durante as chuvas do fim de semana. Ganhei o livro Escritos sobre Ciência e Religião, do inglês Thomas Henry Huxley, publicado pela Editora Unesp. Saborosa leitura.

Como o título indica, são ensaios sobre as relações entre ciência, religião e cultura, abordando a importância do conhecimento, da pesquisa, da abertura às descobertas, da honestidade intelectual, bem como questões variadas sobre o natural e o sobrenatural.

São três pequenas obras-primas da clareza, da concisão, da erudição. A primeira foi apresentada em Londres quando Huxley tinha 41 anos e causou tanta celeuma que trouxe a proibição de um famoso ciclo de palestras que acontecia na cidade aos domingos.

Se você estranhou que os ingleses estejam proibindo palestras sobre ciência e religião, saiba que estou falando de outros tempos. Huxley viveu entre 1825 e 1895, mas possuía mentalidade moderna, atual, evidentemente dados uns descontos aqui e ali. Graças a ele, sua garra e inteligência, a teoria da evolução de Darwin não foi defenestrada por religiosos e defensores da imutabilidade das espécies. Salvou-se por um triz. Huxley converteu-se num cão de guarda da seleção natural.

Além disso, ele também defendia com unhas e dentes o acesso irrestrito do povo à educação e ajudou a reformar o sistema de ensino inglês. Curiosamente algumas de suas idéias, sucesso por lá há um século e meio, agora começam a ser implantadas no Brasil.

Embora tenha morrido há mais de 100 anos, Huxley ainda nos fala com o entusiasmo e a lucidez que o marcaram. É o milagre do livro, da memória, da transmissão do conhecimento. É o milagre da surpresa que nos acontece na hora certa, na medida exata durante a chuva que levou a secura embora – e renova a virtude da lucidez intelectual.

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UM PAÍS EM MUTAÇÃO – HISTÓRIAS DA CHINA

A China entrou na adolescência há três décadas, e os efeitos do crescimento acelerado, alguns perversos, se fizeram sentir em muitos setores. Por exemplo, o preço dos imóveis nas cidades e nas áreas industrializadas disparou. A especulação campeou, pequenos proprietários foram ludibriados, outros expulsos, sem indenização, das propriedades reconquistadas do Estado a duras penas, alguns simplesmente liquidados pelas máfias da construção. Apesar de ser um milhão de quilômetros quadrados maior que o Brasil, falta terra na China, país de muitas montanhas e desertos: apenas um quinto do território se presta à agricultura. A densidade populacional é sete vezes superior à nossa.

Diante de tamanha falta de espaço, proibiram-se os cemitérios. Nada de descanso eterno comendo grama pela raiz: os corpos devem ser cremados. Em compensação, como pude observar sobretudo no interior, muitas famílias guardam as cinzas dos ancestrais, em pequenos altares domésticos, durante várias gerações. A tradição provoca dor de cabeça nos defuntos: nem depois de partirem eles encontram a paz. Filhos, netos, bisnetos e tataranetos, por conta de duas ou três varinhas de incenso que acendem e esfregam entre as mãos, estão sempre a suplicar a seus mortos ajuda nos assuntos mais variados, dos apertos financeiros aos amorosos.

Creio que a maioria dessas almas, exigidas em excesso, tenha perdido a centenária paciência e abandonado os lares em que viveram. Como a comprovar, os chineses enxergam fantasmas em todos os lugares. São tantos e tão assustadores que influenciaram até a arquitetura. Para mantê-los à distância, construía-se o acesso às casas e templos em ziguezague, às vezes em ângulos retos. Segundo a lenda, fantasmas não dobram esquinas.

Os vivos também penam com o crescimento descontrolado. Para evitar a explosão demográfica, adotou-se a política de “uma família, um filho”. Os casais levaram a exigência ao pé da letra. Se nascia uma menina, sobretudo entre os camponeses, eles a abandonavam ou mesmo matavam. Nos lixões de Xangai, era comum, até duas décadas atrás, encontrarem-se recém-nascidas largadas à própria sorte. Resultado: além de terra, faltam mulheres na China. Estima-se que até sessenta milhões de homens não encontrarão companheiras. Como enfrentarão a frustração ante um dos instintos humanos mais básicos?

Há quem diga que um novo espectro ronde o comunismo, produzido por um tipo desconhecido de revolução sexual, a revolta masculina ante a falta de mulheres. Triste ironia, caso o espectro baixe de fato à terra: o regime que apregoa a igualdade naufragaria graças à desigualdade que provocou. Ponto para a profissão mais antiga do mundo. Apesar do risco de prisão, rodar a bolsinha nas ruas chinesas compensa. Existe freguês sobrando. E o preço anda nas alturas.

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VISITA AO PARAÍSO – COM DIREITO A RETORNO

 

Nestes dias de muita turbulência, cansados de tanta corrupção e incompetência, nada como um cantinho bem quieto para refrescar nossa cabeça que anda deste tamanho. Que tal o paraíso? Lá tudo é sereno. Quer dizer, quase sereno. Melhor ainda se a gente puder visitá-lo e voltar em seguida. Pois consegui a façanha através de uma obra original, gostosa e criativa, dessas que a gente não larga até o fim, enquanto ri sozinho. Trata-se de um livro de crônicas que devolve à vida escritores já falecidos e lhes arranca palpites sobre as próprias criações, sobre o mundo atual, sobre o cotidiano dos vivos. Ah, sim, os ressuscitados também fofocam. Muito.

O autor do resgate de vinte e cinco escritores que já nos deixaram é o angolano José Eduardo Agualusa, conhecido entre nós por seus romances Estação das Chuvas e O vendedor de Passados. Agualusa psicografa opiniões de Machado de Assis sobre o acordo ortográfico, Vinicius de Morais elogia a literatura de Chico Buarque, Jorge Amado diz que a morte o salvou dos patrulheiros do politicamente correto, Bertrand Russell continua ateu mesmo no paraíso, Euclides da Cunha faz mortais revelações sobre sua vida, Saint-Exupéry explica por que O Pequeno Príncipe é o livro de cabeceira das misses, o padre Antônio Vieira defende a união dos povos lusófonos, Eça de Queirós inveja a juventude do Brasil, Jorge Luis Borges garante que recuperou a visão na vida eterna, mas lá infelizmente não existem livros, João Cabral de Mello Neto não parou de tomar aspirina depois que foi para o céu, Clarice Lispector descobriu que há tanto para não ver com olhos para sempre fechados, Fernando Pessoa ainda sofre do tédio de ser Fernando Pessoa, mesmo tendo sido mais de cem pessoas.

Os depoimentos contam com muitas pitadas de humor e ironia de Agualusa, o médium que visitou o outro mundo para que soubéssemos o que lá acontece ou não acontece. Para quem se interessa pela vida no paraíso, o endereço é o livro O Lugar do Morto, lançado pela editora portuguesa Tinta da China. Pôr-se no lugar do escritor morto, como faz o talento de Agualusa, é garantia de reflexão, humor e de cultura. Um pausa para repouso nesses dias agitados que temos pela frente.

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PACTO COM CAIM

José Saramago, único ganhador do Prêmio Nobel de Literatura da língua portuguesa, faleceu em 2010. Para muitos, ele deve estar ardendo no fogo do inferno. Ateu convicto, comunista de carteirinha, criticou duramente a Igreja, chamou o papa Bento XVI de cínico, afirmou que a Bíblia é um manual de maus costumes, recebeu ameaças eclesiásticas e governamentais, quase foi banido de Portugal, autoexilou-se em Lanzarote, na Espanha. Teólogos tacharam-no de ingênuo, desonesto, mal informado, intérprete unilateral da Bíblia e, dias após sua morte, o Vaticano denominou-o populista extremista e ideólogo antirreligioso. Sugeriu-se que suas obras não deveriam ser lidas pelos verdadeiros cristãos.

Em seu derradeiro romance, Caim, o escritor voltou o olhar iconoclasta contra Deus e o condenou, depois de analisar vários episódios bíblicos em que julgou deploráveis as atitudes do criador, geradoras de exclusão, assassinato, misoginia, guerra, perseguição e intolerância. Usou Caim como porta-voz. Transformou-o em consciência crítica dos gestos divinos que não trava a língua quando se encontra com Deus. Por exemplo, afirma que matou Abel porque não podia matar o próprio criador. Este admite certa dose de culpa no episódio e, em segredo, celebra um pacto com Caim que, para pagar pela morte do irmão, errará mundo afora.

Esse vagar sem eira nem beira pelo tempo e pelo espaço bíblico constitui a estrutura da obra. Como se vê, Caim é um livro controverso a partir da concepção, quase tanto quanto O Evangelho segundo Jesus Cristo, publicado em 1991. A bem da verdade, literariamente Caim não é das melhores lavras do escritor, mas com certeza das mais explosivas, tão explosiva que uma amiga me confessou ter receio de, ao lê-la, cometer pecado mortal. Creio que muita gente sentiu e sente medo do romance. Quer ler, porém não acha coragem.

Eu não teria esse tipo de preocupação. Afinal, se somos feitos à imagem e semelhança de Deus, nossa curiosidade e questionamento foram herdadas. O que é a onisciência senão a curiosidade levada ao paroxismo? O que são os mandamentos senão questionamentos à nossa própria natureza?

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DE ONDE VÊM AS HISTÓRIAS?

 

De onde vêm as histórias?  De onde vêm os contos, as novelas, os poemas, os romances? Estão por aí, no ar, na vida, à disposição do primeiro que agarrá-las e colocá-las no papel – ou carecem de um autor para tirá-las do nada? Saem da cachola ou da cartola? Surgem do dia a dia ou da imaginação? Nascem da reflexão ou numa frase ouvida na rua?
Durante minhas palestras, as pessoas costumam me fazer estas perguntas difíceis. Francamente não sei a resposta. De vez em quando, muito de vez em quando, uma história me chega pronta, prontinha, só faltando o polimento. É como se um santo (ou a tal musa dos gregos) baixasse e me soprasse o texto, parágrafo por parágrafo. O prazer é enorme, muito esperado, mas raríssimo. O santo vai embora depressa e nunca deixa o nome para ser reconvocado. Não adianta rezar ou fazer promessa.
Na vasta maioria das vezes, tenho que penar muito para escrever uma linha. Ralar de verdade. Com frequência, chego ao fim do dia sem produzir uma palavra, submerso na terrível sensação de ter jogado o tempo pela janela, ter desperdiçado justamente o tempo, o bem mais escasso de que dispomos. Nessa hora, não choro, vou em frente. Insisto, exploro cantinhos da mente em busca de associações, reviro lembranças, faço conjeturas, leio livros que nada têm com a literatura, exploro becos sem saída, até que, de repente, abro uma trilha à qual me apego. Como me apego à mais tênue esperança. Nem sempre essa trilha me leva ao objetivo, e sou obrigado a recomeçar. O duro recomeço.
Um dia, no entanto, sinto ter achado o caminho. Parece que a cabeça necessita de uma massa crítica de exploração, divagação e dor para deflagrar o processo criativo. Assim, linha por linha, parágrafo por parágrafo, sujeita a revisões e cortes futuros, a história ganha forma, nem sempre aquela que imaginei. O fim nem sempre é filho do início. Abastarda-se ou virginiza-se no texto. Uma zorra.
Quer passar pela experiência? Tente imaginar uma história. Procure-a por aí, no ar seco deste inverno, ou a garimpe dentro de você. Lembranças da infância, quem sabe? Memórias de um amor perdido, talvez? Ponha as ideias no papel. Examine-as com senso crítico. Talvez você descubra um caminho mais fácil que o meu. Se descobrir, me conte, por favor. Bem depressa. Faz quatro anos que me desdobro para terminar um romance – e, até agora, só está começado.

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O INVENTOR DO SONETO

Quem é considerado o pai do soneto, essa forma tão popular de poema com dois quartetos e dois tercetos? Por coincidência, ele também é o pai do alpinismo, o arriscado e maravilhoso esporte de escalar montanhas. Vivia nas alturas. Também por coincidência, ele teria cunhado a expressão Idade das Trevas, até hoje usada para designar a Idade Média. Por fim, é considerado o pai do Humanismo.  Quem foi este homem com tantas facetas?

Seu nome é Francesco Petrarca, um italiano de Arezzo que ficou famoso por seu Cancioneiro, coleção de trezentos e sessenta e seis poemas dedicados a Laura de Noves, bela mulher casada por quem Petrarca se apaixonou dentro de uma igreja numa sexta-feira da Paixão. Amor nascido já crucificado.

Sem poder amar Laura, Petrarca inventou o soneto e despejou neles a paixão reprimida. Conseguiu, metaforicamente, o cume da arte em alguns sonetos, quase sempre ardentes declarações de amor. Mesmo hoje, eles sintetizam a loucura do sentimento que move e perpetua o mundo.

Reproduzo abaixo um desses sonetos, dos meus preferidos. Ah, ia me esquecendo de dizer. Petrarca viveu entre 1304 e 1374, portanto o poema a seguir tem aproximadamente setecentos anos. Sete séculos de paixão ardente. Trata-se do soneto 134, traduzido por Sergio Duarte:

 

Não tenho paz, nem como fazer guerra,

Espero e temo, gelo e ardor me faço,

Alço-me ao céu mesmo jazendo em terra,

Nada possuo e o mundo inteiro abraço.

 

Minha prisão nem se abre nem se cerra,

E quem não me faz seu não solta o laço,

Amor me poupa e em seus grilhões me encerra,

não me quer vivo e nem me ajuda o passo.

 

Vejo sem olhos, sem ter língua grito,

Suplico auxílio e quero perecer,

A mim odeio, alguém amando embora.

 

Mágoas me nutrem, rio estando aflito,

Tanto viver me dói quanto morrer:

Por vossa causa assim estou, Senhora.

 

Você já passou por essa profusão de sentimentos? Nunca é tarde para uma paixão. Se durar pouco, não importa. Que seja infinita enquanto dure.

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