A arte de caçar lobisomem

          Você procura um livro com humor
requintado, que o faça chorar de rir, contenha belas imagens e ofereça deliciosos
achados linguísticos, porém sustente a fluidez que o leve, num susto, da
primeira à última página? Você busca um personagem de carne e osso, que a gente
acredita ser real, um personagem que gerou muitos filhos em nossa literatura,
televisão e cinema? Pois então leia o romance O Coronel e o Lobisomem, de José Cândido de Carvalho, e deleite-se.
Este autor escreveu pouco, mas, caramba, com que competência. O Coronel e o Lobisomem, por si só,
ultrapassa em criatividade muitas extensas bibliografias.
          A obra aborda a vida, as aventuras e
desventuras, neste e no outro mundo, do coronel Ponciano de Azeredo Furtado,
coronel por trabalho de valentia e senhor de pasto por direito de herança, dono
de um sabiá-laranjeira que valia mais que as pratas e os ouros do maior sultão
das Arábias. Do alto de seus dois metros de altura, orgulhoso dos feitos e do
nome, ele metia medo em suas terras e nas cidades vizinhas, graças ao porte
físico e ao vozeirão. Usava e abusava dessas vantagens, era bondoso à sua
maneira, mas tinha o miolo mole. Deixava-se arrastar por um rabo de saia e
vangloriava-se das tantas virgens que deflorou ou das maldades que praticou.
Além disso, gostava de matar onça-pintada.

          Ponciano
era politicamente incorreto, tanto no comportamento, como no linguajar e no
tratamento dado às pessoas. Hoje, poucos escritores se atreveriam a pôr, na
boca e nos pensamentos de um personagem, palavras tão abusadas, para não cair
nas garras dos censores de plantão e de sua falsa moralidade. Pois o que faz o
coronel mais autêntico, mais marcante, mais carne e osso, é justamente a falta
de travas na língua, o jeito desengonçado de expor as ideias esdrúxulas, de
dividir sua experiência de vida e sua rusticidade. Ponciano encarna o poder
decadente da aristocracia rural brasileira e luta para manter as aparências.
Ele sai das páginas de O Coronel e o
Lobisomem
com a força que o lobisomem marca a imaginação de tanta gente. E
marca nossa memória com garras de onça selvagem. Ou de lobisomem, tanto faz. É
ler e gostar. 

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2 comentários sobre “A arte de caçar lobisomem

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